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Full text of "A paixão de Camilo, Ana Placido"

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4- 



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A Ir ciixcÍ0 cie tLctroiCe 



(Ana PCacido) 





/In.i Plácido, trabalho do ilustre artista fíntonio Carneiro, expressamente feito para este /i 



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f»c-slmlU extraído 

do Olarlo Intimo 

dt Aru Placlao 



2.° MILHAR 



DOCHÀ Madtins 

DA ACADEMIA DAS SCIANCIAS DE LISBOA 



À PA I XÃO 
DE CAMILO 



(ANA PLÁCIDO) 




EDIÇftO DO nOCTOR 

COMPOSTO E IMPRESSO 

NAS OFICINAS GRAFICftS DO <A B Ci 

65, RUA DO LSCRIM, 65 
LISBOA 



PQ 



FEB / i968 , 



AURAS BOMANTICAS 



O PORTO DE Uh 75 ANOS — POSITIVOS E QUIMÉRICOS — O <PHLHEIRO> — 
CONFLITOS DE DU/iS SOCIEDADES — /\S TORTURAS DOS BAILES 
•OS hviTELECTUAIS E SEUS <AN]OS> — UxVlA VISÃO DE CA- 
MILO CASTELO BRANCO— A FAMÍLIA PLÁCIDO — 
QUEM ERA MANUEL PINHEIRO ALVES 
— <BRASILEIROS» E POETAS 



O Porto, por 1849, vivia grave, pesada e comedidatncnte do trafego, da lide 
do negocio golpeada por um gume de sentimentalismo ultra romântico da 
gente apontada, detraz dos balcões, em desconfianças largas. Os mercantes 
carregavam dinheiro, os péchosos de idealismo acastelavam suas quimeras. 

Abrira- se um abismo de castas; no seu fundo bulcuavam irritadamente despei- 
tos e convulsivos ódios, 

Estava-se no rescaldo da Maria da Fonte; muitos dos ponderados comerciantes 
tinham acaudilhado, então, o José Passos em explosões furiosas contra as decimas dos 
Cabrais, mas agcra, apesar do conde de Tomar ter sido realçado ao poder, deixa 
vam aos retóricos o cuidado dos ataques no Nacional, no Periódico, no Ecco, na 
Pátria, embrulhados em virulências e tratejavam dos armazéns para a alfandega, re- 
boliçavam na praça até que, ás noites, n'um repouso bem ganho, os pés á vontade 
nos chinelos, gosavam das destemperadas polemicas sobre o governo de Lisboa. De- 
liravam conforme es suas simpatias mas acabavam encolhendo os hombros, vinda 
a reflexão, num desdém pelas <balas de papel*. Mercê da politica entravam as ga- 
setas em seus recatados lares e com âs diatribes do agrado dos pais iam as poesias 
doloridas que faziam scismar as filhas. 

Nesse tempo as mulheres portuenses só assim comunicavam com o ideal c 
Stt alguma adiantava mais a curiosidade no mapa das fantasias temerosamente es- 
condia os livros, fontes de seus devaneios, receosa dos berros paternos, das falácias 
da sua roda burguesa, do descrédito. Podiam sonhar cm suas alcovas, voejar pelas 
regiões dos amores celestiaes tocados sempre do frémito de beijos e amortecidos pelo 



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hálito de campas, mas sua viagem de espirito acabava numa derrocada ante a critica 
severa dos progenitores, calculistas, metódicos, que capitulavam de ctrastes» os va- 
tes e de <indrominas> as suas composições. 

Descreviam-nos como arpoadorcs de dotes, tipos <sem eira nem beira nem ramo 
de figueira», mãos a abanar, consumidores de copos de agua e palitos do café Gui- 
chard, as guedelhas mcrovingias onduladas artificialmente pelo De Leopoldo, da rua 
de Santo Hntonio, caurinadores do fíugusto de Moraes que lhes fiava paletots, cor- 
tes de coletes e casacas de ancas. 

Uns valdevinos! Uns bragantes! dscidia o Porto do trafico excitado por suas 
atitudes, seus chapéus altos de abas direitas, seus olhares fatais, suas capas bandadas 
de veludo e o polimento das suas botas á Frederica. 

Pertenciam a esta plêiade de tresnoitados despresadores do negocio os mais au- 
daciosos rapazes da cidade do Douro; mesmo alguns rebentos da chatina mergulha- 
vam nos bródios dos janotas, dos poetâs c folhetiiiiâías frequentadores das platéas 
onde dominavam por suas prosapias, modos, remoques e renome. Herdeiros de gran- 
des aristocracias emparceiravam cm seus ágapes nocturnos, maniiestavam-se a seu lado 
e os burgueses atavam no desacreditado molho os morgados, os fidalgos, bacharéis 
e adventícios rimadcres. Sob as casacas azuis ou verdes garrafa dos estúrdios parecia 
denotar-se um apressado e eterno arfar de corações ; debaixo aos peitilhos dos seus 
detractores dilatavam- se estômagos. Hcêrca duns dizia- se que só armazenavam vento ; 
dos- outros cataiogavam-nos por padrões como ás rezes, ftvaliavam-nos pelo peso dos 
contos de reis como, em arrobas, a carne de mercado. 

Os senhores da praça do Porto eram hom">geneos era feitios c opiniões : caute- 
losos, reservados ; em politica, cartistas ; jmas lá bera no âmago, gananciosos, amealha- 
dores até de viciados patacos, embora guardassem nos Bancos os gordos c fartos 
sacos de moedas de oiro. 

Quasi todos tinham grangcado suas abastanças no Brazil; voltavam afreiraados 
de importância e de mais lucros, queriam figurar e^muito silabosos, sotaqueando os 
dizeres, chancelavam seus contractos, fllguns expeliam-sc em eloquências fáceis, 
patuscas, experimentadas nos grémios dos caixeircs do Rio e usavam-nas nas reuniões, á 
vontade, como nas botas de elástico, pompeando na cidade onde o dinheiro era a única 
aferição social. 

Misturavam-se-lhes negociantes de educação diversa, mas logo a subordinavam 
aos dos grossos capitais. 

Na ftssemblcia Portuense ou na Sociedade Filarmónica eles mórdomisavara 
como na Misericórdia e irmandades ; trepavam era honrarias, titulavam-se ; havia os 
que abriam salões, á lei da verdadeira nobreza, e convidavam os jornalistas para os 
bailes, anciosos de serem «botados nas gasetas>, enaltecidos diariamente numa fcme 
ugolinica de evidencia e reclamo percursora da moderna exibição das crónicas mundanas. 

O barão de Alpendurada, que pertencera aos batalhões nacionais e babujava a 
conversação de necedades, apesar de se saber troçado, convocava os da imprensa c 
aparecia em toda a parte fazendo seus comentários picarescos. 



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o Sousa Basto, anos depois, visconde da Trindade, era o festeiro mór, bom 
pagador de foguetes e bombinhas; o de Massarelos, mais comedido no seu baro- 
nato, também dava leis na sociedade dos mercantes apesar de ter sido apanhado em 
dolo ao estado, em contrabando. (*) 

Os poetas que escreviam na Lyra da Mocidade, um jornalzito acanhado e mal 
impresso, transbordante de ideal e necropolismo, apareciam nas reuniões com seus 
ares sonhadores, pálidos, olheirentcs mais pelas indigestões das ceias do que por 
seus males de alma e iam fazer-se amar ou desesperar-se ciumentos dos pares per- 
mitidos aos seus Ídolos nas quadrilhas e nas mazurkas. R valsa constituía ainda uma 
incursão no «reparado>, no quasi licencioso. 

Dançavam-na os ingleses no seu fechado club da Feitoria onde se ofereciam 
festas esplendorosas ás quaes se respondia na Assembleia com numerosa assistência 
mas sem alegria estonteante. Pelos bailes burgueses reinava o constrangimento, mesmo 
quando se aglomeravam trezentas pessoas. Na Filarmónica havia uma compostura 
de boa companhia; mal se falava pelo receio de parecer mal ou fraco entendedor dos 
trechos musicais. Disputavam a gloria, sob aqueles tectos, a condessa do Casal, D. 
Luísa, filha do general governador e D. Clementina Ribas; garganteava-se o dueto 
da Maria Padilha, a cavatina da Macbeth; soluçavam, aiantes ao som das suspirosas 
rcbecas, as fantasias sobre motivos do Roberto do Diabo. Amadores de renome 
— os bons curiosos — como então se lhes chamava — o Joaquim Mendonça, o Do- 
mingos Gonçalves, o Leoni, o Manuel Carqueja, os Freitas, os Costas, pianistas 
exíoiios, concorriam para o bom êxito dos trechos da Luccia, na scena dos túmulos, 
tanto do agrado da época, da ária dos Puritanos, do Ernani, tudo entrechos romanescos 
em que se palpitava á custa da música, pelos queridos tão mal vistos no mundo 
comercial. 

Aigamis damas cantavam e geravam frémitos, arrastavam as almas; era muito 
falado um terceto em que D. Adelaide de Almeida Mendonça e dois dos en- 



{*) Nos últimos dias da semana passada foram apreendidas 10 pipas de vinho do sr, barão 4e 
Massaralot, s 20 de ontra casa desta cidade, em consequência de denúncia qne honve. Este vinho era 
despichid) 00*00 g^ropi^a, qne pa^a 100 rs- por pipa, e assim logrsva-se o Estado em 15$000 reis, 
psio m^nos, em cada pipa. Dizem-nos que entre as 30 pipas apenas apareceram 2 de ([eropíga: eram 
aquelts d: qu; se deviam tirar amostras para a alfandega. 

Os negociantes ingleses estavam desesperados contra esta tranquibernia, e queriam mandar nma 
depatação ao sr. director da alf <niega para protestar contra o embarque deste vinbo, mas não foi pre« 
ciso, porque o sr, director mandou recolher a depósito o vinho apreendido, 

Fa ando sinceramente, não censuramos o proceder destes senhores, que quizeram privar a fazeoda 
da im>nsa diferença que há entre o direito da geropiga e o do vinho ; porque vtmos que o sistema que 
hoje reiaa é — <quem pilhou, pilhou, quem não pilhou, pilhasse !> 

Se esia gente que nos governa n.ão fora uma súcia de imbecis, o direito de exportação de £eropiga 
devia ser em vez de um tostão, 20$000 reis em pipa, porque também assim se evitaria o descrédito dos 
noisoi vinhos na Inglatirra — acreditem, se quizerem, que é i <má aplicação> da geropí^», que se deve 
a desgraça do comércio de vinhos. 

(Nadonal, 9 outubro de 1848) 



tusiastas pdos ccrccrtcs arrcbatevem. Eriravím cm córcs es iiirâs Ouftiro, D. Izíbtl 
de Oliveira, D. Guilhcimina Piírcnlcl, a Nelo c ouiras que nicis cgitevcm com suas 
vezes os corações dos epéixoradcs. (*) 

Tudo isto se fazia quási cera scvcridcdc. Só crera vivazes as ícMes dcs estran- 
geiros, as do akirão Mcscr que te ceva violino c lôra o ciccrcrc do Frircipe de 
Lichoncwischy no Porto, as dos britan'ccs, sobre tudo as do baião de Forrester, um 
opulento proprietário industrioso c c,ue deva rcuriõcs orce duzenles CtVcJhcires se 
divertiam bebendo do n-eis piccicso virho de seu tréfcgo ii^tcllgerte. 

Hs senhoras Cirnes, do Peço das Petas, guai devem a sceicdade méis sclceta; 
só fidalgas dançavam sobre es sues pcmpcsas aleatifes: es Rezende, es Verzcas, a 
a Chardonney, n-atqueses, condessas e es rices Werzeileres. 

O grupo dcs românticos, dos vates, com suas caíaeas do Mcr;óo, seíem dos 
abadessados c [do teatro de S. João para os tíiveitimentís da seoiededt^. Errevam 
pensativos e cncostavam-se mclancclicamente às hcmbreiras. O folhetinista da meda 
Evaristo Basto arrastava uma cadeia de elegantes intelectuais: o Lousada, que me- 
ditava seus romances, os irmãos Gouveia Osório, um dos quais seria arcebispo c o 
outro professor da Escola Medica, Hlexandrc Jcsé da Silva Braga Junicr com Mar- 
celino de Matos, futuros grandes advogados, Azevedo Guimarães, Tcíx^^ira de Macedo, 
Marques Rodrigues c Jaime flrtur de Oliveira Pimentel, então versejando em más 
rimas a Ela «á mulher anjo>, que enchia as imaginações de todos os do grupo como 
se os andares da cidade fossem sucirsaes do parais o, os pianos que elas tocavem 
fontes de harmonias divinas c o frufrar dos vestidos, talhados pela Rndrillac, pela 
Widerkur e por mademoiselle Elisa, antiga caixeira da Bline, equivalesse ao ruilar 
de asas seráficas de doce rumor. 

As meninas educadas pela Pcdestá, do Colégio Francês, algumas, de mais tratos 
britânicos, no de miss Casey, ao Rosdrio, viam naqueles rapazes de aspectos tristonhos 
c de más reputações os proibidos esposos e punham-se a amá-los cm segredo pre- 
ierindo-os aos comanditarios ponderados, ás boas iirmjas, e ás rezões sociees acon- 
selhadas pelos chefes de família para prosperidade dcs lares. 

Nem toda a neve dos sorvetes que se começava a usar, como supi-assumo do 
chiquismo nos bailes, arrefecia os ardores das peixões tccades de laivos íunerecs oa 
de goscs celestiaes: a lousa do cemitério, que Soares de Passos torne ria indispen- 
sável aos grandes amores ou á felicidade toda etérea do Riem, cm que se alimen- 
tassem de brisas e violetas os unidos nesses ideaes conjugios. 

Foi depois dum deites bailes que Camilo Castelo Branco, pela primeira vez, 
descreveu em prosa uma figura femenil entrevista de forma tão perturbante que a 
guardaria no coração. 

(*) Além destes maito celebrados havia no Porto mais alguns de valia e notoriedade como eram os 
apontados pelo próprio Camilo: «o Félix Borges de Medeiros, Joaquim Mendonça, Easilio Alberto, Gon» 
çalves, Mirandas, doutor Domingos Pinto de Faria, Francisco Eduardo, o pequeno Ai\tii Napole;o e sen 
pai, as sr." Ribas e Calaínhos. Cita-os como ctncoirentcs ao salão dos Rabaçaes, na <Coiia> fag; 
118, 2.aei 



Chegara de Vila Real onde escapara de ser morto, por sua oposição aos Cabraes, 
experimentara a pena nas pugnas politicas e, tendo- se instalado no Porto, em fioaes 
de 48, no hotel Francês, na rua da Fabrica, despertara curiosidade por sua iigura c 
dera logo que falar de si pela assidua c variada colaboração no Nacional, o órgão 
ousado onde o egresso Hlves Martins, futuro bispo de Vizeu, com um núcleo atre- 
vido, {*) descadeirava os governantes. No rcz do chão da hospedaria onde Camilo 
SC acolhera funcionava a gaseta c ele escusava de sair da cama para vêr as provas 
das suas zsrgunchadas ou das poesias acerbas, queixosas nas quaes ora amaldiçoava 
ora santificava as amadas. Dizia-sc um réprobo, um precito. 

Contaria vinte e quatro anos no março seguinte ; era magríssimo, alto, de olhos 
muito vivos, dentes magníficos sob o bigode negro e farto ; do rosto crivado por 
sinaes fundos da varíola, pálido, bilioso; fugira-lhe a beleza mas, sob a luz das suas 
pupilas, espalhava a simpatia, a capteção initinctiva, auxiliado por sua voz macia, 
ora terna ora irónica. 

Usiva muito compridos es cabelos pretos, a sua mão era pequena, de dtdos 
finos e o pé causava, por sua mingua, o desespero dos outros elegantes. R anemia 
devorava-o ; chupara-lhe as carnes e mais diáfano de tez, enfraquecido, envergado de 
escuro, encoleirado na gravata de três voltas, aparecia nas salas como uma sombra 
ungida pela fatalidade tanto em moda nas novelas francesas lidas pelas meninas às 
escondidas. 

Bcqueiava-se de seu sarcasmo e de sua sentimentalidade. Mal o compreendiam 
tão depressa transtornado de penas como zombeteiro : 

Triste flor I não fui culpado 

Foi teu fado 
Vir morrer tão cedo ^aqui (**) 

Chorava assim por um camor perfeito e logo se desmanchava ao dirigir-se a 
certa dona, na mais destemperada trcça : 

Alta noite acordei e mal desperto 

Com o olho inda fechado e outro aberto 

Comecei a chorar e fiz tal molho 

De pranto que manapa dum só olho (***) 

Casquinava suas risadas satânicas no Oh i Dor t enchla-se de fúrias e desvairava 
na prosa a poucos dias de intervalo : 

cQue me importa a mim o futuro 7 Cadáver que se move pelo impulso de es- 



{*) Parada Leitão, Damaiio, Almeida e Brito, Lobo Gavião, No){neira Soares, Evatisto Basto. 

(**) O meu amor perfeito, no Nacional de 6 de junho de 18 l8. 

(***) A minha eorrupondencla, no Nacional de 18 de dezembro de 1848. 



cassa inteligência, o meu espirito gastei-o, consumi o no rolar duma paixão e essa 
mão de ferro que me comprimiu até ás fezes o órgão da vitalidade, crava-me agora 
os dedos na medula dos ossos.:»- (*) 

Blasfemava ; almejava infernos em histerismos que o sacudiam c aos leitores. O 
seu nervosismo comunicava-se ; o seu temperamento impunha-sc. Pela originalidade 
de seus artigos cheios de fogo ou de arsénico, pela fama das perseguições dos ca- 
ceteiros cabralincs, pelos singulares contrastes de sua fisionomia interessou mal surgiu, 
admirou os que se lhe achegaram, perturbou corações c, vivendo semp-e entre d-.is 
ou três amores, volúvel, irriquieto, inconstante, no seu epurismo de janota, devia 
tornar-se para os burguezes, o sirnbolo da fauna ultra romântica que ou endeusava 
as mulheres ou as descompunha em platónicas maldições nos folhsítins das gazetas. 
O ódio a estes fantasistas refervia nas almas praticae, nas dos velhos preten- 
ciosos c nas dos mancebinhos acanhados. 

Uns detestavam-nos por suas noitadas, turbulências e trajos, outros por suas ju- 
ventudes queridas das mulheres, os terceiros pelos sucessos amorosos tanto mais 
retumbantes quanto as suas reputações se laivavam de peores nodas. 

Na Assembleia Portuense, à Trindade, e que os de 34 tinhêra fundado em 
grandes largueses civilisadoras a darem-se ares de quem vivera na emigração mds 
em clubs que de fomes, existia uma sala reservada a que chamavam u Palheiro e 
na qual, com uma pontualidade de mendigos em portaria monástica, entravam os 
apreciadores da escandaleira. O nome do apobento, onde as linguas se desembara- 
çavam com as imaginações, dizia- se provir de seu atapetado de esteira ; filia va-sc 
também, a origem em se desfibrarem ali as reputações mais srlidas em peihas e 
maravalhas. Camilo decidiria haver engano ; segundo ele, a designação nascera do 
habitual ambiente dos frequentadores de^se canto de fama portuense, temido e onde 
se entrava com receios. Os ricos vendedores de beetão e os «brasiieircs> biliosos e 
sardónicos íâziam o coro das risadinhas irritantes e só com cautelas aventavam suas 
historias, atribuindo-as sempre ao anónimo : csim cies tinham ouvido dizsr, não o 
juravam, mas o mal é fâlar-se h ; conselheiros, empregados do estado, roídos de 
desesperos e de males secretos, miguelistas aderidos ou aventur?iros partidistas for- 
neciam o cibo aos gulosos que, de olhos acesos e bôjas babadas, escutavam as 
inzonices daqueles gancheadores de protervias. Contavam-se obrigõtoriamente anedotas 
pífias, lúbricas, baixinho c diziam- se versos de rasteiro bocagianismo aplicados ás se- 
nhoras e aos homens mal apontava em seus lares a menor suspeição. Por vezes 
punha se a correr uma infâmia entre gargalhadas sandias, arrotos des comidas picantes 
c volúpias pelintras. Era uma maçonaria apatiíada, um Conselho dos Dez onde umas 
linguas farpadas boatavam ao acaso e um bando se encarregava de propagar a maldade. 
Camilo era detestado nessa caverna de gente abonada, nessa sede de maledi- 
cência injectada em palestras brincalhonas c esguichada, depois, a todos os cantos 
como verdades absolutas. 



(*) o Futuro, no Nacional de 26 de dezembro de 1848, 



Os rapazes vingavara-no e aos outros difamados desdenhando do Palheiro, tro- 
çando seus frequentadores e agentes nas mesas do Guichard seu baluarte, seu reducto 
onde consumiam espirito e cerveja de garrafa. 

Depois dos desesperos cu dos gosos em que as suas almas comungavam, cm- 
quanto as requestadas dormiam, eles vagueavam namorando a lua, versejando, deva- 
neando sob as janelas fechadas. Atiravam aos espaços cm garganteios as árias que 
a Clara Belloni de Rezzi cantava no S. João ou es do reportório da Debadeille — 
sua rival — conforme acaudatavam uma ou outra. Os esturdiotas, vates, a juventude 
janota, tendia para a originalidade, um sopro de aladas ilusões enchia as suas cabeças 
e sendo na vida generosa, sentimental e ousada até a morte lhe sorriria se lhe trou- 
xesse à imaginação o poético lúgubre dos fantasmas deslisando entre jazidas como 
nos finais de acto das operas comoventes. 

Foi turbado por idênticos pensamentos que Jorge Artur de Oliveira Pimentel, 
de boa familia provinciana mas de fracas posses, deliberou morrer. 

Era poeta c escrevente de advogado ; apaixonara-se por uma das irmãs Outei- 
ros, Sofia, tão celebrada^nas reuniões por sua voz, ouvira-a, na noite gélida de janeiro, 
soltar os seus trinados, numa festa de sua casa, entrevira-Ihe o perfil e guardando 
nos ouvidos aquele cântico c na retina a visão da amada, perdera-se no escuro da 
ponte pênsil, dera-se ares de noctívago impenitente ao falar com os guardas, embu- 
çado no capote que daí a pouco tirava, dobrava c colocava na beira da passagem 
com a carteira onde se lia o seu nome. 

Apertava contra o coração um gorro que a adorada mulher bordara e lhe ofe- 
recera e preparara-sc para esse salto na treva que levava ao infinito. Ele bem lhe 
dissera, na Lyra da Mocidade, em péssima forma mas revestindo soberbo anccio : 

Uma mulher, um anjo 

Gosar não vem da solidão comnosco 

Unindo o rosto, peito a peito 

Em deleitoso abraço ? 

De que valem, sem ela, o prado, as flores 

De que valem impérios e riquezas 

O mundo de que vale ? 

E como -cousa alguma sem o seu hálito de amor valia o mundo ele atirou-se 
às ondas frias e sumiu-se levando-a no suspiro que as vegas lhe sufocaram ao abra- 
çá-lo. 

O cadáver não aparecia e os inimigos dos românticos espalhavam nos estabele- 
cimentos, e bichanavam raivosos no Palheiro, tratar-se dum suicídio fingido. Já se 
asseverava ter sido visto o lamentado amoroso recostado num carro em Oliveira de 
Azeméis. 

Cinco dias depois, as aguas devolviam o corpo inchado, na babugem do refluxo, 
atiravam-no contra o paredão da Ribeira a calar com a sua presença sinistra as pala- 



— 11 — 



vras malévolas dos que sentiam a gente do seu temperamento incapaz da nobreza 
da morte por amor. CamiUo acornpanhanhara-o ao cemitério e ao voltar quasi orjtva, 
cm sua prosa, ambicioso da paixão das mulheres peias quais se morria. 

«£u por mim peço a Deus que me não mostre a mulher dos meus sonhos, mas 
se um dia a vir hei- de dobrar o joelho sobre as urzes desta minha vida de espi- 
nhos e exclamar: 

<Mulher adoro te l 

<Não sou séptico, creio muito em Deus e n'Ela i 

<Em mim e nos homens é que não creio nada.^ (•) 

Confessava-se assim. Efnbora em sua existência houvesse o travor dum ardente 
romance amcroso ele sentia bsm não str aquslà Patrícia Emiiia, que lhe dera uma 
filha, a mulher capaz de o algemar. Nem ela nem as outras cujas graças cantava 
cm seus versos como um rouxinol na treva aguardando o luar para redobrar seu 
gorgeio. 

Devia ir descendo em seu espirito á banalidade a provinciana, confiada c deli- 
rante, que, num arranco/fenviara à pequenita nascida de seus amores, à roda dos 
engeitados de Vila Real saindo desse berço dos desditosos para os embaladores bra- 
ços duma ama robusta do lugar de Iscariz, nas brenhas transmontanas. 

Tratava-sc duma sensação já gosada, do final dum capitulo da sua existência de 
sonhador do inédito, sendo capaz de tudo, sem mentir, para o gosar e, sem mentir 
ainda, a tudo pronto para o repelir por inútil depois de devassado. 

i\ mãe da sua filha não falava mais à fantasia do homem que andava querido c 
admirado, para o qual as mulheres, mesmo as da sociedade superior, tinham olhares 
de curiosidade, ftinda não era um grande escritor mas a sua espontaneidade, a fácil 
produção de sua pena, as loucuras que se contavam como bem próprias de seu fei- 
tio, atraiam e impressionavam. 

R anemia que lhe sorvia os glóbulos rubros, lhe esbatia a amarclidão nas faces 
dava-lhe o ar triste que bem cabia às imprecações rimadas cm seus versos. Poeti- 
sava exteriormente tudo cm que tocava c como alçado a um mundo fictício povoado 
por outros seres até romantisava o nome da creada, da Gertrudes, à qual de Getru- 
ria tratava, já que não lhe era íacil envolver cm lirismos os rosados bifes de presunto 
de Lamego e as troixas de recheio ofertadas como tónicos pela serva àquela enfer- 
midade pertinaz, com o dulccroso melão não menos próprio de cânticos apesar de 
seu neme evocador do mel dos versos helénicos. 

Cuidava muito do seu trajo, tinha conferencias demoradas com os alfaiates, pre- 
feria o negro que lhe realçava a descorada fronte c como só de anhelos de amor 
vivia não deixava de frequentar todas as festas onde quasi sempre encontrava um 
espinho de roseira a arranhar- lhe a sentimentalidade. 

Escrevia no Nacional um folhetim intitulado Trigonia Romântica, o Scepfíco,. 
alcunhado ainda de romance filosófico c no qual misturava visões de nccropo- 



(*) Nacional, 10 de Janeiro de 1849. 



les, «virgem esposa das campas» cora agiotas torturadores, antros, e «donzelas suas 
irmãs no soírer.> 

E' possivel que escrevesse dia a dia, ao sabor das impressões, ao acaso das 
necessidades do momento como lhe sucedia frequentemente. H desigualdade do «romance 
filosófico faz arreigar este pensamento c a descripção duma das figuras letaes, encos- 
tada a uma sepultura, e que ele dizia não poder esquecer e já amar, é tão extr&nha coroo 
a transplantôda para ums sela sob uma impressão sentidíssima contrastante com as 
dos seus arroubos fantasiosos das paginas anteriores. 

Na segunda semana de fevereiro de 1849 — a 10 — publicara-se o trecho da 
atrabiliária novela na qual ninguém reparava por se meter entre fantasmagorias as 
realidades dum baile. 

São tão idênticas as s.u?s narrativas desta época e as traçadas depois, ao 
evocar o seu primeiro encontro com a mulher do seu maior amor, que fazem medi- 
tar, se na verdade, não teria encontrado então a «dcs seus sonhos>, a que pedia 
a Deus não lhe mostrasse: 

^Uma vi lá, por exemplo, que suposto joven e bela emquanto não fez mais do 
que acompanhar machinalmenie o parceiro, seguindo o estúpido passo da contra- 
dança não passou de excitar em mim um sorriso que importava o mesmo que eu 
dissesse : bem te creou Deus para iludir, mas desde que passando a dançar a polka 
volteou três vezes ou quatro aérea com.o uma sylphide, garbosa como uma andaluza 
ora requebrando languidamente o pescoço, ora ondulando os vestidos, ora deixando 
interver o chistoso sapato de setim preto que mais parecia semear flores e caden- 
ciar harmonias do que descrever meros compassos de musica começou a represen- 
tar-se-me na vida não já como uma beleza irmã de tantas que ha na terra senão 
como uma dessas criações angélicas aonde o moral é mais do que o physico, os 
olhos mais do que os lábios, o coração mais do que tudo, uma dessas mulheres de 
excepção que, semelhante à phenix do deserto todos acreditam que existem mas 
ainda ninguém disse ter encontrado, um desses seres fantásticos de que todo o 
homem se captiva aos 20 anos, de que aos 25 duvida e já aos 30 descrê. 

Eis o que se me figurou a graciosa bailadeira da polka, mulher, anjo ou 
demónio que tanta poesia tinha nos passos como amargura no peito.* 

D2slumbrara-o como um dom do Senhor; garreara-lhe fortemente o coração: 

«Se por ahi a virdes dizei-lhe que seja anjo: eu não espero mais vêl-a! Â que 
encontrardes nos bailes, parecida às belezas de Rubens, olhos pretos, cabelos escuros, 
riso todo inocência, faces pálidas, rosto oval, colo de jaspe, talhe de haste flexivel 
que o mais leve sopro derruba e podendo apenas contar de quinze a dezasseis 
primaveras, não rccieis enganar-vos: <é elay. 

Acentuou largamente no romance não só esta evocação digna do pintor flamengo 
das carnações florescentes e exhuberentcs, mas o que a rodeava: 

<.Mal acabou de dançar foi sentar-se e então reparei noutra dama que lhe ficava 
ao lado e que apezar de muito formosa ainda não me tinha atraido a atenção. Era 
uma beleza de tipo diverso, rosto menos oval, figura menos volátil, colo se é 



-13- 



possível, mais alvo, sorrir ainda mais inocente, loura como uma escosseza das que 
Walter Scott tomou para heroinas dos seus romances, olhos de azul celeste e para 
contraste singular com a cor destes e do cabelo uma tão profunda melancolia e 
uma tão desbotada palidez a espraiar -se lhe por todo o rosto que me obrigou a 
perguntar a alguém que a conhecia se aquele era o seu estado ordinário. Feliz 
deia se o fosse, respondeu o individuo a quem me dirigi: aquela menina padece e 
dizem-me que traz o gérmen da morte comsigo. Dantes era rodada como uma alemã 
e hoje é aquilo que ali está. Duvido que possa durar nem seis meses . . . pois asse- 
guro-lhe que é penal Tem tanta bondade no coraçào como formosura no rosto. É uma 
assucena que vai desfolhar>. 

E isto me passava na ideia., quando uma senhora que poderia ter quarenta e 
cinco anos, grossa e refeita, como é de supor que fossem os filhos e filhas do 
imperador Vitelio, veiu cortar o fio das minhas meditações convidando a dama dos 
cabelos louros a que fosse cantar ao piano. Cantar e morrer, refleti eu I (*) 



(*) Isto era publicado em folhetim i.'o Nacional át. 10 a 15 de fevereiro de 1849, Doze anos mais 
tarda Camilo evocaya scenas idênticas datando-as exactamente dbqueb época. 

cGiravam as walsas, sentia nas faces o hálito das mulh»res ofegantes de c?nsaço, os vnstidos em 
rodopio agitavam o ar tépido, roçavam-me o braço hombros nus, seios alV''s, duros come o alabastro e não 
sei se mais animados pela vida do coração que o mármore das estatuas. Se eram Galatheis não o sabia 
en; Pygmaliões no ardor do olhar, pareciam-me tcdos os que as levavam ciugidas no s Itar vertiginoso da 
dança. E elas deixavam-se apertar e enlanguesciam, ígcitando as feições a modo que pareciam ccvergo- 
nhadas da lubricidade deles. O espectáculo devia ser deleitoso para todo o homem que estivesse em paz 
comsigo e com os outros. Para mim era triste. Ali foi que eu conheci o que é doer a solidão moral. 

<Cessaram as danças. Um homem deu-me o braço e disse-me: 

cVenha vêr as ties mulheres mais Indas desta terra. 

A que primeiro vi mal me recordo. Se a procurar hoje, depois de doze anos; para acordar as mne< 
niscencias de então, não a encontro que morreu. 

<Da segunda nunca poderei esquecer os olbos, A luz que eles tinham, como o fogo das vest»es, nunca 
se apaga: a terra da s^tpultura abafa o recipiente da alma que champjava nelfs, mas a flama vive sempre 
na memoria do coração que a contemplou um momento. Morreu também essa. 

<A terceira eras tu 

«Lá vão doze anos. * 

<Entra comigo, outra vez, cessa sala, em que te deixei a alma, para ma restituíres nestes dias de prova. 

«Olha: estamos rodeados de cinzas que tiveram um rome. Estas cinzas eram então as duas vencidas 
rivaes da tua formosura. Chora ao pé desta cruz Colhe esta flor, que tem rai;es no pó do seio de jaspe 
da que era tua irmã>. 

Camilo — Fragmento dum livro — a pg. 207 da Noticia de sua vida e obras, na 2," edição, por Vieira 
de Cas'ro. 

— A assegurar que este fragmento foi escrito em 1861, doze anos depois de ter visto aquela mulher, 
está en ter sido traçado na cadeia. Logo referindo-se á irmãzita dela morfa em 1859, diz: <aquele pe- 
queno anjo, que ha doze anf s balbuciava ap:nas, vimo-lo faz amanhã dois anos, despegar o vôo e escoa- 
der-se no seio de Deus > 



Mais tarde o escritor, debuxaria traços idênticos, de semelhanças aproximadíssi- 
mas. E fazia-o sempre ao recordar a primeira hora em que vira aquela mulher tão 
querida com tão apaixonado ardor e tão forte comcção que jamais a olvideu-ia e entre- 
teceria em volta dela a saudade. 

Ou foi nesta ocasião ou noutra, bem sua par, que ele inicialmente se fascinou 
ao contemplar Hna Augusta Plácido, cujo retrato tanto se parece com o da persona- 
gem desenhada no folhetim do Nacional. 

Tinha olhos pretos e cabelos escuros, devia sorrir ingenuamente, apareciam páli- 
das as suas faces brancas, era oval o seu rosto e apesar de forte e solida seria fle- 
xível o seu talhe como era de jaspe seu belo colo. 

Aprnas se diferençava do retrato tracejado tãj entusiasticamente na idade que 
lhe atribuía. Contava mais de quinze a desasseis primaveras. Não ia alem dos desas- 
sete anos (*), porem, aquda creãnça que perturbava a fina sensibilidadí do romântico. 

R que amaria entranhadamente, a que não desligaria mais de sua sobressaltada 
vida parecia-se muito com esta ao cotcjarem-cas. Hi paginas em que quasi as irma- 
nou. Voltaria para a visão o seu psito já experimentado nos sobressaltos de amores 
menos tocados do sabor novelesco da dificuldade, do inacessível, embora a sua fantasia 
sempre emprestasse alguma cousa de sublime às amadas. É certo que com a mesma 
mã > inconstante as despojava. Todavia a Ana Augusta que ele entrcvira também assim 
num baile, já tinha um destino traçado por um casamento que os seus lhe impunham. 

Noigumas m ites dessas festas burguesas onde ela ia, cetos intrusos tinham pene- 
trado na reunião e provocado reparos talvez nascidos de ciúme. Hjuvera falatório; 
naturalmente no Palheiro enredara-se, reclamara-se e logo a direcção, em nota severa, 
bem anunciada, (*•) dedaaa que: ctendo cm consideração algumas observaçõzs que lhe 
fizeram sobre terem concorrido aos últimos bailes pessoas que a isso não tinham 
direit 1 e atendendo a que para remediar este abuso do modo mais suave convém fíxàr por 
uma vez e tornar publico o verdadeiro sentido que deve dar-se ao art.° 3 dos esta- 
tutos>, os dirigentes, numa larga d«?dução despontuada, sem vírgulas mas cheia de 
freima, rodeavam de cautelas a entrada nas salas da Assembléa. Assentavam guar- 
dar as jovens dos olhos dos namorados dos que sentiam sobre eles todo o aborre- 
cimento dos pais e dos pretendentes de peso. E elas só se encantavam por seus 
ares e frases, só as atrela a fama de suas proesas 

Erguidmse as ponteagudas It^nças dum férreo regulamento como baionetas defen- 
sivas das virgens ante a cubica dos vates deixando-as no contacto dos maledicentes 
da e&teirada sala onde se alojavam os formidáveis inimigos desse singular bando. (***) 



(*) Ara Plácido em Ferereiro de 1849 coetara 17 anos pois só faria 18 a 7 de Sftembro. 

(**) ^0 Nacional df 13 de fevereiro de 1849 ao tfmpo em que saía o folhrtim O Seeptlco. 

(***) Só pod am coacorrer sócios oa assíoantes, sras filhos maiores de 14 anos, desde que oio fos- 
sem ÍDd<!readeot;s; ningaem entraria vm bi'hete de conrite fiicalisado e ass'nado, sendo rerificade 
por ama comissão a qual também tinha a teu car£o re:onh^er es nuscarados nos bailes da qaadra car- 
BaTales;:a. 



-15- 



fls iaroilias, que tanto velavam pelos corações de suas filhas, querendo-as bem 
casadas, podiam contar com o zelo dos mordomos do grémio e concorrerei;» sem 
perigo aos bailes nos quais só encontrariam pessoas de credito assente, gente de 
situação, homens conhecidos na praça como aquele que se indicava para marido da 
menina cuja beleza encantara o detestado jornalista. 

É certo que ele não poude esconder a impressão recebida na lesta onde a 
creança de desassete anos dominava, sendo mais apetecida ao saberem-na em transes 
de noivar. 

Os Plácidos iam mudar-se da Praça Nova para a rua do Almada desde que se 
falara do casamento daquela linda mocidade de obediência. 

i\na e a irmã encantavam es românticos que as achavam, como todos os 
portuenses, as mais formosas meninas frequentadoras da Hssembléa, do passeio 
burguez de S. Lazaro, dos camarotes de S. João, saltitando da lama do burgo para 
o estribo do carrcção ou ajoelhando nas naves. Passavam a escutar os seus pianos, 
os trechos ingénuos e sentimentais ensinados pela Anta de Araújo, a do colégio da 
rua de Cedoftita. E se os poetas lhes queriam enternecidamente, os homens do nego- 
cio, sem lh'o saberem exprimir, em termos de as enfeitiçar, cubicavam também, 
Antónia e Ana, gémeas na beleza. 

Olhavam o seu prédio como uma capela de amor da qual sairiam as divinda- 
des e, a caminho da praça, cies não esqueciam seus rostos nem as canções bucóli- 
cas entoadas de suas bocas sobre a rua. 

A primeira das irmãs casaria com o filho do celebre Ferreirinha, da Régua, 
António Barnardo Ferreira Júnior e que andava a namora-la fazendo trotar na cal- 
çada lindes montadas, atrevido per seu dinheiro e sua reputação embora a dar- se 
vesos de original. Era um janota, escapo, pelo sangue, à eh ncela romântica. Por 
esse Douro alem as quintas, os vinhedos, as propriedades, as adegas, os bens da 
casa paterna arredondavam um excelente condado. Asseverava-se que seus senhores 
mediam as libras aos alqueires, às razas. 

Um decreto de D. João VI, de 1824. dera foros de fidalgo ao grande viticultor 
consorte duma senhora rigida de principies, ciosa de sua hierarquia e que se osten- 
sivamente não impedira o casamento do filho com aquela encantadora rapariga, de 
nome Antónia, como ela, andaria a querela-lo à conta das partilhas, a litigia-io após 
a morte do comerciante opulento e cavaleiro nobilitado que pompeara no seu tempo. 

Assim como o Farrobo, (*) em grande sumptuosidade de milionário artista, edi- 
ficara o seu teatrínho nas Larangeiras, onde até a louça que se quebrava era de 
Sévres, se a rubrica o ordenava, o portuense de fartos teres, num gesto menos dis- 
pendioso e mais recatado, reunia os amadores num palco, do seu palácio, onde se 
representavam peças serias, como o Luiz Aí, de Casimiro Delavigne, a qual tinha por 
protogonista o futuro editor José Gomes Monteiro, fazendo o dono da casa o papel 
de duque de Nemours. 



(*) Vêr artlÉo de Henrique Kendall— O Tripeiro, de outubro de 1908. 



i\s recitas continuaram e quando o capitalista fechou os olhos e partiu forçada- 
mente, levado pelos comparsas da derradeira comedia, correu-sc o pano na residên- 
cia de Vilar. 

R união com o filho de tão opulenta familia, em cousa alguma modificara a vida 
do lar onde ele escolhera noiva. 

flntonio José Plácido Braga agenciava por seu trafego o sustento e grsnde decên- 
cia dos seus. Usava de manhas de minhoto ambicioso, lidava dia e noite mas sentia 
à sua volta doze filhos. R esposa, Ana Hugusta Vieira, uma forte c esbelta mulher 
de Ramalde, creara-os com cuidados mas a fatalidade tocara alguns deles da tisica 
por um fenómeno extranho na ligação de dois sangues fortes, de duas compleições 
robustas. 

Hquele homem vivia numa tarefa sem fira e só aos domingos, depois da sua 
missa em Santo Ildefonso, socegava até à noite em que acompanhava as raparigas 
à Hssemblea, à Filarmónica ou ao S. João despendendo para seu gáudio as quatro 
moedas do camarote. 

A volta da Rna, em busca dos seus sorrisos, andavam os rapazes das melho- 
res casas, porém, o pae já dispozcra do seu futuro, já a encaminhara para um 
destinado esposo julgando vêr no seu amparo a felicidade da creatura romântica de 
^ujos anhelos, anciãs e arroubos mal suspeitava. 

Tinha já bem escondido no seu seio um pezar de afectos porque ela mesma se 
enganava em seu sentir embora vislumbrasse alguma cousa de fascinador vinda não 
dessa ternura primeira mas doutra mais intensa que a dominaria. 

Hoa Plácido, antes do baile, onde ficara meditativa, pensava num companheiro 
de infância, num rapaz que brinccira à sua beira, lhe aparecia nas suas mais recuadas 
recordações. Iludia-se ainda depois da festa onde fora, como sempre, admirada e na qual 
outro a vira num deslumbramento. 

Imaginava ser o verdadeiro amor esse contacto que, nascido com as paixões pelas 
bonecas, parece capaz de encher a vida e não passa de ephemero enleio, de vão en- 
tretecer de ilusões, de enganoso sentimento que um nadinha, quasi sempre, aniquila. 

O maior amor é o que brota, como as fúnebres as algas lutuosas, banhado no 
pranto das vagas inconstantes; é o que mais lagrimas custa e na tenra edade não se 
chora por muito amar. 

É certo que ha excepções porém nas almas fantasiosas é pouco ter brincado na 
meninice para se referver em paixão. 

Ela, tomada de atracção profunda psla leitura, intimamente uma romântica, era 
dos espíritos que albergam sentimentalismos, aninham insatisfações, palpitam e 
anceiam por seus pares para os devaneios duma novela a viver; queria ser a 
personagem dum romance sobre o qual soluçassem os leitores; escrevia, às escondi- 
das, os seus versos, devorava, ocultamente, as literárias composições obtidas a custo 
e assim, presa pelas fortes e floridas cadeias dum incessante devaneio, vivia o seu 
misterioso capitulo de amor dum recorte todo de comoção e de arte. 

Naturalmente fiuctuava no seu animo a amizade pelo que em creança julgara 



Foi. 2 - 17 - 



adorar; seria capaz de o coasolar cm suas dores e imprudentemente lho escrever ou 
dizer, porem não lhe daria amor desde que seus olhos tinham sido magnetizados pela luz 
dum exh-anho fulgor para sempre a lembrar-lhc. Vel-o-ia mesmo de pálpebras cerradas. 
Sem duvida foi neste estado de alma que começou a amar ao sentir a contemplação 
ardente de Cam.ilo. (*) 

R donzela perturbada num instante guardou aquele admirador num permanente 
pensamento. 

O homem, fraco atraía a exuberância da sua carne decerto pelo espirito que 
lucilava de seu corpo quasi transparente. 

Que lhe valia, porem, pensar? Sabia, como todos os meios portuenses, da de- 
cisão tomada pelo pae acerca do seu casamento. 

Pedira-a um dos capitalistas de mais nomeada da praça. Manuel Pinheiro Hlvcs 
pesaria uns cera contos de reis e a sua historia era a de muitos que abalavam para 
o Brazil aos doze anos para regressarem al«ra dos quarenta ou cincoenta atochados 
de dinheiro não tendo do amor outra impressão íóra do arrepio de duas epidermes, 
ou antes, do contacto animal dos sexos. O motivo da sua existência concentra-se na 
matraqueação ousada da chatinagem. Quando estes homens se dedicam a um afecto 
diferente são ou sublimes ou miseráveis na sua cxteriorisação. Hquele adorava a 
linda menina que o chefe da familia lhe ia entregar cônscio de a tornar feliz de lhe 
dar um rijo amparo nos braços do minhoto arteiro saído da aldeia para a aventura 
rude. 

Tinha quarenta e trcs anos e era do logarcjo de Souto, visinho de S. Miguel de 
Seidc, um povoado triste, à beira de Famalicão onde se chegava por atalhos e quin- 
teiros, saltando barrocos, à sombra das uveiras; os seus labutavam na chã e ele, 
depois de talhar a estrada do ganho , comprar a casa de portão na aldeia, acomodara-a, 
tomara servos e deixando os parentes a lidar partira para o Porto, abrira escritório 
de corretagem de barcos, instalara-se num andar espaçoso no 378 da rua do Almada 
donde espreitava a noiva que ia completar o seu sonho de <:brasileiro> opulento. 

Puzera-se a auxiliar o futuro sogro c talvez fosse esta ajuda o motivo primaz 
daquela união. Os cônjuges diferiam tanto em edades que não se poderia levar á 
conta de reciproca simpatia o acto que se ia rcalisar. O pae pleiteava a favor desse 
quarcntão, (**) de aspecto limpo, de rosto escanhoado, o cabelo grisalho e sedoso 



(*) < Acordada acs dezassete anos fixei a aurora do meu caminho com o seio aberto a todos os rigores- 
da vida, a todas as espansões amorosas que se me abriam na imaginação nociva. 

«Em uma sala de baile, no meio do esplendor de Inzis e do aroma rescendente de mil vasos entu* 
mecidos de flores, uns olkos disseram-me ao coração: <tít('>, um sorriso fez-me estremecer todas as fibras, 
que estavam intactas. 

<Mas esta visão primeira do amanhecer, aquele olhar colhido em seio de virgem jamais ponde ser 
esquecido >. 

Ana Plácido — Lia Coada por Ferros, 2," ed., pg, 94, 
(**) Ver Doe. A. 



— 18 — 



dMm corte à moda, entrajado em cores próprias da sua edade e que marcava bem 
as contradanças nas salas, no seu entusiasmo, com alguma cousa de rejuvenesci- 
mento no aspecto ao aproximar-se dela cuja eddde distava da sua vinte e quatro 
anos. Ia deitar ao mar mais uma barca, a Califórnia, e possuiria a mais bela mulher 
do Porto. 

Podiam acusá-lo de traficante que não desviaria os passos do lodo onde medrava 
o ouro. No Jornal do Podo um desfalcado declarara : 

€Em beneficio da humanidade e para que mais ninguém seja enganado como 
eu fui pelo sr. Manuel Pinheiro Âhes, como caixa da barca «Norma», naufragada 
na barra desta cidade no dia 21 de janeiro do corrente ano quando ia a sair para 
o Rio de Janeiro, rogo-lhe o favor de publicar no seu acreditado jornal que este 
senhor como caixa e o sr. João Adrião da Rocha como capitão e 'dono do dito 
navio apenas devolveram aos infelizes passageiros metade das suas passagens que 
tinham pago, quando é constante que tinham seguro o casco, aparelhos, fretes e 
mantimentos e que neste caso e segundo as leis a tal respeito deveriam ter resti- 
tuído todo o importe das ditas passsagens ou ao menos dois terços das mesmas. 

<Desta sorte foram os passageiros extorquidos da parte do que tinham pago 
e que lhes não foi devolvido na conformidade da lei nem da equidade e é assim 
que se enriquece em pouco tempo e sem o menor risco. — José Bernardo Pereira 
Cardoso.^ 

Rico era ele em demasia e tanto que conduzia um pae de cérebro comercial a 
dar-lhe a filha embora lhe iiEpuzusse o casamento <como ura sacrifício.» (*) Possivel- 
mente o bastidor dos negócios puderia explicar esta frase pronunciada, sem duvida, 
nalgum momento de maior anciedade de vencer relutancias ou de salvar capitães 
pelo progenitor da formosa Ana Plaeido cujo futuro marido andava acoimado de 
desonesto em seu mister e «de enriquecer em ppuco tempo e sem o menor 
risco. > 

O arguto deixara que o acusante partisse para o Brazil e só, então, já desteme- 
roso da replica, se defendera. (**) 

Ninguém a podia salvar do consorcio e sentia-se arrastada, vendida, votada à 



{*) <Trespassain-te a um hom';in repulsivo quando mal conhrces a magnitude do sacrifioio e o Talor 
da mercancía>. 

€ Quando te é dado compreender a melancólica existência a que te condena a cabeça previdente dam 
pae cuidadoso em demasia no porvir dos seus filhos, é já tarde . . .» 

(Ana Plácido Luz coada por ferros, 2.' edição, pa^. 73). 
<Vejc-me vestida de branco, envolvida no veu da desposada, a grinalda da larangeira adornando-me 
a fronte acurvada ao peso destes atavios e estremecendo hcrrisada come Ifigenia conduzida por seu pae 
ao sacrifício, 

(Ii^em, fd., Id. pag. 98). 
(**) Não fez mais do que declarar defender o seu dinheiro. Os passageiros pagavam com latgo diS' 
pendio ama estada de dois dias a bordo. 

N. do A. 



— 19 - 



desdita. O futuro marido radiava, aparecia nos bailes, pertinho dela, na gloria de se 
tornar o seu senhor quando tantos a desejavam. 

Quem sabe se foi num intervalo de festa que o escritor, ao conhecer- lhe o 
destino, se poude achegar-se-Uie, dizer-lhe de suas penas, falar-lhe de suas maguas, 
deixar-lhe entrever o seu amor, nascido ao vel-a e agora a desenvolver-se c a 
declarar-se ?, 

Devia cair sobre ele a curiosidade, o desejo de se saber dos pensamentos do 
cstsrdio, do louco envolvido em tantos conflitos, agitado nas suas polemicas, esque- 
lético, diabólico e para demais feio com as suas crivadas faces, incarnação dum sin- 
gular feitio aterrante para as íamilias como se chapejassem de seu rosto extranho c 
manassem de sua voz, timbrada de todas as gamas convincentes, as soberanas 
excelências de encantar, tanto mais poderosamente enleantes quanto, de começo, cem 
a sua cara chupada c bexigosa, não atraía. E a prometida do cbrazileiro» devia ter 
medo e desejo de deparar com aqueles olhos irónicos e julgadores que tinham dito aos 
seus dezassete anos <vive>. 

O do colhar caido em seio de virgem> continuava no referver nas lutas, irritava 
o Porto com suas audácias, sbmpre numa complicação de tragedies da fêmea, tomado 
de frenesi e literatura. 

Versejava doloridamente, assanhava arremetidas na prosa c, no fundo, todo 
ele era uma queixa desesperada, a litania viva do amargo cântico dum boémio, sol- 
tando seus lamentos, após as loucuras, sem indicar o rumo dos gemidos. 

Aiava e não compreendiam os seus ais ; julgavam-no blasphemo, danado, precito, 
como se apresentava à galeria depois de ter chorado sósinho. 




— 20- 











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Cêmilo aos 25 ano« 



II 

PDOSÀ DAS DIMAS 



HO DESPERTAR DO ROMANCE — OS BROWNE — CORRESPONDÊNCIA EM 
VERSOS TÉTRICOS -CAMILO E O SUICÍDIO — A CRITICA AO PORTO 
— DESAFIOS E VERGASTADAS — O NOIVADO DE ANA PLÁ- 
CIDO— O DOTE DA MAIS BELA PORTUENSE — UM 
OUTEIRO EM S. BENTO DA AVÉ MARIA 
— O DESTINO DA BARCA <LINDA> 



ERA tudo tumulto na vida de Camilo ; agitava-o um irrcquictismo doentio. Tomara 



I ^* 

' a peito a raagua daquela criança de cujos lábios não ouvira, talvez, palavras 



de amor, mas dos quais escutara ou adivinhara queixumes: 

Tu sofrias, mulher f E eu que era o impio 

O sceptico do amor 
Fui eu talvez o só que vi descerte 

R lagrima da dor. (*) 

Um grande platonismo marcava ainda a sua ansiedade mas as exaltações, o 
desinteresse, o martírio, a amizade fraternal oferecida cm largos desejos de a vêr 
aceite er»m, neste tempo, e sobretudo empregados por ele, aboíscs que atraíam os 
corações. Decerto lera em seus olhos a confissão do afecto que timidamente lhe dava. 

Precisava engrinaldar de poesia as frontes das desejadas c tanto se sugestionava 
que partia num encantamento para se detenfeitiçir ante outros olhos que não preci- 
sava n ser mais lindos mas bastavam volver-se-lhc pwa logo sacrificar os enaltecidos 
na véspera, roçantes com as estrelas. Geralmente despenhava do declivoso cerro do 
entusiasmo as malqueridas para um vale: o do esquecimento. 



(*) Da celebre poesia Vtrdades, publicada em 20 de fevereiro de 1850 no Nadonal e que se tem afif 
mado ser a dedicada a Ana Plácido no dia seguinte ao baile em que ele a vira, Sóaiente não houvera baile 
algum nessa data. Os versos derem antei ser alusivos a alifumat palavras anterionnenle trocadas enti^ 
ambos a não o preita a ama visão primeira. 



23- 



Quando se prendesse para sempre dar-sc-ia o milagre e a mão que o segurasse 
poderia ser pequenina como a duma criancinha que mostraria a íorça duma garra 
de gigante: estrangular- lhe-ia a volubilidade, de seu feitio. E tinha muita razão : 
às mais banais, mesmo, ele as enroupava de qualidades, tão de seu imaginoso génio, 
que elas — as pobresitas — não possuíam mais nada ao chegar a derrocada da ilusão. 
As camponczas, amadas nas montanhas, entre pedregulhos da adusta terra trasmon- 
tana, eníeitava-as como pastorinhas de lenda, períis de razes nobres ; a mulher com 
quem casara, a Joaquina Pereira, representara- a como o premio das suas declamações 
rebeldes, a paga da aventura final das suas garotices em espadeladas e mistificações 
de lobishomens 

Para ele as saias tinham sempre encantos. Despertavara-lhc apetites e como se 
fosse um inquiridor sensual de todos os secretos femeninos, parecia procurar in éditis- 
raos nas variadas espécies de mulheres. Sabia encantá-las porem não as amava, alem 
da posse, tempo largo para que se aborrecessem de seus afagos e com uma audácia 
sabia, por muito repetida, conseguia penetrar nas mais diversas alcovas. (*) Por vezes 
cias colavam-se ao seu desejo, que julgavam amor e logo sentiam nos desdéns, nas 
ausências, nas fugas,* a sua hora acabada. Algumas deviam perguntar a si próprias 
porque se tinham deixado enlevar por seus dizeres; recordariam seu rosto varioloso, 
mas também todos os viscos irresistíveis da sua sedução. Dcsvalorisava-as com a 
rapidez dum árabe ao desenfeitiçar-se do harém, ao procurar renová-lo constantemente, 
e a sua teoria assentava numa frase atirada como axioma: «ha uma mulher fatal 
para cada homem, e um homem fatal para um cento de mulh8res>. Hndava à procura 
da sua ou julgava, pelo menos, já a ter encontrado, todavia, não repudiava as que 
se lhe acercavam, tentado, galanteador, ávido da fatalidade para o cento ambicionado. 

Carecia de variar ; (**) não dava às amadas pela lascívia nem sombras de direi- 
tos sobre ele e desaparecia-lhes com uma rapidez de duende sempre que não as 
via chorar. Então, sensibilisado, fundida a sua ânsia de novos prazeres, oíerecia-lhcs 
uma cómoda e platónica amizade de irmão. R grande força da sua paixão por i\na 
Plácido era alem da sua esplendida beleza, da sua inteligência, romantismo e infelici- 
dade, a resistência, a dificuldade de obter seus beijos. 

Conhecia por instincto as formas de (***) iMrender os corações c cheio de talento 
conseguia-o por vários meios : pela palavra, pelos escritos, pelos enlsios, pelas arreme- 
tidas, pelo nome mal afamado na boca dos burguezes e que devia constituir um dos 



{*) Dixia ter conhecido vinte e uma variedade de mulheres. 

(**) O espirito enojou-se do maito )pasto que Ihis dei da mesma impressão e já não digere os Indigestos 
carinhos da E, F, Estou portanto viuvo e preciso de segundas cu vigésimas (que sei eu !) núpcias, aliás 
bestialiso-me. — Xavier Barbosa, Cem carias de Camilo. Carta de 3 de Maio de 1853. 

(***) «A. mulher que principia a amar tem oito dias de alienação moral. O espirito anda-lhe à solta, 
é um habil caçador apanhal-o, e depois.. . ccmo sabes do ten Gemeuse, a alma é uma substancia acomo* 
dada para governar o corpo. Pilhada a alma, o corpo sem governo, é uma nau desmastreada, sem leme, à 
mercê das ondas>, — Camilo. 



seus melhores laços, pois a mulher adora sempre os atrabiliários, os originais, os de 
detestável reputação afirmando desejarem salvá-los. Disfarçam era caridade as suas 
curiosidades naturais. 

Bastava aproximar-se duma fêmea para a desejar, possui-la para não lhe querer^ 
R carnalidade dissipava toda a poesia. 

Na mãe da sua filha, que fora atirada da roda para a apojadura da rústica de 
Iscaciz, tocara-o a entrega, a fuga, os laivos românticos da prisão e eir quanto dura- 
ram tais ideas Patricia Emilia de Barros fora adorada. 

Não podia, pois, vêr uma mulher sem a galantear e gostava, instinctivamente, 
que sobre ambos passasse alguma cousa de original. Hmava a publicidade de seus 
afectos, não por vaidade, mas por um sestro de romancista tornado em personagem 
viva de sentidos romances, herói teatral de dramas engendrados na sua cabeça ardente 
e talentosa. Quando despertava para a realidade da vida e sentia os espectadores 
inimizados e por palco o chão das ruas irritava-sc, condenava o seu fetal destino quasí 
sempre — nestas scenas de amores — conduzido por seus maus passos como um céguinho. 

R facilidade da produção literária dera-lhe grande destaque. Raro era o dia 
em que o Nacional não inseria prosa sua ou versos numa espécie de correspondên- 
cia muito a dar nas vistas, com uma poetisa encasulada no seu pseudónimo de 
Soror Dolores que sob a almáfega religiosa parecia envergar um dominó. 

Tinha tendências tristonhas, desoladas, muito ao gosto da época, com noites de 
ventania em cemitérios onde piavam aves agoirentas. Ela própria se intitulava, às 
vezes : <a coruja trovadora. > 

Riquíssima pelo seu casamento com um dos mais considerados negociantes bri- 
tânicos Manuel Clamowse Browne, D. Maria Felicidade do Couto Browoe abria aos 
literatos os seus salões. Ia nos cincoenta anos e tinha descendentes; um que dava 
leis de elegância no Porto, outro pompeava na diplomacia c uma filha noiva dum 
Vilarinho de S. Romão, da estirpe opulenta de lavradores de scientiíico apego à leiva. 

Ricardo Browne, no seu brumulesco aprumo, janota por temperamento, poeta e 
artista, filho de milionários, era tanto um modelo de elegâncias, que tendo aparecido, 
em certo dia, de lenço preto sobre o queixo, porque lhe doiam os dentes, logo os 
peralvilhos portuenses, os afastados da camada romântica, o imitaram. Engravata- 
ram-se de dó. 

Naturalmente expandia seus gostos. Num país onde o bric-à-brac era desconhe- 
cido, colecionava magnificências e na sua casa de Gaia, contemplava raridades com 
o íetichismo dum idolatra a gosar o aroma dos seus deuses. Dedicava-se à musica ; 
armara um navio para viajar a seu gosto e calcara a Terra Santa como um pere- 
grino, a Turquia com o fez nacional na cabeça moça, c o Egypto no fervor dum 
sábio prescrulador. Rs senhoris adoravam esse gentleman que possuia vinte c sete 
fraques e os respectivos coletes — como Camilo o descreveria — ao mascará-lo de 
Jacques Smith numa troça rcmaniica. (*) 



(*) Oratijos qui matam — Novtlas do Minho, 2 *■ «d. pag. 35 



-25 — 



Fallava-lhe a tendência aventureira c combativa, o arranco de seu irmão, Manuel, 
que se batera rijamente ao lado dos patuleias, incursionara com o Conde das Hntas 
em Espanha, alistara-se na Legião Exlrangeira e ao serviço da França, ganhara, 
em Hlger, a Legião de Honra e, servindo numa legação, a cada movimento do mundo 
que o excitasse largava os meneios da diplomacia e mergulhava na seita, na clãn, 
na facão que, no momento, o interessava. 

O pai, Manuel Claraowse Browne, guardava a íleugma da sua raça por banda 
paterna e a instrução vinda duma mãe francesa. Sorria ante as preferencias c as ori- 
ginalidades dos rapazes e, parecendo apenas tactear o negocio, em golpes de vista 
ousado realisava fortunas para juntar às herdadas dos antepassados, h seu lado, 
pratico piloto do mar das contas, hábil manejad^r de capitais, o guarda livros, o 
senhor Ribeiro, ia aumentando mais oiro para prodigalidades dos Browne. 

Eram oriundos duma [familia irlandeza e católica foragida das perseguições dos 
Tudor em 1603. Instalaram-se no torrão portuense c aliaram-se aos gauleses Clamowse. 
R sua historia ligava-se à áa cultura regionil ; todas as transformações do licor loiro 
os tinham encontrado no seu posto, comprando a cepa na terra, pisando os bagos, 
trafegando o sumo, carregando-o em seus barcos, atravez de quatro gerações. Os 
Filipes tinham visto esses audazes irlandeses, escapes à sua régia inimiga, tocados 
duma fé que os trouxera ao exilio decaídos dos cargos altos, entrados no comercio. 
Toda a dinastia brigantina os encontrara labutando, sabendo dos sucessos da corte 
mas tratando apenas de seu vinho. Essa presistencia, atravez dois séculos e meio, 
guindara-os, gerarquisara-os, dera-lhes aristocracia de trabalho, a fortuna vasta, sólida 
da nomeada. 

Por isso, o representante dessa raça, no seu palácio ou no seu escritório, tran- 
quilo acerca do futuro, gostando das exibições dos seus filhos, da fama con- 
quistada por eles, a dourar a legenda dos Browne, se mostrava venturoso. Nos 
bailes dos grandes fidalgos e dos grandes ricos, como o fllves Guimarães, tinha o 
primeiro logar com os Chamiços, os Várzea, os Barros Lobo, os Canavarros, os 
Faria, os Casal, a alta banca, a grande roda que jogava forte e olhava Ricardo sempre 
a marcar as impressões novas das suas viagens, como um hcmem extraordinário. 
Estava-se numa cidade em que o povo aplaudira os passageiros da primeira dili- 
gencia à saída do Porto, pela estrada de macadam, em direitura a Guimarães. Enca- 
raram-nos como temerários exploradores de selvas. 

D. Maria Felicidade, a esposa do poderoso c ilustrado manejador de capitais 
vivia mais no recolhimento de seus aposentos que nas festas ; encanecera, c rodeada 
dum maravilhoso luxo, guardava o ar duma dama francesa do grande século, pince- 
lada de espirito e empoada finamente de perfume literário. Não era uma grande poe- 
tisa mas mostrava audácias em deixar publicar n^s jornais — embora com o rebuço dura 
disfarce — os seus versos; acolhia os escritores e do fundo de seu peito pareciam 
nascer serôdios amores todos surgidos de sofrimentos, de amarguras, necaófilos, gosa- 
dos nos cemitérios, sobre leitos de rosas desfolhadas cm campas. R ilustre senhora, 
entre esplendores, semi-rcclinada na sua Recamier, sustentada na vida por, um rendi- 



— 26- 



mento fabuloso, alimentada por um cosinheiro britânico de fama, ambicionava nas suas 
dolentes poesias, a dureza das lousas sepulcrais, a desgrenhada tortura duma misera, 
a dar pastio aos vermes e a sua scisma constante consubstanciava-sc no Prado do 
Repouso melancólico, com sua tradição dos passeios meditativos de escolares votados 
a Deus, sob cujos passos se esgarçavam valas e se enraizavam ciprestes. 

Camilo, tão atreito a estas lúgubres visões, evocando os mortos c gostando de 
remexer suas cinzas, relembrava, cm macabras estancias, os cadáveres e atormen- 
tava-sc pela lembrança do suicida Jorge Rrtur, ao qual chamava, o traído. Guardava 
dele impressão nítida, impagável, em sua mente : 

Â' tona dagua boiava 
Quando a onda que passava 
Lhe descobrira as feições 
Rtravez das contusões 
Pelas faces laceradas 
Tinha os olhos corroídos 
E as orbitas cavadas 
Dos olhos espavoridos 

Kssignava desprendidamente Ninguém como um bardo que só quizesse confiar 
seus pensamentos a uma palpitante sombra querida. Tinha vinte e cinco anos c, 
apesar da sua sensibilidade se despertar ante a joven de desassete primaveras — e qut 
ia ser imolada, como dizia — correspondia-se, no folhetim do jornal, com a literata 
rica e quinquagenaria. Não desiludia Patrícia Emilia, receoso, possivelmente, de seus 
rancores dcsatreroados de provinciana plebeia e ainda seguia cm ressaibos de aven- 
tura ingénua, as aprendizas da Andrillac e da Viderkur, costureiritas gaiatas de chi- 
nelinhas e olhos faiscantes. 

K «preciosa» Soror Dolores, respondia-lhc que deixara «a lyra sagrada a amores» 
mas, no campo do Repouso, ouvira um cântico que a enternecera: 



Se era de anjo ou de mortal 
A voz que tanto pungia. 



E, coada atravez das franjas lúgubres das arvores dos mortos: 

ã resposta alfim me vem 
Sobre a voz que diz: Ninguém. 

O escritor dedicara-lhe, numa homenagem, o drama O Marquez de Torres Novas 
e emquanto o Porto folgava no seu entrudo, eles, naturalmente frequentando as festas 
vagueavam ideal c literariamente, entre jazidas. 

Nos bailes do Barão de Alpendurada, do Conde de Casal, de D. Cristina Zuzarte 



-27- 



tinham aparecido graciosos trajos: as senhoras Pestanas, de familia tradicionalista, 
realçavam-se nas pompas das donas de honor das cortes vencidas do proscripto; em 
mais antigos e mais ricos atavios disputavam primazias, D. Maria da Natividade Que- 
des e sua irmã D, Tomazia de penteados rebrilhantes de pérolas como se saíssem 
dum sarau em Queluz e da presença da rainha D. Maria I. Dissidentes desta norma 
grave as senhoras Nogueira Soares tinham-se apresentado em rigorosos e galantes 
vestidos de espanholas. 

Os homens, mesmo, não procuravam originalidades de dar brado. Os irmãos 
Gonçalves de circassiano e de hussard; Fortunato Chamiço de príncipe da Renaicença; 
um francês, mr. Payant, achara espirito para se meter nas vestes dum mandarim e 
poucos mais se destacaram. Dançara-se. ftpezar da quadra divertida, apenas a polka, 
a mazurka e as contradanças animaram os salões. 

Os dois vates continuavam a versejar cavamente. O poeta dizia dos seus desesperos 
e a poetiza dirigia-se a Um Echo : 

Aqui jaz uma infeliz. 
Só disse o echo feliz 
Feliz, sim por não viver 

No intervalo abria-se uma claridade, uraa nesga colorida rasgara aquelas trevas 
agoirentas ; parecia cantarem os rouxinóis, calando os torvos mochos e corujas. Camilo, 
dirigia-se à outra, certamente. Abril com a sua luz, as suas rosas, os seus céus, 
os espaços engorgcados de vozes e perfumados de aromas sacudiam-lhe a melancolia. 
Escrevia: Reneguei l 

Não é sonho não/ Eu sinto 
Dentro dalma o ódio extincto 
Que á mulher já consagrei. 

E tratava a donzela com doçura de amores castos: «E eu vi esse anjo. Essa 
mulher íoi a que Deus me talhou para que eu morresse ou vivesse para ela>. Ver- 
sejava  Uma Rosa Branca, numa dedicatória de reticencias e interrogações: 

Era cândida e mimosa 
/{ que eu vi magica rosa 
Em mãos impias mal tratada l 

Não podia ser a Browae, esta flor que ele pretendia ver «em mãos impias mal 
tratada,» «em profana mão, e «do seu vergel arrancada». 

R quinquagenaria galante, com sua touca de rendas alvas sobre os cabelos argên- 
teos, também remexia pétalas mas sobre as sepulturas. Era a «rosa da campa> 



— 28 — 



Visão dessa lousa escura 
Dessa maga sepultura 
Desse pó do coração 



«screvía para que lhe respondesse e, com o mesmo titulo, ele volvia: 

Colhi uma rosa entre campas 
Na vala dum cemitério. 

Depois a florzinha, ao tocá-lo, rociava-o duma lagrima sangrenta que deslisava 
sobre um sudário. 

Logo ela se comparava a um regato humilde ; e, para a comover, Camilo relem- 
brava-lhe o cadáver do traído, do Jorge Artur, o que turbava logo a dama: 

Lá quando o Douro transborda 
Na tormentosa estação 

\ 

£ lá surge do mistério 
Sobre o rochedo a visão 

Possivelmente acompanhando a publicidade dos versos, enviaria a essa senhora 
do grande mundo, estonteada na literatura, em terra bravia de positivismo, alguma 
suplica mais instante de misteriosas entrevistas. Ripostava-lhe, a cercada em seu 
pudor pelo arrojado amoroso, com ridículas rimas de «amores profanos>, de melan- 
colias, e como a mostrar-lhe as razões de suas simpatias, fugindo aos contactos mais 
intimes, metrificava: 

O estio dá claridade 

Dá fulgor à escuridade 

Amou- o, todavia, ele o devia confessar depois, mas resistira à pretençào dos 
matcrialismos. Em todo o caso, tolerava que em seu álbum outro vate, esse sem cota- 
ção alta, Luiz Moreira Maia e Silva se arrojasse a este convite teórico porém de audá- 
cia irreverente : 

Fujamos dos homens 

O rosto fingido 

E vamos no olvido 

Do mundo insofrido 

Aos bons fementido 

Em ermo escondido 

/{ vida ocultar 

Isto era tudo ressonância. D. Maria da Felicidade preferia os seus sumptuosos 
aposentos e a sua mesa lauta ao ermo para onde o rímador a convocava. 



— M — 



Camilo trovejou indignado ; a sua vaidade devia sofrer. R mulher que em todas 
as palavras rimadas só via inocencias, mal compreenderia as aziumadas cóleras do 
nevrctico amoroso. Dese}ara-a com a pertinácia quasi infantil que não pode ser con- 
trariada e como só recolhera frases de ofendida ou recusas de cautelosa, dirigira-lhe 
o Adeus : 

Anjo l Eu tenho um crime l Ergui-me ousado 
Ho trono onde o Senhor te ha levantado 
e concluía: 

Oh! Sempre à morte hei de obrigar-te 
Nos olhos uma lagrima por mim 

Entrara agosto em ardências ; o calor fizera fugir os portuensss para o arrabalde, 
para as praias, para o regalo das quintas. O homem de letras excitado, chocado de 
desgostos, cansado da labuta diária e mal refeito da anemia estava à beira de deses- 
peros mais acentuadamente lógicos do que os criados nas fantasias de seus versos. 

R senhora ilustre araav3-o e esqueceria suas audácias como uma galante inte- 
lectual vencida pelo talento, mas Patrícia Emilia de Barros — a mãe da filha dele — 
arvorando seus direitos, naturalmente, ameaçara-o de vinganças indignas, capazes de 
ferir a toada lírica onde queria conservar a sua alma. 

K sua organisação hipernervosa abalar-se-ía com as feridas no orgulho, a resis- 
tência de seus caprichos — porque só isso era o seu constante poetar de melancolias 
e caveiras apodrecidas, ao gosto da época e da poetisa. H furibunda revolta da 
provinciana que se lhe sacrificara, e, sobretudo, as suas tendências desequilibradas^ 
tudo junto, o levara à deliberação de bem morrer. 

Para que o não julgassem preso da miséria — isto devia ser dirigido à milioná- 
ria — espalhara na mesa, ao lado da morfina da sua libertação, setenta libras ; para 
que não o tomassem por um doido, escrevera de sua descrença, (*) na poesia inti- 
tulada a Harpa do Sceptico. Estes versos seriam aos amigos destinados. 

Dera-se a explosão do seu temperamento. R morte halitava-o e mover-lhe-ía o 
braço para o tornar S8U. Não lhe merecia o sacrifício a mulher velha nem as cóle- 
ras da amante. Nessa noite voejariam mais em seu animo as borboletas negras que 
são os avisos de desditas imaginarias dos neurastenicos e dos ultra sensiveis. 

Naquele preparo, mostrando-se abonado de oiro e de veneno, traçadas as des- 
pedidas nas maldições o foram topar dois amigos. Ro acaso da subida ao seu quarto 
deveu Camilo a saíveção qu3 não lhes agradeceu. 

Um deles chamava-se José Hugusto Pinto de Magalhães e, sem ter o talento de 
exteriorisar seus pensamentos, possuia a mais ultra extranha fibra romântica da sua 
época. Roçava com a loucura. 

Filho duma raça nobre, senhor da casa do Lodeiro, em Santa Cruz do Douro, 
sofria da tara endémica duma grande parte dos seus contemporâneos. O mundo 



(*) Na Semana vol. I, ntnitro 36, Camilo explica om ponco as razões da sua tentativa de snicidio. 



— 30- 



agitado pelas convulsões da Revolução e do Império produzira estas singularidades. 
Deviam estremecer e nevrosar-se nos seios maternos os fetos gerados nesses dias 
formidandos: os românticos semidoidos, o íructo do parto monstruoso das hecatom- 
bes sob as quais seus progenitores se tinham amado. 

O companheiro daquele fidalgo também possuia solar na provinda: o do Mos- 
teiro. Manuel Osório Pereira Negrão, neto do antigo chanceler do reino e de Joa- 
quim íosé — um dos Lobatos do guarda roupa confidente de D. João VI e nobilitado 
no Brasil com o tiíulo de visconde de Magé — ligara-se à tradição dos seus. Estu- 
dioso, bravo, inteligente e bom, conhecera Camilo depois de andarem no miguelismo 
onde o aristocrata, fora ajudante do aventureiro bêbado c clcwnesco Reinaldo Mac 
Donell. que viera a Portugal no fingimento de tentar a restauração miguelista usando 
nos coldres botijas de genebra. 

Fugidos ao v«rão escaldante os dois conterrâneos, bem apetrechados para a jor- 
nada, entraram no aposento do escritor. Diante do que viam, daquelas libras, daquele 
frasco mortal, daqueles versos satânicos, compreenderam a aura atormentadora. Não tive- 
ram duvidas, que ele, decidida e estoicamente, entrara, com consciência e firmcsa, no 
seu designio nos preparativos de abalada para o desconhecido. 

Reduziram-lhe ao razoável aquela mente excitada, influíram no seu espirito com 
solida argumentação e acabaram por convencê-lo a deixar essa temperatara de fornalha 
do Porto, a procurar o sossego de que careciam os seus nervos vibrateis. Quizcram 
levá-lo comsigo para a calma das moradias distantes, para a boas sombras, para a 
vista das aguas mansas do Eiras e do Lazarira, em busca da tranquilidade. 

Poderia habitar em Mosteiro ou no Lodciro, mas foi aqui seu pousio. Da casa 
solarenga datou poesias novamente desoladas. Acabado o verão sentiu necessidade do 
regresso, de voUar às lutas, de claramente se mostrar com todo o seu aprumo, na 
cidade onde quizera morrer. 

Instalou- se, com a sua pena mais apurada, o seu cão, um terra nova esplendido, 
a que chamara, num excessivo roraanticissRO, Mariirio, a sua caixa de rapé, porque 
esse namorado do sublime pitadcava para aliviar o cérebro e o seu pacote de charutos, 
pois também desabaladamente fumava e dispoz-se à batalha. 

Não usava mais disfarces, atacava de frente, batia a sola da sua bota à Frederica 
a essa burguezia pimpante que o olhava aborrecidamente ao vê-lo mais refeito, escapo 
do suicídio cuja tentativa se espalhara largamente. 

O seu amigo Ricardo Guimarães, folhetinisando num acre c sacudido tom, escre- 
vera: «rque a rui do Rimada era de horrores e que ali o casamento não passava duma 
especulação comercial>. Evocava o morto Jorge Artur, de cuja memoria fazia sua 
forte bandeira e concluía a deixar perceber ser a noiva a culpada daquele tão 
triste fim. 

Agora, sem pena, ela ia casar-sc com outro e daí a sarabanda: 

«Es/e casamento, ao menos, terá a vantagem de abrir a porta a muitos casa- 
menlos> — declarava irritsdo, íulo. Andava já de boca cm boca a noticia do consorcio 
de Ana Plácido. Camilo, numa peça que dialogou no Nacional, sob a legenda de 



-31 - 



Crê ou Morres e dedicada a il , » • , punha nos lábios duma casada sem amor, estas 
írazes reveladoras: 

«Saiba que sou uma escrava. Passiva em toda a minha vida obedeci a meu pai ; 
avaliei o meu estado, quiz fingir comigo mesmo». 

No resguardo dum álbum de amigo, do seu colega ilustre Evaristo Basto, ele 
confessava ter encontrado, aos vinte e três anos, (*) «a mulher que é meu conforto> : 

Via-a aqui, perdido, a amei 
Eide amal-a, vivo ou morto. 

Dirigia- lhe as suas exortações, cvocava-lhe a virgindade, chamava-lhe: <um 
segredo do céu>. 

Começara, por esta época de desconsolo, enciumado e feroz, a acometer rijamente 
com a sua pena. i\deantara-se de gladio em punho, até defrontar o trono e escrevera: 
«Com efeito D. Maria II, desta vez, foi uma mulher ordinaria>. 

E logo, numa síntese ousada, decidira: 

«Na íamilia, um pai dcsmoralisado corrompe os filhos. Na monarquia corrompc-se 
a corte e não se desmoralisam os vassalos». 

Engendrara, de seguida, o ataque rijo a Costa Cabral. Acusava- o de concus- 
sionario. Estes homens de presa repugnaram sempre aos honrados românticos. O conde 
de Tomar, no poder, constituía o magnifico alvo para pedradas — que não para nobres 
tiros — do iundibulario destemido. 

Do politico, atenazado e cuspido nas faces, nas paginas candentes do seu panfleto, 
O Caleche, (**) Camilo passara a dirigir-se à sociedade e às suas hipocrisias decla- 
rando que «o salteador abre muitas vezes a bolsa, que ha pouco roubou, na encru- 
zilhada, para favorecer o mendigo». Por fim tomara para o seu ódio o Porto — a cidade 
onde as crianças eram entregues, legalmente, à concupiscência dos dinheirosos — c, 
numa catilinaria terrível, desaíiante como um mosqueteiro, encarando lodo um burgo, 
insultava e escarnecia. 

Em sarcasmos, nos quais se ouvia um rangido de dentes raivosos, intercalava 
na crónica o que chamava: O Preço dum Casamento. Computava-o em 8:560 reis e 
acrescentava : 



(") Camilo dizia, eníanadamente, ter nascido em 1826, logo ao declarar ter visto, aos 23 anos, a 
mulher que amava, data de 1849 esse encontro. 

(**) O Caleche on o requerimento que o jornal A Nação, publicou pedindo a S. M, a senhora D, Maria II 
demita dos sens conselhos, e de ministro do reino, o conde de Tomar, por crime de «Peitai ; ou de dar uma 
comenda por um caleche no ano de 1849, seguido do Folhetim escrito pelo senhor Camilo Castelo Branco, 
publicado no Nado fiai de 19 de Dezembro, 

Yende.se no Porto, lua dos Caldeireiros, 10, e rua do Bomjardim, 649, em Braga no botequim do 
senhor Bento José Gomes, debaixo dcs Arcos da Senhora da Lapa. 

Preço para chegar a todas as classes, 20 centavos. 



«Eu gosto do casamento falado, discutido e apregoada três vezes á missa con- 
ventual. Esse, sim — é o clássico. Por tel teor vão, duma só casa, casar- se quatro 
interessantes meninas. Hquilo é que é uma exportação de maquinas rf productivas i 
E' bom que a formosura se multiplique. São quatro rosas do Japão que, enxertadas 
no jardim delicioso da vida conjugal, vêm germinarum variado canteiro de lindos 
ramilhctes.> (*) 

Censurava asperamente a serie de consórcios, desesperado, sabendo Hna Plá- 
cido, tão triste conr.o a protcgonista do Crês ou morresl que ele continuava nas paginas 
do jornal. Pintava o marido, comerciante, — como um vil, — maguando-c, desman- 
chando-©, fazendo dele um fantoche tilintando, em suas mãos, peças de oiro. 

Publicara já a poesia na qual epresentara uma mulher sacrificada, que intitulara 
Verdades, c onde iam lamentes c conselhos. 

<E as turbas que folgam, se enlaçam na sela 
<Expandem-se alegres . . . que vida ali vae i 
^Ninguém vê a mártir . . . sosinha não fala 
€Ninguem vê da virgem a coroa que cael 

DeclcTOu ter chcrado per causa dela, da sua situação de sacrificada; dizia-se 
íraternaln-ente ligado ás suas grandes meguas: 

Um tempo me lembrou . . . fora um martírio 
Irmão do teu sofrer 

Amei ... — se não traído — exausta crença 
Que mais posso eu perder? 

Acabara a confessar-lhe desejá-la mesmo <f!ôr desfolhada>, relembrando aquela 
frase que ela recordaria mais tarde : 

Pedir aos lábios mortos um sorriso 
Ê ao cínico dizer: <Vive d' amor h 

Sublinhava bem esse incitamento á vida, como a avivar- lhe algí m momento 
iéliz Pm que lho tivesse segrededo. 

O Porto, iriitadament3, discutira a diatriba qu3 o chapava de escorrencias. Su- 
bira uma fúria. O escritor sentia-se alvejado e mostrava as garras. Imputando a essa 
cidade mercantil os males do seu coração, cncdrava-a como uma monlurcira sobre a 
qual SC entendesse um palio de ciro. 

Soror Dolores, sucumbida ao seu impulsivo gesto, arranhava na lira uma defesa 
prometedora : 

Não venhas, vaga sombra vaporosa, 
De novo despertar minha saudade. 



(•) Vit dornaiento B no fim do lirro : A Reilsía do Porto, por Camilp. 



PoL 3 - 33 - 



Passara mais um ano sobre a sua cabeça de velha, mas guardava o seu encanto 
de grande dama cuidando de sentimentos como de frágeis e preciosas florinhas. Seria 
um refugio para a dôr daquele atormentado? 

Murmurava-sc, cada vez mais, àcêrca de ambos. Um dos filhos da Browne, o 
Ricardo, sobressaltara-se sem desleixar o laço da gravata. Ficara a meditar, apertando 
a badine londrina. Todavia, Camilo mais se dedicara á outra, á que ia ser imolada ao 
homem considerado, agora, como um triunfador. 

Os mesmos jornais, onde fora acusado de querer enriquecer «depressa e sem 
risco>, tratavam-no de pessoa respeitável á conta da citação do seu nome para um 
dos logares da nova direcção do Banco Comercial (*) á qual presidiria, o do contra- 
bando, o barão de Massarelos. 

Era o predominio do dinheiro. Na casa da rua do fllmada apressava-se o enlace. 
Rna Plácido via crescer o lindo enxoval, em linhos bordados, em sedas acari„ 
ciantes para o seu imperial corpo, ouvia discretear àcêrca do lar burguez, escu^ 
tava o noivo qu2 se arrapazava, a seu lado, ébrio de ventura. R sacrificada 
devia [pensar em alguém que a protegesse, a salvasse; acolher-sc-ía ao seio de sua 
mãe, tão suave e tão amiga, mas da boca que a embalara não ouviria mais do que" 
serenos dizeres. Hmelia Vieira olhava a filha «como votada ao infortúnio por uma 
superstição extranha em que avuliavam influencias e agoureiras circunstancias» as, 
quaes tinham «presidido á sua entrada no mundo. > (**) 

Aquele a quem dedicara afácto na infância, carecia mais de consolo do que 
podia dispor de auxilio ; o que Ihs aconselhara a <viver> andava empenhado numa 
lucta cru2l de desafios, ironias e cóleras nas quais marcava todo o seu rancor apai- 
xonado. 

Não dsslaçava o Porto da sua mão fomidavel. Sentia absolutamente que sem a 
moral correntia do dinheiro a determinar todos os actos das existências não seria 
possível a infslicidade da creança que o prendsra, e, dilacerava rudemente os tipos, 
os padrões dt"ssa capital do negocio não a querendo vêr em sua uttiidadtí mas como 
uma caverna onde se enclausurava o romantismo e na qual o queriam amordaçar. 

«O Porto é a taboa da lai das quatro operações aritméticas; — sintetizava. E* 
uma graadc tabcada levada ao infinito das multiplicações das casas. E' o «dous e 



(*) Chegou-nos finalmente á mão a nova lista dos accionistas em 29 de Dízciabro passado, e, é, sem 
duvida, msis uma pagina negia paia a historia das direcções, pela parte que teve nas indignidades a 
direcção do anno de 1849, psla causa comum que fez com aqueles que a praticavam, para o que, passamos 
a referir alguns factos e c publico ajuizará. 

Tendo um grande numero de accionistas (verdadeius) do Banco Comercial resolvido fazer oposição 
á direcção do ano qne findou, tratcu-se de combinar uma lista de pessoas respeitáveis, consultando para 
isso a maioria dos accionistas. Formo i-se, finalmente, a lista composta dos seguistes sis. : Presidente da 
direcção, Barão de Massarelos; Directores: José Maria Rebelo Valente, Plácido António de Abreu, Manuel 
Pinhiiro Alves, etc. 

{Nacional de 7 de Janeiro de 1858). 

(**) Ana Plácido — Luz coada por ferros, 2^ ed„ pag. 192. 



dous são quatro convertido no balcão do <probo> e <honradissimo> bacalhoeiro em 
dous c dous são cinco.» (*) 

Irmanava os comerciantes na mesma reles aspiração da gaahuça e marcava, 
ferretava aquela sociedade do lucro, tratan3o-a de resto, escarmentando-a, pondo-a 
de rastos. Quem não adotasse o modelo que ela impuzera seria alvo da sua guerra. 
E como sentia o rancor formidável, sibilante, torturante, comparava tal gente da cha- 
tina aos corcundas, senhores de carto país, onde chamavam aleijado ao homem sãa 
e direito caído em seu poder. 

Engalegava-ihes os avós, sacudia até as esposas dos enriquecidos, catalogava-os 
nos arcanos da estupidez e dizia que ao andarem a cavalo, o bicho <reconhece a 
sua superioridade, mas vai ! E' Eneas o seu pai /lnchises.> 

Depois desdenhava das mulheres, das filhas desses acumuladores de riqueza c 
espostejava-as. Materialisava-as, dizia-as aprestadas apenas para receberem as cartas 
em estilo de <sirva-se V. M.*^^ entregar por esta minha ordem», apresentava-as coma 
alheias à sublimidade. 

<Rqu[ namora-se para casar; casa-se para ter filhis, que ordinariamente são as 
caras dos pais. Benza-os Deus !> 

Nafu-alment3 hmbrava-se da que ia consorciar-se, pansava que ela leria a sua 
arremetida e embrechava ur.a dôr naquele madeiro de execuções : 

<Lá de vez em quando, aparece utna cabeça de fogo a querer salvar-se das 
chamas no meio deste glaci<;l reservatório das cabeças de pedra. Homens que não 
estudam o valor especifico desta sociedade portuense metorn-se a tratà-Ia de coração 
viçoso e anhslante : morrem na alma c matam-se no corpo.» 

Esta segunda «Revista do Porto» — como a intitulava — produziu ainda maiores 
berros do qu^ a primeira, mas o Nacional devia ser disputado no seu fragor de 
escândalo. 

E' crivei que os pudibundos burgueses o lessem às escondidas, mas sentiriam nos 
dorsos a acerada ponta do aguilhão com que lhes espicaça /a a insensibilidade para 
tudo quanto não fosse o lucro, o negocio, o ganho. 

Hna Plácido obedeceu à vontade paterna (**) Não se poude nunca decidir em 



{*) Documento C, 

(**) Ni peça de Camilo, intitulada o í/Z/í/noar/í» e na qual não oculta cm pseudónimos a protogonist» 
pois lhe chima Ana Aa^asta, Eduardo, o pai dela assim designado no dram?, diz a João Piato, o marido . 

<Ha d^is anos e meio, quando mostrei aos credores os meus livros, pelos quais prorava que apenas 
ficava com o pão quotidiano de minbas filhas, deixado por sua mãe, os credores disseiam que eu era .,• 
nm ladrão. Puz uma pistola ao ouvido, mas as duas filhas, que eu tinha no coração bradaram-me coragem 
e heroismo, cm nome da virtude. Apareceti-me o sínhor João Pinto, que, lam:ntando a minha ignominia, 
me ofereceu a mais nobre de todas as reabilitações. Abriu-me a sua gaveta e mindou-me tirar o preço da 
minha honra. Disse que não tinha caução alguma com que podesse remir o empenho. Respondeu-me qne 
era ama psssoa da minha familia logo que eu o rcc«besse ni mesmo abraço com minha filha An3.> 

O nome de Eduardo dado ao pai de Ana no drama é o de um dos irmãos dela. 

A peça i feita um pouco sobre a primeira afeição da jovem, mas com exagíras de desenlace e de icena» 



- 35 - 



que circunstancies, mas ha a notar a situação daquele trabalhador, rodeado da famí- 
lia, cem a psicologia dos seus eguais, e pai duma filha encantadora. 

O marido dotou- a não com largos capitais, antes cora mesquinhez para tão rico 
individuo, dono de navios, de cofres e de credito que o indicavain para a direcção 
dura dos grandes Bancos portuenses. Procedera com receios, cautelas cu combinara 
com outrem diferente transecção. (*) 

iWarcara-se para setembro, a 28, a cerimonia. Ela fazia anos a 27. Parecia enver- 
gonhada do ruido ccusado á sua volta. Faiava-se muito do seu casamento e o noivo 
não reflectira 30 ouvi-la ncgar-se a ir á egreja da sua íreguezia receber a benção 
nupcial. Scntiu-se como uma vcndiaa; as outras L'gavam-se a maridos dâs suas idades. 
O dela ia adiantado na vida, embora andasse a fingir verduras, nesse dealbar do 
devaneio, nas visinhanças da posse. 

I\ mais linda mulher do Porto não se mostraria á tsrra que enaltecia suas graças 
naquele dia de sacrifícios; não a veria ao hdo do quadragenario, inspirando tíó, ge- 
rando compaixões. 

Ele devia percebê-la mas nem, por isso, desisiira de se tornar seu marido. 

Rndera õnunciada para aluguel a quinta de Vilar de Rlan, em Campanhã (**) e ou, 
porque o capitelista a tivesse tomado, ou por emprestino dalgum conhecido, é certo 
que ali se realisou o casamento, apadrinhado por Fortunato i-Uves de Sousa e Antó- 
nio Joaquim Teixeira, emigo do noivo e da familia da reccm-nupciada. Fora obtida 
uma licença especial do bispo e o padtc Assumpção e Sousa, casara-os, naturalmente, 
num improvisado altar. 

Camilo lergara do Perto atormentado por um enorme desgosto. O seu irriquietismo 
exaceibava-se ; não estava bem em parte alguma. Dsmorava-se pouco em Coimbra, 
volvia- se à cidade onde vivia quem tanto o impressionara e só cantava virgens, dcn- 



como ccnvinia para a teatralisação. Este episodio, porem, é de molde a fazer reflectir nas razões que 
leTaram o pai de Ana Augusta a sacrificar es seus desoitc anos aos quareiita e íaatos de Pinheiro 
Aires. 

(*) Pela escritura dotal lavrada pelo tabelião Almeida Pinto e Silva, no próprio d;a cm qae Ana 
Plácido completava 18 anos, vê-se que os Plácidos dotaram a íiiha em 3.200$000 reis c o noivo lhe 
doara 8 contes. 

Todavia ficavam peitfccenío ao casal as cssas do Perto na rua do Bomjardim, prédio dum andar 
n® 862 e outro de 2 andares com quintal a.^^ 856, 858, 860, íorriros a João Correia Pacheco Pereira de 
Magalhães e sinda o da sua Arménia 114, Em Braga tinham, tamiem, uma propriedade, foreira a Es- 
tevão Falcão, no Rocio n." 4. Acrescentava-scllic a casinha ds Seide de pequena valia, 

O jr. Alberto Pimentel pnblicou alguns destes documentos e também outros de autentico valor 
para o estudo destas personagens nos seus livros cem que se iniciou o culto csmiiiano. 

A fortuna de Finleiro Alvts devia ser de ecm centos, o que nessa época, representava uma das 
dignas de nota no Porto> Alem disto, tinha barcos de sociedade e fazia csnstantemeate negócios rendosos' 

Oferecera jóias áespoja, mas nâo se eímcrsra na escolha nem no preço. 

{**) Aluga-se em Campanhã a casa da quinta de Villar d'Allen com seus jardins e horias. 

{Nacional ài 17 de maio de 1849). 



— 36- 



relas, mulheres puras. Parecia ter esquecido o sarcasmo, imaginava-se que perdera 
a sua cólera. 

Aias ta choras insensioel 
Âos consolos que te dei t 
ãh ! Já sei 
O mistério 
Dessã dôr 
Chorar tanto ... sé de amor i 

Vogava neste embalamento como se esperasse ainda algum milagre naquele 
fevereiro depois de bater o pé, num desabaío c numa ameaça, aos traficantes da 
cidade. Entrara em lamentos e acabara fugindo apesar de se sentir vencedor. 

Nâo era com medo dos burgueses portuenses que abalava mas receoso de lhe 
ser impossível resistir ao espectáculo do ca3am2nto que talvez não soubesse ser cele- 
brado num grande recato. 

R belesa cxpleadida de Hna Plácido não padia aparecer orvalhada de lagrimas 
c ela chorou muito no dia do seu noivado. 

Secamente os jornais, onde o escritor linha amigos, noticiaram aquele aconteci- 
mento de que toda a gente falava. 

«O sr. Manuel Pinheiro Alves, negociante desta praça, recebeu-se na 6.^ feira 
com uma das interessantes filhas do sr. Plácido José Gonçalves Braga.-» 

Errava-S3 o nome do pai da nubente c só ao cabo de cinco dias participavam 
ao publico (*) ter-se realmente rcalisado a cerimonia. 

Também a outros cinco dias desta curta publicidade, quasi escondidamente, toda- 
via para que a alguém constasse, se anunciava a reentrada de Camilo na cidade que 
afrontara. (**) 

Em Lisboa vendera a sua peça o Lobishomem, (***) colaborara na Semana ; 
aturdira-se. 

R' lua de mel de Hna Plácido correspondeu o lançamsnto à agua da primeira 
barca de seu pai. Chamaram-lhe a Lindi. (*'**) Tiaha o ar duma galanteria de 



(*) O Nacional át 2 de oatobro. 

(**) O Nacional de 8 de outubro. 

{*"*) Foi comprada por Jorge Augusto de Souza em 25 de setembro, trSs dias antes do casamento 
de Ana Plarido. Umj carta di Camilo aa biblioteca da Ajudi por Castodio José Vieira, 

(****) Honteoa pelas 3 horis da tarde caiu do^estiliiro de Vila Nora de Giia, no rio Doaro a ele- 
gante baça <Liada>, do sr, António JiséPiacido Braga. Foi a ultiou das oito embarcações cim que o ia- 
signe constrnctor Bernardino Joaquim de Azeredo enriqaeceu durante esle ano a nossa marinha mercante. 

O rento soprara con mu'ta força, e alguns receios honrsram que a qu:da não íosss {:liz. Mis Deus 
não quic que ai despedidas do ano fossem menos lisoogeiras para um artista qu: tanto tem enobrecido a 
sua classe, e dado o s<nal a <Lioda> entrou migestosamente no seu elemento. Em stguida o sr. António 
Jos^ Piacido Bragi, oferecea uma excelente refeição aos seus amidos. 

(O Nacional 22 de onlobro de 1850.) 



- 37 — 



comerciante satisfeito. Pode imaginar- se que o nome desta angariadora de fortuna 
era uma alusão à desposada. 

Hlguns versos acompanharam cm saudação, a nova riqueza do chele da famí- 
lia Plácido: 

És ião linda como é linda 
Essa luz do ceu infinda 
Que no ceu vejo luzir 
Ês mais linda, mais luzente 
Que a rosa resplandecente 
Que vejo brilhar, sorrir (*) 

Foi um grande dia de festa este em que mergulhou nas aguas a quilha da 
hàTCã Linda, a menos dum mês de distancia do sacrifício da filha de ftntonio José 
Plácido Braga, 

Continuava- se nos versos 

Tu vais como o peregrino 
Seguir o novo destino 
Que a sorte já decretou 
Afirmo que o teu futuro 
Ha de ser, por Deus o juro. 
Qual a mente m'o pintou. 

Sc foi Raa Plecido a auctora de tais rimas, decerto imaginava para o navio 
fados muito mais doces do que para o seu lar. 

Ruidosamente, com o propósito de dar nas vistas, Camilo aprescntava-se no 
abadessado de S. Bento da Rvé Maria na mesma noite da festa marítima. Glosava 
motes das freiras, parecia endemoninhado, disputava primasias aos irmãos Luzes, e 
a Faustino Xavier de Novais, procurando naquela agitação uma derivante para o mal 
de seus aperreados nervos. i\pesar desse folguedo estróina, patusco, desvairado, im- 
provisava com amargura: 

Raras vezes a alegria 
Me sorriu na poesia 
Sempre hervada de agro fel 
Raras vezes que a desdita 
Se ledos versos me excita 
São dum sorriso cruel 



(*) Dos versos distribaldos em 21 de cutnbro de 1850 quando do lançamento na aÉua da 
barca Linda. Doe D. 



— 38 — 



Mesmo no ruidoso patco do mosteiro, ao lado dos companheiros, entre garga- 
lhadas, atochando-se de lambarices e de vinhos velhos, na doce expressão dos sorri- 
sos das monjas — estranhas nos seus toucados desafiando loucuras românticas — ele 
relembrava <o agrcfeb da sua desventura. 

Ana Plácido, como a barca Linda, atirada para a incerta aventura das procelas, 
ia sulcar mais perigosas ondas que as galgadas pelo garboso naviosinho, cujo nome 
parecia conter um madrigal à sua formosura de sacrificio. 




— 39 — 



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Manutl Pinheiro fílves 
(Retraio pertencente é 
fdmliia ao rommclsla) 



III 
RELIGIÃO DOS CORAÇÕES 



R CflS/l DE SEIDE — fl PAISAGEM E O SONHO — BRHDOS SEM SOCORRO 
BOEMIH PORTUENSE — DUAS <SÓRORES> — AMORES SACRÍLEGOS 
— CAMILO E O INSULTADOR — O CÃO <MARTIRIO> — O 
POETA E O SEMINÁRIO— PRECES E VISÕES 



ERí\ pela toriura dum caminho torcido, de altos e côncavos, entre penhascos mas- 
carados no verde do cultivo, orlado de uveiras, legendado de medos, que se 
ia, neste tempo, de Famalicão a S. Miguel de Scidc. Enladeirava-se até São 
Tiago de Hnta nos rumores dum pinhal que lembrava uma mesnada de lanças altas 
e signas esvoaçantes cingindo a capela românica e omnipotência do senhor Dora 
Abade. 

Milharais extensos e embandeirados alegravam a paisagem nos verões, feijoei- 
ros trepad-res cnastravam nas vides íolhedos e vegens, parreirais telhavam de som- 
bras quinttircs e pateos; as vedações das courelas eram arvores, as do solo mi- 
nhoto : carvalheiras ômigas em vastos abrigos, pinheiros agulhados suando aromas, 
os choupos de folhinhas tremelicanles nas beiras dos regatos distanciados dessa má 
estrada longa, pedregosa e (streita. 

Pâmpanos ccníundiem-se nos arvoredos, Uoriam e enganalavam-lhes os braços 
de que pendiam os bastos cachos — os da vinha de enforcado. Jamais uma desi- 
gnação macabra alegrou tanto os vegetais quando baga luzidia e os homens ao espir- 
rar vinho refrescante : o verde. 

Ccrriam famas de assaltos nas visinhanças das «alminhas» ; passavam frémitos 
nos espíritos ao chegar-se ali e logo acima do sitio mal reputado, se lobrigavam bran- 
curas de casebres, e um tecto d« capei i. Era São Paio de Scide, desviado da trilha 
que para São Miguel enveredava em cujo fim se topava o iargo e nele uma cruz 
musgosa, alem do adro do ermitério. O cemitcriosito do tamanho dum lenço barrado 
de luto, se existia, não devia ter naquela época, muitos moradores. 

Rccchavam-se casctas, colrnsços c choupanas; dos quinchosos saíam os boi- 
zitos loiros conduzidos por creanças, as loirinhas espertas de tons fulvos de metal 



43 - 



fundido como para alegorias de monumentos votidos a deuses agrícolas; chavisca- 
vam nos lameiros suínos de olhos soterrados, as galinhas iam alertes, cacarejantes» 
com suas ninhadas aos biscatos e uma grande e quasi enervante cal:na díscia como 
uma campânula de tédio. 

No fulcro das três vias escalavradas, a de Fanalicão, Raivãss e Landim, licava 
a melhor habita;;ão: a de Pinheiro Hlves. Ingressava-se, por um portão de ferro, na 
casa de lavrador abonado, com escadorio dos pisos. Nos baixos abriam-se os 
cortes, a adjga, a arribaaa, pocilgas, currais, cosinha, pousios de ca5eiro3 c moços ; 
em volta, a belga ensombrava-se na parreira su>tentada por esteios de pedra e 
a distancia corria um ribeiro — o P^le — a reflet'r os silveirais da margem, caru- 
roas, íloresceacias, que emprestavam tons olientos, limosos às aguas doces e límpi- 
das. Gemiam azenhas, empoça vam-se os açudes, os arrêtos das cheias cng.*ossada5 
quando chove e as folhas se transmudam num lazidio verdescuro limpo, raetalísado. 

Mulheres desgrenhadas espiolhavam os f'lhos às portas, creanças sujas voltavam 
de levar o pego — o repasto de broa c vinho — aos pais e seus ganhões e, ao bater 
dj meio dia, como às Trindades, parecia que um arrepio religioso corria sobre a 
aldeia. Desciam era longuidões as tardes, depois a passarada começsva a aninha '- 
se, em grandes triiados, irriquletamente e, na doce paz do Senhjr, Í2ch)da a noitá 
tudo adormecia a íóra do S. João, espadeladas e descamisos das massarocas nas 
eiras. Tambcm as rodas girgolejantes dos engenhos prolongavam seus ruídos como 
as queixas do milho triturado até mais se abafarem ao dealbar nos soas das bô^as 
humanas a trocarem os «Salvé-os Djus> de conceríia com as cotovias. 

Pois era aquela morada que se erguera sobre um cardenho de pobretões, a me- 
Ihor do siíio e nela Hna Phcido ia travar mais largo conhecimento com a desdita, 
cruciar-se c desespsrar-se entre a monotonia da terra, o primitivismo das gentss. 

Viera numa sege solavancada, gemente, até Famalicão e para Siide numa cadei- 
rinha do fuado da qual, tomada de aborrecimento, só sabia pergantar ao marido 
quando se chegava, se faltava muito, que voltas havia a dar e onde estava a aldeia (*) e 
lembrava una captiva das lendas arrebatadi para a caverna dum ogre. Viu Seide e 
entristeceu com sua mesquinhez, o valho cruzeiro emusgado, a ginlalha mal lavada, 
03 parentes do esposo de unhas terrosas, sentiu o silencio pesado, descido dos céus, tur- 
bado por algum grunhido, o barregar do gado, os mu/idos queixosos, a melancolia 
dos chocalhos ou o guincho arrepiante dos carros desencebados. Nj andar alto que- 
brava-se esta impressão ruim para una portaense ostumada a) bulício da rua do 
filmada, ao janelar à ta-dinha ai som dos piaaos em desafios arraítaido modinhas 
doloridas que faziam parar os galãs. R sua sensibilidade desperlava com as vis- 
tas, com a paisagem. Nun roqueiro, em ares de ruinas, recortavam-se aiieias romC' 
se realmente essa traça na'u-al tosse o perfil dalgua» castelo visigótico : era Vcr- 
moim onde uma torre se ergaera nas épocas recuadas 50 lado daquelas fortalezas de 



(*) Notaj dama converiaçãa do aator com a senhora D. Ana Corrêa, dí Seide, que as oaria de An» 
Plácido, 



Deus ; lombas, em massas escuras, ocultavam o trilho para S. Cosme do Yale ; mais 
•àqucm crguia-sc o monte de St.^ Luzia (*), cora sua poética evocação, scinlilavam ao 
longe, assotées de cesas solarengas do antigo capltão-mór, amorteciam, arvoredos entre 
pedras altas, alongavam- se terras de pão, pinhais e manchas esbatidas de serranias. 

Na frente da casa, àlem do muro da quintasita, tudo se efcgava em verdura 
naquele sitio rodeado de ter rinhas de nom.es sonoros, tilintantes: Yermoira, Landim ou 
cavos como Ruivães, S. Paio, o Pragal que parece abrir unra cantiga álacre, cspertita. 
R menos duma légua torcicclava o Hve de irondes miradas cm suas sguas, pom- 
pcava n:ais pertinho, o mosteiro de Landim e seus jardins com luxo de repuxos e 
fontes de rfgólo, bcuças lermos as e tradições de cruzios opulentos, calados nas 
jazidas, £cb o trinado dcs netcs dos rouxinóis que os viram no estudo, na igreja e 
no jogo da bela, a orar e rir, a suspirar e em meditações. 

S'âdc|^ parecia guardado pelas florestas delem, pelas pedregrosas encostas, exercito 
e castelo a berrarem acs seus hcbitanies os caminhos do m.undo vasto. Seria um 
lindo canto de paz psra os beijes se o amor tivesse vindo na sege daqueles noivos. 
Já que rão os acompanhara, só mais tarde a cesita se tornaria quadra de seu rápido 
adejar para ser lego, como o leÍL-gio ncítalgico dum príncipe poderoso de imaginações 
e sonhes, ceminheiro turbadc, delido em iua marcha, exilado ali, ao cabo duma 
aventura, entre gente rude. 

Cem a chegada dcs (spcsos, pelo cutcno, hcuvcra eperas curiosidades sonsas, 
bichanices, íelecia'j sôsíras de soclheiro?, alguns rodopies do Vira, no pateo, na plan- 
gencia das violas e gulosa petíinchicc das comadres. 

Hra não pedia emar aquele velho galante a revclar-se-lhe (**) em ledo o bastidor 
de seus arranjos em que julgara iiudil-a e ali, no recato da aldeia, frente a frente, era 
intimidades constantes de marido arcigo do aconchego burguez m.aior devia ser o 
desespero da recemcasada por obediência. (***) 

Habituara-se, depois, a vaguear pelas ruelas, a entrar nas cabanas dos pobres, 
a fazer bem, a procurír nes solidões o seu repouso porque o marido nem sempre estava 
à sua beira. Quando o inverno chcgcu rccecu encontrar-se na sua casa do Porto. 



(*) <Em uma taide de Agosto de 1857, subia eu o monte de Santa Liizis, situado na proximidade 
duma casa de camp-", distante cinco legoas do Potto, aonde eu costumava passai o verão. Gosava ali 
naquela solidão, de que 2u depois tinha saudades, a liberdade de casiihar só e ao acaso de meus 
dtvaneios>. 

An.i Plácido — Luz coada por ferros, pg. 1 73, 

(**) <Destes (maridoí) ha ilgum, vetusio airapajado, qu2 sob o patronato do Baquclcu do Augusto de 
Morais (1), deixa a espcsa tiistfmente desiludida, vndc-o em trajes domésticos na primeira tarde dessa 
celebr;da loa — saudosa para tantcs como amarga para outros — e à qual uma das nessas primeiras elegan. 
tes penas rh^imou, entre muitas, lua de jalapa>. 

(1) Alfaiates notáveis nc Porto. 

Ana Plácido — Luz coada por ferros, pí, 16, 2.* ed. 

C"**) <V{s àltm aquela n nlhet de trinta ?nos? Foi uma mártir da obediência {ilial>. 

Id. Ij. Id , pg 109. 



45- 



o companheiro de infância devia procurai- a e querer vêl-a, escrever- liie, sondar 
o seu coração. Criamava-sc António Ferreira Quiques, (•) estivera empregado na 
repartição distrital, de onde saíra per questões de serviço e ia emigrar, dizia-lhe. 
Sofrera muito e eh quereria c©nsolal-o em suas dores, lenitivar-lha seus males como 
uma irmã. 

Outro, porem, devia perturbar sua alma de amorosa, o mesmo que se a deixava 
em paz não a podia esquecer pois à sua desventurosa vida aludia em quasi tudo 
quanto (**) publicava nesse te-ripo, bem como m.ais tarde de sua recordação teceria 
saudosos trechos. 

Envolvia-a nas novehs com nomes diferentes, (***) aludia á sua amargura c á 
dela umas vezes nos antigos rompantes insultadores para o pai burguez, vendo em 
tudo negocio, outras em sátiras pungentes em que enovelava todas as mulheres, para 
logo se sacudir nos lamentos e soluços. 

Passava do lirismo cm que a cantava ao horror do acto praticado pelos seus : 

Sobre o seio arfando em anciãs 
pende a fronte fulminada 
Guve um griio é a consciência 
que lhe diz : «foste compradas (****) 



(*) <Apezar de o chamaram <m;u desposado» António Augusto citava no meu pensamento come qual 
quer dos meus irmãos». 

Ana Plácido romantisa esta figura na Luz coada por ferros, 2." cd pg. 193, dando-lhe até o seu nome 
de António, 

(**) Uma pa's:io aos 23 anos — escreTeu Camilo insistindo sempre nesta data — no homem que esvc- 
Iheccra, iatigado de abalos e desastres, etc. 

«Foi na noite maldita daquele baile, Achei-me na presença daquela mulher». 

«Não podia ser minha , , . Venderamna! Vítima humilde beijon as mãos ao sacrificador», 

«Nascera debaixo do sol europeu, nutrira o espirito da seiva do livro de Jesus, julgara-se emancipada 
da servidão ignóbil, vergonha djs naçôís incultas e aqai fizeram-na odalisca, serva dí harém, segregada 
do mundo esplritcal e posts aí cc mazeu de regalos, como cousa que representa um preço, um capital, 
uma propriedade. 

«Era pobre fizeram-na rica ! Deve ser escrava !> 

Camilo Castelo Branco, Um livro, 2.^ ed., pg. 229, 230, 231, 

(***) Júlia sentara-se ao pé de mim triste como Raquel (1) c silenciosa na srua angustia como a 
viuva de Naim, 

(1) Chamou inumíras vezes Raquel a Ana Plácido aludindo á mulher da Bíblia relembrando os tor- 
mentos que Jacob passou para a desposar servindo humildemente a ganância de Labão, 

Camilo Castelo Branco — Um Livro, 2.^ edição pag, 232. 

(****) Idem, id,, id. pag, 234, 



— 46 — 



e do verso saltava, numa risada, para a prosa, assinando o que intitulava jocosa- 
mente, no Jornal do Povo, (*) Revista dos Dois Mandos, com um pseudónimo pica- 
resco: /Anastácio das Lombrigas. 

€R mulher . . . amei-a com um vívido ancear d? velho por volumosa pitada de 
simonte ! Amei- a com os lábios, com os olhos, com as entranhas e com este meu 
reumatismo agudo por noites de tormentoso inverno. 

«Em tardes de primavera foh!) eu, cora ela enroscada no pensamento, sentwa-rac 
nas escadas da Trindade. Os sinos badalavam-me canções prenhes da tristura e 
saudade. 

«Era delicioso, ouvir, então, cá dentro do peito, o melancólico badalo da minha 
alma a dobrar por defuntos. 

<E bem defuntas eram, então, as rainhas crenças. 

I\o inaugurarcra-se os bailes da /Issembleia nesse inverno, declarava para que 
cia o soubesse: 

«O baile da Trindade foi para mim uma seara de ilusões vivas e verdes como 
viçosas abóboras meninas. Foi lá que eu, viçoso repolho de amor, desabrochei ao sol 
da esparança. Lá murchai pendido como um morrão de torcida em lâmpada de 
sepulcro>. (**) 

Dizia-se interessado por certo «vestido azul com xadrez brariCO>, jungido a um 
corpo de «jaspe escaldante>, declarava ter visto «a mulhar raais linda da terra» mis- 
turando sensações do p-escnte com lembranças do passado. 

Tomavâ-o uma crise mais viva e punha-se a contar que um «brazileiro vira 
uma menina formosa a entrar para casa de seu pai, negociante de panos. O dialogo 
travara-se entre o amorudo e o fanqueiro: 

< — Esta menina que entrou é sua filha? 

< — Sim senhor . . . 

« — Quero casar com ela. 

« — E o senhor quem é? 

« — Ri está o meu nome. Informe-se. Cá venho à tarde>. 

Voltava e perguntava, assomado e lascivo : 

« — En!ão que ha de novo? Dá-me a raparigi ou não? 

« — Sim senhor. Quando qaizer>. 

«Deveis saber, leitores da minha alma, que a pobre menina era muito amada e 
amava muito um outro homem. Rmores frágeis e quebradiços de coração — amores 
vinculados apenas por liames afectuosos de alma, qutíbraram-se ao peso de cem contos 
de réis, — e ela, a coitada, como se diz nos solaus, lá foi maneatar-se ao seu poste 



{*) Jornal do Povo, 21 de novembro de 1850, 
(**) Jornal do Povo, 21 de no/embro de 1850, 



- 47 - 



de curo ; e de, que eu não sei quem é, por aí andará sceptico, descrido e mal íerido 
cm suas crenças como homem que não tinha em terras de Santa Cruz grangeado 
bom cabedal na inocente e incuJposa escravatura. (*) 

Vivia assim destemperadamente ; procurava estonteamentos, não faltava nos outei- 
ros, em Santa Clara, em São Bento da Avè-Alaria cm cuja grade ia encontrar uma 
nova ligação e numa locanda, de portinha baixa, engastada, quasi, na kbrica reli- 
giosa, os vinhos, as geropigas, os licores cora que os poetas se consolavam quando 
falhavam os mimos da reclusa. 

R freira que o prendia, pelas mesmas razões de distracção das outras, chamava-se 
D. Izâbel Cândida Vaz Mourão; o Iccandeiro Frutuoso José da Silva Hires, homem 
de trabalho c probo cuja única ambição era educar os dois inteligentes filhos (**) embe- 
bsdando es viciosos. 

Embriagados, porém, andavam os poetas com os olhos das monjas a ponto de 
se provocarem em rixas e pugnas à conta de motes e de competências poéticas* 
Trcslâdâda a questão para os jornais, Camilo, que se sentira ctacado por António 
Hires, alarmara o Porto cem a revelação de ser da autoria deste certo poema intitu- 
lado ãs Comendas, no qual se bexigava cruelmente a nata dos comei ciantes: O J^lpen- 
durada, das necedades; o Trindade, dos foguetes; c Massartlos, do contrabando; o 
JVloser, da rebeca, o S. Lourenço, o da alfandega, um aJfubre rico de barões e ricaços 
cuja irílucncia na praça prcjudica\ra o pai do jocoso versejador seu ciitico. 

Essa pugna acicate-ra os nervos do escritor; as suas relações com D. Maria 
Brcwne renasciam, no mesmo platonismo. Ou ela as reprovocara ou a cidids atri- 
buirá, no seu falsete anónimo, intimidades maiores do que as existentes entre a pre- 
ciosa e o literato. 

Mesmo pelas fiiagens de dezembro Camilo ia aos abadesssdos sob es grades da 
Santa Cfara, iluminadas a capricho, e Icuvava a sua religiosa de S. Bento. 

Ela d'2via segurel-o e excital-o peio acarilado apsritivo do habito, d< louca, das 
prendas de sereia dt? coro, de acatiteda e romântica monja. Parecia um dos poetas da 
Arcádia — como esse pobre Bingre, de nariz rcxo que esmolava no Perto e íôra amigo 
de Bocõgs; — ressuscitava na decadência das clausuras os ssraus de íida!;;o3 e sorores. 

Defrontava-se cem o convento a rua do Loureiro, visinha da vtlha Sé e os 
moradores, em noites da outeiros perdiam os hábitos de se deitarem, à hora das 
galinhas, e ficavam a ouvir as gargalhadas dos vâtes e a andada lenia da patrulha 
da municipal nos seus grandes capotes e num rumor de armas, As freiras iluminavam 
as grades com íijelinhas de cores, Ismpadas e íaníernins, e, de lá de cima, enfeiti- 
çando os concorrentes etiravam-ihes olhares ternos e os motes num giaade ressaibo 
de corte, de tradição e lam-echismo. 



(*) Jornal do Povo, 7 de Novembro de 1850, 

(*♦) Foram o lente da EscoJa Medica dr. José Fiutaoso Aiies de Gouveia Osório e seu irmão Antoeio, 
lente da Universidade, duas vezes ministro, bispo de Bethesaida e arcebispo de Calceácnia, nm grande 
elegante mesmo em vestes talares. 



— 48 — 



De quando em quando, como nas festas celebradas de Olivclas e da Rosa apa- 
reciam enormes bandejas de doces magníficos, de amêndoa, de ovo9, os sonhos afa- 
mados, guloseimas eciesiaslicas com que as bentas tentavam empanar a reputação 
popularisada do manjar branco e dos pasteis das de Santa Ciara sob cujas rc-xas os 
versejadores também se esgalgavam amantes, inspirados e gulosos. 

S. Bento de í\vé Maria era, porém, mais rondado por Camilo e seus cúmplices 
dos namoros sacrílegos ; olhavam as paredes altas, escuras, pelas noites como se 
gosassem em sentir o eco vago das reuniões poéticas. Vinham de lá como chama- 
mentos amortecidos; um vozear sobressaltado, cm estrangulamentos. Eram os papagaios 
das moças de coro c das noviças seculares c professas, acordados por algum ruído 
mais forte, a inlerpelarem-se em risadas, em gargarejadas frases, quebrando os sonos 
e a regra da casa fanhoseando à laia de madres octogenárias. 

Datinhamse os noctívagos na tasca rentinha com o miradcuro por detraz de 
cujo balcão ressoavam as tairocas do senhor José Fructuoso, do pai dos inimigos do 
bando, dono da quícitanda mais frequentada da Porta dos Carros. Servia-lhes vinhos 
da Companhia a seis vinténs quando o Guichard lhes levava um pinto, genebra de 
Holanda e aguardentes arrasantes. Fechava cedo, um pouco além dos toques dos 
mariolas. Eles começavam a deambular mais à vontade, na espessura embreada 
quf.ndo o luar coado pela eterna neblina da cidade, não alargava manchas sceno- 
graficas sobre a Yetus'ês das muralhas, torres, templos, todo o arcaísmo do burgo. 

Entravam no teatro de S. João a afrontar os schius, os protestos dos que gosavam a 
opera com £tençõ2S de pasmados, querendo desforrar-se do dinheiro gasto, muito chorado. 
Outras vezes quedavam-se à porta olhando os veículos a descobnrem os pertencentes 
-às suas queridas do momento. 

GaI?gos de capotes de dois cabeções c chapéus altos para a nuca, os portado- 
dores das cadeirinhas, descalçavam as luvas de algodão e roíam nacos d? broa 
conduitados de toucinho ou de cebola, sentados nos varais, no intervalo do frete ; 
bolieiros fadisles, tilintavam as esporas metálicas, o penante à banda c a perna, ves- 
tida no cano da bola alta, vergada com o pé cambo, à facaia ; os bois das pesadas 
maquinas do Oliveira — os carrcções cnde [se arrumariam as famílias — remo'am 
rações de palha milha, descangados, babando-se e piscando os olhos à iluminação da 
fachada em gala. 

Se adregava uma vaca dos carrões particulares mugir saudosa da abfgoaria, 
logo, como num coro à ruminante prima dona, os bois alteando as pesadas cabeças 
as estorciam expelindo das gargantas profundas retumbancirss cavernosas. Os servos 
crguiam-se dos degraus das escadas destinados à subida dos passageiros e de agui- 
Ihões altos, increpavam o gado. Se chovia òs bátegas desembostava-sc a frenta do 
teatro, de contrario ficava a portaria atapetada de escorrencias e detritos da arribana. 

Os janotas, sob as luminárias, mostravam-cs paktots à President, as cslças de 
xadrez, es mantas à Joinville muito em moda com as capas de gola de peles banda- 
das de veludo, derradeira reminiscência dos rebuços das aventuras do século anterior. 

Pela orla destes abrigos passava, à laia de ponta de espada moura o encastoado 



Foi. 4 — 49 — 



de chifre recurvo das bengalas, presas aos pulsos por correias fortes e que depois 
de esmocarem o adversário o continham em respeito no bico agudo dum punhal de 
dois palmos, saído do castão num impulso de mola de bom jogo. h arma de Camilo, 
era pois um mixto de cacete e baioneta. 

Fora num dos corredores dos camarotes que o escritor, em certa noite, dera 
muito que falar do si, acrescentara à sua má reputação mais a balda de desordeiro 
decretada pela gente seria, de peso, de boas normas : sua inimiga. 

Se consentiam a um morgado a desafronta rija, censuravam o arranco nos des- 
nobilitados levando-o á conta de desordem de gente ordiosria, de carrejões ou matu- 
tos da Ribeira sempre em unhas da policia. Descadeirar um sdy/ersario cm publico, 
derrubá-lo à cacetada num teatro ou num jardim ccnstituia pecha de monta e dava 
falatório para quinze dias na Praça Nova onde os «brdsileiros>, intercalavam de ahs ! 
prolonejadas as narrativas, tilintando nas algibeiras chaves e libras. 

Camilo andâva num período de nervosismo agudo. Jamais vcltara o rosto a um 
adversário apesar de fraquiío, nem deixara sem resposta quem se lhe dirigisse. Por 
causa da freira que requestava, um jornaleco /i Pátria, esporcara-o numa troça mo- 
vida pelo seu redactor João Augusto Novais Vieira, (*) Era um pasquineiro banai 
servente de todas as protervias para as quais fosse precisa uma mal apurada pí:na em 
vez duma sevilhana amolada. Como todos os subalternos empcçonhava-se em inve- 
jas dos esclarecidos espíritos. Pertencendo a uma família miguelista desesp^rava^sc. 
ante o desdém dos fidalgos que o viam com sua pesporrencia, seus charutos remor- 
didos e suas alcunhas — o Novais dos Reportorios, porque até fazia folhinhas, e 
Novais dos Óculos pdas lentes fortes usadas por sua miopia — sem lhe darem 
atenção. Julgivam-no como seus avós, havia menos du.na dúzia de anos, aos vates, 
que lhes serviam sonetos muito veniosos, de habito de Cristo ao pescoço, raelifluos à 
espera das trouxas de ovos da sobrcmeza. Lidara na arte tipográfica, enchera-se de 
ambições, pretendera horabrear nos outeiros com os literatos que o desdenhavam c 
ensaiava com os almanaks, um grotesco romance histórico : a Marquesa de Cambã^ 

No fundo não passava duma consciência de aluguer, dum desses castrados da 
literatura que se empavesam cm atitudes varonis. Como prosador bosquejava em 
decalques reles a novela péssima, como poeta anuaciava-se, deste modo numa com- 
posição : 

O Parlãmenio e a Imprensa 

em parte original, em parte imitada, em parte traduzida do francez por Novais Vieira^ 

Guerreando Camilo embuçava-se no anominato. Escolhera, porem, um momento 

péssimo. O literato que desafiara o Porto, o arrastara, atacara directamente os seus 

ricos homens, disds os que íáziara casamentos até aos que davam esmolas cora a 



(*) No livro do sr, dr António Cabral Camilo Desconheddj descreve-se a rixa a pags. 280 e se- 
guintes. 



-50 — 



instrumental do elogio das gazetas, scntira-se entediado ante ss vàrrinas sujas. Ele, 
que combatia rijamente, em eito diapasão e prosa ressonante, não compreendia que o 
pretendessem ferir com uma arma de vileza. Não considerava escritor quem lhe 
aludia cm termos semi-obsccnos. Como ura paladino do século anterior, diante dum 
soldado raso dos terçof mercenários, não floreava o seu espadim. 

Tinham-lha chamado «cavalheiro industrioso da sorores» numa alusão ignóbil á 
Soror Dolores da qual diziam já «não pinga tanto como dantes> tendo ele, por isso, 
alvejado outra soror . . . soror verdadeira, porque é na realidada cnclaustrada.> 

Vinham acusá-lo de rufião, alfinetavam-no num epigrama piíio, ao seu pseudó- 
nimo c ás suas relações intimas: 

Fezse o Lombrigas, alvar 
Um verdadeiro ^portento 
Descontou a «Sé» ao <í.Carmoy 
Tudo em louvor de S. Bsnto (*) 

Com efeito andava iscado numa ligação cora a monja na qual encontrara os 
alrativos do def.?zo. Ela ia nos quarenta e t.il anos, mss, a Brcwne tinha tantos corro 
o século pois nascera em 1800. i£rr: soror habel Cândida as grapas quii lhe encon- 
trava deviam estar nas vestes, nas abstinências do sexo, nos rigores claustrais, talvez 
mesmo na sua altura, no buçosito, na psie trigueirona. (**) Porventura os românticos 
devaneios de sua alma enjaulada num peito desaraoroso até então, suas conversas 
cultas — porque as tinha — a bisbilhotice conventual, aqueles enredos de gaiolas de 
mulheres de corações esmagados, constituiriam, de começo, um entietenimento para 
o desespero do escritor e depois um habito, com seu saibo de preverso pelo sacri- 
légio de a ter cm seus braços. 

Visitava-a cm S. Bento de R\è Maria; naturalm€nt3 clrj corrompera os «tachos>, 
as moças de servir, deixara-lhes o encarg") da comunicação depois do salto pelo 
muro alto, por banda da estalagem do Cantinho, c no seu cgoismo da idade mais 
perigosa das mulheres, devia desejá-lo para si, no recato daqusle amor proibido. 

Arranjava manhas para sair do mosteiro, idas a ares, anos de parentes, doenças 
súbitas para estar junto dele c quando regressava devia vir mais desiludida. R freira 
só interessaria na cela visto os acicatantes perigos a correr para se lhe achegar, o 
ambiente, ainda a poesia arcadica c fidalga, evocadora de Odivelas, a coar o pro- 
saismo dos beijos quarcctões. 



(*) Pátria, 21 Lineiro de 1851. 

("*) O ilustra escritor Alberto Pimentel conheceua depois de 1865, isto i, a doze anos ou miis de 
distancia dos amores com Camilo, e achara que «conversara com an<mação e espirito contando casos 
do conrento e casos da cidade como se conhecesse e$t3s tão bem como aqueles. Mas a freira era velha e 
feia — continua aquele autor — trigueira, ani^nlosa e alta, tinha a voz forte, ura nariz respeitável c 
sombrat de buço, 

Alberto Pimintel O Torturado de Stlde, paj, 26. 



— 5!- 



Hquela vida, toda de paixão romântica pela filha do Plácido, dessedentada cm 
caricias dg outras, levava-o ás tunas de noctivagos ; seus padecimcrtos de corpo não 
o detinham na íuria de se atordoar. 

R D. Eufrásia, sua hospedeira, rodeava- o n-uito carinhosa ao vê-lo enfermar a 
miúdo. Ciiamava-lhs «emplasmado (*) c isto na si a boca era duma doçura familiar^ 
meiga. Dedicara-se- lhe desde que o conhecera, havia tíois ancs, fazia-se sua serva e 
mesmo quando ele não habitava na rua do Sol nuir.ero 8, a moradia da confidente, 
via-o chegar a visita-la frequcfitemente e aninhava- se lá á menor tíôr, muito á vontade. 
Associava- a a casos de tomo; contave-llis a sua vida, numa larga necessidade de 
expansão, crente era auxilies pêsscais, achando- a cepaz de sacrifícios. Quem sabe se 
uma afeição mais forte — anichada nessa alma trcbalhadícira — não era o que a su- 
bjugava a seus caprichos como a Mariana (**) do romance, depois imaginado, se do- 
brava aos desejos mais extranhcs de Simão, o de muito amor pela terna Teresinha} 

Devia, porém, ser de mais prosaísmo. Tinha uma filha nascida duns amores e 
que também tratava do escritor mas com menos cautelas. Ele classiíicava-a de estú- 
pida. (***) Queria, porém deveras á mãe; com generosas palavras a inccrporeva na 
«espécie de família que não posso amputar da rainha alma afeta e agradecida. Falo 
da Eufrásia c da minha filha.» (****) D^ixava-lhe entregue a creança ; narrava-lhe os 
seus segredos, melhorava com as suas atenções de cníjrmeira e quando se despedia 
via-a chorosa. 

Tinha-a como uma ccusa sua; erapurrave-a a extremos, fascinava- a, tornava até, 
intermediaria de seus volúveis craores aquela a quem chamava a D. Eufrásia, de- 
nunciando neste tratameiíto, ao menos, antigas raedianias, trambulhâdas, decaídas. 
Sabia muitíssimo da vida dele; embrechara-se na sua iatimidade c não extranhava 
as arremetidas de seu génio violsnto que, geralmente o levâva a escorchar os adver- 
sário com a pena. 

Desta vez, porém, deliberara dcscadeirar o atrevido á bengalada. 

Nessa noite, o romancista, decidido a bater no folículcrio, topara-o já nas mãos 
de D. Luís da Caaiara (*****) ofendido, também, pala folheca. Quandaesle lhe atirou o 
ultimo empurrão Camilo deu-ih? bengaladas até que o seguraram. O agredido recorreu 
para a policia e a burguesia desembestou contra o castigador. 

É que mesmo nas visinhanças do tribunal tenlara de novo esmurrar o queixoso. 



(*) Nas Cem Carias de Camilo a Barbosa e Silra, anotadas por Luiz XaAier Barbosa, pag. 15^ 

(**) Do Amor de Perdição 

(***) Camilo — Nas Cem Cartas p-.g, 127 «a estupidez da filha da D. Esfr^zia a qaem a mãe já 
transmitia quatro solenes bofetadas > 

(****) Idem, idem na de 25 de maio de 1857. 

(*****) D, Luís da Camará era, segundo o sr. dr. António C^bra]; o mesmo qua chegoa a par do reino e a 
ministro. Devia ser nesta época da questão com o Novais capitãa do estado miior. Frequentava muito os 
palcos, foi escritor militar de nomeada e csscu com a grande actriz Emília das Neves e depois com D, Ana 
de Albuquerque, a qual tambrm foi artista no teatro D. Maria IL 



— 52 — 



Foram presos e o processo seguiu para juizo (*), sob o alarido dos portuenses do 
trafego. 

R fama das suas desavenças começava a irritar tanto como a dos seus amores 
Não bastava já aquele bichanar acerca de tão grada senhora, como era a Browae,. 
apareciam ainda as culposas e Ímpias rehções no mosteiro da i\vè-Maria e o acrés- 
cimo das zargunchadas ao casamento de Rna Placíáo! Todos aqueles insultos aos 
lidadores da cidaBe trabalhadora, as suas acções, o seu desplante alvoroçavam os pais 
de íamilia. Deste momento da desordem em diante apareceu como ura demónio só 
cm maleiicios embrenhado. Andava nas mãos da policia. Alem da queixa pelo espan- 
camento, fôra-lhe promovida, pelo autor das Comendas, uma querela; falava-se dele 
com ódio e gargalhava-se em íuria, num descomedimento repulsivo, quando o Jornal 
do Povo (**), que anunciara a matricula do polemista, no seminerio episcopal, publicava 
os folhetins de Anastácio das Lombrigas. 

Chamavam-lh3 mais do que nunca sacrílego c impostor, c ao verem-no com a 
sua andaina de casemira Hlbeit e chapcu alto novo perguntavam a si próprios como 
pudera ddr entrada nas aulas de tão pio estâbâlecimento semelhante corifeu de 
valdevinos. 

Que singular padre ele seria com o cão enorme alraz dando, pelo romântico 
nome de Martirioí 

Comentavam-lhe a decisão porque ele ainda se ficava, cem o seu bando, a ver 
nas saídas dos espectáculos, as meninas recamando as tarlatanas, de capas amplas e 
lencinhos brancos sobre os artificiosos penteados, espreitavam as subidas para as 
seges e carroçõas, gulosos do começo das pernas ecfitadas a negro sobre as meias 
alvas; seguiam o marche-marche dos mariolas sopesando os varais e dos escudeiros 
de lampeão aceso, a derreter cebo, csfurancando a treva que a purgueira muni- 
cipal e as lâmpadas dos nichos, real feria tornando-a em seus vasquejos duro 
arroxeado sinistro. 

Por todas as ruas um poucochinho mais cedo, como numa fantazia necropolica 
de fogos fátuos, surgiam luzernas; visões leves pareciam adejar, pirilampavam, 
sumiam-se, reapareciam c cvocava-se um quadro de cemitério com avejões procis- 
sionando suas tochas, ou Saltitando cm seus macabros meneios. Eram as famílias 
que voltavam das assembl?as ou reuniões; ouviam-sc vczinhas suaves cortando outras 
mais cavas: Adcusinliol Adeusinhol £ num ribombo as dos pais: Boa noite! Não 
se constipem . . . 

Depois batucavam as solas das botas fortes, escorregava- se nas lages, com me» 
dinhos, c tudo aquilo se perdia nas escadas, atravessava as ruas c sumia-se, ficando 
a criada a apertar o morrão da lanterna nos dedos molhados de saliva. Batiam com 
as portas nas caras dos basbaques quando não eram suas cúmplices. Eles iam, dar 
a sua volta pelas caáas de jogo dos dados, de esquineta e sob as manchas fortes da 



(*) Foi anulado o processo na Relação em 29 de Abril de 1851. 
(**) Jornal do Povo de 9 de NoTCmbro de 1850. 



-Si- 



iuz espalhada num íulcro pelos abatjours de lata olhavam os gestos gananciosos, as 
pintas dos CLbositos, as unhas sujas dos parceiros. O resto dos vultos mergulhava 
na sombra vasta. /Uteavam-se disputas, desordens por causa de naipes sumidos com 
pego pelos espanhóis da banca, de ares matreiros; tilintavam libras sonoramente c 
creadss de rô.tos viciosos serviam punch e aguardente de contrabando. 

Também, em noites de n''ais desabafo, e tíe abonada bolsa, iam de balida nas 
seges da Hiigelica Ccrneiro. 

Alefazarreavam quabrando o silencio e recaíam em tristuras quando luzes de 
cirios, de lanternins esfurancavam o espaço: ou era uin funeral ou o Santíssimo. E 
eles curvavam as cabeças loucas emquanto os cortejos se perdiam no nevoeiro c> 
depois iam assistir à abertura das bodegas de Cima da Vila, rivais do Pepino do bo- 
tequim e quando a madrugada mostrava com o seu ultimo bocejo, o esboço de seu pri- 
meiro sorriso, os estúrdios sob a nebelina a íundir-se, embrulhados nas capas, escutavam o 
matraqueio dos tamancos, meditabundos, bêbados de ideal, de sono, de vinhos e comoções. 

Passavam, para o mercado do Rnjo, as padeirlnhas de ftvintes, muito dcsnalga" 
das, as cintas a quebrarem-se, musculosos os braços de remadoras, cestinhos à cabeça 
no tique taque das chinelinhas de verLÍz, e deixando um perfume de broa quente i 
lavradeiras de cordões grossos carregavam ortaliças frescas c os homens apressavam" 
se levando os garotitos para a faina os saquitos do almoço e num tilintar de ferros, 
jungidos dois e dois, marcharem os forçados para o calcetamento das ruas. R soada 
tropeante dos socos de obreiros subia como uma ordem de despertar, um rufar dos tam- 
bores do trabalho nas alvoradas ncblinosas que pareciam ter vindo com os britânicos 
para o Porto numa conquista londrina sob a luz de Portugal. 

Mas daí a pouco tingiam-se de róseo e oiro as velhas muralhas, rebrilhavam as 
rosáceas conventuais, ilurainavam-se os Clérigos, a Sé a serra, os montes dalém até 
ai afogados no nevoeiro e o Douro, surdindo como dum cortinado de rendas capri- 
chosas e niveas, alongava- se em azul tracejado pela ponte pênsil, diante dos 
paredões da Ribeira com seus casebres de bocarras negras como sequiosas da agua 
loira do rio. Os zimbórios, os monumentos, os muros de Cima de Vila, da Porta dos 
Carros, os edifícios, despojados das sombras, fréchavam-se de luz nos bons dias ou 
Cc franqueavam tristuras nas invernias aborrecidas. 

Hlteavara-sc os pregões pelas congostes, as criadas punham as cancciinhas ver- 
des nas portas, saracoteavam-se as costureiritas, cm suas capas de três bicos, caixei- 
ros açodavam-se, ingleses, cm largas passadas, de cachimbos nos dentes, avançavam 
como maquinas para os escritórios, para o ganho. Tilintavam os sinos anunciando as 
missas pobres c o Porto acordava, agitava-ss na sofreguidão da labuta. 

Os poetas bocejavam e iam deitar-se tontos de amores, de quebreira, de ilusão, 
cacharoletados cm fermentações de vinhos finos e afamadas bagaceiras. 

Camilo quando era acordado às onze horas da manhã perguntava, indignado, 
porque o despertavam «entes do romper do dia > (*) 



(*) Vieira de Castro — Vida de Camilo Castelo Branco, 2,^ edição, pag. 129. 



— 54 — 



De certo tempo em diaate, nesse segundo mês do ano, o escritor mudou de pro- 
'ccdiraento e de trajo. Encantravam-oo de olhos baixos, a luneta sem cordão, envergado 
numa roupa negra ou numa espécie de levita. Eclesiástico no porte, modificado até na 
voz c no andar, parecia ter sofrido, a súbita, alguma extranha influencia. Mal se acre- 
ditava na transformação; quasi o encaravam como um farcista a fingir-se tocado 
pela graça. Punham raaito de reserva as suas ideas e os seus modos. 

Por feitio jamais se coadunara à disciplina. Nas aulas que frequentara no Porto, 
como preparatórios para a Universidade, cabulara. /Iprendera gramática c latim, fran- 
cês, filosofia moral e racional e cora esta bagagem, alem da anatomia, qu^ lhe agra- 
dava, abrira matricula na Escola Medica c na Politécnica. Em vez de se agarrar 
com alma ao bisturi e às retortas preferia- lhes o violão; e o lente, o antigo egresso 
Joaquim de Santa Clara Sousa Pinto se não lhe cscitou as serenadas também não 
lhe palpitou a sciencia. Costumava fugir, de cócoras, por entre as bancadas, ancioso 
de ar e da luz falhados no âmbito do estudo impregnado dos ácidos e da palavra 
do frei, escurecido mesmo nos dias de sol, por uxa grande saudade de deambulismo 
4as ruas c dos olhos das costu'eiras amadas pelo escolar. 

Um novo frade, expulso de seu convento, benedictino e, como todos os da sua 
ordem, douto e grave ia ser o professor de quem tentava reabilitar-se mais aos 
próprios olhos que aos de seus críticos, embrenhando-se na religião. Começara a 
canta-la em seus versos e embora eles não fizessem prova em exames, deviam pre- 
dispor os mestres a seu favor. 

O reverendo Hntonio Roberto Jorge, cx-cgresso e cónego capitular, pregador e 
^abio, ensinava no seminário desde que se fechira a sua cela, e em nome da liber- 
vdade, fora atirado para a miséria. 

E' crivei que o bondoso sacirdotc ignorasse os hororrcs da vida profana do seu 
discípulo de ares tão contrictos a penetrar com unção na casa religiosa. 

O Seminário Episcopal era vísinho do paço do bispo; os alunos entravam gra- 
vemente, ficavam-se a escutar os professores que repuxavam a sciencia e as ventas 
simontadas. Ele voltava-se para Deus, enaltecia o padre, rejubilava com leituras sacras 
e todo dominado, peio seu luto de alma, encontravam-no de cabeça baixa a passear 
entre as arvores do Candal, onde amara uma costureira, ou a olhar para Gaia quando 
erguia a vista, contemplando as casinhas brancas, ouvindo correr as aguas. Estava 
muito mudado. R sua face parecia mais pálida no realce do negrume da veste. Cantava 
Deus, a Virgem, resava iivè-Mârias, muito agarrado ao latim, a alma perdida da 
terra, volvida para o ceu. Ia fundar-se um semanário, o Cristianismo, e nas suas 
paginas verteria lagrimas ante o Altissimo, ensimesmado numa ânsia de purificação. 

As suas composições poéticas eram como um bálsamo derramado nas próprias 
feridas, aquele desejo de renuncia ao mundo levava-o a imaginar-se já na vida reli^ 
giosa, sagrado sacerdote atirando o seu sermão literário ao Porto ajoelhado. E quem 
sabe, se confusamente, no seu torturado espírito, ele não a veria a ela, à Ana Plácido, 
que não podia olvidar, prostrada também chorando ao som das suas palavras de 
bondade, separada dele para sempre como num romance triste. Para se despedir 



— 55 — 



dela, para se lhe recordar, nesse mesmo ano, publicara o seminarista, o seu primeiro 
livro de versos. Era muito profano; chamava-se Inspirações e a dedicatória abonava 
pouco seu zelo eclesiástico. Seria, aos olhos dos crentes, como a derradeira tentação 
do demónio ao que desejava tornar-se um eleito, um padre e como ele dizia — um 
dos destinados a erguer «o facho da verdade>. 

Oferecia-o a A*:(=>f, que não era, decerto, nenhuma santa do ceu, embora a 
guardasse no seu coração como num sacrário. i\^:*=,, formosa como as imagens, 
charaava-sc /\na e estava casada; escrevera mesmo algumas cartas ao seu compa- 
nheiro da infância, que se lamentava não a vêr amal-o como ele queria. 

Já muito do fundo do seu peito, era para Camilo que ia a sua paixão. O outro 
íôra apenas um doce passatempo; es olhos que lhe dnham dito cvive!> não os esquecia,, 
embora não os tivesse tornado a vêr senão de fugida, e assombrcados por aquela 
resolução de renuncia, cativos das cousas divinas, como se depreendia de sua tristura. 
Mas como sentia assim, se ainda à mulher querida consagrava a obra dz seu^ 
espirito ? 

São teus os carmes que escrevo 
Teus, meu anjo inspirador, 
Tu me inspiras na alegria 
Também me inspiras na dor. 

Dizia-se repassado de fel ao traçar aquelas trovas que não eram dele, pois que- 
ceu nada tenho alem do teu amor». 

Guardava-o já como uma certeza, a tão carta distancia do noivado dela c erre 
que se convencera da sua victoria moral. Não esperava, pDrém, tornal-a sua c daí. 
CSS2 volttface para D^us, renunciando càs outras>, querendo mostrar-se-lhe fiel. 

Sonhei-te errante sombra! eu vi-te a imagem 
EnDolta nos arminhos transparentes (*) 

Hssim se lhe dirigia e logo se enleava nas Hossanas (**) parafraseando os sete- 
salmos penitenciais, dando o seu frenesi às belas visões bíblicas e dedicando tão dôces- 
versos a outro dos seus professores, o reverendo Baltazar Veloso dz Sequeira. 

É que ele não estudava; visionava-se a receber ordens e a admirar os incrédulos, 
mas faltava às aulas, não ébria os livros das disciplinas, desdenhava as lições prefe- 
rindo ao curso a sua inspiração, os frutos do seu talento a Deus votado, em prosa: 
e verso, bem como a Maria Sanlissima e à morte de Jesus: 



(*) Camilo — Inspirações. 

(**) Id!m — Duas Épocas da Vida, pg. 259. 



— 55 — 



Julguei pela dar dessa mãe carinhosa 
Que espada no peito da Virgem desceu 
Ao vêr que seu filho, voltando-lhe a face 
Sucumbe ás torturas, perdoa, morreu. 

Se para ser sacerdote bastasse poetar e defender magniSicos arroubos religiosos 
ninguém ganharia mais direito á tonsura na Sanfa Egreja. Mão conseguira apuramento 
nas aulas, dera quarenta e oito faltas, (*) e dirigia-se ao seu proiessor, ao qual não 
pagada, solicitando uma certidão com a nofa cmuito b£m.> Conseguia-o pela imensa 
bonda.ic dos reverendos, pelo desejo de verem nas suas fileiras semelhante en- 
genho c, jscbretudo, porque o governo autorisara o perdão de actos aos estudantes 
de todas as escolas de Coimbra e Porto. 

Dcra-se um grande acontecimento politico. Saldanha, rebeiddo contra Costa Cabral^ 
sentira-se ebandocado pelos regimentos e tomado da certeza da derrota, o cabo de 
guerra retirar ase pa''a Lobios, na Galiza. Porém, mais uma vez a sorte o devia aca- 
lentar. K guarnição do Porto revoltara-se e charrara-o; as tropas que acompanhavam 
o rei D. Fernando deixaram-no com elguns ajudantes e duas ordcnònças c o ma- 
rechal triunfante, sem combater, vencedor, o velho cheí?, pela reflexão do exercita 
entrara em Lisboa. Os capotes de dez moedas tapetaramlhe o caminho ; as mulhsres 
lacçavam-nos para debaixo das patas do seu cavalo. O povo aclamara-o delirante- 
mente. D. Maria 11 chorava de raiva ao senti-lo senhor do destino da politica. Inicia- 
ra-sc o movimento chamado da Regeneração. 

Por isso, os escolares eram dispensados dos exames e Camilo ganhada acesso 
c direito a ordens menores. Era a sua regenerõção. 

António Ferreira Quiques, grande inimigo dos Cabrais, fora nomeado, após a 
vitoria, ao que se garantia, comissário geral do exercito do norte. (* ) 

Em vez dos dias sombrios da emigração apareciam-lhe honrarias e proventos. 
/\na Plácido reincidiria na falta de lh2 escre>/er: dcsbastar-lhe-hia os sonhes lenta- 
mente até que a soubesse apaixonada por um verdadeiro poeta. 

Neste ano, Camilo colaborou mais assiduamente no Cristianismo do que nas ga- 
setas profanas; requerera do bispo o iniciamenlo de minorista e ela — a amada — 
devia sabe lo, visto lírgamente, o Porto comentar semelhante resolução. 

Vivia retirado (***)e m Vilar do Paraiso, c, scntindo-sc numa antecipação da bem" 
aventurança, integrava-se nos livros santos, prcndia-se, com o fervor de todos o^ 
neófitos por fé nas novas ideias que o refrigeravam preparando-se já para, no futuro, 



(*) Docamcnto E 

(**) <Foi nooieado chefe do comissariado do exercito de opzraçSes o sr António Ferreira Quiquei. A 
Bomeaçã) foi acertada ; o s'. Quiques renne a uma grande probidade mnita pratica e inteligência > 

(Do Nacloiml.) 
{**") Viro muito retirado : casa, zula e conrento — não tenho outra vida. 
Camilo Cem Cartas a Barbosa e Silra — por L. Xavier Barbosa, pag. 105. 



anotar na sua letrinha bem talhada, a Nouvelle Vie de Jesus, de Strsuss, cm curio- 
sidades doutas. (*) 

Por vezes, porém, no meio das suas alucinações histéricas devia ser só o pro- 
duto duma sugestão romântica. Praticava ura acto novelêsco mais do que es rigores 
do dogma; prendia-sc a um celestial cnl"''^ ^'•^^'^ f^^ «""^ j-r.r^ntp áz romancista e 
■abandonava as praticas do ritual. 

Contundia os seus pesares de amor cora uma vocação decidida de se tíar á 
Egreja. Ser padre equivalia á renuncia dos beijes, a ura suicidio moral. 

Tuuo isto não aparecia assim aos olhos da mulher provocadora de tanto deses- 
pero, a qual sentiria na dedicação da vida antiga do boémio tumultuario o palio er- 
guido dum grande, dum soberano, dum inegualavel amor. 

O lirico da religião amava- a como ás inacessíveis aspirações muito adoradas, 
■emquanto não se materialisam. Jurava cortar as suas pecaminosas relações com a 
soror Isabel Cândida. 

Resava a seu modo como os poetas oram, num rosário de fantasias, e ao pro- 
nunciar as lindas sílabas que dizem «chda de gíaça> não saberia separar a sua 
paixão humana do culto pela divindade. 




— 58- 




Casa de Ana Plaeldo na 

Ruã do Almada, 385. 

Porlo 



i 



i 



IV 

DESTINOS DE TORMENTAS 



NftUFRfiGIO DO VAPOR <PORTO> — MORTE DO PJ\E DE i\N/\ PLftCIDO — 

FERREIRINHft DA RÉGUA E A CrtTASTROFE— ARDIMENTOS DE RICARDO 

BROWNE— DUELO DE CAMILO— DEFEZA DO CONDE DE BOLHÃO 

— COMO OS VERSOS VENCEM — UMA PERSONAGEM 

TRAÇADA EM VÁRIOS LIVROS — «POESIA OU 

DINHEIRO»— <MENTIDAS COMO A ONDA> 



ANTÓNIO José Plácido Brsga aceitara ir a Lisboa, a pedido do genro, do Fer- 
reirinha, cuja demanda com a mãe andava cm maus termos. Naturalmente 
conliava mais na procuradoria do sogro, afeito aos negócios, do que na sua 
inexperiência de filho familia estúrdio. Continuava a disputar primazias de gineteria 
mostrando os seus cavalos ao despique cem os dos fidalgos. Ho tempo já Ricardo 
Browne guiava um phaéton ante as arrelias da Praça Nova. 

Os «brasileiros>, desviados das portas mal pintadas do Guichard, os dedos meti- 
dos nas cavas dos coletes de sítim, scintilantes das correntes c berloques, roíam na 
reputação de D. Maria Felicidade cmquanto o janota conduzia os baios. 

Estava-se no fim de março; apczar da neblina espessa das manhãs, as tardes 
douravam-se de luz, bafos primaveris perfumavam o espaço trazendo vagos cheiros 
de pomares e roseirais. O Porto desencapava-se da humidade; secava a lama; os legis- 
tas encostavam-se às portas dhsndo o ceu, sonhando petisqueiras na Foz, ao ar livre. 

O ccmercianle solicitara de Pinheiro Alves licença para levar a Ana comsigo; c 
cie acedera: <que com o pai para toda a parto (*). Andava tonto de felicidade ; era 
ele quem ia a casa da Andrillac ordenar que forrassem sempre de seda os vestidos 
da esposa visto táo lindo corpo só merecer contactos delicados. Cuidava muito de si ; 
aperaltava-se. Nâo pedia, porém, renovar a alma; anunciavam se-lhe nas pregas do 
rosto glabro, as eivas do seu organismo combalido pelos trabalhos da mocidade ; cspstu- 



(*) Duma conrersa com a senhora D. Ana Corria, de Seide. 



lavam-se-lhc amarelidões nas faces, rcchupara-se; a boca parecia retraída. Tentava 
corrigir a idade cora os acepilhos elegantes, espertamente, num terrivel receio de der- 
rocada. 

Enciumava-se da mulher mas não a escondia; vigiava-a como distraidamente, 
tinha orgulho da sua formosura. Consentira, pois, na viagem com o pai. Ficaria, ele, 
no trafego à espera de a vêr regressar como para novas núpcias. 

O vapor Porto largara no domingo, 28, com passageiros de bôa sociedade: o de- 
legado da 1.' vara dr. José Hugusto da Silveira Pinto, o comerciante José Hlen e as 
duas formosas filhas, einda mais gente de negocio, o padre Leite de Carvalho, Pinto 
Teixeira, o cônsul de França mr. Destrèes, todos conhecidos, a acoraodarem-se com 
alegria, (*) 

Repentinamente Rua Augusta desistira do passeio ; preferira ficar junto duma 
irmãsita de oito anos, que era todo o seu enlevo e se chamava Alaria José. Fraquís- 
sima, anemisada mostrava na face infantil como as primeiras regras da sentença qua 
condenara elguns dos doze filhos dos Plácidos. 

O barco partira sob acenos de lenços ; deixara um rastro de espuma no rio e de 
fumo negro nos ares. Na saída da barra gingava fortemente ; oicilava entre as aguas 
do Douro e as do mar, o vento rugia no seu velame desfíaldado em brutais sopros 
prenunciantes de tempestade a varrer as primeiras lufadas da primavera. Empinava-ss 
a embarcação desobediente ao leme ; as rodas batucavam sem acção nas vagas alta- 
neiras e a corrente arrasta va-a para alem do Touro, brincava com ela, encavalgava-a 
nas cordilheiras formidáveis ou mergulhava-a nos aquáticos vales espadanantas, em 
tormentosos balanços rugidores. i\gitava-se cavernosamente e, sob o ceu empardecido^ 
as gaivotas fugiam céleres para as bandas da terra adejando empurradas psla veaía- 
nia qu3 detinha a distancia as barcaças dos pilotos. As vozes pretendiam dominar os 
estalos sinistros dos entrechoques das ondas ; lançavara-se cubos ao desarvorado vapor, 
ouviam-se os desesperados gritos dos viajantes, acorridos à tolda, erguendo os bra- 
ços, pedindo socorro e chorando ao verem os botes dos práticos fazendo -se à terra 
numa coníissão de impotência. Uma manrha de nevoeiro osultou-os em breve; o 



(*) «Mandámos já duas ou três vezes ao escritório da administração dos vapores para obtermos ama 
lista completa dos passageiros, mas tem £'doeacontradofecíiado,e por isso apenas podemos daroí segaiate 
nomes: — Josá Augusto da Silveira Pinto, delegado da 1.* vara; José Alen, e suas duss filhas; Francisco 
Vieira de Sonsa Oliveira; António José Plácido Brsga; António Martins de Oliveira; Manuel José Re- 
zende; Aoa Antónia; António Acúrcio da Silva; Manuel Fernandes Arreta; António de Pinho Branco; José 
Maria de Oliveira; João de Pinho Alho; António José dos Santos; José Gomes àz Pinho; António de Oli- 
veira Fernandes; Ffancisco de Oliveira Gomes; padre Bernardo António Pereira Leite d« Carvalho; Ma- 
nuel de Oliveira Novo; António Francisco Cançado; Custodio Maria de Oliveira; Pedro João Laforgc; o 
mestre do cntcr de guerra, João José da Costa Rezende; Jcio Manuel Vaz; Joaquim Bernardes; Jcsé de 
Freitas Oliveira; Luís Pinto; Bernardo Oliveira; Ântoaio Pinto Teixeira; Mauuel Ferreira Martins; 
mr. Destiées; Francisco José Soares; António José Ribeiro; Fraacisco Rodrigues Pereira; Domingos Ma- 
chado; José Dias>, — (Do Nacional àc 30 de Março de 1852). 



crepúsculo retocou- a num borrão mais forta e da treva, no cstrondeante refluxo, os 
brados soarem apenas como gamidos distantes. 

Foi no segredo da proíuQda escuridão qua se passou a tragedia. 

Houve quem se despisse da cintara para cima na anciedade de nadar cm 
busca da salvação ; José i\Un tudo oferecia pela vida das filhas, o rasgistrÊdo Sil- 
veira Pinto ajoelhara a chamar por D^us quando um maior estrondo aterrorisara os 
náufragos. O madeiramento do costado do Porto cedia, abria-se, descalafctava-se e 
dentro em pouco, algumas taboas boiariam à mercê do infinito capricho do mar 
infindável. 

Os que estavam em terra gritavam lambem, mas não tentavam cousa algama,^ 
receosos, amedrontados palas furiosas arremetidas dos rodilhões barrentos e sonoros 
contra a praia. 

Subitamente vcrraelhejavam archotes ; Ricardo Brownc, no clarão oscilante, ao 
lado dos seus amigos Delfim Maia e Ribeiro da Costa, procurava animar os práti- 
cos. Faiavam em largar do Cabedeb a tintar um reboque com os lanchões. Mari- 
nheiros de caras encortíçeda', abanavam as cabeças, julgavam escutar doidos de amar- 
rar dizendo desconchavos naquela orla do mar bravo que cuspia violentamente cóleras 
nos seus rostos. (*) Outros rapazes acaudilhavam os arrojados portuenses sem moverem 
os da maruja e quando um mais decidido qu'z desamarrar um boíe, fazer um ullimo 
esforço, as vivas arestas das vagas repeiirara-no, os remos saltaram-lhe das calosas, 
mãos. 

Pingava a cacimba como chuva rcgelanle, crguiam-se os braços era desesperos 
e naqueles luzeiros rubros os homens cresciam em recortes fantásticos diante das 
aguas côr de sangue. Hcudia gente em largas ofartas : o Ferreirínha pagaria, por 
doze contos, a vida do sogro ; um ganeros > rko, José Maria R<b?lo Valente, daria 
um conto por cada pessoa salva, o Browne era a própria existência que se propunha 
sacrificar. 

/\o constar a catástrofe, Rna Plácido puzera-sc a correr, (**) com a irmã Antónia, 
ambas tontas, pelas ruas, a informarem-se, num tormento pela sorte do pai. (*"*) 

Lá nos seus mistérios de negrume o Porto acabara quebrado pelo meio. Como 
uma palha atirada de empuxão em empuxão, batera em lagedos, roçara cm linguas 
de areia, morrera na fúria da procela. 



(*) «P<ira socorrer os m'sero: aanf ragos ' scipados à fúria dis vaias ncnhuoias providencias se deram, 
e aos srs. Manael Malheiro, da casi de Castilho, Maanel C. Cootinho, R, Browoe, Soiith e outros deTem 
algam deles todos os socorros necessários, roupas c dinheiro 

(Nach.ial, 31 de Março de 1852) ♦ 

(**) laforiração da sr * D .\na Coir2a de S-ride. 

(***) Da familla do sr. Aito.tlo Joni Plácido Rra^ podetios dlze' o mesmo: a desolação em que 
está corta o coração, 

O Infeliz dufe desta cata la n Lisboa cuHar dos ite^ioclos dé seu genro, e de sua estremosa filha- 

O sr. Jos<( A!«n e suas duas iotercssa.-t^s filhas iam visitar sua parenta, a sr.' b^roneza ds Re^a. 



-63 - 



Ho descerrar do nevoeiro, pela manhã, lobrigaraíti-se à tona os restos do navio. 
De cincoeata e duas pessoas salvaram se nove. (*) Dobravam a finados os sinos das 
igrejas portuenses; os comerciantes tinham encerrado as suas portas; enchera-sc de 
dó a praça. O mar começara a vomitar cadáveres, o da primonagita dos fl,len, deS' 
composta, perto do castelo do Queijo, o de Silveira Pinto na praia dos banhos ; em 
Carreiros o de James Elrasley, sobrinho de /Indersen, os do padre Carvalho e dum 
piloto, de Claverie, agente do Marsóo dàs elegâncias parisienses, o do cônsul fran- 
cês, uma macabra sementeira de mortos inteiriçados, uns de olhos abertos num 
pasmo, outros de ventres em proeminências ds odres como sa tivessem tentado beber 
todo o mar. 

Havia-os de expressões semi cómicas e de ares meigos, de beiços arreganhados 
e de melancólicas posições de quem dormisse um sono pesado apesar dos bramidos 
âo oceano. No Cabedelo, topara-se encravado nas rochas, o corpo do Plácido, 
inchado, fsrido da rasgõ3s fundos na carne pelos embates nos penedos. R sua raela^ 
com uma moeda de oiro, incrustada no fundo, fora dar às areias do Lavre. Leva- 
ram-no para a igreja da Graça e acorrera muita gente às exéquias, nesse grande 
luto do Porto cujas noites eram sobressaltadas pela passagem dos funerais alumiados 
por tochas tristonhas. E a primavera voltara. 

Ana Plácido, desfeita em pranto, imaginava que o pai, arrependido de a ter 
sacrificado, pressentira o seu fim e a quizera levar para o abraço da morte. R mâe 
chorava fixando o retrato do esposo. Não se calavam os tjques dos caropangrios ; 
passava gente das numerosas missas, senhoras de mantilhas de lapim, os homens ái 
quinzenas negras, numa gravidede rigida. 

D. Rntonla Ferreira sairá do seu palácio mas não para desanojar os Plácidos- 
Viara-na muito recostada, na carruagsm inglesa, serena, ssrn descer nos tjmplos onde 



leira ; o sr. Dr. José Augusto da Silveira Pinto, estfemoso sempre por seus parentes áecídiu-se ir à capi- 
tal, para dali acompanhar seu tio, o conselheiro Agostinho Albano; o sr, psdre Bsrnardo António Pereira 
Líite de Carvalho, parente e capelão dos srs Teixeira Pinto Bastos, ia visitar os srs. Ferreira Piofo Bas- 
tos, e o sr, Francisco Vieira de Sousa Oliveira estava em vésperas de esposar ama filha do sr, Joaquim 
da Cesta Leit;. 

Bernardo Ferreira cliegou a oferecer doze coníos de reis a quem salvasse seu sogro ; e o sr. José 
Mar]a Rebelo Valente prometia um conto de reis por cada passageiro que se salvasse. 

Houve jovers ousados que qnizeram arrostar com os perigos para acudirem aos passsgjiros que de 
bordo suplicavam socorro, mas não havia nm piloto que os guiasse ! 

Os nomes destes corsjosoa mancebos é preciso que je registem ; — são os srs. Ricardo Bro-.vne, Arito. 
filo Ribeiro da Cosia e Delfim Maria de Oliveira Maia. Qua falta não fez ali o falecido sota piloto Joa. 
quim Turibio de Meireles !. . . (,9 Nachnal) 

(*) Os homens salvados tão — os trez fogueiros João Caetano, António do Cardai e Lejos : os três 
vareiros fragateiros ílannel Fernandes Arrote, António José dos Sanfos c António Pinho Branco — c trer 
marinheiros um deles do Candsl, que é o que se acha na hoipedaria do Silvestre,» 

(O Nacional, 31 de março de 1852) 



— 64 — 



se celebravam as cerimonias fúnebres por elma do sogro do seu filho. Quando se 
treinsporíaríim ao cemitério os despojos mutilados do chefe dessa íamilia um jornal 
insinuara : 

<R sr.a viuva Ferreira se presa a religião dum Deus Piedoso, deve aproveitar 
esta ocasião para levar o conforto maternal a seus filhos, hoje mergulhados no 
pronto. > 

Fora, dcsto modo, mais notada a repulsa que arvorava. 

No seu intimo devia existir uma certeza de que aquele homem dirigia a luta contra 
ela; nauscar-se-ia ante os casamentos das lindai; raparigas uma fora da sua classe, a 
outra com marido idoso. Para mais asseverara-se, numa folha, ser motivo da sua ida a 
Lisboa o «defender-se do recurso que a senhora D. Hntonia inlerpoz e cujos fins 
rafeiros ou gafeiros nos são conhecidcs>. 

Guardara a sua impassibilidade. Lategararr.-na : (•) 

«Quem acreditaria que uma senhora tão depressa esqueceria a dôr que sente 
quem perde o esposo . . . e uma viuva c mãe seria capaz de maniíestar-S2 assim . . . 
quem não esperaria que cia abrisse o seu coração ao carinho maternal afagando seu 
filho que, joven ainda, e sem as lições e desenganos do mundo, se acha hoje sem o 
s^^u digno sogro de quem tudo, para seu bem, podia esperar 1 

É assim que uma mãe cumpre a sua missão, cá na terra, a mais semelhante 
à divindade do ceu?> 

Mão elterou a conduta, muito distanciada do seu primogénito, pensando em 
rcconsorciar-se. (**) 

Nas camadas aitas esmorecera com as brisas aprilinas a tétrica impressão do 
naufrágio. Bebera-se muito charapagnc no baile de Ribeiro Faria; a sociedade do 
dinheiro folgava; apareceram cora o conde de Casal, os barões financeiros: o de 
Bolhão, de Grimancelos, de Seixo, o Goiães, os Teixeira Pinto Basto, os Canavarro 
Castro Pereira, Brandão de Melo e Cirnes, numa mistura reparada pela aristocracia' 
e até a Brcwne e o seu amigo Rebelo Valente — o que oferecera um conto por cada 
vida salva — se tinham div^rtido. Hquele andava cantado em versos por seus feitos 
na noite da catástrofe ; estava proposto para a Torre Espada, c, Rugusto Luzo, entusias- 
mado, cclebrara-o: 

De ti, oh ! Browne ousado sempre afastei 
 vil soberba que os mortais abate 
Eis o elogio, tu és homem, basta. 

Não havia duvidas; era homem e de audácias. Transpuzera as portas, pintadas 
de verde, do Guichard, e diiigindo-se a Camilo socara-o no grande ruído dos copos, 
de garrafas e mezas quebradas naquele ambiente de botequim e cenáculo. Acreditara 



C) Doe. F. 

(*•) Casaria com o coDselbeiro Fran isco Jo:c di Silra Torres qae foi par do reino. 



FoL 5 



na falácia dos portuenses parecendo averbar apenas ao escritor o descrédito que 
cbrazileiros» e mercantes espalhavam nos seus conubios após as comesainas do Es- 
tanislau da Batalha onde estavam à vontade para a má lingua e para as flatulências. 

R resposta fora atrevida, rápida, c dera que falar. O Browne descera da sua 
flcugm.a, entortara a sua linha numa balbúrdia de caíúa de poetas, como se dissera 
desdenhosamente, arremetera contra a hipocrisia do escritor que esquecera os ares 
seráficos do seminário e já balburdiava de uovo. 

Reaparecera após a morte de Plácido c, embora escrevesse no Cristianismo as 
suas paginas religiosas, logo trasladadas para a Cruz, voltara à colaboração do Na- 
cional. Fermentava nele o ódio instintivo aos ricos da praça e quando os sabia 
casados com mulheres belas e delicadas cxacerbava-se como se vingasse o seu drama 
de amor. Constavam, de quando cm quando, novas scenas com o filho de D. Maria 
da Felicidade ; revolteara o seu bastão preso ao pulso contra a bengala celebrada do 
modelo de elegâncias, agigantado, rijo, grão senhor e como aqueles conflitos deviam 
ter um termo acabara por se decidir um encontro à espada entre ambos o que lavaria 
todas as ofensas. Ia defrontar- se com um grande esgrimista apezar de nunca ter 
manejado uma espada em salas de armas. 

Correu rapidamente o boato da pendência. Ana Plácido soubera, como toda a 
gente, dessa questão que saía dos costumes comesinhos do burgo e mais avultava 
a seus olhos românticos o que andava numa fúria a queimar-se por penas de coração. 
O nome das outras era o anteparo; ela é que se sabia bemquerida. Correspondia-lhe 
muito esquecida dos seus afectos infantis, espreitava a sua passagem peia rua do 
HImada que o apaixonado não deixâva de atravessar uma vez por dia. 

Dispusera-se tudo para o ataque na praiasila da Hfurada ; (*) o filho dos Cla- 



(*) Existe cm Síide, cm poáír de D, Rachel Castelo Branco, neta de D, Ana Plácido, nm diariosi 
nho curiosíssimo da segunda mulher de Camilo. Nem tudo são puerilidades nesse livrinho datsdo duma 
época de ilusio. Sabemos que ela comentou a scena do seguinte tnrdo : 

<0ii8 pensarás neste momento, Ofeiccer-sc-ha à tua memoria alguma vez nma lembrança minha? 
Neste momento passa uma rege pela rua e eu, sem a ver, olço-a rcdtr e, inTolcntariamente, me acodes ao 
espirito. Rewordei-me daquele dia em que passaste numa com o R. G. c o F, S. lembr-s-te ? Então tinhas 
tu desejos de me ver. Foi na véspera do dia em qne correu o boato daquele fatal duelo que tantas angus- 
tias me causou> 

Estas iniciais devem ser as de Ricardo Guimarães, depo's visconde de Benalcdníôr e e as de Ferreira 
Sarmento, acerca do qual o romancista escreveu : 

<Tal vi cu um homem aqui no Porto, qac ló conhece es seus varões ilustrados pela riqueza e não 
quer mesmo conhecer os que a pcbreza assinalcu com martírios de obscura honra, chamava se Ferreira 
Sarmento. Escreveu em vários jornais até 1855. > 

<Qaando perguntei por Ferreira Sarmento em 1856 dísseram-me que morreu tísico e a esposa também, 
Como fiz esta pergunta a um que se nomeava nesst: tempo amigo dele, o sujeito, a meu ver, teve pejo 
de dizer que o seu an-igo e a mulher do seu amigo tinham morrido de forno 
Camilo — Dtemorias do Cárcere, 4.^ ed, pag, 9 e 10, 



66 — 



mowse Brownc marcara generosidades de forte ; principiara por amolgar contra uira 
pedra a ponta da sua arma para não perfurar as carnes do adversário que, ousada- 
mente, o aguardava. Rasgara- lhe uma perna, c, findo o assalto, sorrira ante a arre- 
metida brava do ferido : 

«Isto cura-se depressa c depois quero bater-rae outra vez ! . . . 

Volvera friamente ante o impsto e aquela ignorância das praxes: 

<Pois cu Gstou satisfeito ... O combate não pode continuar porque vou viajar no 
extrangeiro.» !*) 

Tratava-se, pois, de curar o gilvaz e de agrade:er ao destino a ventura de ter 
escapado da psriciã do duelista por tão pequeno lanho em sitio pouco de causar preo- 
cupações às mulheres românticas. Csmilo se tivesse recebido um golpe no peito tor- 
na-lo-ía num sacrário para recolher mais corações apaixonados. 

O Porto irritara-se mais ; achera pouco decente aquele tilintar de ferros. 

Ele guardaria sempre a recordação do combate (**) embora, conforme seu habito, 
não precisasse, positivamente a data da sua romântica e desenvolta atitude diante do 
janota adextrado em todos os despertos, do habii jogador de armas naquela listra loira 
da praia da Afurada. 

De aí a pouco já passeava, no seu cavâlo, pelas ruas citadinas mostrando-sc 
aos burgueses e o ano não findou s&m que outra pugna afligisse, ainda, a requestada 
c amante senhora metida no seu hr, nuin aborrecimento torturante, numa grande 
aspiração idealista. 



(*) o sr, dr. António Cabral, no seu livro Ca/mio DescoahecJdo, é tambcra de opinião ter-se reali- 
sado esse dae!o ena 1852. Com efeito estava-se muito mais perto da epocaem que se assoalhava diaria- 
mente a repnlaçào ds D. Maria da F-ilicidade ante a correspondência poética com o escritor oas paginas 
do Nacional. Que o encontro se reiiisoa nio ha davidas e bem o assegura a nota ds Ana Placiao. 

(**) ReferinJose a uma parodia de duílo, realisada na Torre da Marca c na qnal tivera por cúm- 
plice o seu amigo, Freitas Birros, Camilo escreveu : 

<Ea não me considerei, então, ridiculo a despeito da hilaridade das multidões. Ridículo me vi eu 
dez anos depois, quando saí dum duelo com uma cutilada, e, olhando para ela me acudiu à memoria o 
men discurso ao administrador Mendanha. 

Mas . . . que saudades ! - Noites de Insónia, pag. 8-". 

Este patusco encontro deu-se em 5 de miio de 1845. Com os dez anos passados sobre o facto a que 
alude, teria sido em 1855 o duelo cota Browae. Provou o sr. António Cabral, nj seu livro Camilo Desco- 
nhecido, que o adversário do romancista estava, neste tempo, no centro das operações» da gtserra do Oriente 

Aparece, porem, o melhor esclarecimento fornecido pelo próprio Camilo numa caria para Tomaz 
Ribeiro, onde diz : 

aAle^rcn-me o desenlace da pendência de José C. Branco, Foi mais feliz q eu. A primeira vez q me 
bati à espada conn o agigantado Ricardo Brownc fiquei f?r)do em uma perna. Dzp^is do duelo, vi que 
ainda m: ficavam 3 pernas ilesas. Meus saudosos 26 am^s !> 

Caria'; de Camilo Castelo Branco a Tomaz Ribeiro, pag. 88, 

O ilastre escritor dizia ter nascido em 1826, logo o encontro foi, segundo esta saudosa evocação, em 
1852. 



-67 — 



o barão de Bolhão, António í\lves da Sousa Gukiiarães, hsrdara de sews pais 
elevada fortuna e grosso trato comercial. 

O esplendor das suas festas era falado como um maravilhoso conto de fadas. 
i\s SUES reuniõss alcançavam foros dis mais deslumbrantes da cidíid3 ; à sua xiqueza 
consideravam- li a fabulosa. Cagara, havia já desassets arws, corn D. Fausta do Vale 
Pereira Cabral, opulenta também, e de família de nomeada. 

Não mostrava o desdém da maioria dos titulares pelos poatas, e era ele que 
aconselhava a Camilo a deixar-se das fantasias politicas de tradicionalisrao para con- 
certar num emprego a sua esburacada existência. E como vagara o com.aado dos 
guardas de Mahdega ele já lho oferecera. Andava neste empenho com Tomaz Norton, 
de Viana do Castelo, e vivia rauito de gorra com o jornalista. 

Depois de ter recebido no seu palácio a rainha D. Maria II, acabados os íastc- 
jos começou a circular nos mentidelros, segredada com as costumadas risadinhas, a 
noticia de que o titular conservava cm cárcere privacio a Scnhora, lhe avergoava os 
pulsos em polés e em outros maus tratos pungia D. Fausta a qual intentara separa- 
ção do marido com grande gáudio de seus parentes que viam no desligamento pro- 
babilidades de herança pingue. 

Rebentara rijamente o escândalo. Camilo começara a d2Í2nder o Bolhão em arti- 
gos acidulados ao começo, per fira violentos contra os quais se insurgiram os coa- 
trarios a ate o ruido do Nacional e as transcrições do Braz Tizana. O escritor mo- 
rava, na rua de Santo António, 82, c num dia do começo da dezembro, ao sair da 
casa, pela tarde, conforme (*) stu habito, vira a esconder-se num portal os dois 
irmãos Sousa Guedss que pleiteavam pela baroneza. Um deles, o António, saltou 
ao caminho e sem-lhe dar teT;po à defesa, descarrcgou-íhe uma forte pancada na 
íonte esquerda no desejo de o tombar. 

Desta vez não foi o cacate do romancista que replicou ao agressor, mas uma 
bala de pistola. Embora o choque tivesse sido amoítecido num farto colete de peles 
o contendor ficou ferido no peito. Já na véspera, irritadamente, mostrara, na praça da 
Batalha, a arma ao tio dos atrevidos quando este o quizera acometer. Agora rctor. 
quira na disposição de matar defendendo-se. Correra-os a tiro. (**) 

O alarme fora enorme ; novamente a policia recebera queixas do audacioso que, 
desempensdamente, encarava as situações e não deixava vontade a outros de tenta- 
rem contra ele. 

Daí por diante olhavam- no com mais curiosidade e mais respeito alcunhando-o 
de doido. E, todavia, era ainda no Cristianismo que publicava os seus melhores tre- 
chos de prosa. 

Após a morte de Plácido devia Sentir- se mais próximo da amada. R filha obe- 
diente começava a pensar na revolta. 



(*) Dr. Maximiliano de Lsmos, Camilo e os médicos — nos Arquivos da Historiei da Medicina Con- 
temporânea — 8," ano — pag, 16. 

(**) A pistola era do padre Santana e Silva. 



— 68 — 



I 



o cunhado floreava grandes pompas. Dava nas vistas, era rctumbancias de 
opulento que deseja mostrar ao mundo os seus tesouros. Os jornais anunciavam-lhe 
as despesas de vulto. Naturalmente encontrara um largo credito ou vencera a par- 
iilha (*). Falava-se muito d3 dividas que pagava de contado (**), do palácio comprado 
no largo da Aguardente (***), dos explsndidos cavalos qu3 disputara a peso de ouro 
na feira de S. Martinho. 

D. Antónia, devia ser feliz; Ana sentia-se rodeadía de conforto mas a razão voeia- 
va-!he para outras anciedades, para outras aspirações (****); a sua alma abria-s« 
num grande desejo de liberdade. Mas repararia na mâe sempre chorosa após aquela 
catástrofe que arrebatara o chefe da familia e a deixara num desabrigo, contel-a-iam 
os seus olhos aguados na contemplação do daguerrotipo que a conservava as feições 
do seu marido. Sem aquela reflexão teria mais cedo sacudido o seu jugo. Junto dela 
crescia a Maria José; a irmãsita, a querida a quem não podia ainda confiar o que lhe 
ia no coração. Naturalmente Camilo prendera-se um pouco ao principio e por fim 
adorara a creança a quem a mulher do seu amor dava um grande afecto. 

Lid muito; entregava-se toda aos bons livros que geram sonhos encantadores c 
continuava a querer vêr-se a personagem dum romance altivo. Vivia como as heroinas 
da Sand, queria descativar-se, animava-se. 

Depoi.s, mesmo que quizesse esquecer Camilo, tornava-se irapossivel porque ele 
bem dava nas vistas; diariamente apontavam os seus artigos, seus versos, suas 



(*) António Bernardo Ferreira, residente na Regoa faz pnblico, que seu tio c tatcr o 11.™° sr. José 
Jacinto Henrique da SUra Pereira, do Pezo da Regoa, se acha autoTÍS'3do para pagar todas as dividas pas- 
sivas do anunciante; e que por iss3 pede a todos es seus credores qneirão mandar ao mesmo senhor uma 
conta de leus créditos, oa compra de seus títulos, para depois de examinados lhe serem mandados pagai 
o que deverá ser no praso de 30 dias a contar da data deste anuncio, podendo julgar-se menos legais as 
que se não apresentarem neste praso>, 

(**) <Antonio Bernardo Ferreira, faz publico por este modo e para interesse c'e quem convier, que: 
■o dia de hontem, lé do corrente mis, comprou a José Gonçalves da Costa, e sua mulher D. Maria Pereira 
de Azevedo, a. sua casa sita no largo da Aguardente com os n,'*' 1, 2, 3, para o lado do mesmo largo, com 
todas as suas pertenças, e adjacências, que se acham divididas pelo muro que circuita. O preço desta 
venda fica como nm deposito m mão do anunciante até que findem 30 dias, a contar do dia de hojv; se 
pof tanto, alguzin st julgar com direito à dita casa e suas pertenças-, ou ao sen produto o deve deduzir 
dentro do dito tempo c praso de 30 dias sob pena de se julgar livre e desembaraçada a dita propriedade 
para o anuBciante>. — Nacional, 8 de Agosto de 1852. 

(***) A feira de S, Martinho foi muito molhada. Assim mesmo contam-nos que os burros eram em 
grande abnndancia. O sr, António Bernardo Ferreira comprou os 3 melhores cavalos que apareceram, c 
dizem-nos que são excelent s. — {Nacional) 

(****) «O bem estar monótono sem desejos '. ;m excitações esses mil nadas possuídos e que conten- 
tam a mulher quí não tem outro afan m>is que alindar-se no rôstr, esqueci!* do espirito, rem esses mesmo 
desanojavam dos tédios e da insaciabilidadc da alma que presentia já um mundo mais real, nas horas de 
magoada tristara. 

«Gemia sempre aquela aborrecida realidade sedenta do que não achsva>. 

Ana Plácido— Luz coada por ferros, 2.* ed., pg. 96. 



- 6Í - 



procsas, suas brigas c aparecia- ihc como o ideallsado ser que o coração e o cérebro 
Ihs p adiam numa doçura infinita. 

A sua s^nsibiiiáade feminina dsvia causar impressão maior o saber que as outras 
o amavam, lhe queriam muito ou pelo menos assim se asseverava. Andavam assoalha- 
Ihados os seus amores cora a Brcwns num duelo, com a freira, num jornal c segui- 
damente num pugilato, cora a Patrícia Emilia, na existência duma filhinha que já tinha 
quah-o anos (*) e se chamava Bernardina Hmelia. Tudo isto representava um.a formi- 
dável excitação fatalmente a finalisar num arrebatamento. Contê-la-ia, ainda, a ideia 
da mãe; mais nada. Da irmãsita pequena trataria como se fosse sua filha. O resto da 
sua gente não carecia de cuidados. D. Antónia vivia entre magnificências, Eduardo, 
Plácido e Alberto eram rapazes e encontrariam boas rendas na vida. 

Ana Vieira abraçava-se, por vezes, à filha naqusla funda dôr ào seu luto e na 
superstição de que eia seria desgraçada como desde o berço o sentia. 

Continuava-se a olhar a esposa de Pinheiro Alves como uma das mais belas 
mulheres da cidade ; o seu companheiro de iníaDcia cscrevia-lh3 c ela respondia-lhe 
romanticamente, livre da ideia de Uie pertencer, apenas a consolal-o de desventuras. 

Cada vez que queria olvidar um pouco quem o coreçSo elegera a retumbancia 
do seu nome dcsperíava-a. Ainda não era um grande <' scritor mas apresentava-se numa 
desenvoltUia, num alarde e cm tais exibições que não se podia deixar de falar de 
ele. 

Pouco depois da scena com os Sousa Gusdcs, Camilo apareceu a recitar versos 
no teatro de S. João num inaudito arrojo. 

Andava, então, arrestando dolorida miséria pelo Porto, o ultimo árcade. Fora 
dos dilectos companheiros de Bocage, chamava-sc Francisco Joaquim Bingre c ia 
íazer oitenta anos. Cantara amores, reis, príncipes e a liberdade sob o nome pastoril 
de Francdio Youguense porque nascera nas terras de Estarreja que o Vouga alegra, 
correndo entre vergéis, prados e floridos hortos. Agora, ern sua decadência fisica, 
mas ainda aos devaneios dedicado, cognominavam-no de Cisne do Vouga não para 
evocarem VirgiUo, o cisne de Mantua, ou Fcnelon, o cisne de Cambrai mas, talvez, 
em alusão ao canto qu3 cie ia soltar expirando. (**) 

Sua mãe tinha sido agasalhada entre princczas e, porque o terremoto sepultara 
nos seus convulsos arrancos a fortuna da família, casara-se com um homem humilde; 
da sua união nascera aquele filho de imaginação ardente e cuja existência tão sa- 
cudida fora nas agitações da desgraça. Era octogenário e esmolava quando os seus 
netos na arte, os que seguiam a trilha escorregadia por onde ele se despenhava se 
lembraram de promover um beneficio a favor do poeta pobresinho, no teatro lírico. 

Por isso Camilo, de pé no seu camai-ote, erguia a voz inimitável, tocada das 
gamas ricas de sentimentalismo e dominava a cidade, cujas gradas famílias ali 



(*) Nascera cm 25 de Junho de 1848, 

(**) Nascera em 1763, sua mãe Ana Hybingre oertencia a uma distinta fzmtJia austríaca e viera 
acolher-se ao amparo dama tia qus serria a rainha D. Ana de Áustria, esposa de D. João V. 



€slavam mais a confortar a miséria dum vellio de nome ilustre do que a aplaudir 
aqueles detestados romaaticos. Talvez mesmo levassem as filhas, cobertas de jóias, 
a essa festa para lhes mostrarem, como acabavam mendigando nas taboas dum palco 
os que só de fantasias viviam. Todavia chorava-sc quando a mocidade rodeara o 
desditoso e o escritor, pálido, emagrecido, de ar triste, a cabeleira negra agitada, a 
mão branca e fina a estender-se tremula na cadencia dos versos, dedicados a esse 
.avôsinho desditoso, dizia, ardido e intrépido : 

Não venho curvar-me ás potencias da terra, 
Portanto meu<i hinos algum preço tem : 
Lisonjas vendidas que a honra desterra 
R mim não m'as peça no mundo ninguém. 

Deciarava-o claramente, àqueles homens ricos, aos milionários, trocado o tora de 
•desafio pelo da altivez com que comparava os poetas, mesmo famintos, aos so- 
beranos 

ser rei na indigência . . . que importa ? E' um rei i 

€ evocava os nomes universais de Milton, Homero, Camões, Tasso e Cervantes in- 
fortunados em vida c entroriisados no além, fixando a plateia e as tribunas. Domi- 
nava porque via pranto nos olhos das mulheres ao som dos seus versos desferidos 
em honra dum grande da sua raça que tantos amores cantara e ainda bemdizia as 
Mareias de seus sonhos. 

Os burgueses sentiam-se percorridos de frémitos, cediam momentaneamente, ao 
pcderio da atmosfera romântica. Havia no Porto algumas famílias fidalgas que não 
se misturavam nas salas dos mercantes nem com a nobreza constitucional. Fugiam 
ás suas relações. Os fiihos preferiam os poetas aos trafegantes c abriam-lhes, por 
vezes, as portas de seus palácios da Torre da Marca, onde os Terena, parentes dos 
reis, por Bertiandos, se recolhiam, como og Moura Coutinho, na residência de Vilar de 
Perdizes, os Porlocarreros na casa das Sereias e na de Santo Ovidio, os Resende, 
cujos avós tinham comandado os reais archeiros e aos quais na heráldica, chamavam 
Os Castros dos Treze pelas contas das arruelas azuis de s«u brazâo. O erudito vis- 
conde de Azevedo, ligado aos vencedores mas guardando o aristocrático timbre de 
quem usava os retumbantes apelidos de Barbosa Pinheiro Pereira e Sá Coelho c era 
o vigessimo primeiro senhor do Paço solar de Marrancos, e de mais antigos 
coutos, mal saía também de sua residência visinha da Sé. 

Os rapazes de verdadeira estirpe gineteavam, balburdiavam, assestavam seus 
desdéns aos enriquecidos tanto como o faziam os homens de talento seus parceiros 
com os morgados minhotos, nas tunantadas c românticas aventuras. R casta que descia 
amparava-se á que mais amava os senhores do passado do que a turba recemche- 
gada com os seus sacos de oiro. 



Duas dessas nobilíssimas familias tinham oferecido coroas de louros a Camilo; 
outras enviaram-lhe ramos de seus jardins recatados no5 muros altos. Era um tributo 
ao poeta e ao correligionário porque ele fora soldado da Gausa e cantara D. Miguel, 
no Salve rei 

Devia deitar-se nessa madrugada sentindo-se nupciado com a gloria. O Porto 
aplaudira-o na sua missão caridosa e tanto que a vaidade dos homens dinheirosos 
despertara. Dormia a sono solto quando o acordaram. Passava das onze e irritava-se 
porque aquela hora considerava-a como o antcdealbar. Disseram-lhs que o procurava 
o senhor Hntonio Bsrnardo Ferreira. Envergou o chambre vistoso de damasco, calçou 
as chinelas de marroquim e saiu à sala a receber a visita. Era o marido da irmã de 
Ana Plácido. Para que ele ali viesse é que a victoria fora retumbante e segura. 

O capitalista, que tão ruidosamente se instalara no seu novo palácio, solicitava 
uma grande fineza do homem de letras: a cedência da pena com que escrevera 
aquela poesia geradora de tantas lagrimas. Num gesto amável entregou-lha. Pensaria 
na querida ao doar-lha. Ela viria a conhscer o desejo do cunhado e a gentileza do seu 
apaixonado. Delirou o visitante e logo, duma impulsiva maneira, agradecido c gene- 
roso, ao que julgava, pedira a Camilo para o acompanhar ao portal. 

Desceu de roupão ao limiar aberto para a rua de Santo Rntonio, àquela hora 
rumorosa, e, ante o seu pasmo, o Ferreirinha numa ar de amizade, num presente 
opulento, dcu-lhe o cavalo que o conduzira. Hnte a recusa do literato, ressentiu-se, 
chocou-se e exclamou: 

«flí o tem. . . Dou-lho. . . Guarde-o e adeus!» 

Partira a pé batendo na perna cora a chibatinha elegante. 

Embora a animal dado não se olhe o dente, Camilo cxteriorisou seu pasmo anta 
os csparavões, sobrccanas e laparões que o veterinário constatava na montada. Ssis 
libras pagas ao assistente valiam mais do que o quadrúpede ofertado em tão soberba 
atitude. Devolveu- o ao antigo dono cora um bilhete, cujo autógrafo decerto foi inso- 
lentemente rasgado e que dizia assim: 

«Tenha V. Ex.^ o bichinho em seu poder o tempo preciso para eu estudar um 
curso de alveitaria com que me (•) torne digno apreciador das qualidades da sua 
prenda». 

Realmente íôra pagar com má pele a pena nobre que traçara a poesia aplaudida 
pelas mulheres do Porto, em comoção que lhes bagara as lindas faces de sentidas 
lagrimas. 

Estes rasgos de troça e de espirito bacorejavam-se tanto como as cousas mais 
tétricas, na Praça Nova e no jardim de S. Lazaro. Os <brasileiros> riam e aiiviavam-se 
dos seus despeitos. 

O escritor in&talara-se na hospedaria da ãguia de Ouro mas não parava no Porto, 



(*) Semanas depois o senhor António Bernardo Ferreira vendia a mesma jóia por doze mil réis a um 
alqailador do largo da Batalha. O desgraçado animal morreu pouco depois da operação do ultimo alifaíe. 
Vieira de Castro — Vida de Camilo Castelo Branco, 2* ed., pg. 113. 



— 72 - 



apczar de redigir o semanário a Cruz. Continuava nas suas ideias católicas, embora 
não deixasse os prazeres profanos. Abandonara o seminário como se tivesse recebida 
uma embaladora esperança de amor. 

Murmurara-se de mais essa volúvel determinação, porém cie não desmanchava 
as suas formulas religiosas. Poetava acerca das cousas sacras, defendia os assuntos 
divinos na sua prosa que se fortalecia; andava por abadessados, internava-se no Mi- 
nho, subia-o até Viana onde ficava enlevado na beleza da paisagem, a sonhar uma 
casinha num formoso logar que mais o prendera, longe dessa capital do dinheiro onde 
parecia vêr luzir cóleras na maioria dos olhares. 

Mas não satisfazia ainda o desejo. Enfurecia-se numa irritação permanente todo 
embebido de paixão por aquela mulher. Era obrigado a escrever para se sustentar 
c na sua cabeça s<;m repouso, passavam ideias negras. Hesitava entre o sacrifício 
da sua liberdade e o suicidio que varias vezes !he acudira como um remédio. 

Nos Mistérios de Lisboa, publicados no Nacional, não podia eximir-se a apre- 
sentar uma noiva sacrificada ao dinheiro. Desta vez era fidalga a vendida; retum- 
bavam os tilulos dos seus, inspirados na designação duma quinta transmontana onde 
habitara o Doutor Broca, o avô do romancisla. (*) 

Vinha sempre o mesmo pungitivo brado: 

<Dir-the-ia que sua filha amarrada a um poste de ouro, eslava cm circunstancias 
de esmolar um bocado de pão.» (**) 

Tornava da mesma forma, a marcar a grandeza da mulher impelida pela am- 
bição dos seus para os braços dum conde lúbrico: 

«Venderarc-me mas eu não me vendi !> (***), exclamava essa digna Angela 
cujo nome revela em suas primeiras letras e na ultima, o da inesquecível, da sua 
adorada. 

Gritando contra um irmão tão sôfrego de dinheiro como o chefe da nobre familia, 
acentuava, ainda, a heroina: 

«Eu injuriava-o porque não queria ser mulher do conde de San!a Barbara, de 
quem o mano esperava receber quarenta contos de reis para desempenhar o seu 
vinculo. Eu injuriava-o porque não queria pagar com o meu coi^jo os desperdícios 
de meu pai com a herança de meu irmão (****.? 

Era sempre a mesma vitima em holocausto à fortuna, sofrendo de coração 
esmagado. 

H' sua voHa os dramas torlulhavam. Parecia que todos os seus amigos tinham 
sido, eram c seriam desditosos. 

Klguem, que a grande desventura espreitava, ouviu-lhe o desejo de paroquiar 
uma pequenina egreja que seus clhos descobriam na chã ovarina. 

Mas tarde, aponlando-lhe uma estrelinha tremeluzenle no ccu negro, aconseíhara-lhe: 



(*) Montrzellos. 

(••) («••) (•••*) Mistérios de Lisboa, 6.» edição 145, 146, 186. 



- 73 - 



«Peça àquela estrela, que lhe alumie o logar onde existe a mulher que lhe ha-de dar 
vida.> 

Havia dois anos que Fani Owen lhe falara assim; ele fiscra versos em sua intenção» 
sentira junto de si a queixa quasi barbara do amigo ultra romântico que a amava a 
ponto de a deixar morrer virgem, sendo sua mulher, só parque descobrira, após o 
casamento, umas inocentes cartas a outro dirigidas. Ela era uma tontinha alu- 
cinada e novelesca ; filha dum militar de aventura, dum inglez qae largara para a 
guerra da península como para uma festa e se batera tão bem que chegara a receber 
as dragonas òq general por seus feitos, Casara-se em Portugal (*) com a filha dum 
comerciante, cheio de positivismo. Nascera dessa união um rapaz (**) e aquelas duas 
meninas Maria e Fani, ambas presas nas singularidades do amor do trágico Pinto de 
Magalhães, de José Rugusto, tão cslinado do romancista e que o salvara do 
suicídio. 

Nos olhos dele luziam ameaças ao saber dos poéticos arroubos á jovem desti- 
nados ; tivera ciúmes e ainda não lhe dissera que a amava. Hssevcrara, mesmo, ser 
capaz de matar quem dissesse querer-lhe. 

Namorava a irmã mas era para essa creança vaporosa que ia a sua alma. Se 
ela nem colhia as flores sem lagrimas e dizia só caberem tocar-ihes as borboletas ! 
O espirito turbado pelas fantasias desse fidalgo do Douro que parecia criar a ilusão 
como uma ave presa para sempre era seu seio, slgemava-o ao romance. Podia ter 
pedido a mão de Fani e raptou-a, por sobre um muro de jardim, numa noite de 
julho. Tomara-a nos braços, sentara-a na sela do seu cavalo e partira como nas tro- 
peadas idílicas de outros séculos. O barco que a devia conduzir até perto do palácio 
*ôra forrado de tapetes e nele a ia levar como a noiva estremecida de seu coração. 
Tinha zelos do ar, das flores, dos céus, imaginava-a nascida só quando dissera amá-lo. 
Escogitava no seu passado, num delirio tormentoso, se acaso alguma vez seus olhos 
não teriam pousado, ao menos um instante, com uma scentelhasinha apaixonada, 
nos de algum amoroso. Era um cioso a entretecer grinaldas de rosas para o 
seu amor e a molhá-las de sangue pois apertava-lhes os espinhos, ho descobrir que ela 
escrevera a aiguem dizendo-se «incompreendida», deixara-a sem um bíijo no quarto 
onde não penetrara nunca como marido, vivera gravemente a seu lado como seu 
irmão mas decerto guardando no aspecto a eterna queixa dolorida de não ter sido 
só sua, em espirito, de não se lhe dar toda em pensamentos, adirinhando-o como 
nos contos de fadas. 

Escrevera a outro e, por isso, sentia-a manchada, deixava-a aiar desolada, e 
sem a possuir, via-a morrer desacalentada no mais terrível dos castigos dum ultra- 



(*j O general Hago Owen casou em 1820 com D, Maria Rita Pinto da Rocha Velho da Silva, já 
viuva 

(**) O filho foi barão da Torre da Palha, nascera em 1825 e casou com D. Silvia Chichorro, viuva. 
Era de descendência inglesa, filha do major William Buli, 



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romântico que se mataria também, bebendo cálices de cognac, sem tomar alimentos, 
no fundo dum mau hotel lisboeta. (*) 

Mais tocado da sensivel paixão, toda pura, pela mulher do que o próprio ro- 
mancista habituado a lidar á vontade com o coração humano, José Huguslo sentira-se 
ferido terrivelmente ao saber das missivas embora castas, singelas, infantis. Dos soa- 
lheiros do Porto fediam as evaporaçõss das atoardas feitas em torno deste drama de 
cxtranha paixão. Era ainda scbre Camilo que recaíam as culpas como se tivesse 
inoculado no amigo a alma caprichosa de curiosíssimas partículas. Dlziara-no cúmplice 
no rapto e na revelação daquelas cartas malditas. Pelo contrario desejara escon- 
der-lhas (**) mas grandes odics rugiam à sua volta e lodos os seus passos voltavam 
a ser, para es inimigos numerosos, os de mau caminho. 

Também a Hna Plácido, ião sua amada, escrevera a outro, ao companheiro da 
infância, e nem por que o fizera, o escritor deixara de lhe querer. 

Era certo que a amava de maneira bem diferente. José Rugusto via Fani de outra 
^orma: a dos loucos. Era esta a expressão apaixonada do literato: 

<R minha alma é uma harmonia desconexa para a tua — posso amar muito 
mas não te amo — tu és espirito unicamente e nada mais posso ser que matéria. 
Fiquemos, pois, aqui>. (***) 

Cabia-lhe a ela vêl-o id<almentc: 

<Não penso senão em ti, não m2 ocupo senão das ideias que ma inspiras; não 
recordo senão as luas palavras e não espero senão impossiveis*. (****) 

Chegava ao convite claro, ao desafio para a aventura. Nunca em frases mais 
lindas se pedira a uma esposa para calcar o dever e fugir do seu lar: 

<R minha ventura era possível comtigo se me povoasses esta solidão mas vivo só. 
h mulher que nasceu para mim és tu. Ainda hasde ser tudo para mim>. (*****) 

Porque o coração lho balbuciava, Rna sentia-se a sua cmulhcr fataU e não deixava 
de lho repetir. Envoltos nesses fados andavam porem tão distantes como se jamais se 
tivessem visto. 

Bem sabia que se correspondera com o amigo de infância, porem achara tão 
dignas as suas cartas, conforme lhas contara, que perdoara e mesmo oferecera àquele 
rapaz a amisade e a dedicatória de uin livro seu (***»*) como a provar-lhe, a ela, 
o olvido do seu acto, a isentai- a de culpas. Porem, o Porto, nas suas protcrviosas 
quelhas, nos seus despejados becos, murmuraria alé que o coro maldoso soasse como 
brados. 



(*) Na travessa de Estevão Galhardo. 

<E eii qne, pela minha mi estrela, não pudera ser extraaho ao errado pisso de aqueles iafelizes, era 
apontado cono fautor, conselheiro e auxiliador do rapto de Fani Ov%rea.> 
Camilo — No Bom Jeius do Mantc, S.-* cdiçio, pag. 88 

(**) <S«m embargo, as praças e as salas urravam na angustia da sua moral ultrajada.) 
(Idem, idem, idem), 

(«••) (****j (*««*.^ Publicadas no Leme. 
(••*•*') Á Vingança, cuji !.• edição teve dedicatória a António Ferreira Quiques. 



R vontade, dele, não era íixa. Queria, por vezes, fugir-lhe e chegara a arranjar a 
nomceção de adido à legação do Rio de Janeiro, o que se lhe dava- qualidade oficial 
não lhe garantia proventos. 

Desejava não parecer um vulgar emigrante. 

O exílio não caberia cm seu espirito por mais que tentasse afastar-se de quem 
o amava mas não se lhe entregava. Se nem Daus o atraíra poderosamente! Que nem 
Deus o quizera! Sintctisava, a explicar a falha da sua carreira sacerdotal. 

Trabalhava afanosamente e, nos mais diferentes géneros literários, tracejava, esbo- 
çava ou marcava nitidamente a mulher da sua paixão, fintes de Angela, vendida 
ao rico conde dos Mistérios de Lisboa, aparecera a Rosa Guilhermina, da Filha 
do Arcediago, cubicada pelo anafado e rico tendeiro Hntonio José da Silva, da rua 
das Flores, que desejava possuil-a «com o ideal dum H.ntony, com os ciúmes dum 
Olhsío c com a paixão ensandecida dum Manfredo de cuecas»; no drama Poesia 
ou Dinheiro, incluso nas Scenas Comtemporaneas, acsbava com o disfarce apezar de 
lhe chamar Henriqueta. Ao homem que a comprara tratou-o de Manoel Alves, o 
nome do marido de Ana nos registos da praça. Dedicara, nestes termos, a peça 
àquela a quem denominava «verdadeira amigai». 

«Henriqueta será um esboço daquela grande imagem que fantasiamos? Ha neste 
tipo o colorido da triste poesia que v. ex.^ lhe deu ? 

«Decorei eu, por vantura, algumas das palavras que seus lábios proferiam num 
momento de dor, expansivo em eloquentes queixumes contra o destino sem respon- 
sabilisar a sociedade que faz os infalizes? Se de tudo isso, ha no meu rápido trabalho, 
um pouco, esse pouco, oferta pobre mas rica de tudo que tenho na alma, pertence 
a V. cx.3.> Desenhava-se nas cenas como Júlio Correia, literato, que numa das tiradas 
rijas exclamava sarcástico e dolorido : 

«Um belo ideal o sr. Manuel Alves, brasileiro rico, com cincoenta anos de edadc 
c um coração tão chsio de seduções como a sua algibeira de libras para saciar as 
anciãs de amor desta Julieta.» 

E a protogonists, cm transes de expirar, soluçava para ele : 

— «Ouça-me ; eu amei-o muito c não sei se poderia amá-lo mais . . . podia porque 
neste momento sinto que o amo como nunca. > 

Tal era a frase que desejava ouvir-lhe, nlo na hora da agonia, mas na de 
intensa felicidade. 

Diluira-se aquela ambição desvelada no álbum dum amigo. Desejava que este 
fosse «abraçar ura dia um monge á portaria do claustro, c não poderás dar- lhe o 
nome que lhe deste no mundo quando lhe chamavas Camilo Castelo Branco Fa- 
lava assim e renunciava à egrcja. (*) 

D. Isabel Cândida Vaz Mourão, tanto fizera que, novamente, se aproximara 
dele, não o deixara libcrtar-se dessa serôdia paixão de sua alma ardente deslum- 
brada pelo talento e que habitava ura corpo a dccrepitar-se. E tanto o escritor, se 



(*) Xavier Barbosa — Cem Cartas de Camila, pag. 70. 



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admirava desse rsatamento, que, antes de psdir ao Barbosa e Silva que lhe arranjasse 
casa em Viana do Castelo para a monja, perguntava: «Será possível o seguinte ?> 

Como segundo a regra as religiosas não podiam habitar em pousadas D. Isabel 
queria cómodo resguardo e desembolsaria à larga porqua «estas bravatas pecuniárias 
estão era harmonia cora o génio e as posses da dita>. Afirmava que iria «para 
a hospedaria mas quisera que ela aí estivesse porque, verás, passaremos algumas 
horas de nonchalaníe convivência. 

fípeíecia molezas e como para demais uma epidemia assolava o Porto aprovei- 
tava o descanço e distanciava-sc do flagelo. Imaginara-se, também, que no R\[o Minho 
se iníiitrara o mal e desistira- se do veraneio profilaxtco, pois «o que ela queria era 
fugir ao cólera», repisava ainda depois de ter revelado noutra carta, o que o em- 
peçonhava; a amargura no seu amor ao dizer: «recordaremos poetas poitrinaires, as 
deceções da infância, a pouca vergonha das ilusões ^mentidas como a onda:» (vide 
Shakspeare).> 

Ndo podia esquecer — mesmo nas suas rápidas loucuras — a mulher linda, 
romântica e casads, cuia mãe — aquela doce i\na ilugusta Vieira — se fora inclinando 
^é ao fundo da campa sobre o retrato do nr. árido. 




-77- 



JfcMi A Ai w ii A i â ifciiiiflliil lk i<tiii<f>M iiftiil^iwitlhifrfci^i A i iiA rt^ ii t h A iii A iltifcni1lii lh hiiii tf iijT h iiB i t>il W ii«tfhi W «iit h il W BiilTiál T iai A i W i n i t l ^ iiMifciÉh lAilfci II A A l m fc ilfc » iilliffciM ^ i^W^lfc ^ ^ 




16- 



1»» w *m mw mm ww mw mw mm mm ■»» mv y» mw mw mw h iw w p m v n* w w v> mw ^ n » 



fí casa ond» foi o *Café 

do Gato- em Vila Nooa 

de Famalicão 



V 

MAL DE MUITO AMAR 



.aRDIS AMOROSOS — o ^4/\IS FEIO DOS NAMORADOS — UM IRREQUIETO NA 
PAZ DOS MONTES — O NOVO AMIGO DE CAMILO — TRÁGICOS CON- 
FIDENTES—SOMBRAS DO BOM JESUS — O FILHO DE ANA 
PLÁCIDO -NO COMEÇO DO ESCÂNDALO BUR- 
GUEZ-UM GRITO DE AMOROSA— BEIJOS 
ARDENTES EM NOITES GÉLIDAS 



APÓS a morte da mãe, Ana Plácido rclugiara-se no grande amor da irmã Maria 
José. Ficara por sua tutora e como era preciso cducal-a, recolhera- a ao CoUgio 
das Orfâs, através de cujas rexas as educandas viam o destile das meninas 
muitas direites diante do repuxo do jardim de S. Lazaro, sob os olhares dos janotas 
encobertos pelas arvores, cspreitando-as disfarçando amores. Ao som da musica decorria 
a tsrde e cias, dos seus observatórios, aprendiam es passos do namoro. 

Pinheiro Alves gostava muito da eldeia onde floreava importância e levava a 
mulher para lá; outras vezes ficava em Famalicão, na hospedaria da Eugenia (•), 
dando mais nas vistas, lisoogeado de a ter comsigo, novinha e linda. 

Camilo aparecia na vila sob vários pretextos. Procurava vcl-a, lèr na sua fisionomia 
c como defronte das suas janelas se abria o cefé do Gato, ele ia namorando as vidraças 
é cata duma palavra cu dum sinal, isto com resguardos de conjura, quando o marido 
se ausentava. Os fregueses batiam as pearas do dominó e as sebosas cartas do tiques 
em exclamações barulhentas, sorviam as bebidas, e se reparavam nele, por esse tempo 
ainda o julgavam à espera de algum morgado tumultuoso ou de am<go em diligen- 
cias várias. 

Tornavam-se necessárias cautelas sem par, não porque a terra fosse palreira mas 
porque a sua mesma pacatez dava azo a mais fáceis descobertas das cousas proibidas. 
As suas ruas lageadas entre os prédios velhos gosavam de tranquilidade e em volta, 



(•) Hoje hotel tViianoTeDU>. 



Foi. 6 - 81 — 



num panejamcnto de arvoredos scenograficos, através de cujas ramas se arrendavam 
nesgas do espaço, era o campo, a vasta plantação minhota desde o fundo dos vales 
aos píncaros. Caminhos barrocosos, em amarelidões barrentas, desenrolavam-sc no 
seio da verdura, gilvazavam-na, c por eles, vindos de longe, do Porto, de Guimarães, 
da Povoa, de Santo Tirso, chegavam os forasteiros, mercadores c campónios nas seges 
e carroças, aos bandos, montados ou a pé, rolando, em andadis ou em choutos. 

Pelo mercado semanal a animação subia; levavam-se promessas de peso à capela 
que existia no campo; bois loiros, magníficos, bem encornados, babavam-se na chapada 
viva do sol; subia a balbúrdia, morgados de dextros varapaus escaqueiravam, às vezes, 
pandegamente, os montões da loiça de barro ou passavam sobre eles em picarias. 
Falava-se, durante oito dias, do sucedido, comentava-se e depois tudo voltava à mesma: 
à curiosidade dos caixeiros a cada rumor de carro, ao remexer dos dominós no Gato^ 
à calma, ao socego quando não se ia para as romarias porque então reboliçava-se^ 
íoliava-se sem peias, tontamente, alegremente, entre as ondas do mar da verdura, sob 
o ccu límpido, em louvor dos santos e na graça de Deus. 

Uma das viagens do escritor íizera-se na caleça do Malho, do Laranjal, c era 
companhia dos irmãos Barbosa e Silva, de Viana do Castelo, literatos e amigos do 
amoroso, bem como na do ilustre folhetinista Evaristo Basto. O fim, ao que se combi- 
nara, era consultar certo curandeiro local, Luiz Joaquim de Oliveira, cujas manhas 
medicinais destroçavam a ténia. Hrdiloso filhote de Gondifelos, antigo creado dum 
medico, o «homem da bicha>, como o designavam, ganhara sabença e compostura. 
Rlé da corte o chamariam para aniquilar cm régios ventres o anelado sugador. 
Falaram-lhe de seus males, atocharam-no de fiambre, num almoço bem regado de 
vcrdasco e largaram, para o Bom Jesus, satisfeitos dos resultados os que se acredita- 
vam pastio do grande verme como se os livrassem de diabos incubos. 

Feliz com este subterfúgio voltava a breve trecho, evocando questões de saúde: 
talvez que dizendo-se ainda atacado c crente no mézinheiro, o pseudonominado de 
Anastácio das Lombrigas, justificasse sua presença. 

Familiarisava-se com os logarejos visinhos, decorava-lhes os nomes e recebia a 
sua correspondência terna. Se adregava fí.na Plácido estar cm Seids nem assim lhe 
faltava a missiva naturalmente de doloridos platonismos que o desconsolariam. Ela 
tomara como recoveira uma raparigota fresca chamada Emilia Claudia (*) e, desem- 
baraçada c confiante, toda presa em afecto, mandava-lhe as letras suaves à chegada 
da diligencia. A primeira vez a moça hesitou; dizia desconhecer o individuo, o 
«f2dalgo>, a quem entregar o papel; c, então, sorrindo, ilucidara-a: 

— <01ha, dá-a ao homem mais feio que lá vier I> 

Ko receber a roda de doze que ele lhe ofereceu a aldeã compreendera nâo se 
ter enganado c, daí por diante, regularmente se fariam as comunicações. 

R mulher enleada num amor c que considerava feio o amado via nele, acima 
de tudo, o espirito, o talento, o fundo romântico das suas acções, a espécie de cauda 



(*) Notas dama conTcrsaçio com a tenbora D. Ana Conta, de Selde. 



82 — 



de diabolismo arrastada pelo seu nome debatido. E enleava-se em caprichos ro- 
mânticos que procuravam scenarios condignos. (*) Cativara- se por tudo isto, pois 
só admirava a inteligência, (**) c, cultivando as letras, cora paixão, deixar^ se-hia 
arrebatar pelas frases delirantes e comovedoras — as sentimentais e inegualaveis cartas 
camilianas — numa sugestão fascinadora. Mais tarde, no seu Diário, (***) a centuaria ; 

cNão se encontra coração egual àquele assim como não ha gloria que caminhe 
a par da sua > 

Desesperavam-sc continuamente. Como não podia passa r semanas em Famalicãa 
sem dar nas vistas, Camilo voltava ao Porto. Devia parecer- lhe muito roais aborrecida a 
cidade quasi vasia durante o verão. Os teatros estavam fechados, as casas semídesa- 
bitadas nem mostravam as cancelinhas verdes. As famílias iodoísavam-se na Foz, 
cm Vila do Conde, nos longes de Vianna ou re!astelavara-se nas sombras das quintas 
do Douro, nas orlas de aguas esperíites, alegres mesmo em sua mingua. Despovoa- 
ra-s2 o Jardim de S. Lazaro c o repuxo murchara, chupadas as fontes pala sede do 
sol ardentíssimo; os próprios templo; eraornavara. Só uma vez por outra se sentia 
maior rumor. Era pelas feiras. Na sombra da velha fachada das Carmelitas, cora 
os Clérigos esfuracando o ceu, os vendedores, debaixo de toldos ou de albergues 
entelhados, aguardavam á freguczia. Rs raparigas de grandes chapéus, encoletadas 
de veludo de lenços brancos quasi em coca discutiam e subia delas o cheiro do s 
melões, das uvas, das camoczas, até dos aaanazes trazidos pelos veleiros das ilhas 
distantes. Rumorejava o povoléu e diaate das louças, dos presuntos vermelhos, das 
carnes sangrentas, sob grandes guardi-sois, mercadejava-se, enquanto os sinos da 
torre badalejavam para as janelas fechadas, para os tetos dos prédios esguios. Mas 
ali só passava a tnrba; raramente se via urn fraque ou uma mantilha de lapim. 

Ao domingo ainda parecia maior o descampado. Os próprios operários subiam 
o Douro em barcos ou iam a Leça, a Valongo, aos arrabaldes, com cestos atochados 
de comesainas, só voltavam ao escuro fechado; e sobre as aguas, de dentro das ilumi- 
nadas embarcações subiam cantigas ingénuas atiradas ao ar fresco do rio. 



(*) «Raqael, á bora crepnscnlar da noite deise dia, foi stSsinha leatar-se nas escadas do crazeiro 
qne defrontara com o poital da quinta e entia choroo as lagrimas represadas em três dias de represada 
anjastia. 

<Se a essa craz Toltares, nontra tarde, a pedir perdão da queda, hão de os aajos chorar-te, ó Raquel • 
mas pedirão a Deus qoe te lere para si e para ele como se houvesses cumprido imaculada o ten destino 
do cen.> 

(Camilo — Anos de Prosa, 3.' edição pag. 214.) 

(**) Sinto-me endoudecer de amores pelo autor dos Luziadas, Garrett, e por tantos outros nomes 
ilostret, que a minhi fantasia se recreia fm rCr alindaJos de primores talvez desconhecidos. Atrae-me, 
arrebata-me, fascina-me tudo o que o men espirito abriga enlevado, saído dessas almas ardentes, dessas 
imafinaç3es imortais que se sentiam rejuvenecer a cada ano de vida.> 

(Ana Plácido — Lum toada por ferros, 2.* edição paj, 92 ) 

(***) Pertencente i senhora D. Raquel Castelo Branco, neta de Camilo. 



-»3- 



As portas do Guichard e do ãguia de Ouro, via-se apenas algum raro melan- 
cólico; os <brasileiros> andavam, de calças brancas, nas aldeias, remexendo os ber- 
loques e pavoneando-se. 

O ambiente era pesado, molentão, enervante e influía assim mais nos nervos do 
escritor que, á falta de corações para confessar suas maguas, as confiava ao papel com 
Ioda a amargura que o enchia: 

<É pois demência esperar melhor vida do que esta? Não tive um bom dia na 
minha vida até hoje nem já o terei. Se algum prazer pôde ubalar a minha alma será 
o galvanismo do cadáver ! O amor, só o amor ! É tarde ; nem eu compreenderia o 
amor delicado da m ulher pura nem me satisfaria esta incompreensível alma o amor 
da impura. Se me for dada longa vida, o que serei no resto dos meus dias ? Prevejo 
o suicídio: não me matará uma surpreza da desgraça; será a reflexão, o desalento 
que mata o espirito. Oh ! se eu um dia pudesse lêr estas linhas com a alegria no 
coração! Se cu então quizesse c não pudesse entender a dôr com que as es- 
crevi 1> (*) 

Esta coníissão penosa foi traçada era 20 de junho de 1856 quando talvez tivessem 
falhado boas noticias da querida mulher que, presa na ideia de sua mãe o esquecesse, 
um pouco ou, então, é possível, que apenas maiores torturas, dessas que o assaltavam 
a súbitas, numa tomadia feroz, enchessem a sua «inc :)mpreensivel alma.» 

José Barbosa e Silva, andava de ha muito a convidá-lo para redigir cm Viana 
do Castelo, a ãur ora do Lima, o jornal literário local, de tardio poente, nascido, 
havia mezes, dealbando a favor da boa fortuna. 

Começara, logo, a escrever, muito interessado, fazia promessas de aceitar o 
encargo, mas demorava-se. Não era constante a sua saúde; recorria muito a miúdo 
a casa de D. Eufrazia e entregara á D. Isabel a sua filha para que a educasse no 
convento, á beira dela, dando-lhe insfrução, sendo a sua amiga. 

Como numa despedida prendera o chalito da pequenita com um alfinete garrido 
que a freira lhe oferecera cutrora em simbolia da embriaguez do seu amor. Devia dar- 
Ihe, ao devolvê-lo, a certeza do fim do romance ao qual andava rasgando as folhas, a 
morte desses enleios. Dispunha-se a partir para Viana cm segredo e quando ia deixar-lhc 
Bernardina Rmelia vira a pobre monja soluçar perdidamente. R súbitas increpara-o 
rugira, acusara- o de querer sair do Porto sem lho dizer. Volvera-se a chorar, c, num 
delíquio cxtranho, parecia finar-se. O medico Joaquim José Ferreira, o Ferreira, 
Janota, amigo de Camilo, sobressaltara-se, dissera-lhe ser perigoso aquele ataque 
dolorido. Achava possível a morte vinda a súbitas do seu consumido coração. E o 
escritor apiedado, não resistindo ás lagrimas, ficara e escrevera ao Barbosa: cÉ-me 



(*) D:s2no7e anos depois Camilo escrevia: 

<Naaca vos pade lli, 6 paginas da minha mocidade, sem recordar saudoso o tempo em que as 
escrevi. > 

Traçava estas linhas sob as ontras em Janeiro de 1875. Foram insertos em O Leme os dois pensa< 
mentos. 



— «4 



impossível, já agora, ser meu. Ha-de haver sempre cm mim um pensamento bom 
que me escravisc ao mal (*) 

Não poderia ir para Viana; moslrava-se compungido. Poz-se a colaborar mais 
largamente na Aurora do Lima, daí a pouco, asseteado pelos seus desgostos, aca- 
lentava novos projectos, e mesmo alanceado criava as íiguras patuscas, sôstras, c 
picaras das Scenas da Foz de onde viera desolado. 

Os males fisicos não o abandonavam; a bronquite sacudira^lhe o peito, uma 
indigestão abalara-o e por outras enfermidades, ainda menos românticas do que estas, 
sentia-se enfraquecido, ansioso de novos ares. Pensando só na alegria da mudança 
de logar, enervado pelo desejo de se encontrar noutro maio, dispunlia-se a partir. 
Fazia largos planos, para o periódico; cnchia-sc de esperanças, de ventura e d^ dinheiro, 
pensava no futuro, naturalmente lembrando-sc de Ana Plácido, e ia tratar de se 
meter num ninho onde talvez imaginasse vê-la a seu lado. 

O cão Mariirio, acompanha-lo- hia como a marcar que se o levava era porque 
tencionava assentar ali a sua tenda. Chegara até a querer deslocar da cidade a D. Eu- 
frazia que chorava muito ao receber o seu adeus e, sabedor que lhe tinham arranjado 
uma morada risonha, em S. João de hrga, á vista de aguas formosas, entrara era 
Viana, numa terça feira (**) a 7 dum lindo abril. Integrava-se no jornal. 

Escrevera «a sua ansiedada: <Já te disse qus estou morto por sair daqui.> (**) 
<Estou triste, aproxima-se a hora de deixar, para sempre, uma terra, onde a par de 
muitos dissabores, experimentei algumas alegrias instantâneas. Não é da gente que 
levo saudades, não. É de não sei quê . . •> (****) 

Não confessava esse <quê> nem ao seu intimo que devia saber quem era aquela 
Henriqueta da dedicatória da Poesia ou Dinhziro, a heroina de outros livros, a sa- 
crificada, a i\» » • dos seus numerosos versos. 

Pois de que levava ele saudades?! Eram tantas, que ao cabo de cincoenta e 
cinco dias, abruptamente, largara da vila, sem se despadir dos Barbosa c Silva 
deixando ao José estes desolados dizeres: 

<Não posso aqui viver. Falta-rae tudo porque o tudo para mim é a paz do 
espirito sem o qual me é doloroso, senão impossível, o- trabalho.> (*****) 

R Luiz, escrevia : 

«Recebe o meu saudoso adeus. Parto nesta semana para o Porto, hí me tens 
ansioso das tuas orderjs. Nuo pude vencer as saudades, picado pelas incomodidades 
cm que vivo aqui. Isto aii>da não está para mim, meu caro Luiz. O coração ou o 
habito, podem muito. Adeus.» (•*»***) 

Nem numa tranquila terra da província longe da amada, ele podia viver embora 
tão pouco tempo: Que seria se tivesse envergado a batina c para mais longe o man- 
dassem pastorear cm nome de Deus?! O que o atraía era o Porto, ou antes era ela- 



(*){'*) í***) ('*•') ("*•*) (•****•) Xavier Barbosa — Ce.Ti Carias de Camilo, pag, 18. 46, 
43, 45, 46 e 47. 



-85- 



Não se deteve. Receou que os seus dedicados amigos de Viana, o quisessem 
convencer a ficar e lugira-Ihes. E ao reinstalar-sc no burgo, recaíra no aborrecimento 
no que chamava o estado detargico e voltava a ensaudar-se de tudo o que deixara. 
Devia lembrar-se do que o animara e como por ali vivera. 

Chegara a galgar ao alio da serra de ilrga, (*) onde nasce o Hncora das pra- 
Uadas trutas, e, por sobre o qual muito no alto, as águias voam. ilcdara pelas brenhas, 
onde passara a sandália santa do i\ginha, vira de lá as vilas caiadas de Ponte do 
Lima e de Caminha, vaguidOes galegas c Viana do Castelo, a ridente; calcara as pla- 
nícies de S. João e da Bica, que lembrem terreiros de acampamentos, e topando ca- 
pelinhas, entre os montes, subindo á Senhora da Serra e a S. Pedro de Varães, 
depararia com as ruinas de Bulhente, e veria o cabeço do Facho c toda a costa do 
Ladeiro surgindo em vivas scintilações. Talvez ouvisse ladainhar o povo nas que" 
bradas, á conta de Deus, direito aos templosinhos, cm preces para o calor do sol ou 
refrigério de chuvas para as terras só do seu suor bem regadas. R Santa Luzia e á 
mata do convento de S. Francisco, visinho da fonte bucólica do Mirto, foi ele c po** 
sinal receou, ao divõgar de mais recordando-as, enlear o fio dum romance, (**) de 
trágicos amores, nos espinhos dos silvedos. 

fíquHo, porém, assim tão sósinho, tão longe dela, por mais linda que fosse a 
natureza e mais surpreendentes e racgicos os panoramas, não era vida para o agi- 
tado ansioso de falar do seu amor. 

flgora ali, na cidade, desíorrava-se a trabalhar. 

R sua maior distracção era a faina que largamente frutificara. Publicara as Duas 
Horas Ide Leitura, saíra do prelo a segunda edição do que titulara Um Livro c esse 
singelo e doce romance Lagrimas Abençoadas ísito de sopres angélicos prepassando 
sobre toalhas de altares. Nas suas paginas, cnde soara resignadas palavras de freis 
atormentados e soluços de gente boa, confessava: «que a felicidade vem a preço de 
lagrimas como a consolação do salvamento a preço das agonias do naufragio.> (*•*) 

Tentara o teatro e lera num ágape o seu drama Espinhos e Flores dedicado a 
Alexandre Herculano como numa genuflexão perante um príncipe. 

A sua co-^ta, continuavam os rugidos. Aquelas línguas da Praça Nova tinham 
voltado mais desembaraçadas pelas lavavjens nas linfas campesinas, mas, como se 
tivessem mergulhado tambsra em vastos coalhos hervados e amargos saburravara 
travos logo expslidos nos costumados sussurrinhos perversos tornados era ecos fortes 
e flutuando do anonimato para as bocas de toda a gente. 

Podia alixar o seu amor, mesmo sem querer. Hquele afecto já ia cm perto de 
oito anos de teima, de hesitações, de marWrios, de pudores e de agravos, de fugas 



(*) <S^ ea m; deixava ir agora á Tentada da p:na, lá me ficara o romaace enredado nos silreirais 
da mata de S. Francisco de Viasa onde já passei nai dia, iá mcito no aIto.> — Camilo. 

(**) O romance a qae se referia era aí Estrelas Fanesiis pablicado em 1862 c no qsal ha ainda a 
Urtara dnm amor contraiiado, 

{***) Prefacio da 3.» edição. 



— M — 



e de aproximações sem que, todavia, a mulher cedesse e sem que o homem desis- 
tisse. Seguia-se como um fio de novela de tiragem larga semelhante embate de paixão. 
J\na Plácido se não lhe caíra nos braços tudo a impelia para eles. Oríã de pai e de 
mãe só devia considerações ao marido c esse era odiado ; porém, apesar do seu 
corajoso espirito mais instruído e liberto que o das senhoras do seu meio, guardava 
ainda um recato nascido da sua educação de infância. 

Juntavam os nomes de ambos nos falatórios das lojccas e dos cafés, muito per- 
fidamente, em risadinhas lúbricas, acanalhadas. E ele pairava. Os dos soalheiros e os 
da roda maldizente da Assembleia espicaçavam-no ainda mais desda que lhes rctor" 
quira definindo-os em versos desafiantes : (*) 

Quem quizer venha ao Palheiro 
Desta nossa assemb/e/a 
Ha de vêr línguas farpadas 
Em bocas já desdentadas 
Manchando a honra alheia. 

Oescrevia-os e ferretcava-cs: 

Ha-de vêr velhos devassos 
Como em lúbrica orgia 

Ha-de vúr o extinto frade 
Com bochecha rubra e gorda 

Ha-de vêr o milionário 
Brasileiro com mil tretas 
R contar em sujas cores 
/is lendas dos seus amores 
Com as suas trinta prztas 

i\coiraava-os de cpigramistas infames dum satanismo devasso : ripostava-lhes 
dosde que não só lhe tinham negado a entrada psra sócio da Hssembleia, mas ainda 
faziam levedar todas os noites a azeda massa do seu descrédito. 

Chegara mesmo a atacá-los de frente, com os nomes por inteiro, o que lhes 
causara engulhos e diz-se que até congestões, e noutro artigo enviado à Rurora do 
Lima, tão arrojados períodos tecia à sua volta que alguém ínlcrvifira a sustar a pu- 
blicação, no que concordara, embora pcnalisado. (**) 



(*) Camilo — <FoIha8 cafdas apanhadas na lama>, 

{**) <Tregaas à impndencia e à infimia. Haja stmpre um hamem honrado qne estenda a bandeira 
da mliericordia sobre os velhacos. Rasga, portanto, a 2.* correspondência alusiva ao Palheiro, mas li-a 
ptimeir ■ a um on dois apaixonados do circulo. Teaho pena de não a vir em letra redonda.» 

Xavier Barbosa — Cên Carias <U Camilo, paj. 34. 



— í7 — 



Estorcegara-os; ia continuar o suplicio mas cedera aos regos do seu amiizo (*)> 
e do jornal; inclinara-sc à clemência. Hssim os malevolentes deixaram de receber 
o sal sobre as escorchuras. 

Estivera detido em casa, os olhos pertubados, na diplopia, cansados por tantas^ 
lidas c escritas à luz dum candieiro de três bicos. Ia melhorando mas sentia-se 
falhado na existência. 

Por esse tempo se falava do seu amor, se o confidenciava era a elguem que 
penetrara tanto no seu coração quanto é possível abrir-se numa alma, onde uma 
grande paixão vive, logar pêra mais um afecto enternecido. E' que parecendo-se 
os dois espíritos na impulsividade, nos destrambelhamentos dos feitios românticos, nas 
audácias a nos a-didos golpes, os seus possuidoies compreender-se-hiam quasi sem 
falar, emalhetados nos mesmos sentimentos. 

O novo amigo de Camilo chamava-se José Cardoso Vieira de Castro e ia fazer 
vinte anos. Retumbara jà tanto o seu nome que mal se acreditava ser tão novo. 
R mocidade não se lhe lia no rosto pálido, a embarbar-se, que apenas se animava,, 
e então em reflexos ardentes, nf.s excitações, nas emotividades. 

Era uma das ultimas organisações do delirio novclesco. 

Pertencia a uma famiiia de letrados, com seu solar no Ermo, em S. Vicente de 
Passos, da comarca vimarenensc. 

Seu pai fora um homem probo, rígido, seu tio flníonio Manuel, um agitador. 
Paroquiara a riquíssima íreguezia de S. Clemente de Basto (**) e em vez de devorar 
tranquilamente os réditos pingues, lançara-se nas conjuras liberais, sofrera, deixara o 
país, despira a batina e envergara a farda, falara sempre alto, na tribuna sagrada e 
na parlamentar e, grande amigo dos Passos, arvorara-se cm defensor da liberdade 
como ela se entendia nessa época, em que a viem como a deusa imaculada dos 
poetas e dos caudilhos. Alçara-se às honras máximas ; ás de ministro da justiça c de 
guarda-mór da Torre do Tombo e, aos quarenta e seis anos, falsccra, num- retirada 
quinteiro de Campolide, ainda a sonhar glorias. 

Deste tormentoso paladino que obtivera nomeada, deste padre que não quizera 
ser bispo, apesar de ter governedo a diocesse de Vizeu, herdara o sobrinho aquela 
audácia que o levara, em plena sala dcs Capelos da Universidade de Coimbra, a in- 
crepar os lentes que reprovavam um sábio candidato à cátedra, Barjona de Freitas. 
Os estudantes sentiam a indignação a referver nos seus corações mas não se atreviam 
a descomporta-la dos lábios. De repente uma voz moça soerá; um rapaz lívido de 
comoção e de cólera dominara de pé, sobre uma cadeira, e, numa torrente eloquen- 
tíssima de condenações, verberara os professores. Num gesto febril dizia- se envergo- 
nhado de vestir os seus trajes académicos se os seus colegas, se toda essa juventude 
qu3 ali estava não se revoltasse. R rebelião nasceu e com ela um grande orador 



(*) Fora nm dos mais importantes comerciantes de Viana, João Loureiro Afonso. 

(Xaviír Baibosa — Cem Carias de Camilo, pag. 34) 
(**; Rendia de 8.000 a 10.000 cruzados. 



desse primeiranista de direito. R creança gerara à sua volta ura culto; ganhara 
popularidade; obrigara a decorar o seu nome. Riscado por dois anos dos cursos 
vira 9 próprio Herculano pleitear pela sua readmissão. Passara aqueles vinte e quatro 
mezcs de sueto forçado a cxercitar-se no ataque e ao regressar aos estudos primava 
nas brilhantes lições mas não se dispensava de criticar o reitor, visconde de S. Je- 
rónimo, nas paginas do Nacional do Porto onde entrara peia mão do seu amigo. A 
sua vida académica passara-se deste modo. Era o incontestado chefe das falanges da 
mocidade. 

Apesar dos doze anos de diferença da sua idade para a do escritor, sentiam 
egualmente; caíam nos Íntimos desabafos nascidos da abação de temperamentos se- 
melhantes. Existe como um fluido a actuar sobre os que assim nascem. Chega-se 
o imaginar que no fundo dos recuados séculos, as moléculas de certas organisaçõcs 
se amassaram no mesmo vaso inicial, e, aiiradas aos acasos, tecm andado repro- 
duzidas e palpitantes a entenderem-se atravez de milhões de existências. Só por 
essência divina se explicam certos afectos crescidos, a súbitas, e resistentes a todas as 
ardilezas do baixo mundo. Para demais eles eram dois ultra-romanticos e tal senti- 
mento constituía então uma ala. uma clan, uma cruzada. Tanto se vivia para a ideal 
na adolescência como no pendor da idade. 

O estremecido privado do desditoso era aquele rebelde de vinte anos. 

Substituirá no seu afecto o extranho José Augusto Pinto de Magalhães neuras- 
tenisado e morto numa crise de renuncia dos gosos do amor tanto mais tcrrivei 
quanto os carnais turbavam o esceterio. 

Outra, quasi infantil depositaria de segredos, vivia ao lado de Ana Plácido : a 
irmãsita, Maria José, com seus incompletos quinze anos c as rosetas purpúreas da 
febre incandescendo suas graciosas faces. Saíra do colégio ao dcclarar-se-lhc a queixa 
d) peito, o próJromo da tísica matadora de alguns dós seus. 

Por essa necessidade que os enfermos e os amorosos sentem de contar os seus 
iv.ales c os seus anceios, ela não resistira a entregar-se confiadamente, ao coraçãosito 
rm que já se abria também uma precoce sêdc de ser amado. E nas tardes de maio, 
ambas na sua janela, sentindo o rumorejar do Porto em baixo, na labuta, conver- 
savam de sonhos e de ambições. A mais velha ia olhando as vidraças chamejantes 
da casaria ao preanunciar-se o poente ; sentia subir, com a bulha da cidade, o seu 
hnlito forte. Hparccism visinhas nas varandas ; os pianos soavam as banaes dolências 
da Casta Diva e os janotas desciam, devagarinho a rua do Almada nos raios dou- 
rados da ultima luz do dia. Trinavam pregões e da Cordoaria chegava o rodar das 
seges pelo Carmo á Cedofeita ; recolhiam os pássaros às arvores, pipilavam cm torno 
das magnólias da Porta dos Carros, sobre as camélias rsíletidas no espelho verde 
das frescas folhagens. Conversavam sempre c era o amor de Ana que explodia de 
seus Icjbios ealre o perfume das rosas de toucar c a caricia aveludada das tulipas 
num ca.nteiro. Quedavam-se embevecidas; ficavam-se a meditar. Maria José colhera 
uma haste da roseira florescida nalgum ceixote nessa varanda citadina c ia-a 
vergando, enroscando-a como uma auréola instintivamente, sonhando por sobre os 



-89 — 



lagedos da calçada. Começaram a soar as Aves Marias na Trindade; calaram-sc os 
pianos ; uma grande paz se germanou em sombras e elas levantaram as mãos ao ceu 
e puzerara-se a rezar. Nas outras casas elevavam-se, também naquela hora, os pen- 
samentos a Deus, R irmãsita chamou-a e ela, perdida no seu grande sontio, não a 
ouvia; então embiqueirou-se, para a beijar na fronte e pôr-lhe na cabeça formosa o 
diadema qae tecera. Hna soltou um grito, despertou do seu devaneio sobre o futuro ; 
um espinho atanchara-se-ihe na fronte, uma gotinha de sangue escorrera como se bro- 
tasse de seus enleies. Maria José ficara a olhá-la tristemente. 

Escondera-se o sol; a noite descera c a pequenita murmurara algumas palavras 
inspiradas como se visse no enchumbado fim da tarde, após o esplendor dos céus, o 
contraste dum sonho de triunfos tocado pelo rubineo laivo. (*) 

No mez seguinte foram para o Bom Jesus do Monte onde os tísicos encontrevara, 
senão melhoras, ao menos enganosos elivios^ 

Na grande mata gorgeiada pelo cântico das aves passeavam pares que mal se 
encontravam nos caminhos sombrios e frescos; lá no alto, o templo, com seu csca- 
dorío monumental, parecia guardar aquele arvoredo magnifico, no raçio do qual es 
homens e os rouxinóis amavam cm românticos devaneios. 

Passeava-se na alameda da Mãe de ãgaa e ouvia-se o sussurar das fontes cm 
muito maior enlevo que noutro logar onde entrelaçavam iniciaes nos troncos con- 
fidentes. Os corações enchiam-se mais de paixão e de legenda que de ar puro 
os plumões dos tuberculosos, macilentos e de olhos íusilantes de tristezas, mui tardos 
pelos carreiros no abrigo das ramadas vastas. 

Ro longe um largo esverdinhado contrastava com o oiro do ceu ; e os contrafortes 
do Gerez, num vcu ténue de neblina, pareciam limitar o mundo àqueles que o de- 
sejavam, em sua alma, ainda mais pequeno e o queriam apenas cingido ao trecho 
do bosque onde coubessem com a mulher amada. 

Camilo soubera tanto o que era esta aspiração que ao aproximar-se sentia ru- 
morejarem cumas toadas dentre as sclvas> (**) pelas quais depois quereria «afinar a 
sua alraa.> 

Gostava muito do monte, ali estroinara cora outros rapazes em periodos felizes, 
vivia em agonias de amor c arrebatado entre as arvores algumas (***) «suas 
mais diieias con{ideGtes>. Jamais Ihs devia dar tão grande prazer a paz dessa 
íloresta como ao vêr Hna Plácido «sentada num cômoro tapeçado de reiva> tendo (*•*•) 
ao lado a irmãsita cuja cabeça se reclinava no seu hombro. fímbas deixavam errar 
a vista pelos píncaros da serrania brava. R voz da amada entoava baixinho uma 



{*) <OihiTas-me]com tristeza, . . Depois estendendo o braço e elevando a toz pressafiiadora q«e em 
■escutei como a do anjo da anunciaçio, dcixiste cair dos lábios a profecia: 
<Laz e Trevas, Gloria e Martírio. > 

Ana Plácido — Laz coatUi por ferros, 2,* edição, pag. 113. 
■(**) (***) (****) Camilo _,V<> Bom Jesus do Monte, 3.* edição, pa^. 1, 2 e 119, 



-« - 



Canção triste e ele escutou-a; depois falou-lhe, diante da inocência daquela peque- 
nila encantadora cujo coraçãosito também começava como uma rolita pudica a ensaiar 
seus amorosos voos. K mulher que devaneava, dentro em um mez ia ser mãe. 

Muito baixinho disseram do seu amor c trataram daquela confidentesinha de 
forma que os não ouvisse; deixando correr pelas faces o seu pranto, a mais velha 
murmurara: «assim morreremos todas !> {*) 

Talvez nessa hora recordassem aquele baile onde havia ao lado duma creança 
<parecida ás belezas dg Rubens> outra que era «açucena a desfolhar», e que cha- 
mada por uma senhora «grossa e refeita» íôra cantar ao piano emquanto ele reflectira 
«cantar e raorrer.> 

Seria este o começo do seu encontro ? Nascera assim o amor ? Tratava-se talvez, 
dalguma oulra irmã deh condenada como a pequenita que louçanava e, presa num 
inicial afecto, perguntava já, familiarmente, ao homem fdo, de voz caridosa c olhos 
formosos, que a sua flna estremecia: «Ele não virá?> (**) O namorado chegara cnlão, 
sorriram-sc. Maria José. de faces escarlatadas, amara-o, «naquela tarde de Julho, com 
o fervor de alma que já ouvira três vezes a voz de cima a chama-la.> 

Para sempre estreitamente se ligaram na poética selva os que havia tanto 
tempo se queriam, o escritor que não sabia crear romances sem a meter dentro deles, 
íinda e sacrificada ; a heroina que se via desenhada e se entregava. Conhecia de cór 
os seus versos, os já publicados, aquelas endeixas a i\ , » *, os dedicados a f***) Lu- 
dovina, os primeiros soluçados a seus «carmes>, todos os que andavam nas bocas 
romanescas. Ele, agora, ia cfertar-lhe uma poesia que só mais tarde os profanos pode- 
riam lêf entre o rumor do escândalo monstruoso : a partilha da sua gloria e da ventura 
a seu lado. Dizia-lho com o sentimento dum grande amor e acreditava que lhe podia 
dar esga felicidade, ante o novo sacrifício, com a mesma certeza com que lhe dedicava 
os lindos versos. 

Sentia-a muito prestes a ser sua para sempre e assim como ela disse vêr «no 
espaço imenso da fantasia rebrilhar estrela fulguranto (****) ele, decerto, repudiou o 



(*) (**) Camilo — .Vo Bom Jesus do Monte, 3." edição, pag. 122. e 123. 

(***) Nas Horas de Lúcia, Freitas Fortana declara qne a primeira poesia oferecida a Ana Plácido é 
formada por 7Ínt: e sete quintilhas e dedicada a A. . . Esta foi ioserta no periódico o Nacional em 25 de 
nuio de 1858. Já outras com o mesmo destino tinhsm sido publicadas tanto nas Inspíraçles como em Um 
Livro. 

Certamente foi aquela a primeira qne lhe ofereceu mas não ai data da publicação. Gaarda-la-ia du- 
rante anos tantos com? os que decorrem desde o ap^recimenta das ofertadas sob esta lej^enda : A :, , , e 
qne começ&ra : 

São teus os carmes que escrevo 

e que data, pela mencs, de 1851. 

(*•**) Ana Plácido — Luz coadi por ferros, 2,* edição pa<, 112. 



91- 



desolado conceito em que se tinha dois anos antes: <PreYejo um triste futuro, se 
não morrer a tempo, de bater á porta do coração e achá-lo convertido inteiramente a 
cabeça. Com cabeça somente, não se escreve. > (*) 

Entregaram-se de vez àquele grandioso amor. Não poderiam desenlaçar-se e 
também não se esconderiam mais. O que fora até aí uma tentação ante a qual ela 
só sonhara impossíveis e ele atordoamentos, nos braços das ri/ais do acaso, apre- 
sentava-se-lhes como uma realidade. Não pensavam nas consequências. Tinham caído 
no máximo desdém por tudo quanto n,ão fosse o seu amor. Ana soubera das suas 
ligações, durante aqueles anos em que a perseguira, a cantara, a desenhara nas pa- 
ginas dos seus romances c por sua causa se rebelara contra uma cidade inteira 
mas perdoava -lhe. Camilo conhecia as cartas escritas ao que fizera vibrar primeiro 
o seu coração infantil c nem lhe falava nesse devaneio embora, mordido no seu 
orgulho, devesse mostrar-se, depois, arrependido do movimento generoso cm que 
envolvera (**) o outro. 

Imaginara arranjar empregos, cousas solidas, seguras, um bocadinho de pão 
certo, c procurava-o com afan para lho fazer partilhar. Imaginava, até, eleger-se 
deputado. 

O seu renome literário não era titub suficiente para os cargos, a que concorriam 
os banais bacharéis e, então, Alexandre Herculano, saindo do seu casulo de severi- 
dade, tíesencortiçara o rostogilvasado, abrira-o num sorriso para a obra do romancista 
c sinceramente o aclamara: um renovador. Mais ainda; ia propô-lo para sócio da 
Academia Real das Sciencias (***) o que lhe deferia diploma egual ao dos autênticos 
doutorados. 

Era o máximo da consagração para um homem de trinta e três anos não tanto 
pela honraria roas por ter conseguida desenrugar a fronte do grande escritor cujo 
gesto o tornara seu par no grande cenáculo oficial. 



(*) Xavier Barbosa — Cem Cartas dt Camilo, pag, 24. 

(**) Na segunia edição da Vingança retirari a dedicatória a Aatonio Ferreira Quiques. 
(***) Segundo iaformação da secretaiia da Academ a djs Sáencias consta o seáuinte acerca da 
eleição de Camilo : 

<0 sr. Hercuíano propôs para sodo correspondente da Academia o sr, Canilo Castelo Branco, (acta 
de 28 de outubro de 1858), 

«Os sócios Feíner e Levf apresentaram o seu parecer cobre a admissão para sócio correspondente 
do sr. Camilo Castelo Branco que foi aprovado e admitido, devendo notar-se aqui que por esquecimento 
se deixou de mencionar na data de 28 de outubro terem sido aqueles dois sócios encarregados do parecer 
sobre este candidato> (acta de 9 de dezembro de 1858). 

O parecer dos dois académicos não se encontra nos arquivos. O ilastre escritor foi nomeado mas 
não consta que tivesse feito uso do honroso titulo, tan*o mais apreciável por vir de Herculnmo. 

(Levy) foi visconde de Paiva Manso, era advogado ilustre, jornalista e historiador, Eutor de nnme- 
rosas obras e entre elas a Historia do Congo e Historia do Direito Romano, 

(Feluer) Rodrigo José de Lima, era autor dramático, tendo escrito varias peças como o Templário, o 
Cego e o Vampiro. Era um maçon de renome. 



— 92 - 



Tempo antes tendo passado a cavalo, debaixo das janelas de Hna Plácido, me- 
tera á rua das Hortas, sob um luar esplendido. Eram dez horas; havia gente nos 
portais rcírescando-se das ardências de julho. O passeio sucedera, naturalmente, numa 
das vindas das duas irmãs de Braga ao Porto. (*) Ele floreava as suas picarias 
de galã, atrevidamente mas a montada empinara-se, sentira-se bem segura na mão 
do cavaleiro e acabara por se atirar ao chão a»"rastando-o consigo entre o berreiro 
das estopeiras c das comadres que tomavam o fresco nos poiacs, sonolentas e bisbi- 
Ihotciras. Ajudaram-no a desembaraçar-se dos estribos, tiraram-no muito ferido, debaixo 
do animal. Camilo tinha o rosto rasgado pelas pedras da ruela. (**) Pareceu dar 
pouca importância ao desastre, todavia, no dia seguinte, não se falava noutra cousa 
c embora os do Porto estivessem a ares sempre houve quem levasse a nova da viela aos 
soalheiros de mais monta. Relacionaram essa passagem do cavaleiro pelo local com 
o que se boquejava de Rna Plácido e daí a pouco não havia maneira de ocultar que 
ela o esperava, lhe dava atenção, andava doudejando como diria a visinhança em grandes 
gestos cscandalisados ou gatafunhando cartas anónimas. 

Para demais nascera o filho. (***) Emquanto delirava nas sombras do Bom 
Jesus estremecia no seu seio a creança. E Camilo, numa extranha serenidade — 
ele, o ciumento — diante desse ventre alteado envolvia-a numa poesia doce como se 
o infante fosse o fruto da sua paixão e não do odiado, malquerido esposo da sua 
amada. O pequeno aparecia, após oito anos de iníecundidade da linda mulher, exa- 
tamenlc quando ela deliberava fugir de casa com o seu sonho. Levaram-no a bapti- 
sar ao cabo de dois mezes, à egreja da Vitoria e Hntonio Bernardo Ferreira (****) 
representando o irmão de Rna, Plácido José Vieira, tocara por padrinho, ao lado 
da delicada Maria José (*****) que era a madrinha e ia morrer no fim do outono. 
O escritor que a amara, como a todas as afeições da senhora do seu coração, deso- 
ladamente a choraria. (******) 



(*) O facto deu-se em Julho de 1858. Nas Cem Carias de Camilo, IS-se a descríçãc. Como se sabe 
em 14 de Julho desse ano estava ele eo Bom Jesus onde falara com as duas irmãs. 

(**) < Quando me ergui tinha a car? partida em três partes. Montei, rim soldar os fragmentos da 
cara e ettava bom, só nm pcuco mais íeio que dantes. 

Xavier Barbosa — Cen Carias de Camilo, pag. 136. 

(***) Conforme se lê em Camilo, No Bom Jesus do Monte, foi em junho de 1858 que estiveram 
neste lo(ar. Manuel Plácido, baptisado solenemente, na egreja da Vitoria como filho legitimo de Manuel 
Pinheiro Alves e D. Ana Augusta Plácido Pinheiro Alves, nasceu em 11 de agosto do mesmo ano. 

(****) Vêr Doe. G. 

C****) Acerca de Maria José diz o Mestre: <amaste naquela tarde de junho com um fervor duma alma 
qne já ouviu (res^vezes a voz de cima a chama-la. Dons mezes depois, Maria, morreste.> Camilo — No 
Bom Jesus do Monte, pag. 178. Pelo menos três mezes medearam uté à saa morte pois que em 6 de oa< 
tnbro de 1858 ainda ela assistiu de madrinha ao sobrinho. 

(•*****) Sob a legenda a A M. J. cantou-a no Anoitecer da Vida: 

Fugiste ave do tmpyreo 
E nós quê gramas teus 



-9S — 



Mal se avolumou aquela campa, não houve mais cousa alguma a prender a 
exaltação da amorosa. R. sua rua apontava-a como culpada; o Porto falazava e um 
tio, Luiz da Serra Piato, ao que parece casado com uma irmã do íalccido Plácido, 
metera-se a acoaselhà-la. Achegara-se-ihg encarrancadamente a despejar na sua frenta 
as imundícies exaladas da travessa das Hortas e adjacências e a pedir-lhc que acabasse 
com a sua descomposta atitude. 

O indicado amante devia aparecer aos olhos deste severo parente ainda mais 
desfigurado do que no mau juízo mantido a seu respeito por todos os portuenses de 
peso e seus aderentes. 

Ela era mulher corajosa, altiva, de animo forte, mas ao ouvir evocar a Jamilla, 
os seus mortos, prometera acabar com essa ligação da qual, apesar de inocente nos 
seus propósitos, por seu lado o mundo tinha razão de falar. Estava casada; o seu 
estado mandava-a submeterse. Decidiu-se, pelo menos naquele instante, crente que 
saberia arrancar do coração a esperança. Não o conseguia e o Porto, nesse inverno, 
falou mais alto. Manuel Pinheiro fllves incrcpou-a e com solenidade de quem deseja 
liquidar uma questão honrosamente, convocou para casa alguns amigos respeitáveis 
e seguros ante os quais narrou o seu desgosto pedindo-lhcs o avisado e digno con- 
selho. 

Sentiu que não podia renunciar á sua paixão, que lhe era impossível viver 
com o marido como já lhe dissera. (*) Este impoz-lhe o convento como num romance 
do rival talvez, esperançado ainda na reflexão da esposa que tudo iria perder pela 
aventura, com esse malvisto estúrdio sem recursos. Oferecia-ihe três casas da sua 
confiança para ela se asilar em meditação. Queria muito, imensamente, agora cora 
um cium-e de velho — passava já dos cincoenta — a essa linda mulher. 

Desvairava; via-a partir para uma das residências, escoltada pelas testemunhas 
da scena c levando comsigo a ama e o filhito cuja a existência começava tão mal 
embalada. O amoroso teria perdoado a troco de mais beijos ; o comerciante era im- 
pelido pelos parceiros a seguir os clássicos passos de seus eguais em semelhantes 
transes. 

E quantas esposas não tinham refletido sob as vistas doutras mulheres algumas 
dignas, outras cxpiadoras de grandes culpas?! 

Escolhera-se para a depositar a casa de Hgostinho Fraacisco Velho na rua de 



{*) <Deas te livre qae eu alguma hora me esqueça de que tenho família que aão é meu marido. Se 
eu lhe perder o respeito a ela, se os estimulos de mulher casada não me faltarem, tu verás então que ea 
aio tenho outra familia,> 

<0 marido arregaçando os músculos businadores e as azas nasaes com eles, regou gou : 

— «Põe là essas doutorices cm miudoí, que eu não te entendo. 

<Se tu me entendesses — redarjaia RaqacI — nunca me forçarias a falar assim à tua igno 
rancia,> 

Camilo — Anos de Prosa. 3.* edição, pag. 212< 



-94 — 



D. Maria II. Tratava-se de família de posição grada c de bons teres. Era celebrada 
a sua quinta no Reduto das Medalhas. (*) 

R recolhida quiz receber apenas uma sua prima, ao que se dizia ; vinha enche-la 
de bons consellios, asseverava-se. 

Julgaram-na portadora da salvação na sua accada e grave atitude. Talvez a le- 
vasse de novo ao lar essa senhora respeitável. Camilo dirigia a emissária que era 
D. Euírazia Carlota da Sá, a D. Eufrazia, a sua hospedeira, c sua grande amiga. 
Quando soube de quem se tratava, o dono da casa, proibiu a entrada à dama; en- 
cheu-sc de argumentos sólidos para convencer fina Plácido a regressar ao seu bem 
estar da rua do /\imada ou, no caso de não querzr ver mais o esposo, ao menos a 
rccolher-se, de vez, a um convento, (**) qua* podia ser raes:no longe do Porto se lhe 
fazia pena o enclausurar-se ns sua terra. 

Tinham sido chamados à conferencia com dois ou três comerciantes, cujos con- 
ceitos ela saberia esmagar com os seus reptos de mulher superiormente inteligente, 
elguns homens de posição social c cientificamente caracterisada. Nada menos de três 
professores da Escola Medica acorreram como se fossem a uma junta à cabeceira de 
enfermo em perigoso estado. Eram os drs. Macedo Pinto, Luiz António Pereira da 
Silva e José Pereira dos Reis ; a seus lados, como num tribunal, nos canapés e nas 
cadeiras da sala de visitas, scntavam-se atentos, malassombrados e solenes, os outros 
Íntimos do desfeitcado esposo. 

O lente Pinto, era utn beirão adaptado ao Porto ; fizera estudos sérios cm Coimbra, 
metera-se na politica sem deixar a sciencia (***). e figurava em cortes como deputado. 
Dcdicava-se a questões ecoaoraicas, c tinha quotas em sociedades ononimas. 

Por estas decerto, ;entrava nac|U2le sinédiio devassador duma alma feminina o 
quarentão que estava noivo. (****) Não se pronunciou muito na sala dos Velhos onde 
o seu colega Pereira da Silva tivera a maior parle da acção. 

Este era um poveiro que cultivara a medicina com sapiência e que teria sido 



(*) Foi yice-consnl do Brazil no Porto. 

(**) Como reminisceacia desta scena, ridicalarisaado-a, escrevea Camilo, transformando lambem 
09 p«rjcnagens, o qac narra nos Brilliantes da BrasllelrJ. Traça tambcm este retrato àt Ana Plácido como o 
da mulher do cómico c ganancioso Hermenegildo Fialho Barrosas : «aitae refeita, cabelos castanhos, testa 
larga c cscantiada, sobreolhos pretos; pálpebras amortecidas com aquele doce cansaço do sono irresis- 
vel, faces que as rosas não deixam ser trigueiras mas que um primoroso apreciador do belo desejaria 
menoi carminadas ; beiços arqueados pelo molde da pequena bô:a ainda pequena quando o riso mostra 
o esmalte dos dentes : pescoço alto, quebrando cm ondulações de jaspe c torneios de espáduas e noutras 
ondulações que o cantor da Ilha dos Amoies sabia descrever lindamente colhendo nos pomares saas 
graciosas analogias: tal era Angela.> (Pag. 38). 

(•**) Foi Tiscoode de Macedo Pinto. 

(****) Casoa no ano seguinte com Ana Clementina Pires Moreira Gnimaries, filha dum abastado 
negociante. 



— 95 - 



-agrónomo de reputação pois para a agricultura iam iodas as suas tendências (*) Publi- 
cara um jornaisilo e, com ciiicoenta anos, o proíessor de fisiologia dsvia analisar a que 
se lhe deparava, de olhar íirme, atacante como um bisturi rasgando íundo. Aparecera 
a convite da acusada a qual lhe explicara como íôra para ali conduzida. Em sua casa^ 
na rua do Almada, os amigos do marido tinham-na interrogado, depois trasido 
para essa moradia até deliberar se desejava entrar num convento ou abandonar 
a tutela marital. Entraram em pormenores materiacs ; subsistências, bens. Sabia que 
só lhe dariam auxilio desde que obedecesse. Do contrario, fora da clausula cu do 
iar, era a miséria o que a esperava, embora o marido não pudesse deserdar o filho. (**) 
Desejava ouvi-lo como medico conscencioso c sábio. 

Gravemente ele ihe aconselhara o convento e daí, desse terreno neutro, disputar 
os seus direitos. 

Hna Plácido não teve o desinteresse das românticas. Na casa visinha chorava 
uma creança embalada peia ama. 

— Que não sabia se lhe dariam alimentos. Conhecia o que se passara ... Os 
bens do casal estavam alienados e atiravam-na para a mendiguez . . , Rduzia mais razões, 
discutia com firmeza, eloquentemente, lembrada talvez duma passagem de certo ro- 
mance de Camilo no qual se mostrava a uma mulher nas suas condições, sacrificada, 
o direito que lhe assistia da desfeza dos interesse.<5 do seu filhinho,. (***) O medico 
insistia ; aponíava-lhe as grades como um refugio. Queria libertá-la enclausurando-a. (****) 

Escutara- o mas não se convencera. Para outro logar a impcha o coração. O 
marido, assenhoreado do dinheiro, buscava submete- la peia íome, pelo futuro que lhe 



(*) Fundou e dirigiu o jorml Jardim Pariuense, desde 1842 a 1844. Escreveu sobre outros assuntos 
« isso prejudicava-o na clinica. 

(**) Era, um costume corrente para castigar as mulheres, casadas eu comanidade de bens, fingi- 
Tem-se os maridos empobrecidos. Ha grandes marcas de scenas idênticas nos livras de Camilo remi- 
aiscenciado decerto por aquele caso e outros semelhantes embora transtornasse as personagens, 

«Convieram que Fialho, como comerciante que, era se obrigasse por escritura a dividas excedentes 
ao valor dos seus bens imóveis e logo alienasse os titulos bancarics e se cozesse cem o dinheiro.> 

Os Brilhantes do Brasileiro, 2.* edição, pag. 47, 

<Compraram-se letras no estanco da Praça Nova. Escreveram-se muitos algarismos e datas falsifi- 
cadas. Às três da tarde tinham tcdos saido excepto o bário de S. Torcato a quem o dono ds casa dizia : 
a baronesa Custodia não tem dez reis para mandar tocar um cego.> 

A Corja, 2.* edição, pag. 139, 

(***) <Lembrei-lhe que a condessa de Santa Barbara devia judicialmente separar-se de seu marido. 

— Para quê ? 

— Para haver dos bens de seu marido quarenta contos com que foi dotada, 

— De que me servem esses ignóbeis quarenta contos ? Venderam-me, mas eu não rae vendi, 

— De que lhe servem os quarenta contos ? De resgatar esse menino da miséria em que ha de vi-lo 
«ncontrar a edade em que a subsistência é garantida pelo suor do rosto ao hcmem que nada tem de seu.> 

Camilo — Mistérios de Lisboa, 6.* edição, pag. 146, 
(****) Extracto do seu depoimento lo processo. 



-96 



fazia antever com o pequgnito nos braços. Não ensaiará o menor passo para lho tirar 
como se no seu espirito houvesse uma desconíiança de sua qualidade paternal ou 
como se confessasse pretinder a mulher apenas pela sua btlesa, pelo seu corpo que 
andai a tfôfaado de st das cm galantarias dispendiosas de lúbrico endinheirado . 

Encarara também o caso, outro medico e senlior de cátedra na faculdade. O dr. 
José Pereira Reis, com os cincoenta anos, nascido em Coimbra, um pcuco sccptico, 
tendo levado má vida, gostava de literatar, (») Talvez tivesse no fuodo do seu espirito 
algum espinho a recordar-lhe qualquer critica por parte do homem queiido por aquela 
senhora trazida à barra ài suas apreciações. Não fora nunca muito polido com as 
damas; usava de excentricidades, permitia- se dichotes semi-cinicos. Era dos que 
ouvira afirmar publicamente, as relações da esposa de Pinheiro Alves cora o escritor 
c que, devido a isso, ela «linha saído de casa do marido.» O seu conhecimento do 
íacto nascera «por a ter tralado.» (**) 

Baseava certezas nesse ccnlacto clinico. 

Era volta deviam indignar-sc os comerciantes concitados para o debate ; os mé- 
dicos, quasi todos, tocados dos mesmos pruridos da moral convencionada, senliam 
naqusla atitude da hospeda da familia Velho uma ameaça para todos os lares. R 
perseguida achava para a sua defesa argumentos que lhe acudiam aos bandos como 
dilacerantes rcilhaíres. (***) 

Em resposta a todos os propósitos ela, claramente, se pronunciara, e por fim, 
arrancara do peito a verdtde e um desafio : 

«Camilo c o homem de quem gosto, o único capaz de fazer a minha feli- 
dade.» (****) 

Depois disto só restava a despedida, a retirada como no regresso duma junta 
clinica impotente ante o irremediável. E foi o menos inimigo da mulher acusada, o 
dr. Pereira da Silva, que decidiu: 

«Esta senhora está doida ou perdida !» (*****) 

Também ela não se demorou muito cm provar-lhes o seu desdém pelas formulas. 
Mandou à ama que vestisse o pequenito Manuel, envergou o mais simples dos seus 
trôjos, pcÍ5 deixara ao marido, na rua do Almada, os vestidos pomposos, c saiu da 
casa onde a tinham depositado como então se dizia na linguagem bafienta do foro. 
Subira para os Clérigos c, de cabeça alta, enveredara para Cedofeita onde Camilo 



(*) Alberto Pimentel ~lío Porto ha Trinta /1/ios, descreve esta figura de clinico conhecido que tra- 
duzira muito bem es Mistérios de Paris de Eugénio Sue. 

(**) (Lo Processo). 

(*"*) <Que aproveitou meu pae deste monstruoso enlace ? 

«Que lucrou este homem em se aviltar para me chamar sua, se ele mesmo conhece qae lhe obedeço 
abominando-o? Mas eu não devia sofrer, porque Deus bem sabe que fui levada de rastos e qu: não perdi 
por ler boa filha e me tenho atormentado por ser uma vitima obediente dos cálculos de minha famili a.> 

(Camilo — Anos de Prosa, 3.* edição, pag. 213.) 

(**••) e (♦•»»») Alberto Pimentel — /l/nor*i d« Camilo, pag. 262. 



FoL 7 



lhe preparara aposentadoria ficando ele — pelo menos na aparência — cm casa de 
D. Eufrazia Carlota de Sá, a calar as bocas do mundo. 

Naquele meado de janeiro, em 1859, na alcova modesta onde a recolhera, deviam 
livremente trocar os seus grandes e quentes beijos de amor. 

Na noite regelante de janeiro, o Porto adormecera indignado c sonhara com o 
atroador escândalo sob o colossal e burguez barrete de algodão da sua fechada 
neblina. 




— 98 — 



* ** ** **■ **• ■*■'• -**• ■*■*■ ■*■*■ -*■*- ■*■*- -»■*- ■*■*• -*■■*- ■*■*■ ■^■^ -^-^ -^■*- ■'■^ -*■*- -^-^ -*-^ -^■*- -'■■^ -^-^ -^■*- -"^ -^-^ 




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VI 

DICTADUBÀ DA MODAL 



O QUE A ORDEM INVENTA — UM GRHNDE PALCO E UMA FORTE TRAGEDIA 
—AS AMEAÇAS E OS AMEAÇADORES— A MULHER DA AZINHAGA— 
CAMILO E O cMUNDO ELEGANTE> — ANA PLÁCIDO E O 
SEU DIÁRIO — SAUDADES DE LISBOA — CASTIGO 
DOS AMANTES— AMBIÇÕES DO CÔNJUGE 
— O CONVENTO DA CONCEI- 
ÇÃO DE BRAGA 



O Palheiro vencera. Era o quartel general donde a insidia partira e o escân- 
dalo mais eco produzia. Não se calavam aquelas bocas pestilentas. Cada 
uma bolsava para o monturo da titulada desafronta a sua invencionicc 
contraria a quem flagelara o areópago despudorado. Afiavam sadismos gloticos para 
o descrédito de ambos, cmprestavam-lhes conubios infetos, muito imaginosamente, era 
creações dos que se fingiam escandalisados. 

Camilo — segundo trejuravam — apanhara as cartas escritas pela linda mulher a 
outro homem c puzera-lhe como preço do seu silencio o entregar -se-lhe. Aceitara 
aterrada, porém tudo se descobrira e ficaram ambos amarrados à calceta, imolados à 
cólera citadina. 

Quintessenciavam o procedimento do marido e esfregavam de nogencias o dos 
amantes: Aquele — como se fosse o culpado (*) — aposentara se na residência de 
Sousa Barbosa, liquidara seus tráfegos na praça e embarcara para Vigo a esconder 



(*) «Um homem rico qne compra para os efeitos leifais do sétimo sacramento, o corpo duma senhora 
pobre, desconhece que esse corpo vendido tem o contrapeso do coração. 

Esse contraplso é o que faz depois os desequilíbrios. 

Se a mulher vendida ao luxo e ás invejas sociaes tem a rara virtude de devorar em si a peçonha do 
coração, o marido está salvo da desonra, porem, se ela é valsar e sucumbe ás tentações que as mesmas 
pompas lhe facilitam, é o marido quem traina o amargor desse veneno qne comprou como conUap2so.> 

Camilo — A Corja, 2." edição, pag. 164. 



- 101 - 



a sua desdita; eles os verdadeiros criminosos — cogoominavam-nos assim — viviam 
num obsceno decote diante dos portuenses. Vozes inflamadas lamentavam a extinção 
da alçada do carrasco pois já não podia avergoar-lhes os dorsos por sentença. Pi- 
tadeavam e muito rcpisadores, queriam tal espectáculo na Praça Nova. 

Vieira de Castro fora a única pessoa que se atrevera a mostrar ao amigo a 
túnica tecida de infâmias envergada ao seu dremia de amor. Conlara-lhe, sem 
ambages, o que corria; aquela atoarda vilissima. 

E ele, com as lagrimas nos olhos, abrira uma gaveta, desatara os maços das 
missivas trocadas com a amante c pcdira-lhe que as lesse. Era como se esgarçasse 
o coração. Emquanto o confidente passava as folhas o caluniado sofria. Tinham feito 
um pântano do seu grande emior que o obrigara a arrostar com a vida dura levando 
pelo braço uma mulher habituada ao luxo e que o renunciava em nome da sua 
paixão. 

O ardente c dedicado amigo, ao terminar, chorava também e exclamava nos 
seus costumados Ímpetos : 

<Deixa-me esmagar essa injuria que 6 atroz !> (*) 

Naquelas paginas escritas pelos dois amorosos vira toda a lealdade e todo o 
irresistível afecto que os unira e, na grande sede de justiça da sua alma — a gera- 
dora da rude e corajosa defeza de Barjona na Univer5?idade — díspunha-se a ir pelas 
ruas e soalhdros, pelo Porto fora, a clamar o contrario a embuchar com os seus 
murros a gente pérfida. 

Camilo ganhara um sereno bom senso. Detivera-o. «Não — dissera-lhe comovi- 
damente — Nem palavra l Bem vês que eu não devo permitir que estas cartas sejam 
lidas. E não tenho outra justificação. O homem que recebeu cartas dessa senhora, 
vive e sabe que em meu poder não está nenhuma. Ele me defenderá quando a 
curiosidade dos meus detractores o interrogar. (**) 

Confiava no outro, no que ela procurara consolar afastando-o, tornar menos 
infeliz desiludindo-o ; e pedira ante o desejo ardido de Vieira de Castro em tomar 
DO jornal o espaço preciso para desfazer o boato miserando: 

«Não escrevas nem lales a tal respeito.» 

Impunha-se um dever. Arrancada do conforto do lar ela só podia, bem como o 
filho, contar com o seu amparo (**•) 

Em volta, vibrava uma cidade hostil. Como um dejecto escorrendo da assem- 
blca — da rua da Trindade -^ até ás magnólias da Porta dos Carros, a cólera refer- 
via; sentia-se que nas horobreiras do Águia de Ouro e do Guichard e nalgumas 
cadeiras da platea de S. João se alteava a comporta dos corações românticos. Mas 
a vasa era muita e ressaltava por sobre os muralhões desses diques e ia catadupando 



(*) (**) Camilo — Correspondenda Epistolar — Introdução. 

(***) «Estará tem património, sem familia, sem ninguém: tinha apenas seu e por si o eotaç5« 
t o trabalho do homem que fizera de seo peito, culpado mas leal, a ladeira do abismo dela.> 
(Idem, idem), 



— 102 — 



cm cascatas, enegrecidas pelo fel, das alturas da Sé a Cima do Muro a despenhar-se 
no Barredo. 

Nas ruas burguesas — na das Flores, na de Santo António, sobretudo na do 
illmada, havia como ura rumor de feses era borbotões galgando por todo o solo falho 
de exgotos de que o Porto rauito carecia. Corria que se ajustara uma jolda para assas- 
sinar o escritor a qual íôra assoldada pelo marido de parceria cora o tio Luiz Serra 
Pinto. Os amantes não saíara de casa, não se desamparavam. Hmavam-sc como Icu- 
cos mas ao seu refugio chegava a nauseante exalação de vasa brotando da cidade 
burguesa c para eles maldita. Mandaram comprar passagens no Duque do Porto e 
decidiram-se a procurar cm Lisboa o refugio apetecido. 

Toda a audácia de Camilo, que baterá a sola da sua bota à Frederica diante 
dos mercadores, falecia ao sentir os pudores da mulher amada que trazia nos bra- 
ços o filho. Se não ia para a provocação era porque se considerava o único amparo 
de ambos ; amontoava-se porem, tanto ódio sobre eles que nem se aparcelava a gene- 
rosidade do amante em acolher, de alma aberta, a creança, que usaria o nome do 
outro. Talvez levassem à conta de interesse aquela sdcpção e como Pinheiro Hlvcs 
não pedira a entrega do pequenito, possivelmente veriam nesta renuncia uma confis- 
são da sua desconfiança era matéria de paternidade. 

Quando deliberarara largar o burgo onde se tinhara conhecido e araado respira- 
ram mais livremente. Todavia continuavam a malsiná-los mais a cada arranco fer- 
veroso da defesa e da admiração do núcleo dos janotas e dos poetas que não 
podendo calar tantos berros enalteciam os amores proibidos. 

Eles iam partir, deixar o sitio onde os verberavam e ao embarcarem, viam 
sumir-se a neblina e contemplavam o burgo. Estavam diante do seu teatro. 

O vapor recebia ao largo os escaleres que tomavam os passageiros no cais da Ribeira, 
ainda como no tempo do degredo de Simão Botelho. Em Cima de Vila havia sempre 
curiosos; os rabeleiros, deitados nos barcos, amadornavam perto das beiras do rio 
onde furacgavam as panelas farruscadas. O velho Porto marinhava pela escarpa ; 
restos endentados de muralha defendiam um vasto bosque; nas visinhanças da Cor- 
doaria ura olival alteava-se quebrando entre o casario, os escadeados dos tectos que 
pareciara formar o caminho para as ribas. Ressaiem trechos arborisados, nesgas de 
quintas que emprestavam à cidade trafega vislumbres de velhas granjas evocadas 
nos titulos campesinos de suas arcaicas ruas : as das Hortas, do Laranjal, do Bomjar- 
dira. Rdvinhavara-se moradias de ingleses ensorabreiradas nas acácias e nas tílias 
encastelavam-se os edificios, grimpavam, iara de socalco em socalco, desde a areia 
aos cômoros, aos píncaros dominados pelos zimbórios, campanários e coruchéus : a 
Sé, a Santa Clara, S. Francisco, S. Bento, toda a corte celeste assenhoreada de 
velhíssimos monumentos e fabricas, celebrisados como os Clérigos agulhado, egual a 
uma frecha voltada para o ceu, na qual palpitavam, como fitinhas breves, as grandes 
bandeiras do anuncio de paquete. 

Confusocionava^se a cidade nos dois montes, nas passagens ladeirentas num pano- 
rama vasto ao fundo do qual se esfumaçava mais uma dedada, a pira da igreja da Lapa. 



- 103- 



No rio refletia-se a ponte pênsil como um leito de seda a embalar-se na doçura 
das aguas darás ; minguava-se o painel das Hlminhas, e, numa vaguidão de cisnes, 
os barcos passavam serenamente. Alguns arvoravam velas vermelhas como se trou- 
xessem a bordo com as rumas das pipas, os fenícios, os conquistadores das mar- 
gens equaticas de paises distantes. 

Era bem um enorme palco, o de ambos; por ali se representara a sua tra- 
gedia. 

Toda aquela casaria agrupada sabia das suas dores, a íama da sua audácia 
galgara por sobre os muros pardos, passara o arco de Vandoma pelo Chão das 
Eiras e Cima de Vila, atravessara a Porta dos Carros, agora escandalosamente, quando 
no começo com doçura se ocultava ao tempo em que o escritor quisera acolher-se 
à religião e fora estudar para o seminário cuja cobertura advinhavam junto à Sé. 

Dali ele vira, varias vezes, a seus pés, coroo um tortuoso cscadorio todo o 
declive da cidade olhada do rio, sobrepujada pelas cúpulas ancgradas, domos 
e torres de grandes sinos. Os becos fedorentos, os degraus puídos dos Guindais, do 
Codeçal, dos Carvalhos, a rua dos Hrmenios sobre Miragaia, os panejamentos dos 
muralhões, as vielas, ocultavam-se na massa imensa das fachada? e dos tetos, m.as- 
presentiam-se como repregos e fundos de bastidores. 

S. Bento da Hve Maria, colossal com suas rexas semelhantes a viseiras, evo- 
cava a estroinice do amoroso e os ciúmes da amada ; o telhado do teatro de S. João, 
sob o qual se tinham namorado, as fachadas dos templos, as próprias nesgas de cla- 
ridade, entre os andares esguios, faziam parte do seu romance passado de boca cm. 
boca. E advinhava-sc a muralha sombria, e rcssaía o convento de Monchique trá- 
gico. 

Japoneiras c acácias espreitavam por sobre as paredes dos quintalõcs, eriçadas 
de cacos de garrafas enquadrando verduras, hortas, os velhos retiros do burgo; as 
vidraças fechadas eo frio paralisavam-se sem as chispas da luz no dia baço de inverno 
e lá para cima, numa apoteose, a casa dos Terena, a Torre da Marca, visinhando 
com a legenda de Pedro Sem, padronava o arcaico Porto fidalgo e mercador que ia 
dal2m d3 riba descobrir as galeras, as naus c as charruas de regresso da índia e- 
do Brasil para o seu grande c poderoso trafico. 

Tal historia dum castigo de Deus ao rico que desafiara o seu poder, se não 
cabia bem àqueles fugitivos, ao menos a catástrofe das barcaças carregadas de ouro 
era como o naufrágio de suas vidas tripuladas por ilusõjs. 

Contra elas emprocelava-se a vaga temerosa. O ceu cncarrancava-se ; o Duque 
do Porto recebia-os e da sua tclda viam os ar.rabaldes, numas distancias em que 
clareavam ehgrias, e havia mais campo, menos casas, menos gente. 

Do lado oposto, a visinha Gaia, garrida e rumorosa inclinava-se para as aguas. 
Praiasitas brancas esfendiam-se : eram as da Cruz, dos Estaleiros, e o Senhor do Mar 
que se humildava defronte do mamelão da serra adusta. 

Tocava o sino de bordo; levantava-se o ferro e o pano uniase sobre aquele 
scenario perdido na lonjura. 



— 104 — 



Num final de acto comovente cerrava-se a scena, desaparecia o Porto cora suas 
duas cclinas semeadas de prédios, velado por egrcjas e conventos, atalaiado por muros 
derrocados como a oferecerem passagem aos costumes novos de que eram arautos 
os românticos. 

Os dois amantes deviam sentir grande alegria ao perderem-se nas aguas, ao su. 
rairem-se com o barco, o seu Terra Nova aos pés e entressonhando a Lisboa, menos- 
sevcra aberta a todas as aventuras, habituada aes escândalos do Niza, ás cxtrava 
gancias do Farrobo, às loucuras boémias de toda a casta. . 

I\o desembarcarem no Cais do Scdré sentir-se-iam tranquilos. Ele, porém, con- 
fessava não saudades da cidade que deixara, mas uma pena enorme por lhe falhar 
a vitoria; da desejava aconchegar-se num canto, muito feliz em se entregar apenas 
ao seu amcr. 

Os doestos da moral portuense perseguiam-na ; escutava-os mesmo ali como 
psdradas rijas de destros fundibularios, porém, enchia-se da crença de que em breve 
os deixariam em paz como a duas pessoas entregues uma à outra, riscados do ca- 
dastro banel da burguesia. 

Os editores é que começaram a sentir na venda dos livros do acusado todo o 
*nlercsse que ele despertava. Os burgueses clamavam nas ruas mas levavam para 
casa as obras do famigerado como se procurassem nelas não os traços das lagri- 
mas mas as revelações dos bastidores do seu escândalo. Todos, no fundo, tocados, 
duma ambição secretíssima, desejariam tão grande ret imban cia à sua volta c os bei- 
jos daquela mulher mas só à idea de que a prsça o soubesse encaracolavam-sc no 
no fingido pudor e eram generosos cm esmolas aos santos c às Alminhas da Ponte 
só para que nem por sombras vagas se pudesse saber, terem despertado em seus 
cérebros semelhantes pensamentos. 

Camilo trabalhava metido numa casinha cm Arroios ; no Porto as injurias não 
paravam. Falava-sc ou pelo menos vinha de novo até ele, a noticia de que o tenta- 
riam matar. O; do Palheiro, os da bengalé de scelerados que descosiam mistérios da 
vida intima c esfarrapavam créditos (*) não perdiam a esperança nos sicários pagos por 
Pinheiro Hlvcs afim de, em ciladas tenebrosas, liquidarem aquele, escândalo a qual- 
quer esquina lisboeta. Talvez alguma palavra imprudente do Serra — do tio da fora- 
gida — gerasse a atoarda c lavasse o ameaçado à jamais abandonar o revolver com- 
prado para o efeito da defasa. Pela primeira vez deu tento de que tinha muitos ini- 
migos e confessava-o nas conversações com os literatos qae o rodeavam atraídos 
pelo seu talento, pelo eco da sua aventura, pela anciedade do publico cm vêr esse 
homem feio que levava ao lado uma linda e altiva mulher descativa da moral 
comum. 

Com o seu feitio de não coser consigo as ameaças, de afrontar os provocantes, 
quando não era ele o desafiador, escrevera na algidez de fevereiro, a 20, ao íuri- 



(*) A Corja — pai. 134 — 2.» ed. 



- ItS — 



bundo perseguidor da sobrinha; e nessa carta, viva, ardorosa e brava, ia muita 
grandeza de animo. (*) 

Como aquele fora o mais incarniçado na difamação e a prejudicara material- 
mente, íazia-llio notar, porem, inostrando bem a tempera de seu espirito orgulhoso 
€ rijo. 

O seu grande amigo cm Lisboa era o escritor Júlio César Machado, muito novo 
ainda, mas assisado cora sua cabeleira balzaquiana e seus olhos duma portuguesis- 
sima ternura. Folhetinista alegre, vincava-sclhe na testa ums prega de reflexão. 

Rna Plácido aítiçoara-se-lhe ; sentia nessa mocidade ilustre, alguma cousa de 
invulgar e emalhetara-se tanto em seu sentimento que acabara por lhe chamar 
irmão. 

i\lera das portas de Arroios era a moradia de Camilo e ele diariamente passeava 
peias campinas visinhas. i\bria-se para um lado a vastidão do Campo Grande e o 
logar intermédio — o Enb-c Campos — onde a Rainha Santa detivera o Ímpeto do 
marido combatente contra o filho. Para alem ficava Hlvalade, Telheira?, matagal e 
urze, semeadas de casas e sombras de frondosas arvores das quintas fidalgas até 
ao Lumiar. 

i\s carroças atulhadas de hortaliças, de frutas, de trouxas de roupa passavam 
sob as janelas pelas madrugadas c o bom perfurae dos quinteiros vinha encher o 
gabinete onde ambos trabalhavam porque /\na Plácido, entretinha-sc a traçar uma 
Dovelasinha como uma criança ponteando um enxoval de boneca. 

Ernesto Biester não largava o amigo porque desejava na sua revista (**) nova 
a prosa de escritor tão discutido; visitava-o, assaltava-lhe a produção; do teatro 
procuravam uma peça sua porque certamente causaria um grande abalo no publico 
e cie traçava sem rebuços o nome de Rna Augusta no drama o Ultimo ãclo, 
escrito ali ao lado dela, evocando, numa larga fantasia, as scenas da existência duma 
noiva vendida pelo pai, a sua morte num arranco trágico nos braços do padre cha- 
mado para a confessar e que era o amoroso querido da sua alma. 

Ia publicá-lo no Mundo Elegante uma tarefa que ele tomara na sua necessidade 
de dinheiro: um jornal de damas e elegâncias com estampas coloridas c minuciosas 
descrições de toilletes. Desde o tempo do Correio das Damas que o Porto não vira 
mais uma folha ilustrada, escrita em português e na qual as senhoras examinassem 



{*) Ilgstríssimo Senhor — V< S.* e ea reduzimos sua sobriaha à extrema miséria. Ha no crime 
ainda a possibilidade da rirtnde. A minha, se algnma me concede, é trabalhar noite e dia para ali- 
mentá-la e a seu filho. Os projectos de assassinio tramados por V. S.^ contra mim não Tintaram ao 
Porto. Se conseguir que eles vinguem em Lisboa, glorie-se V. S.' de ter quebrado o ultimo esteio de 
uma senhora desvalida. Não se cspsnte da liberdade que tomo de escrever-lhe. Espero que V, S,* seja 
am dia o primeiro a dizer que eu não era tão infame como a sociedade me julga. 

Alberto Pimentel — Os Amores de Camilo pag. 204. 

(**) Revista contenporartes, a primeira tentativa do género em Portugal e na qual Camilo publicou 
«m dos Dozt casamentos felizes. 



— 106 — 



os gorgorões dos vestidos e as toucas cncanudadas, cm cxaltamentos literários c os 
homens topassem o ultimo figurino de suas casacas pois nem todos se atreviam a 
arvorar as originalidades do Browne cu}as fantasias duma semana de inovações de 
fraks constituíam os sentimentos de muita gente. 

O periódico inaugurava-se sob a proteção de suas Magestadcs Fidelíssimas e 
tratando dos popelins côr de salmão, e das crinolines com «polonaises» também inseria 
poesias, tudo isto à conta dos senhores Vila Nova & Emidio, da rua de Santa Tereza. 

Camilo era o principal senão o único redactor dessa ilustração que pre- 
tendia unhar naquele meio, um vinco aristocrático e se não descreveu os morning 
cout de pano edrèdon e os penteados ornados de diamantes ou os vestidos de 
manga de sino assinava amargurados versos e trechos de prosa para as futilidades 
femininas desse tempo. 

Deu-se então, o facto paradoxal e único dum homem tão mal visto, penetrar cm 
todos os lares de tom, dirigir-se a todas as senhoras num jornal de mundanidadcs 
frívolas e debaixo do paládio da familia real. 

Talvez começasse a sentir já não ser tão antipático para o Porto desde que 
os editores de jornais luxuosos o convidavam para seu colaborador. 

Entrara o verão docemente e às tardes sabia bem atravessar as veredas frescas 
entre cercas fidalgas dos senhores de Pancas e Alpedrinha, dos S. Miguel e Linhares. 

Um muro tisnado de fabrica de tecidos defrontava os palácios brasonados, e, 
entre eles, a egreja de S. Jorge, nas suas cantarias novas, impunha a paz. Ho lado 
era o passal ; uma enorme parreira ensombrava o terreiro, casotas humildes debruavam 
a volta do caminho para o Arco do Cego e para as searas do Poço dos Mouros. 
Os grandes campos enverdeciam e toda a baixa fértil, até S. Sebastião da Pedreira 
esperava os segadores num próximo mez de ardências. 

Ao longe destacavam o mamelão de Monsanto c os arvoredos de Campolide. 
R vegetação opulenta de Alvalade, as quintas magnificas dos Galveias c do Viana, 
ladeavam^ o caminho do Arco do Cego ao Campo Grande c formavam uma ruela 
assombreada ao fim da qual se alargava de novo a campina e se erguia a um canto 
a egreja dos Santos Reis cm cujo adro um humílimo cruzeiro evocava o voto de 
alguma alma em pena. 

No seu sócio lia-se: cEsta cruz mandou fazer Roberto Harres ingrcs na era de 
1646.> 

O inglez que dotara o templo com essa pedra evocativa decerto sentia uma 
grande fé em seu peito; devia ser um dos foragidos às lutas religiosas que tornaram 
CromwcU dictador. 

Ou nos degraus dôsta religiosa signa ou nos de outra mais visinha de Arroios, Ana 
Plácido, ajoelhara (*) num grande fervor talvez pedindo a Deus para acalmar os duros 



(•) Camilo — A maUter di azi-Uiiga, nas Sci^^s Inocentei da Corn$dja Humana, 3.* ediçio, patfs. 
59 e seguintei. 



ataques dos portuenses. (*) Camilo quedara-ss a cismar e o Terra Nova, o Neptuno, 
que sucedera ao Tigre, morto de esgana, retouçava-se nas hervas frescas. 

Hli os tinha confrangido a pobresita qae vendia os seus bolos no fundo da vereda 
e da qual o escritor faria uma bsla evocação da que íôra a linda Maria Angela c 
acabava, cheia de rugas e desgostos dcante dum taboleiro a vender favas torradas 
e ressequidos biscoitos. 

Traçava com mais agrado estas paginas do que as poesias que, arrebatadamente, 
em pressas, lhe vinham solicitar bera como os pensamentos para álbuns. 

Uma tarde cm que ele esperava regalar-se com boas postas de peixe cosido (**) apare- 
cera um admirador a solicitar-lhe uma poesia para uma festa em beneficio dos órfãos e viuvas 
das vitimas da peste que grassara havia quatro anos. Emilia das Neves recita-la-ia c sobre 
o nome tão discutido do escritor Ccíriam as maiores bênçãos. Os seus nervos cxal- 
taram-se; não tinha tempo, desejava aproveitar o que restava em outras cousas e 
talvez num passeio, por esse entardecer de maio alegre, entre as quintas a olhar os 
trigais empapoulados. Promeíeu os versos mas não os fez, e, todavia, daí a duas horas 
quando o outro voltou a procurar o cumprim.ento da promessa Ana Plácido entregou-lhos* 
Escrevera- os ela numa enternecida doçura, doando-os aos desvalidos, com o pensamento 
em Deus. 

Descrevia os tormentosos dias da epidemia o horror espalhado por toda a parte 
e chorava pelos infelizes, e desditosos, relembrava D. Pedro V «o monarca adcredo> 
a combater o flagelo c concluía numa msgua em que ressaltava a sua: 

Eu sei os segredos da dor nesta vida 
E SCI como o pranto da fome se adoça 
Portanto pedi para aqueles que ckoram, 
Pedi, fui feliz ; mas a gloria é só vossa I 

No teatro aclamaram o nome do Camilo, todos os jornais inseriram os versos 
que constituíram a estreia da sua amante na publicidade encoberta com ele, sentindo 
a alma encher-se-lhe de orgulho. 

Enalteciam-no e jamsis renegou essa composição (***) embora fosse dizendo aos 
Íntimos quem era a auctora da Bcnificencia. 

Tiveram que sair para o Porto onde os trabalhos do Mundo Elegante o prco- 



(*) <Lá está a azinhaga de Arroios, là vejo erguida a cruz, onde ajoelhei um dia.> 

Ana Plácido — Luz coada por ferros, 2.» edição, pag. 201. 

(**) Vieira de Castro — Camilo Castelo Branco, pag. 200-201. 

(***) Foi publicada no Anoitecer di Vida come sendo de Cai-nilo, isto apesar de Vieira de Castro, 
no seu livro sobre a vida do mestre lha atribuir, E' certo que também declarou ser da autoria de Ana 
Plácido o artigo sobre a morte de D. Estefânia em 17 de Julho de 1859 e publicado no Nacional qvmndo 
nesta data (conforme se assenta definitivamente pelos telegramas da Via Dolorosa) ela já estava em Bra- 
ga, no convento da Conceição, 




cupavara bem como a colaboração do Nacional. Carecia de refazer a vida numa 
terra onde diminuíam os gastos exagerados da capital. Novamente embarcaram e, 
ao chegarem ela foi habitar na rua da Picaria e ele no Bomjardim num segundo 
andar, depois duma curta estada no Hotel Cisne. 

Ana Plácido traçaria no seu Diário guardado a todas as vistas, a seguinte des- 
pedida à cidade que a acolhera nas suas colinas brancas, isto quando só a recor- 
dá-la vivia : 

€Como és formosa, meu saudoso paraízot E' preciso conhecer-te nas horas 
felizes para amar-te e suspirar por ti como eu faço. Lisboa, adeus l Eu vi-te com a 
condemnação do mundo m fronte e nunca ela se ergueu, mais altiva e soberba da 
majestade. Tinhas razão, Rna augusta, eras grande aos teus próprios olhos por- 
que te enobrecia e refletia em ti um pouco da grandesa do homem que te levava 
a seu lado. Superioridade e distinção rara I Não se encontra coração igual àquele 
assim como não ha gloria que caminhe a par da do seu nome. Camilo Castelo 
Branco, a posteridade irá olhar com respeito para a campa da mulher que tu 
choraste. 1859 — 9 de Julho.-» 

Isto escreve-lo-ia ela depois, porque naquele instante apenas tinha animo para se 
interrogar a si mesma mal sabendo o delicio que praticara em seguir os mandados 
do coração. 

Para demais a cidade ali estava vigilante e de bocarra escancarada, numa fúria, 
ao senti-los dentro dos seus muros. Apesar de os saber quasi expulsos do Hotel 
Cisne, de cuja janela ela quizera, altivamente, contemplar a praça, não perdoava ; 
exigia os grandes os severos castigos. Redobrara a falácia na ilssembiea; do Palheiro 
partiam os destemperados ataques e a opinião publica ia até ao recesso das suas 
casas atormenta-los e pungi-los. 

Tinham dado a essa turba indignadj a satisfação de se separarem, e, todavia, 
cresciam as fúrias, os arrebatamentos. 

As burguesas mostravam-se escandalisadas e de dentro das suas mantilhas de 
lapim as beatas csconjuravam-nos ; no teatro, ao recordarem-nos quando se entreo- 
lhavam outrora subia a fervida zanga, e activava-se tanto mais contra eles a raiva 
de todo o burgo quanto é certo que, no desdém do marido, pelo filho, que ela não 
largava, queriam decerto, dar a entender a duvida acerca da paternidade do peque- 
nito baptisado em nome dele. Provar- se- ia assim o adultério durante o período da 
sua habitação no lar e isso seria o degredo, a condemnação, o fim daquele singular 
drama que os alucinava. 

No fundo dos corações das meninaa contrariadas em seus amores eles habi- 
tavam c tinham um altar mas não poderiam nem sequer pronunciar-lhes os nomes 
porque os olhares severos dos país as fariam calar. 

Para Camilo representava um grand« sacrifício o fingimento, a separação da 
mulher que desejava mostrar diante do Porto injuriado. Porem ou porque cia 
receasse ser esmagada pelos olhares — e com que saudade recordava os respei- 
tos dos lisboetas I — ou porque julgasse fazer abrandar as criticas não se mostrando 



- io<> - 



juntos, desejava continuar em casas diferentes sentindo no mais recôndito dos quar- 
tos o ulular dos portuenses. 

Qu3 diferença entre a curiosidade feita de simpatia com que os da capital os 
contemplavam no camarote do Teatro do Salitre, onde tinham ido uma noite; que 
desigualdade para com a atitude benigna de Lisboa onde ela erguia a cabeça cheia 
de orgulho por ir ao lado do homem celebre ao qual sacrificara todos os precon- 
ceitos ! 

Grandes dificuldades existiam para ambos nesse atormentado viver. 

Tinham que se recolher a um canto do mundo onde lhes corressem serenos os dias. 

Um grande abismo separava a moral dos lisboetas da dos portuenses, porem, 
Camilo não encontrava na capital as compensações monetárias em virtude da falta dum 
jornal onde diariamente escrevesse, daquele amparo que o Mundo Elegante lhe ia 
dar embora num anonimato que não o incomodava, antes lhe caía bem no animo 
aborrecido. 

Os da praça não deixavam de perguntar a Pinheiro Hlvcs se concordava com o 
triunfo de ambos. Capitulavam de victoriâ para eles aquela liberdade de se amarem 
e como em torno do <brasileiro> vozes roucas geravam incitamentos, ele ainda quiz 
tentar uma reconciliação antes de a levar até ao cárcere a coberto pela lei punidora 
de adultério. 

Sabia-a na rua da Picaria, cora o pequenito, e mandava alguém ao seu encontro 
a propôr-lhe, ao menos, a enL-ada num convento. Julgava, por esse processo banal, 
lavada a sua honra. 

Muitos amargores deviam encher a alma da desgraçada mulher quando o dele- 
gado do esposo traído, Francisco de Paula da Silva Pereira, (*) se lhe acercou com 
a proposta. 

Os claustros portuenses recordavam-lhe muito os desvarios do amante. Em Santa 
Clara andara ele nos outeiros ; cm S, Bento de Ave Maria vivia a émtiga rival a 
monja, com a filhinha de Patrícia Emilia ao seu cuidado. 

Mas porque deixaria ela o homem por quem dera os tão audaciosos passos for- 
temente marcados na greda moh do Porto de sevcridades rijas? 

Porque não tinha mais animo para a resistência, influenciado o seu espirito pelo 
tremendo erriçamento de fundos rancores. 

Mas deixar o amado seria eotregar-se à duvida do dia seguinte ; visioná-lo louco 
novamente, a partir louça, da janela do Travagem ou a passear, afrontosamente na 
Bainharia seguido pelo Terra Nova e pzlos olhares sonhadores das mulheres. 

Entrara a meditar à medida que as propostas lhe chegavam, e abrindo o «Diário 
intimo>, como lhe chamara, escrevia : 

«ft ultima vez que te aperto ao coração, Camilo.» 

Perturbava-sc ; tinha alucinações, imaginava-se pronta ao novo sacrifício c ia 
sempre anotando os seus sentimentos : 



(*) Alberto Pimentel — Os amores de Camilo, pag, 269. 



- 110 



cDedicar-te os últimos grilos da minha alma despedaçada é um dever amigo e 
único.» 

Mergulhara numa crise de romantismo. Talvez até inllucnciada pelos romances 
dele, sofrendo dolorosamente, naquela novela cruciante, tocada por um pequenino 
nada ante o que lhe expusera, dacidira-se chorando a entrar na clausura. 

O Porto exultara ; o marido maadara arranjar a cela no convento da Con- 
ceição, era Braga, sonhando certamente com a volta do seu belo corpo — a única 
cousa qua amava em delirante ciúme — aos seus braços desejosos de a apertarem 
bera consigo, nervosa, viva, ardorosamente. 

Chegava- SC ao fim de junho — quando a cidade se despovoava — e confiara 
às paginas secretas do pobre folhetosito de amor, de desesperos, de despeda- 
çamentos, a sua despedida à terra onde nascera, se apaixonara e, torturadamente, 
sofrera. 

Ele deixou-a partir; ficou-se a meditar no tormento da avalanche burguesa que 
parecia vencê-lo íinelmcnte. 

Aquela saída da rua da Picaria para o convento bracarense crcara um amua 
entre tles. Quem sabe se gerara o primeiro desarroubamento dos namorados, pre- 
nuncio de maiores ardores nascidos das zangas dos que se bem querem? 

Discutia-se a humilhação dela à cidade, à moral, à opinião. Ura duelo se tra- 
vara. Nas novelas e pocraas do romancista o triunfo pertencia sempre à virtude. E ela — a 
virtude — era o Porto com seus negociantes graves, suas atitudes comedidas, suas 
horas pontuais de refeições c de amor, a trivialidade duma vida cheia de raivas con- 
tra os que a tuibavam cora os seus desordenados exemplos. 

Os poios daquelas existências estavam entre a vaca e o arroz do jantar e o 
passeio de S. Lazaro como alimentação e divertimento ; o carroçâo c o lapim das 
mantilhas corao transporte c adorno ; a Princesa Magalona, corao leitura que se 
adeantava, quando muito, até ao Periódico dos Pobres; corao rausica alguma raa- 
zurka c a ária do Duo Foscari. R religião limitava-se à missa da Victoria, de Santo 
Ildefonso ou da Trindade conforme as categorias de quem a ouvia ou cxacerbava-se 
cm superstições reprovadas pelos cânones. Era assim, na generalidade, o ripanso 
daqueles lares modestos dos burgueses. Os extraordinários prazeres das famílias con- 
sistiam nu.m camarote no S. João em noite de anos, uma merenda em Leça ou em 
Valongo, à sombra, na horta dalguma padcirita fornecedora da casa ou numa ida ao 
Tivoli a vêr subir o balão. 

Não existia no Porto uma única dessas impudicas espalhafatosas, as cortczãs de 
alto preço, elementos de correção das grandes cidades que devaítam as fortunas. 

Nunca sli surgira uma mulher publica cnchapelada como as senhoras ou subindo 
para uma sege. 

Rs de baixa categoria habitúvam nas vielas e viravam-se os rostos com nojo 
de seus vícios ao toparem-nas nalguma fugida noutras ruas ou aos domingos nos 
barcos do Douro, cm f-^aisciscanadas, cantando, dcspsitoradàs e tontas. 

Os homens tinham que levar muito pausadamente a vida ; rcflecliam-sc logo nos 



— iit — 



, 



negócios os mais leves maus passos. Se amavam era ás escondidas; os «brasileiros» 
guardavam as amasias nas quintas arrabaldinas como quem possuísse bácoras; fazia-se 
vista grossa, tratava in-nas por caseiras e do mesmo modo permitiam acs padres a 
hipocrisia das amas e dos afilhados. Tudo se passava com mentira, veladamente, 
sem o que daqueie tribunal secreto do Palheiro saíam as condenações. Em 1844 o 
raarquez de Niza aparecera cm publico com uma cantora, Jenny Olivier, sua amante 
que fora psteada no S. João; os seus amigos janotas portuenses^ os de nomes cele- 
brados, acaudiiharam-no e em grande arnaça patusca foram tomar o castelo do 
Queijo prendendo a guarnição dos veteranos c tratando-a no calabouço a champagne 
até ao fim da írescata. Pois os burguczes perdoaram depressa o desacato á autori- 
dade, riram até, com esse assalto picaresca, porem não poderam conformar- se na 
passagem da cómica, entre os elegantes, pelas ruas da cidade. 

J\ moral era catalogada. Um comerciante não devia deixar a sua assinatura 
sem pagamento embora tivesse que se mstcr ao contrabando para a honrar, porque 
roubar a fazenda não constituía crime. Propalavam-se as origens suspeitas de varias 
fortunas porem os seus possuidores eram mcsarios das irmandades, directores da 
Assemblca e dos Bancos e isso cobria-lhes as trapaças como um psviiiião kgi- 
timo. 

Quem arvorava as bandeiras corsárias eram .s audaciosos românticos, a gente 
que tomava as responsabilidades de seus actos. Aos filhos das famílias com peso na» 
praça ou da alta nobrcsa tratavam-nos sorrindo, desculpando-ihes a custo as desordens 
as pateadas, as ceatas: Browne era um original; Forrcsttr um extraageiro; capitula- 
vam-se de verduras» os alardes do Ferreirinha. 

Hpesar de tudo este proibira á esposa que falasse ou respondesse às cartas da 
irmã. O Palheiro, soubera e louvara-o; a Praça Nova quasí o aclamara. 

Enviscãvara-se as armadilhas; não se podia passar junto delas senão cautelosa- 
mente pois corria-se o risco de se ficar preso diante do publico torturadamcnte sob 
as vaias. O escândalo dado por Camilo e pela esposa de Pmhc-iro Alves carecia de 
castigo. Ele próprio sucumbira. (*) Separa-los era els^ma coisa. F^oi o que sucedeu 
e num grito intimo, no ultimo ^dia de junho, ela confessou a sua derrota marcando 
bera não poder resistir mais: 

«Pela segunda vez fujo de ti. Porto. São inúmeras as ulceras qu« ds teus filtios 
recebi.» (**) 

«Que segredo me escondes, pagina?» interrogava, nesse livrinho humilde, no pri- 
meiro de julho em que entrava no convento da Conceição, na rua dos Pelames c S. 
Geraldo o qual, havia duzentos e trinta e sete anos, íôra fundado pelo capricho ou 



(*) <Achava-me en neste lance ha desoito meses. Pouco antes rodeada de familia opulenta, achci-me 
de improviso nas trevas da orfandade e do dcsalei to, A mão previdente que me amparara dias de exis- 
tência caía ao longe enfraquecida pela dôr de não segurar as esperanças que fugiam !> 

Ana Plácido — Luz coada por ferros, 2.* edição pag. 162. 

(**) Ana Plácido — Diário inédito pertencente a D, Raquel Castelo Branco. 



- ÍI2 



pelo abalo das consciências do o®nego Geraldo Gomes e de um seu irmão 
.doutor. 

Instalou-se nos quartos de sua aposentadoria, desta vez desacompanhada do filho. 
O ar da clausura não devia ser benéfico para os pulmões da criancinha. 

Deb:ilhara-se em lagrimas; caíra num grande abatimento. Julgava-se presa eter- 
Jian:eníe cdcntro daquelas gradas e sucumbira na despedida do pequenito, v^ndo-o 
ao colo tíd ama a cstender-lhe os braços tanrinhos como a querer levá-la cora- 
■sigo. (*) 

h reckisa pensava era morrer. (**) Havia naqueh mosteiro umas trinta recolhi- 
das cada una com seu pesar. Sentia que em todos aqueles rostos estava escrita a 
indiferença acoslumada a ver lagrimas qu imarem o viço da face. (***) 

Esperava Icpar o vislumbre dum carinho e não se lhe deparou mais do que a 
apatia alheia por seus males e sentia que o considerar assim «irritcu a dôr que a 
.alanceava. (****) 

Foi uma desgraçada por muito anf-ar a que a acolheu; quem lhe narrou suas 
desditas «á sombra duma pereira qu3 jaclinava os seus frutos sazonados. > 

Pensava muito na irmãiita morta, levantava para o ceu as suas orações, supli- 
cava ao espirito da que partira um auxilio para a resgatar do mundo. 

Procurava ali o socego mas não o obtinha porque a sua alma voejava para 
longe, para o amanís que ficara no Porto. 

Só assim, desviados daquele afecto, dando a satisfação aos maldizentes poderiam ter 
descanço ; doutra forma não lho toleravam. Pinheiro Alves insistia em fazer as pazes 
com a mulher, ao cabo dessa quarentena entre religiosas na desinfeção do seu pe- 
cado. Poderia voltar ao lar da rua do Almada e ao convívio burguês desde que 
expiasse. Ele — o lúbrico marido — apareceria com a candidez de quem perdoava c 
depois, pela vida íóra, tratariam apenas de esquecer a tonteria da malfadada fuga 
nos braços de outros para Lisboa levando consigo o filho. 

Eis o que se aguardava após o encarceramento oferecido era holocausto à so- 
ciedade. 

Voltara-se para o trabalho o homem tão malquistado pelo Porto. O Nacional 
desejava-o no numero dos seus vários colaboradores, ele, porem, fugia um pouco à 
evidencia. A grande tarefa dos anos anteriores falhara-lhe neste que dedicara ao amor. 
Ia escrevendo a Mulher que salva, a qual seria dedicada a José Estevão, mas fazia 



(*) Um dia cheguei à portaria dum convento quasi cm raiaas, Aberta essa porta para ir roubar 
uma joia inestimável ao meu tesouro de afectos arrancaram-me o meu filho de sobre o coração, sôfrego 
daquele bem; apcrtaram-me braços desconhecidos onde caí sem alento, soltando nm^nido abafado 
como em resposta ao chorar do anjo que me estendia os bracinhos atravez das grades. 
Ana Plácido — Luz coada por ferros, 2.* edição, pag. 162. 

(**) «Chamara antes pela morte; trocara com ela o osculo amigo, afagava n^ mente o refugio seguro 
das tempestades da existência, a sonhada eternidade do justo.) — Luz coada por ferros, 2.' edição, pag, 163. 

(•••) (•«**) Idem, idem. 



Foi. 8 



- 113- 



uma tarda composição, preso pelas recordações da enclausurada. Para se manter 
apenas redigia o Mundo Elegante. As suas distrações tinham-se limitado. Para demais 
não havia teatros pois do contrario apareceria a irritar a opinião agora que em nome 
dela, Hna Plácido o deixara chorando lagrimas de sangue. 

Escrevia-lhe cartas desoladas, acusadoras, desesperadamente; pensava loucuras 
encerrado na cidade da qual não podia sair sempre tentado em esperal-a, compreen- 
dendo não poder durar muito aquele terror que os separara. 

Vivia entre o desejo de a ver humilhada c de a beijar loucamente e tanto era 
este seu pensamento que mandava em telegramas desmentidos às cartas crudelissimas 
que lhe escrevia. 

No seu diário, um caderninha das impressões de suas dores, ela ia derramando 
cada vez mais lagrimes, umas vezes sentindo-o como um algoz, outras não se julgando 
digna do seu amor. 

Braga habituada aos dramas de coração das religiosas era-lhcs tão indiferente 
quanto o Porto continuava no seu formidável combate. 

Assim, entre prantos, acirrado pela distancia, viviam a sua grande paixão. Bem 
podiam os outros — em nome da moral — raostrar-lhes diversos cominhos. Só um 
queriam, um apenas ambicionavam c esse era o que os conduzisse aos braços um 
do outro, à paz do mundo, sós com os siu beijos, e o inesquecível prazer de suas 
veementes caricias. 




114 — 



à 



** •> «É ■ 




O conoênto á» S Bento 
dã fíoé Meria, no Porto, 
onde Ta mtnja D. Isa- 
bel Váz Mourão. 



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VII 

«VIA DOLOROSA» 



UM PSEUDÓNIMO DE CAMILO — 71 CORRESPONDÊNCIA COM H RECLUSA — 

VERSOS DE AMOR, PROSAS DE ÓDIO— O PROCESSO DE ADULTÉRIO— 

OS RÉUS E O JUIZ DR. TEIXEIRA DE QUEIROZ — PINHEIRO ALVES 

E O SEU PROCURADOR — A JUSTIÇA E OS AMIGOS DO 

ROMANCISTA — COMO SE FEZ A PRONUNCIA DE 

CAMILO — ENTRE A PAZ E A LUCTA — 

A MÃE DOS INFELIZES NUMA 

AGUA-FURTADA 



FOI sob o inventado nome de Ermelinda Pereira da Costa que chegou 'ao con- 
vento da Conceição o primeiro telegrama de Camilo para Ana Plácido. (*) 
Não o expedira do Porto; entrara era Braga e enviara logo suas desculpas 
por lhe ter escripto umas palavras agras. Estava-se cm 6 de julho ás sete e dez da 
tarde; minutos, depois, a reclusa lia: 

<.Não te mortifique a carta que has de receber amanhã. Foi uma hora terrível 
que inspirou a tua amiga.* 

Chegou a resposta de venturas para ele pois voltou a dizer-lhe: 
€/l tua carta deixa-me alegre. Podes escrever-me que não parto ainda. Faz 
muitos carinhos ao teu Nino que hoje recebeste. (**) Crê na felicidade.* 
Logo, no mesmo dia, — a 8 — lhe assegurava de dentro das suas grades : 
^Creio na felicidade prometida por ti e por Deus.^ 

Primeiro confiava nele e só depois no Creador, pois era bem pagão o amor que 
a abrazava. 



(*) Sobre o ti talo K^ D0/<7r0ja dado pelo mestre a esta correspondência existe em Seide o Tolnne 
precioso qae o antor panda consoltar, jraças à ^ntileza do sr. Sonsa Fernandes, director do Massa Cami- 
liano, sendo o favor solicitada pelo sr. dr, Veloso de Arjnjo. 

(**) Ele chamava-s; -ssim na intimidade e naturalmente enTÍan-lhe nm retrato com aquele terno 
e qnasi infantil nooK por dedicatória. 



117 — 



Estabelecera-se a correspondência; as missivas succdiam-se, e para chegarem 
mais depressa o telcgraío eletrico servia-os, era seu cúmplice, fora das barreiras por- 
tuenses, ao cuidado da ordem, sob a égide do Estado. 

Cantava na alma da amante uma alegria confessada: 

<Eu estou hoje mais apoquentada com a dor mas alegre e crente no futuro 

R quinze dias de convento já pensavam em junlar-se de novo nas suas ambições 
de amor: 

 qualquer hora que queiras sair chama a tua amigai dizia-lhe ele e em res- 
posta chegavam singularidades: 

<Amanhã terás a prova de que o ceu guarda a minha vida.» 

J\ comprovação de que ao recolher-se a S. João de flgra, dois anos antes 
pensava em a levar consigo, estava no que lhe transmitia agora. Isto evidenciava 
bem os seus propósitos: 

«y/ana torna a ser o destino de ambos.y 

Radiante, no mesmo dia, 16 de julho, i\na Plácido declarava: 

</i felicidade não é só uma palavra.y 

Adoecera; em vez do natural nervosismo viera-lhc qualquer achaque mais rude, 
c ele, desolado, sentia não esperar as melhoras e acrescentava restar-lhe só a conso- 
lação de lhe escrever. Concluía com uma novidade de jornalista a quem se pedira 
um arbgo pesaroso, maguado sobre o facto: «Aíoneu a rainha.^ (*) 

Perguntava-lhe, depois, caridosamente: 

«Se a tua amiga te procurar podes jalarlhe?* 

Na rua do Bomjardim, onde ele se metera a lidar, recebeu-se a resposta assinada 
cm nome da enfarma, pelo sargento telegrafista: (**) 

Estou sem febre e muito animada. Receio, porem, que a tua vista sem poder 
abraçar- te altere o meu estado por mais alguns dias.y 

Do primitivo amuo julgava ele restar ainda alguma cousa, imaginava-o continuado 
na recusa em o receber na grade. Rcentuava-lho. 

<Já deves ter perdoado à tua amiga. Merece-o pelo que sofreu. Prova-lhe teu 
perdão dizendo como estás. R noticia que te deram é absolutamente falsa, O senhor 
de Seide f***) está em Paris.> 

No seu desespero e envergonhado do Porto, procurava distraír-sc viajando, o 
marido daquela mulher prestes a libertar-se novamente a quem tinham ido dizer ser 
intenção do esposo manda-la prender se não voltasse para o lar. 

Ou porque a resposta não viesse a gosto de Camilo ou porque se enchesse de 
desespero, o que nele era tão súbito, como a alegria, queixava-se: 

«O sofrimento excede as minhas forças.* 



{*) ComproTa-se não ter sido Ana Plácido qu: escreveu da ma da Picaria o elogio fanebre de D. 
Estefânia confonse asseverou Vieira de Castro no seu livro sobre Camilo, a pag. 202. 
(**) Francisco Nunes Qnedinho. 
i***) Referia-se a Manuel Pinheiro Alves. 



— Hí - 



Na mesma data, no seu livro intimo cia charaava-lhe : 

-í/ilgoz da minha vida e da minha felicidade. (*) 

Depois, num acesso de ternura, acalmava-o no despacho telegráfico: 

<Socega filha — tretava-o deste modo pois dirigia-se a Ermelinda Pereira da 
Costa — eu quero viver muito. 

Ele retorquia-lhe, naturalmente, a desvaneccr-lhe alguma impressão apavorada por 
não poder jamais desencleusurar-se : 

<Socega minha filha. Podes sair quando quizeres emquanto não requereres o 
aviso. Diz isio positivamente ao Ferreira. 

Assim como o doutor Luís Hntonio Pereira da Silva a visitara durante a 
doença no convento, à conta dos procuradores do esposo, bem como o clinioo de 
Braga, Jerónimo /intonio de Faria, também ali fora, depois, o medico Joaquim José 
Ferreira, amigo de Camilo, fípesar de ser um scientista de envergadura, e analista 
profundo, roçavs-se pelos românticos e até lia versos. 

Era o mais elegante e correcto dos facultativos portuenses; um homem de 
sociedade transviado na medicina, um ooeta perdido no fartum dos anfiteatros ana- 
tómicos, operador habilissimo mas que não amputava o espirito. Adorava o convívio ; 
era um mundano e talvez, por um deleite de psicólogo a juntar á grande amisade 
que o prendia ao romancista, no qual o seu olho perito via um soberbo caso pato- 
lógico, se resolvesse a visitar i\na Plácido c a recolher de seus lábios as respostas 
ambicionadas pelo amante que ao escutá-las se enchia de esperanças num aquie- 
tamento : 

<Fica socegada minha filha. Vou melhor e vejo já o mar de Viana com o ar- 
rebatamento com que admirei a teu lado o Tejo.y 

A casinha de S. João de Agra tentava- o com a su-a vista formosa, empoleirada 
na encosta, visinha da capela. Desenrolava-se na sua frente a bacia do lindíssimo 
rio Lima até Cardielos onde se alargava como um lençol de prata, suave e remansoso, 
após a passagem entre os cortinados verdejantes, por detraz dos quais se erguiam 
as torres dos gothicos solares. 

Brincavam sempre na sua lembrança as belezas vianenses, os mosteiros, as 
inatas, a casa dos Barbosa, em Perre, c já que da primeira vez não pudera dar à 
bemquerida os seus beijos no asilo duma terra onde até os aventais das camponias, 
trazem bordada a palavra «Amor>, ao menos te-la-ía agora, nesse scenario de encantos. 

Ana, escrevia-lhe queixosamente da Conceição e em termos tão desditosos que 
ele lhe aconselhava: 

<Lembra-te de teu filho e de mim*. Também, no capricho dos seus nervos, se 
sentia doente c participava-lhe : estou «sofrendo um ataque de sufocação». 

Como se as cartas enviadas do Porto por vezes levassem o orvalho vivificante 
servido logo entre as paredes negras do convento, um grande arrebatamento, o aroma 
lorte daquele afecto, vinha aUgrá-lo nas palavras agradecidas que recebia. 



(*) Dlarlo de Ana Ptacldo — 18 d? Jaaho de 1159. 



— u* - 



«Crê que nunca amei a vida como hoje. — Ãna^. 

Caíam, porém, em crises nervosas, abalavam os seus organismos, abatiam-se 
para se erguerem impelidos um para e oufro c, a 25 de Julho, a menos dum mês de 
separação, Camilo ordenava-lhe, impaciente : 

<Marca definitivamente o dia em que saes^. 

<Estou melhor e amanhã saberás o que desejas. Espera-me na grade o Fer- 
reiras, dizia ela como a noticiar- lhe que pelo medico iria o recado, e logo, sacudida, 
preferindo tudo aquela situação de dois amantes desunidos pela vontade duma cidade 
que os troçava no alarde dos vencedores dcsmunificientes, aconselhava-lhe:« trata do 
ridiculo que pesa sobre nósy. 

Equivalia a cspicaçar-lhe o animo audacioso, enviava-lhe o alento forte em 
semelhante receio do pó do grotesco mil vezes peor do que os tiros trsgicos. 

Resolvia-se a novo desafio e numa venturosa expansão ela declarava-lhe : 

«O sol da felicidade alumia o espirito da tua Ãna^. Acrescentava a raarcar-lhe 
a hora da libertação: «De hoje a cinco dias conto estar boa.y 

Foi em 1 de Agosto que o escritor a animou mais ainda : 

^Verâs Nina, pela carta de hoje, que as cousas se combinam melhor do que 
tu pensavas.y 

Delirõntemenle volvia: 

<Vejo o futuro e a imagem do meu Deus na terra.y 

Queria-a ao pé de si; assegurava-lhe : 

<A Nina vai para o Bomjardim sem receio. E' preciso 

Era preciso porque tencionava mostrar-se ao Porto numa provocação, destruir 
pela exibição o que viam como timidez ao julgarem-nos vencidos. Carecia de nãa 
perder a sua categoria dominadora; não queria que o Palheiro o julgasse amedron- 
tado e, amparado no seu feitio desafiante, crente na coragem da amada, achava 
necessária a sua presença na cidade. Acedia; venturosamente, lho participava: 

^Estou alegre Nininha; é mais um dia e depois o ceu.y 

Mas não foi mais um dia. Surgiram embaraços. Agosto entrou c as cousas 
complicaram-se. Não escapariam aos castigos pelo seu acto, apenas pela altivez de 
encararem os censores. Ele a avisara disso, e ao mesmo tempo a consultava a não 
a querendo expor ao que pressentia de tcrrivci: o cárcere, o degredo, a lei a 
punir o seu crime de adultério. (*) 

^Disse-me hontem alguém que o Senhor de Seide dissera que no caso de 
reincidência intentaria uma acção não de divorcio mas de cousa mais feia. Seré^ 
possível ? Acho tudo possível Se tu, filha, estivesses na posição de victima do 
senhor de Seide, terias animo para afrontar novos infortúnios ? Impuz-me a obri' 
gação dolorosa de fazer-te saber isto.y 

Sacudia-sc mais uma vez, arrebatava-se já farto daquela separação: 



(*) o artigo 401 do Codijjo Peaal pnnía com o degredo o crime de adnlterio comprorado e eia a 
ameaça para ambos. 



— 120 — 



<LNada creio mes dá-me Deus força para iudo. Manda-me a sege. Amanhã 
devo estar no Porto.-» Raivosamente, (*) no raesmo dia, acentuava : 

«O ultimo favor que te peço é mandares-me condução para ahí. Eu nunca te 
ccnheci.y 

Lego* o amante lenitivava semelhante cólera: 

<As 7 horas da manhã tens a carruagem. Espero-te onde te disse. Não vás 
para a casa da rua da Picaria. Nunca me conheceste, filha ?> E, animado, satis- 
feito, ancioso : 

<Amanhã começará para nós uma vida nova.> 

E ela traçava no seu breviário de dores e de alegrias a seguinte interrogação: (**) 

<Serei digna de ti, Camilo ? > 

Ora o culpava, ora o adorava de joelhos, seguindo a trilha de todos os grandes 
arnores. Hguardara-a cm Famalicão, íoram buscar o Manuelzito, que estava a criar, 
era Scide, (***) e voltaram numa sege para a vila, indo noutra o pequenito cora a 
ama. Kli, onde Pinheiro Alves gostava de exibir a mulher, apresentavam-se ielizes 
do seu delito, aos olhos ávidos e gulosos do escândalo. (****) 

Mal se detiveram no Porto; procuraram o socego, nesse agosto, numa casinha 
da Foz, mesmo porque na hospedagem da Picaria (****•) se levantara cekuma, ao 
conheccrem-se os seus nomes, ao verem-nos abraçados, á janela, diante da visinhança 
alarmada, das senhoras que espalhavam o que chamavam «a indeccncia do seu viver». 
Hmavanvse; pagavam as suas contas, aprasentavam-se com o desprendimento de al- 
tos espirites mas íaltava-lhes o consenso canónico c a tolerância dos portuenses la- 
mentadores de Pinheiro Alves, tratado de marido exemplar e desditoso. Com efeito cie 
sofria não só ante a piedade lida nos rostos dos amigos mas ainda porque adorava 
o corpo magnifico que comprara. Ela, na praia arrabaldina, entregava-sc toda à sua 
paixão c a acarinhar o filho que ele não lhe arrancava dos braços, gerando duvidas, 
querendo, talvez, mostrar ter sido traído dentro do seu lar. O escritor adorava a 
criança mas não se imputava a sua paternidade. 

Rna Plácido fazia 28 anos. Ew. setembro ainda habitavam a Foz. Galantemente 
Camilo lhe dedicou versos: 

Apaixonadamente a retratava chamando-lhe Rachel, nome que encontrara mais 



(*) Foi em 3 de aíosío de 1859, Na manhã de 4. Ana Plácido deixou o conrcnto. 

(**) Dlarlo de .Ana Plácido, dia 3 de agosto. 

(***) Camilo nas Noites de Insónia, capitulo X, e que foi publicado cm 1874, assevera: cqnando ha 
qainz? anos Tim, pela primeira Tez, a S. Miguel de S!Íde>, Foi em 1859 por consequência e certamente 
nesta ocasião. 

(****) O medico Jerónimo António de Faria declarou no processo, como testemucha, tê-la tratado 
em julho no convento e, no mês imediato, vira em Famalicão o filho e a ama numa se{>e e ourira dizer 
qos oa outra iam Ana e Camilo. 

(*'***) A casa pertencia a João António de Azevedo, tendo a creada, Joaquina Maria de Jesns, sido 
teitemonha no sen processo, assegurando, do depoimento, a sumula do que fica expresso. Ji o sr. Alberto 
Pimentel m lhe referiu no seu livro Amores <U Camilo, pag. 270, 



- 121 - 



belo para marcar seu sentimento. Fora buscá-la à Bíblia como o duma mulher ado- 
rada, pela qual se íazera todas as tarefas baixas e os sacriiicios máximos durante 
largos anos no desejo de seus beijos. 

Vieste assim de Deusl Tens formosura 
Que eu não ouso tocar I Matem-me a alma 
Os bárbaros da honra em vil tortura 

Dizia-lhe num arroubo, estonteado: 

E's linda l que ie vejam teus algozes. 
Num carczre afrontar mortais angustias 

Mostrava adorá-la, sorvia nos seus lábios os mais deliciosos beijos e advinhava, 
«nte os rumores da viloria, o que os esperava. Os amigos prcveniam-no das atoardas 
do Porto. Eles dormiam nos braços um do outro esperando a todos os instantes os 
desígnios do acaso, da lei, da vontade dos homens tentando quebrar o seu amor. 

Abalava-se da praia; a gente que o vira na Foz fora encher a cidade d3 por- 
menores extravagantes. Não procuraram pousio no norte. De novo se albergaram 
em Lisboa onde dois meses decorreram numa la.ga felicidade. Levava-a ao teatro 
D. Maria, para o fundo dum camarote a ouvir o ensaio da peça O Ultimo Acto 
turbada pelos soluços da protagonista Rna Hugusta — como ela — e á sua seme- 
lhança, victima do casamento de conveniência ; davam largos passeios, mostravam-se. 

Um enorme orgulho a enchia por anáar junto daquele cujo talento obrigava 
a chorar os próprios actores que representavam o seu drama. Caminhavam sobre 
um tepete de notoriedade; os literatos acercavam-se tanto do talento do homem 
como da formosura da mulher, satisfeitos pelo contacto com esse par romântico, ele- 
gante e ilustre que enchia as imaginações. 

Camilo, por vezes, tinha exlrarahos ciúmes mesmo dos seus mais Íntimos ami- 
gos como Juiio César Machado. Fcbi-ilmente queria àquela mulher que \h^ dera as 
maiores provas dum enorme amor e à qual já ofendia duvidando do seu afecto. 

Ela Gstava na idade perigosa da paixão, quasi nos 30 anos. Tornava-se de 
singularidades a vida de ambos. Entrevia o feiiio volúvel do amante, receava da sua 
volubilidade, tremia à idea de poder ser aborrecida como as outras, pois sabia- o a 
crear eternamente uma paixão 

Sofreria mas nào podiam separar-se jamais porque quem mais os odiava — o 
marido — ia soldá-los para sempre a uma gramalheira de infortúnios. 

Insfalara-se em Lisboa, no Hotel Universal, ao topo da rua Nova do i\lmada ; 
os triunfos de Camilo deviam exacerbá-lo ; a visinhança de ambos enlouquecê-lo-ia 
pois diariamente ouviria falar neles. Decidira-se a castigá-los. Fugira-lhe dcs braços 
a adorada ; as provas do seu crime estavam patentes e o Código era inflexível ao 
determinar : 



— 122 — 



<Ãrtigo 401 ° — O adultério da mulher será punido com o degredo tempo- 
rário. 

§ 1.° — O co-reu adultero, sabedor de que a mulher é casada, será punido 
com a mesma pena, ficando obrigado às perdas e damnos, que devidamente se 
julgarem. 

§ 2° — Somente são admissiveis contra o co-reu adultero as provas do fla- 
grante delicio ou as provas resultantes de carias ou outros documentos escritos 
por ele. 

Que lhe importava a vida sem ela? Queria era arrancá-la aos beijos do outro 
remetê-la pêra o degredo embora se lhe escapasse e, então, assim punida, talvez se 
submetesse. E não falava do filho ; movia-se num rancor fundo, numa loucura feroz. 
Daria uma satisfação à sociedade e um pastio ao seu ciúme que lhe comprimia, 
ainda assim, a vingança a tirar defrontando-se com o rival. Empregaria o seu dinheiro 
de preferencia a balas. Não correria riscos; veria os outros esmagados, para demais 
o Porto, a Hssemblea, o Palheiro, impunham-se-lhe e ele, dum golpe fundo, cortava 
cerce o escândalo e a espalhada fama da sua pusilanimidade. 

Dccidiu-se a intentar o processo. Entregou a querela ao advogado dr. Hlexandre 
da Costa Pinto Coelho de Magalhães e logo es aplausos à sua acção girandolarara no 
meio dos protestos dos românticos. Entrevia-se a certeza da punição; por toda a 
parte se exigia um exemplar castigo o qual faria meditar as solteiras e desviaria as 
casadas do adultério. 

Se tivessem aparecido no Porto di-los-iam a empestar a cidade com o seu hálito. 
Todavia Rna Plácido estava lá csculcando, perscrutando os tramites do seu drama 
emquanto o marido a julgava em Lisboa. 

Ocultara-se e transmitira a Camilo uma noticia falsa, no seu grande receio, 
após a verdadeira, a relativa a ter começado a acção. 

<Distribuiu-se hoje a querela contra nós.:^ 

Mesmo na ante-vespera de Natal não havia tréguas. Ela continuava no prcprio 
dia da consoada: «O juiz pronunciou-me. ãconselham-me que saia já para essa 
antes de dada a ordem de prisão. Tu não faças a asneira de vir aqui, o caso é 
mais sério do que julgas > (*) 

E, todavia, o magistrado não tomara semelhante deliberação. 

O dr. José Maria de Almeida Teixeira de Queiroz era filho do conspirador liberal 
do mesmo apelido e proprietário em Verdomil, qu3 chefiara, no dislricto de Aveiro, 
as acções secretas contra D. Miguel. Alçado na magistratura o seu primogénito, homem 
inteligente, pusera de lado a lira receoso de que a justiça lhe desdenhasse as mavio- 
sidades. Poetara na mocidade, erguera fantasias formosas, desenhara pagens torturados 
de amor c bardos empunhando alaúdes nas sombras vastas das fortalezas medievas. 
Assinara até um poema intitulado o Castelo do Lago. (*) 

Também S3 prendera em amores; era uma alma sensível c uma consciência 



(*) Da Via Dolorosa, ia<iditos do iMusea Cani'liano At Seide. 



limpida. Sentiu, talvez, que penderia para os culpados a sua alma afectiva e, mesmo 
sob a insistência do advogado do marido queixoso — confiado na sua probidade — 
julgou-se incompetente para presidir a semelhante processo. Recordaria, porventura, 
os amargos transes da sua paixão oculta numa casinha da Povoa enquanto a não pudera 
mostrar ao mundo? 

Os alvejados ignoravam semelhante acção e Camilo, serenamente pelo menos 
na aparência, pois na sua slma referviam receios, avisava a ausente: 

<Dão-me hoje providencias para a lua segurança e partida no proMmo vapor.y 

Cheia de medo pelo que lhe diziam, não querendo cxpôr-se aos olhares da cidade, 
sofrer as curiosidades a bordo decidira- se a fazer viagem por terra c ir a Coimbra 
encontrar Vieira de Castro, cujo poder enorme sobre os estudantes a livraria de todas 
as tentativas de captura. 

Um despacho telegráfico anunciava ao amigo, metido num terceiro andar do 
prédio 40 do Cais do Sodré, o pousio da foragida : 

<Chegou aqui D. Âna. Parte amanhã se tiver bilhete e senão depois com 
certeza. Previno-te a seu pedido-i-, etc. 

Decerto a D. Eufrásia Carlota de Sá, na sua fidelidade, o avisara da partida 
dela. Um grande sobressalto, que não se importava de confessar á confidente, embora 
o escondesse da amante, agitava o espirito do cscntor habituado a visionar, numa 
rapidez estranha, as mais dolorosas situações. Manifestava-lhe o seu estado, numa 
larga queixa: 

«Lisboa, 28 de dezembro. Minha amiga. Sei que a D. Hna está em Coimbra 
donde decerto cão sairá hoje nera talvez amanhã. Em Lisboa tenho alguma segurança 
porque confio em amigos ; mas se o homem continuar com a querella, tenho de viver 
sempre cm sobresaUo e escondido até que a questão venha a acabar no tribunal de 
Lisboa. Imagine a minha amiga que vida será esta. Também perdi a esperança de a 
tornar a vêr, rainha boa Eufrásia.» 

A sua habitual coragem sucedia um desanimo enorme, bem próprio destes tem- 
peramentos de audácias e de quedas súbitas. Via-se no degredo, escutava os rumores 
da rua, os sobressaltos dos amigos e avolumava os males numa excitação de roman- 
cista autc-ssugestionado. 

<É preciso convencer-me — continuava — de que morri para mim e para muita 
gente. Neste triste momento devo confessar que é a senhora a pessoa a quem maiores 
provas de amisade devo.» 

Vinham, então, as recordações antigas, o apelo para as amisadcs, talvez o 
remorso de suas doidices e o primeh-o arrependimento pelo passo que a amante dera 
no seu alarde de paixão: 

«Quando íôr ao convento recomende-me àquela boa amiga que não espero vêr 
roais. Diga-lhe que, imaginando que eu m^rri, contemple com piedade a oríã que 
Deus lhe destinou para que ela desse um publico testemunho da sua generosa abne- 
gação. Hdeus rainha amiga, enquanto vivermos troquemos algumas palavras dignas 
da amisade de 9 annos e de toda a vida.> 



- 124 



Era circunspecto nos dizeres; cntregava-se todo ao desespero, deixava galopar 
a poderosa imaginação mas ia defendendo a sua cúmplice dos ataques da hospedeira. 

«Faz a D, Hna a injustiça dizendo que ela me afasta de lá. Quando eu estive 
muito doente perguntou-me ela se eu queria que lhe escrevesse eia mesmo pedindo- 
-me para vir para o pé de mim. Creia que o que cia tem é medo que me prendam; 
porque se me prendessem ninguém nos valia e iríamos ambos para a Africa.> (*) 

Hssim se apresentava a situação. O degredo ap?recia-lhes numa ccrtesa absoluta. 
Todos os que se lhes aproximavam o diziam. Pairava terror desde aqueia antevéspera 
do Natal em que Pinheiro Hlves entregara a sua queixa de marido ofendido, enrai- 
vado, sòsinho num quarto do Hotel Universal, a sentir como se fundira numa des- 
graça a vida que amanhara cuidadosamente, em bens, para ser feliz cm gosos. R 
imagem da mulher devia turbar-lhe as noites desesperadas. O advogado, em ensejo 
de granjear grande ruído sobre o seu nome, quasi descompunha os rcus na partici- 
cipação engendrada pelo constituinte furioso. 

O Porto burguês seguia, atenta e severamente, as peripécias do processo, os 
lances já a debaterem-se entre os magistrados. 

Podia ainda partir em segurança a inculpada que sofria imenso, segundo Vieira 
da Castro participava ao amigo : 

<Vai triste, compete-ie confortá-la. > 

Deste modo acabou para eles o ano em que tinham deliberado quebrar os pre- 
conceitos. 

Hs grandes nuvens no seu amor apareciam por uma alta razão social. O sofri- 
mento vinha pungi-los porque assim o determinavam as leis criadas para a defesa dos 
lares, diziam os moralistas engrossando as vozes e recordando-se das pinturas, fei- 
tas pelo romancista de indivíduos de mau porte era segredo c de catonismos cm 
publico as quais traziam à mente pessoas conhecidas, marcantes. 

Era muito malsinada a determinação de José Teixeira de Queiroz ; (**) parecia 
nos seus escrúpulos, acaudilhar o iníamador das famílias portuenses, o homem que 
na sua acção abrira uma brecha funda nos costumes citadinos. Tinham-no conside- 
rado sempre como um inimigo ao qual não se consentira abrigo. E surgia o magis- 
trado a recusar-sc ao julgamento ? ! i\briam-sc gt^andes bocas pasmadas, condena- 
vam-no as línguas perversas do Palheiro e logo também ao primeiro substituto José Maria 
da Silveira Torres que de egual modo procedera. Sentia-se tão suspeito como o seu colega, 

Janeiro adiantava-se. Parecia que não havia juizes para julgar os réus. Não se 
podia atribuir à pressão ("*) da imprensa semelhantes atitudes porque uma grande 



(*) Comunicada pelo sr. Alberto Pimentel m seu livro O Torturado dt Selde, p«í. 42 a 44 e 
extraído da Labareda de 1 de junho de 1914. 

(**) Pae do grande romancista Eça de Queiroz. 

(***) Miis tarde Camilo escreveria; <0 Nacional, periódico onde expeiio^entei a vccação e a minha 
carta capacidade se desenvolveu foi o único jornal do Porto que afrontou a iojuitiça e o ouro, levantando 
a voz a meu favor.> — Camilo — Memorias do Cárcere, pag. 14, 4.* edição. 



- 125 - 



calada se gerara em tomo do drama cm que eram protogomstas um homem de 
letras a celebrisar-se, uma mulher corajosa bastante para renunciar à sua situação 
em nome do seu amor e um dos comerciantes de peso da praça que levava com- 
sigo todos os votos da «gente que tinha que perder.» 

Enviou-se apressadamente, o processo ao segundo substihito cm busca da pro- 
nuncia. Este, porem, achou ainda mais sólidos argumentos na lei para não tomar 
a si semelhante encargo. 

O dr. Jerónimo Ferreira Pinto Basto alegava que, sendo juiz do tribunal corre- 
cional, não podia presidir em audiência de jury como devia ser aquela pela qual 
todo o Porto SC interessava. 

ílduziu logo, Teixeira de Queiroz, não ter base a sua escusa e fundamentando 
a própria, tornou-se necessário que a Relação se pronunciasse. Levou-se ate feve- 
reiro em pugnas que o procurador de Pinheiro íilvcs, rangendo os dentes, narrava 
à noite no Palheiro, muito ouvido, ícliz cora os comentários dos sócios da Assem - 
blea contra a justiça. Chamava- se Hlbano de Miranda Lemos e era comendador. 
Movia-se muito mais por ódio do que pela paga do ultrajado, que ainda assim, coava 
penosamente o dinheiro por suas avaras mãos. Inventava chicanas de efeito, alicanti- 
nas de sabido nas tricas judiciais ; paladinava pela moral muito mexido nas conjuras^ 
contando com victorlas certas. 

Os magistrados da instancia superior obrigavam, ao cabo de três meses, o juiz 
proprietário a tomar conta do processo. 

Estavam na sombra, felizes com o procedimento do dr, Queiroz, os amigos de 
Camilo. O único que se mostrava em irapulsividades arrasanles, desafiador e atre- 
vido era Vieira de Castro gladiando contra a moral burguesa, expondo-se. Rodrigues 
Sampaio, que spreciava muito o escritor, oferecia-lhe a Revolução de Setembro para 
trabalhar. 

Por intermédio dele grangeara mais simpatias. José Estevão tornara-se seu par- 
ceiro, o cónego Alves Martins, que seria bispo de Vizeu e presidente do conselho, 
recordava-lhe o tempo do Nacional, cujo dono, José Joaquim Gonçalves Bastos, es- 
tava pronto a acompanhar o romancista no seu transe. 

Apesar das altas posições ocupadas por estes c outros homens da sua roda 
paterna nenhum deles tinha poder para entravar a lei favorável aos inimigos, para 
deter o avanço daquela acção, em que todo o país punha os olhos. Hna Plácido: 
prevendo já a hora próxima duma separação, que podia ser eterna, pedia ao amante 

» 
Vem luz pura, luz divina 
Rnceio, chamo por ii; 
Para o ceu me r^ssusci/a 
Que eu para o mundo morri (*) 



(*) Versos de Ana Plácido a Camilo escritos em 10 de março de 1860 quando ela tinha a prisão 
eminente, pois já íõra pronunciada. 



— 126 — 



E ele, no seu maior desespero, volvia- lhe: 

Vem luz torva, luz satânica 
Ãnceio, chamo por ti 
Meus passos guia ao inferno 
Que eu para o ceu já morri 

Não podiam restar mais duvidas. O homem que respondia assim àquele suave 
apelo de amor, tinha um vulcão a reíervcr-lhe no peito. A sua situação aparecia-lhe 
como um horror exacerbado pelos imaginosos e torturadores requintes de um eipirilo 
enoitado de pávidos avejões. 

O dr. Teixeira de Queircz foi, finalmente, obrigado a pronunciar o acusado por 
despacho da Relação. Deixava Camilo cm liberdade ; declarava não ter encontrado as 
provas do seu delicto, conforme a lei as exigia: o flagrante delicto, as missivas es- 
criptas á mulher casada. Era mais do que parcialidade; era um desafio lançado tam- 
bém ao Porto, por parte da justiça. Se cies eté se escreviam em versos apaixonados 
ou cruéis de sofrimento I 

O procurador Lemos andava concitando testemunhas, convocando as criadas 
dela, as moças das casas onde se tinha hospedado o amoroso par, que desejava en- 
cadeado até ao degredo, citava os ircdicos chamados nas crises de suas doenças, 
mesmo os inimigos do escriptor e sobretudo estss. O Novais Vieira — o dos Óculos 
— almejava a desforra das cacheiradas recebidas no corredor do S. João, havia seis 
ou sete anos. Não perdoava ; á força de se arvorar em jornalista cm folhas de baixas 
cotações, o foliculario enconchara-se num bom emprego na fazenda, ftrredondara-sc 
-lhe mais o ventre, andava radiante, a segredar pelos portais das luveiras as maiores 
aleivosias em relação a Camilo, vendo-se longe da justiceira bengala do romancista, 
agora obrigado a deixar a sua amada, fugir do seu lado, afim de escapar á imediata 
prisão. Não era admitida fiança para o seu crime. Sujeitava-se a ser capturada na 
rua. Escondera-se ; porém, não podia ficar toda a vida a tremer, num canto, ao me- 
nor ruido. O melhor era apresentar-se á policia, decidir da sua sorte, para não sofrer 
vexames agradáveis aos inimigos. R salveção estaria na saída do país, porém, o es- 
criptor era pobre. Encontraria subsistência no Brazil, mas, dificilmente, arrastaria 
nessa aventura de expatriamcnto uma mulher c uma criança. 

A cadeia abria a boca para a engulir ; cumpliciadamcntc todos os moralistas 
estendiam as mãos para a encarcerar. Era como uma caçada a algum animal raro e 
daninho descida dos montes a nevrosar com seus berros os rebanhos humanos, a 
contaminar os redis c a atrair as crias ao seu fojo. Circuitavam- na. Para não ser 
apanhada pelos batedores na montaria — os escoteiros aguasis — ia aproximar-se do 
cárcere. Julgava-se, ainda assim, melhor oculta no Porto do que cm Lisboa. Ele 
ficava a desviar as pislas, a vêr se quebrava a frcima da batida. R seu lado, em 
arrebatamentos atontados, dcrramando-sc por não poder esmagar os perversos da 
morai fementida, estava Vieira de Castro. Não o abandonava. Rtraía-o aquela dcs- 



- 127- 



dita de amor contrariado. AconjpaHharam ambos a fugitiva ao Lusitânia. Desem- 
barcaria em segredo e iria para refugio combinado deixaado-o sempre que receasse 
alguma cousa até se convencerem não ser possivel a despronúncia, 

Os amantes apertaram-se nos braços como a quererem soldar- se nesse amplexo, 
sentirem seus corações cm unisona palpitação. Deixaram-sc e quando ele, e o 
amigo, chegaram à ponte viram-na, chorando, tendo o filhinho pela mão, formosa no 
seu vestido negro. 

Ia vergada ás exigências duma sociedade alarmada; ele ficava a cachoar cóleras 
contra o roundo que o infelicitava. Voltava-se para Vieira de Castro e exclamava ao 
vêr o ultimo aceno do lenço branco de ílna Plácido, no ar sereno, e o vapor a afas- 
tar-se, a dirainuir-se na distancia : 

— <Sabes o que me adivinha o coração? Que a não vejo mais.> 
E o outro comovido, profelisou: 

— cVerás. Aias o coração ha de ser o Golgota do teu talento ...» (*) 
Participava-lhe, mal chegara, que <o senhor de Seide está em Lisboa> e natu- 
ralmente queixava-sc de alguma demora de cartas. O escritor precipitado, mas 
cauto, assinava pela primeira Mex com o seu nome, o telegrama, que passava per 
fieis mãos antes de ser entregue à refugiada. 

<Não deixei de escrever um só dia. Diga-hie se recebeu as cãrias juntas. No 
caso negativo lia indirectamente a minha correspondência. Responda-me já sem 
direcção.:» (**) 

Não tardava cm elucidá-lo, subscrevendo- se, contra o costume, fina Bugusta: 

^Recebi hontem duas e estou escondida para fugir à perseguição. Animo.* 

iUterara-sc, enfurecera-se como se a visse perdida para sempre naquela bruma 
forte do Porto no final do março que ia de tormentas. Desejava saber dela, não a 
sentir sumida até para si próprio. 

<D, Eufrásia Carlota de Sà: Peço diga onde está a infeliz.y 

Ro entrar Hbril, Camilo conhecedor de algum desastre acontecido ao Luís Pinlo 
5erra, que tanto os perseguira, ao tio, tornado o verdugo, por conta do marido, dizia-lhe : 

«/á deves saber como a providencia castigou o Serra.y 

Porém enciumava-se, tinha anciedades, duvidas, sentia o espirito endoidecido. 
Fantasiava Icucuras; desejava entes sabê-la já presa de que no acaso da aventura 
em casas amigas onde a sua beleza despertasse galanteios. Longe dela era ainda 
mais amoroso, enchia-se de maiores direitos sobre a sua vida. 

Ocultara-sc em Vila Nova de Famalicão onde não se julgara segura ao conhecer 
a vinda do marido e largara logo para Santo Tirso. Ali podia viver mais calma no 
hotel ou nalguma moradia particular onde se hospedasse. Hndava assim à roda de 
Seide, nas margens formosas do Ave onds os arvoredos debruam os caudaes. 

Não queria revelar publicamente, nos telegramas, os logares de seu asilo porque 



(*) Vieira de Castro — Camilo Castelo Branco — pag. 190, 
(**) Da Via Dolorosa, 



— 128 — 



estremecia à idea da prisão daquela cadeia, o monstro de pedra, que ela, portuense, 
vira desde pequenina, como um sitio de infâmias de cujas grades pendiam uns cestos 
negros à espera da esmola dos transeuntes para os encarcerados. Homens e mulheres 
de rostos mais tétricos na jauk espreitavam, desoladamente, a rua, alavam, por 
vezes, umas cantigas melancólicas e as mães, quando por ali conduziam os pequenitos, 
nunca deixavam de apontar os muros limosos c os seus habitantes como malvados, 
pessoas postas à margem do mundo, metidas naquele inferno da Relação. 

Tremia de medo; não telegrafava; demoravam muito as cartas para Lisboa de 
onde vinham as anciedades e as raivas do amante. Devia chorar ao vêr-se tratada 
com descoijfianças. 

Já não era só a gente da justiça que andava no seu encalço; também a confi- 
dente de Camilo, imprudentemente, a procurava, podendo dar nas vistas, fazer com 
que fosse levada para o antro tanto de seu receio. 

Porêtn de Lisboa as missivas vinham zunindo como balas envenenadas e ela 
não hesitava mais, prevenia-o, desejava vê-lo socegado. 

Pois se era bem sua para que torturá-lo assim pelo pavor da cadeia?! Em todo 
o caso o que não queria era sabê-lo a sofrer e, como desconhecia as deliberações da 
justiça, afastava-o. 

Ele, porem, levava à conta de menos afecto as suas cautelas e redobrava de 
excitações, empeçonhava o espirito nas suas alucinações de ciumento, de apaixonado 
como se não bastasse ela ter-se perdido para lhe provar todo o seu amor. 

Mas como socega-lo se até mostrara zelos ao vê-la conversar com os seus Íntimos, 
c coníiar-se a Júlio César Machado e mesmo a Vieira de Castro ? ! 

i\Iucinava-se ; perturbava-lhe mais os seus alanceados dias. 

<Estou aflita com as taas palavras, nunca estive debaixo da protecção de meu 
cunhado nem mudei de plano. Filho, tu pela carta que receberes verás como és 
injusto 

Passara para casa de um dos irmãos, naturalmente o Plácido, padrinho de seu 
filho e isso ao começo contentara-a; depois mudara ante qualquer novo c imaginoso receio. 

<Diz-me onde estás e se peoraste. Oxalá achasses paz na companhia de teu irmão.y 

Lisboa começava a apareccr-lhe como um tumulo desde que não via fVna a seu 
lado. Entrara num periodo excitado; voltara a ser o vergasladcr. O seu sarcasmo 
afiava-se na sua ira. Era como um alfageme corrcgendo o fio de suas armas na dôr. 
Desejava infelicitar toda a gente para que não sentisse a falsidade de seu riáo ao 
curtir os próprios males. Vieira de Castro não o largava; residiam numa casa 
de hospedes da rua de S. Julião, confidenciavam, dcsesperavam-se ambos, porem 
cm publico Camilo mantinha a atitude desempenada, ardida. PVequcntava a Camará 
dos Deputados e troçava- os, fundia frases sangrentas, condenatórias para eles ; desen- 
volvia chascos afogados nos molhos c nos vinhos das mesas do Mala (*) que só era 



(*) Joio Mata, celebie cosiaheiro, cdjo hot;! era frequentado pelos escritores e a roda alta da boe< 
mia lisboeta — e que foi celebrisado por Jalío César Machado nos seus livros. 



Folha 9 - 129 - 



feliz ao escutar as discussões dos literatos. Apareciam Bulhão Pato, Júlio César Machado, 
os actores, o próprio Castilho, o doutor Magalhães Coutinho que era uma sumidade, 
professor da Escola Medica e facultativo régio; José Estevão e Rodrigues Sampaio 
acudiam á sua conversação, aguentada com brilho naqueles ágapes. Camilo era bri- 
lhante, mas ao fechar-se no quarto delia era lagrimas as saudades, deserapenava os 
nervos tensos naquele pranto consolador como uma chuva de refrigério, após a tem- 
pestade devastadora de seu animo. 

Chegou um momento em que não poude conter-se c, apesar de todos os peri- 
gos, correu para o Porto. 

Em 16 de Hbril prevenia- a do desígnio e desculpava- se de tantas dores que 
lhe infiingira : 

<Perdão pelo martirio sofrido. Não leias a caria de amanhã. Â' noite estou 
no hotel do Cisne; dou melhor mas saudoso. (*) 

E ela logo, num enleio romântico : 

<Diz-me se me ouves ainda chamar-te. Sim ou não? Salva-mejy 

Ouço-tQ a todos os instantes — volvia — Chama- me e eu partirei.^ 

Continuava, porem, no mesmo arrebatamento, nervoso, desconfiado a enviar-lhe 
cartas torturadoras nascidas do seu grande sofrimento. 

€/lmanhã recebes uma carta mortificante. Pare. desculpa basta o remorso. 

Depois tinha palavras infantis, ingénuas, fazia-se muito humilde, como a apc- 
quenar-se, à guisa das crcanças em busca de perdão. Charaava-se o seu <.nino que 
é teu como teu filho.y 

Dentro do Porto ela começava a pôr-se ao facto dos acontecimentos e a Irans- 
mitir-lhos. 

<Soube ha pouco que se decide amanhã o agravo. Logo que saiba a solução 
avisote e falaremos, Nino. 

Estou melhor, mas horrivelmente inquieta apesar de todos me socegarem com, 
a idea de que és temido e não se atreverem a transgredir a Lei. Ânimo, filho, 
dá-me o teu sempre que possas.^ 

Era por causa dele que tremia. O dr. Alexandre de Magalhães, advogado de 
Pinheiro Alves, insistira pela prisão de Camilo, agrevara do despacho de Teixeira 
de Queiroz que lhe deixara a liberdade e Ana Plácido, mais turbada, ao vê-lo em 
perigo, evisava-o com paciente e nobre coragem de desviá-lo do abismo no qual 
inevitavelmente ela teria que tombar. 

<Juizes, dão-se por suspeitos. Decisão em 8 dias. R tua Nina> 

Esta participação tinha a data de 27 de Abril e seria com efeito, oito dias de- 
pois — a 5 de Maio — que o magistrado — ainda por despacho terminante da Rela- 
ção — o pronunciaria tornando-o co-rcu da adultera, conforme rcsava o processo. 
Bem se sabia condenada — a foragida. Sentia, porem, um grande desejo de vêr o 



(*) Apesar dalgans escritores dizerem que Camilo íôra encontrá-la em Santo Tirso não depreendi 
isso dos documentos qae tL 



— 130- 



seu amado e compreendia que estavam perdidos, que dentro da cadeia não se pode- 
riam mais beijar, e cntio, telegrafava-ihe sem rebuço: 

€Morrem as considerações diante do coração. Vem filho, fàze o que te pedi 
e traz-me o ultimo acto.^ 

Acedia numa grande pressa de quem concordava cora seus dizeres : 

<Se vencer os grandes embaraços com que lucta o teu Nino sei que parte 
amanhã e te avisará para que o esperes na Bandeira.:»^ 

Rpareceu-ihc numa quarta íeira, mas, diante do que se passava, ela induzia- o 
a partir, a ir abrigar-se nalgum canto até chegar a decisão acerca da sua pronuncia. 

Abundava no aplauso a estas ideas um grande amigo de Camilo, temperamento 
enérgico cheio de bom senso que usava da vez clara da razão para os excitados 
argumentos do romancista visionário. 

Chamava-se este dedicado e prestante auxiliar, Custodio José Vieira ; tinha 
trinta e nove anos e era advogado de fama. Baixinho, franzino, frigueiro, só os olhos 
acusavam nas suas scintilações, o talento. Alem de causidico era tibuno. Ainda 
académico andara de arma ao hombro em defesa da liberdade. O patuleia mostra- 
va-se quasi republicano. Entrara para a redacção do Nacional e como vibrava nele 
uma grande alma rebelde prendera-se ao romancista apesar das suas tendências 
aristocráticas e seus alardes tradicionalistas. Jamais deixara de bem querer a esse 
homem superior, nevrosado e original que lhe aplaudia a oratória, lhe apreciava a 
eloquência embora não concordasse muito com as suas ideas. Sabia, porem, que 
um manancial de bondade existia naquele peito mirrado e era contra ele que se lan- 
çava naquela noite de Maio, junto da Egrcja dg Bomfim, onde se despedira diante 
da diligencia, que o conduziria á Régua. O advogado jornalista defenderia o escri- 
tor da verberação duma cidade inteira mas exigii-lhe obediência. 

Ele ia com destino a Vila Real. Procuraria encontrar, no embito familiar de que 
andava arredio ha muito, um pouco de socego Sua irmã D. Carolina Butelho Cas- 
telo Branco também tinha tendências literários porem abafava- as nos cuidados da 
casa, dos filhos e do marido, o medico Francisco José de Azevedo (*) que era muito 
afecto ao cunhado. 

Camilo, porem levava dentro de si o feiticeiro filtro que não o deixaria continuar 

o caminho. Aguardava-o um creado com a montada ; encalvegou ; mas na primeira 

aldeia do Yale do Corgo, voltou-se para as bandas do Porto onde ficara Ana Plácido. 

Ainda lhe telegrafara : <Cheguei à Régua às duas horas.. Continuo num estado 

inexplicável de corpo e alma. Diz-me para Vila Real alguma coisa.> 

Depois, olhando cno ocidente o sol e o cinzento e escarlate horisontc» (**) de- 
tivera-se; quedara-se a ouvir co zumbido dos insetos nas folhagens dos vinhedos. > 
Virava-se para as brenhas transmontanas que conhecera em crcança, onde lidara na 
primeira juventude e repelia da sua alma as recordações. Era noutro logar que cs- 



(*) Pai dos conselheiros António e Joié de Azeredo Castelo Branco. 
(*•) Camilo — Discurso Preliminar das Memorias do Cárcere. 



tava a felicidade mesmo que o encerrassem num cárcere. Lá vivia a mulher da sua 
paixão, h existência nos vales, numa paz suave, quasi bucólica, era um muito vio- 
lento contraste para o rugido do seu desespero. Voltou a rédea à montada c 
pôs-se de regresso. O servo seguia-o calado, palmilhando a vereda e só ao vê-lo 
apear-se, ao receber o cavalo, com ordem de o guiar para casa dos patrões per- 
guntara : 

<Quc hei de dizer lá em casa?> 

«Diz que me deixaste doido . , . — volvera o romancista num desabafo. 

O labrosle retrucou confiado : — i\ falar verdade . . . senão o está, parcce-o. 
Que hei de dizer a sua irmã?> 

— «Diz-lhe que fiquei doido . . .> 

Aquartelou-se na Rcgua. Aí receberia a noticia da sua pronuncia. 

^ãpaho o que se passa em ti — tornava ela na mesma hora em que recebia 
as suas desoladas palavras — pelo que sofro, filho mas sou forte, Nino. Escrevi 
esta manhã para o <Nacionah; (*) o primeiro grito contra a Relação perlence-me de 
direito. Que espera o Miranda Lemos ? (**) 

Lembrava uma amazona disposta à lucta. Emquanto se tratara apenas dela dei- 
xava-se amortecer íeminilmente, porem, ao avultar-se o perigo para o seu amado, 
enchia-se duma coragem enorme e queria batalhar. 

Se ele duvidasse do seu amor bastar- lhe-ia sentir o Ímpeto com que febrilmente se 
atirava para o perigo, só porque o via ameaçado. 

Metido numa péssima hospedaria da Régua, sentindo-sc só, preferia tudo ao 
horror daquele viver entre descochecidos, gente do trafego vinhateiro e decidiu-se 
a entrar na prisão. Desaconselhado, sem os amigos, preferia todos os horrores torna- 
dos maiores pelo seu exacerbamento. Era o degredo, segundo a lei, o que o aguar- 
dava. Hquele acórdão da Relação constituía, a seus olhos, a sentença dos juizes sa- 
bedores. E, então, não recuou; dispôs-sc a uma clausura no final da qual estava a 
serte dos presidiários, o destino fatal de seu tio Simão Botelho. 

Telegrafou, muito resolvido a submeter- se : 

^amanhã à 1 hora devo esperar que anoiteça em Valongo. Manda-me para 
lá uma carruagem.^ 

E ela, logo, num receio de amante, quasi de mãe, alucinadamente: 

<Peço-te que não venhas, filho.y 

Obedeceu-lhe ; mascarou o seu nome, tomou o de José Ferreira, cm recorda- 
ção do medico amigo de ambos, o Ferreira Janota, c solicitou-lhe : 

<Manda chamar o Custodio Vieira e que esteja em Valongo à 1 hora.* 



{*) o Nacional não pablicou cousa algama nesse sentido ; naturalmente dissuadiram' na da ideia 
no receio de maiores agravos. 

(**) Era o comendador que tinha a procuração de Pinheiro Alves. 



— 132 — 



teimoso a entregar-se à cJLloZT.l ^ '' .^'''' ^° ''"'''^'^°' ^"^ ^o vê-lo 
íunto da velhinha. Acei ara pois 1 l'n^^ '' P"'^°^ ^"^ ^^-^- ^"tcs ali ficasse 
os infelizes.» ^ ' '^^ ^^"P*"'" *^°"^° «i^os da sua paixão todos 






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o Nacional onrf» fotpU' 
bllcado o primeiro ttcrh 
(• d» Ana Plêddo (Do 
«xtmpltr éa Blbl. Nêc) 
5 Oul 1860. 



Vlll 

DOIS AMORES DE PERDIÇÃO 



OS PASSOS Dh <YJ/\ DOLOROSR>-DAS TORRENTES DO ERMO AS PEDRRS 
DA CITANIA - R TEMPESTADE NO MARÃO — O LAR DE VILA REAL 
E OS MUROS DA RELAÇÃO — ACORDOS INÚTEIS -O PIANO 
DE ANA PLÁCIDO— FLORESCENCIAS DE CÁRCERE 
- O JOSÉ DO TELHADO— BASTIDORES DO 
PROCESSO DE ADULTÉRIO — 
SEMPRE OS ROMANTi- 
COS E OS PO- 
SITIVOS 



í(\ TÊ se ainda podes sustar a remessa dos bahus, procura uma caria do 
\ / Azepedo (*) em que se falia dum vidraceiro da rua de Santo ãntonio 

^ e guia te por ella. Sei que o teu Nino es/à em risco de se perder 

por ti se não lhe acudires com o único remédio aconselhando-lhe coragem para 
tentar o recurso^, cta (**) 

Camilo nâo se detivera mais de dez dias, que lhe pareceram triplicados, no solão 
de Custodio José Vieira. (***) A própria visinhança duma santa não o consolara. O 
cunhado, o medico Francisco José de Hzevedo, íôra buscá-lo para o seu lar, onde 
encontrara a irmã, envelhecida mas resignada, a pretender aliciar-lhe a conformação, 
pois cera necessário ser desgraçado para não contradizer os fados da familia». (*•**> 

Antigos íundibularios vilarrealenses, companheiros do escritor nas purrias da 
infância, apareci*m-lhe «graves c circunspectos, com óculos de prata c caixa de 



(*) O canhado de Camil*. 

(••) Eíte Icle^rama lem, na Via Dolorosa, a dat» de 17 de Maio, 

(•'•) Camilo entrou na casa de Vieira em 6. Estere ali apenas 11 dias e não como ele dii «as 
Memorias do Cárcere, pai. XX, do Discurso Preliminar, nm mês. 
(****) Cimilo, Memorias do Cárcere, pag. XX{. Id.. id. 



- IS7 - 



rapé> ; talvez que as próprias casas surgissem decrépitas aos seus olhos perdidos de 
amores. Enviava aquele telegrama para quem guardava a luz de suas pupilas, e que, 
devendo encontrar-se com ele na residência familiar, era assim avisada para se retar- 
dar diante dura escrúpulo espinhado, a súbitas, no espirito excitado do romancista. 

No mesmo dia chegara a resposta. Rlguem — «o Veiga — escreveu ela, reíe- 
rindo-se a pessoa amiga — está seguro que te prendemy c animava-o, alentava-o : 
<não adoeças, coragem, salva a vida d'ambos:». 

Suplicava-lhe, ardentemente que partisse e recebia a resposta de esperar só pelo 
seu signal. 

Voltavara-lhe as indecisões e telegrafava-lhe : 

<Espero de ti a palavra que me ha-de salvar deste inferno. Prende-me o receio 
de agravar a tua siiuação.y 

i\na Plácido, conturbada de saudades, mostrava-lhc a singularidade do seu receio, 
pois não compreendia em como estando ali se poderiam aumentar os males de suas 
posições. 

Declaradamente lhe enviava cartas e despachos deiariimados, que só lhe mere- 
ciam idênticas respostas: 

tãssustas-me, filho. Escrevi ao Veiga mas ainda não tive resposta. Vem, 
Nino, vem.y 

Ela atraí3-o; ele só se sentia bem nos seus braços e, na mesma infantil doçura, 
pedia lhe as licenças para se aproximar, como um *nor travesso querendo raeler-se 
seguramente no caminho dum coração. 

<Da Régua te direi onde nos encontraremos. Rdvinhaste o meu estado.^ (*) 

Telfgrafou e partiu. Estivera apenas três dias incompletos no aconchego frater- 
nal; (**) a sua alma cnchia-se de outras anciedadss, o seu cérebro precisava de 
comoções diferentes e só a amante poderia, cora dois beijos ternos, aquietar os 
sobressaltos de seu espirito. 

No dia seguinte aguardava-a em Baitar, como lhe paiticipjira da Régua e entra- 
vam no Porto. Iam araar-sc loucamente, imprudentemente, sentindo em volta a cidade 
ululante. 

Encostou-se lhe ao peito c, quando poude raciocinar, novamente partiu, pôs-se 
a errar de terra em terra, assegurando- lhe que se internaria no Minho. 



(*) «Estive dois dias com minha irmã, ao terceiío a iaquietação insofrida, o espinho fatal que me 
TâSÊ» as cicatiizís apenas fecham, cerrou-EC os ouvidos às razões amtraveis e judiciosas da minha 
íamilia e sinceros amigos. Quasi fugido, voltei para o Porto>, etc. — Camilo. Alemorlis do Cárcere, Dis- 
curso Preliminar, 4.* edição, pag. XXíI, 

(**) Pela data dos telegramas vê-sc que chegou a 17, partiu a 20 e em 2i ssíu de Baitar para 
o Porto. 

(***) <Refrigerado5 os ardores da qaasi infantil saudade da terra em que enlrevira o crepúsculo. 
« crepúsculo somente do meu primeiro dia felia, satii do Porta e fui para Guimarães são sei para quê 
oem com que destino.» — Camilo, Memorias do Cárcere, Id., id*. pag. XXIIL 



— 138- 



Tivera-a, de novo, numa sobressaltada e renovada lua de mel, e deixara-a ator- 
mentadíssima. 

Se actuava sempre nos seus movimentos o conselho dos amigos que receavam 
vê-lo no degredo, a saudade delia com as lagrimas os medonhos duendes dos pavores. 

Dormira uma noite na pocilga da Joaninha, a que chamavam hospedaira, e era, 
ccmo a albergueira, um monturo. R proprietária apresentava- se <duma velhez repelente 
e curtida em camadas de lixo empedrado» ; a propriedade conglobava-a n'<um pântano 
de miasmas>. (*) 

Logo uns braços carinhosos se lhe estenderam e, depois de o apertarem ao peito, 
o levaram para um belo palacete das Caldas das Taipas, de extensos salões, sonoros 
sob as passadas, e guardado, na sua conventual grandeza e severidade, por dois velhos 
servos do iidalgo que o acolhia. 

Francisco Martins da Gouveia de Morais Sarmento, no qual achara «um amigo, 
como usam reraraente ser os irmãos», andava, então, meditando na descoberta da 
Citania que cnlressonhava lá cm cima defronte das janelas dessa quinta de Briteiros, 
onde conduzira o desditoso escritor foragido. Era arqueólogo de visão larga, mas em 
seu rosto severo, ccmo um pergaminho, apesar dos seus moços 28 anos, abriam-sc 
claridades a deixarem penetrar a alma desse poeta das velhas pedras. 

Deliberara largar arcaicos lagedos c divertir o f:rasteiro, barquejavam no Hvc, 
passeavam ca estrada de Braga, debruçavam-se no Campo do Tapadinho, contem- 
plando lapides votivas, piscinas, colunatas e mosaicos romanos ressuscitados ao acaso 
dumas picaretas a revolverem os segredos das legiões de Trajano ; chegavam a entrar 
na assembléa, onde 'o senhor Matos lhes «contava, com vehemencias de espirito 
civilisador, os seus projectos de dar ura baile estrondoso (**) e acabavam no linho 
<los leitos, entristecidos, meditativos. 

Um dia chegou um aviso, do qual se depreendia o perigo que o acolhido corria, 
fllguem matraqueava do Porto para um correspondente, ao qual se incumbia a sua 
prisão: «o criminoso é fácil de conhecer porque tem buracos na cara>. (***) 

i\na Plácido fora conduzida dias antes à Relação. (****) 

Os perseguidores tinham rastreado bem a sua passagem ; os esbirros dcsalo- 



(*) (**) (***) Camilo, Memorias do Cárcere, DUcurso PreUmtnar, pai. XXVI, 4 • ed. pai. XXVII, 
p'j. XXVIII, 

(***) <Ante hontem de tarde foi presa e entrou oa cadeia da Relação, a Ex."»» Sr." D. Ana Aogusta 
Plácido Pinkeiro Alves, esposa do sr, Maaael Pinheiro AlTes.> Do Nacional de sexta feira, 8 de Junho. 

Nos registos da prisão lê-se nas paginas relativas a 6 do mesmo mis : 

<D. Ana Plácido, casada com Manud Pinheiro Alrrs, de 28 ancs de edade, filha de António 
José Plácido Braga e de D. Ana Augusta Vieir», falecidos, natural da freguesia de Santo Ildefonso, desta 
cidade, de estatura regular, rosto redondo, cabelos pretos, olhos castanhos, vestiJa com Testido de s2da 
preta e «anlilete do mesmo. Declarou que nunca aqui estivera prrsa e agora Tcm arguida de adulterio.> 

ChamaTam-ie Manuel Rodrigues Lopes e Manuel Ribeiro Fraga os oficiíii de diligencias qie a 
capturaram. 



-Í3»- 



L 



jaram-na, embora com mostras de respeitos, e daí a pouco, pelas ardências de 
Junho, ela entrava no segundo andar da cadeia com a ama de seu íilho e a 
creança que ali ia viver pois o pai deixava-iha nos braços, não como um consolo, 
porque só queria mal à fugitiva de seu lar, mas como a repelir de si o tardio fructo 
do ventre adultero. Acumulava as piedades dos moralistas, espicaçava ferozmente o 
seu procurador, c depois de saber a esposa encerrada no cárcere, desprovida dos 
bens, que lhe negava e ao pequenito, açulara a matilha contra o rival capitulado 
de có-reu. 

Julgava-a no abandono e a sua raiva devia satisfazer-se ao averiguar da simpli- 
cidade de seu trajo — o vestido de seda preta, o mantilete egual — sem jóias, modesta, 
vencida. Mas uma grande cólera o fustigaria ao averiguar que, pela primeira vez, 
nos lobregos corredores da prisão se ouvira os sons dum piano e era a sua 
vítima quem passava os dedos sobre o mavioso teclado. Ela desprendera-se das 
falsas atitudes; não se ocultava no fundo dos quartos ; mostrava-se atravez das grades 
ao Porto que a odiava, e, num cscarneo, a irritá-lo, puxava fumaças dum charuto. 

Gritava-se que ensandecera; o marido mandava aperrear mais os tramites do 
processo para a domar ; ela encarava a cidade altivamente, patenteava-se num orgulho 
que aquele gentio não percebia. Havia quem a lamentasse, porém, muito em segredo. 
Eram os românticos e as donzelas à beira do saorificio de algum casamento de 
conveniência. 

Conclamavam que ela descera muito. Para demais a cunhada da sua irmã, 
D. Maria da Assunção Ferreira, consorciara-sc com o conde da Azambuja segundo 
genito do marquez der Loulé e da infanta D. Ana de JesMs Maria. 

Havia à certa um mês e uma semana (*) que o neto de el-rei D. João VI se 
ligara à filha do opulentíssimo proprietário do Douro, a entroncar, assim, a descendência 
do cultivador de Além Minho na estirpe brigantina. Uma Ferreirinha nas orlas do 
trono e a parente do irmão da noiva na cadeia como adultera! D. Antónia Ferreira 
vingava-se ; naturalmente alardeara a sua razão em ter querido desviar o consorcio 
do seu varão com a irmã da linda Ana Plácido, 

Nunca se vira tanto luxo no Porto. O vestido da nubente custara trinta contos 
No enxoval ostentavam-se rendas de Lyon de trinta iril reis o metro. A grinalda e 
a coroa eram obra do rei dos floristas, Constantino, o trasmontano que Paris adorava 
por suas mãos magicas rcubadoras dos segredos divinos do desabrochar das flores 
a que seu artificio emprestava tons de realidade. (**) 

Tão disputada fora a abastada menina que se chegara a levantar uma campa- 
nha, na imprensa, na qual acusavam o marquez ds Saldanha de ter engendrado 
vários estratagemas para a tornar sua nora. 



(*) O coasoicio realisouse em 12 de Maio. 

(**) Constaotino José Marques de Sampaio e Mslo foi fornecedor de flores artificiais dos Orleans c 
d* imperador Napoleão III. A rainha Amélia, esposa de Luís Filipe não distinguiu entic duas giinaldas, 
uma feita por ele e a outra natural, a não ier pelo perfume. 



Era a herdeira do norte mais própria para um gentil-homcm pobre, embora bis- 
neto do marquez de Pombal, como o conde de Almoster. K maior altura se guindara. 
Ia aparentar-se com os reis. O escândalo que a gazeta quizera agitar chumbara-se 
sob a querela do arguido e agora só havia exclamações para a fortuna daquela 
familía e para a audácia da reclusa, sua aliada pelo casamento da irmã, que desa- 
fiava o Porto da sua cela de grade. 

Camilo, ao sabê-la presa, quizera correr a entregar-se, abandonando a quinta do 
Ermo onde o seu proprietário, o dedicadíssimo Vieira de Castro, o detinha. 

flsilara-se ali, onde os aguasis não se atreveriam a ir buscá-lo. 

A quinta e a velha casa apalaçada, mas derrotada pelo tempo, ficava à beira 
de Guimarães, porém tão cbrupto logar que não gosava dum fácil accesso. Velho 
solar de resguardo estava ainda cheio de legendas dos homens valentes e ilustres que 
o tinham habitado. Mas chovia sobre os leitos; nos jardins cresciam à vontade as 
japoneiras c roseirais, os troncos alongavara-se, escapos das podôo.s. No meio do luxo 
aristocrático do passado lavrava o abandono. A porta da residência acachapavam-se 
os pardieiros dos ganhões prontos a matar- se pelos amos. Um velho tio do confidente 
de Camilo assegurava-lhe a paz e a mesa; aquele incitava-o a escrever um livro, 
ele, porém, preferia vêr o cão Neptuno, com que presenteara o amigo, a nadar nas 
aguas claras dum ribeiro àquem da catarata revolta e referventc, que espumejava 
num lago como a espraiar cóleras contra as suaves barreiras dos juncais. 

Sentavam- se ambos no logar que se chamava a ponte do Barroco, falazavam 
com a moleira do açude alimentado por aquel-as ondas rugidoras e, sempre a límbrar- 
-sc da encarcerada, da amante já presa, havia nove dias, o escritor traçava duas 
quadras (*) que iam para ela como o símbolo da agitada existência de ambos : 

Ruge a tormenta espumosa 
Mas no mar serena entrou: 
Tãl a vida tormentosa 
Chega á campa e serenou. 



Triste imaçiem desta vida 
Que me Deus fadnu a mim 
Diz-me, ó onda enfurecida. 
Qual teu principio, teu fim ? 



Não parava no mesmo sitio ; continuava a sentir no Porto o seu destino. Por 
vezes encavalgava e entrava em Fafe, aracsendavi-se no botequim a jogar o dominó 
ou a .«ueca. 

O administrador do concelho, José Ataria Peixoto, dzixava-o gosar da liberdade, 
talvez por pedido do deputado Joaquim Ferreira de Melo, lambem parceiro dos 



(*) «Eicritos em 15 de junho de 1860>, no Ermo,— Cimilo, Memoriai do Carctr$, Dlêcuno 
Preliminar, pȒ. XXXVII. 



dados como o abade «grande latinista e discreto em caslissima linguagem portu- 
guesa». (*) 

Sentia-se bem guardado ; serviam-lhe pratazes de caça, dessedentava-se com as 
cerejas rubras que sangravam sob a janela do seu quarto e ia entrelaçar a inicial do 
seu nome com a da amada nos troncos velhos dos castanheiros abobadados de ver- 
dura, nos olmos e nas larangeiras de folhas luzidias mas cujo íructo — ali no pomar 
do Ermo — tinha travos de tanto amargor como a sua alma perturbada. Ro abrir de 
julho evocava a desdita e a mulher amada : 

Tudo treme 1 e teu rosto 
Me refulge luz maior 
Tambsm no mar proceloso 
Quando o ceu é pavoroso 
Ê que o fanal tem fulgor. 

Viera-lhe o aborrecimento que não o deixava demorar-se no mesmo sitio e o levava a 
detestar a melhor moradia c o mais belo panorama ; volvera-se às Taipas, e fora a 
S. Torquato, a vêr o milagroso oregj. Quando regressara à companhia de Vieira de 
Castro andava muito apregoada no Nacional (**) a questão levantada cm torno da 
sua biografia que o amigo escrevera e Biester se recusara a inserir na sua Revista, 
depois de lha ter pedido, e andavam também os esbirros — em Fafe — à cata duma 
sortida para o capturarem. (***j 

Endireitou a caminho de Vila Real a fim de vêr se ali o refugio era seguro 
como da ultima vez. 

i\tascara-se nas veredas empégadas pelo trasbordo das cachoeiras do Marão sob 
a cruenta tempestade desabada com o trovcar desse segundo dia de Julho cm que 
a terra ha pouco sequiosa já íressuava os jorros do ceu. Empapavam-se os socal- 
cos e pelas leivas desciam, vertiginosas e cãtadupantes, as torrentes como rios gros- 
sos; magicamente surgiam aguas, gorgolejantes e furiosas, sob os tardos passos da 
montada enviscados na greda dos campos. Os povoados afogavam-se nas cordas 
rijas das bátegas, só iluminados pelos relâmpagos do coriscar intervalado ; quasi pare- 
ciam fantásticas, naquela tormenta, a Torgueda, a Campcan, Candemil c Anta com 
sua capelinha empoleirada num outeirosito. Fora asilo dum quadrilheiro, do Tibur- 



(*) Camilo, Memorias do Cárcere, Discurso Preliminar, 4.^ ed,, pag, XXXVIJI, 
(**) Em 12 de junho de 1860 o Nado/tal dizia constar-lhe ; "já não salie aa Revista Contem' 
poranea a biografia do sr, Camilo Castelo Branco pelo sr, José Cardoso Vieira de Castro». Fazia 
varias considerações e acentuava: «parece qus a biografia tinha o grave defeito de não ser só o 
elegio do biografado mas de visar com azedume a!guDs empecilhos que aparecem no seu caminho e 
por isso foi rejeitada, não estando o sr. Vieira de Castro pelo pedido dele sofrei amputação nos 
sitios em que levava csnsticos>, 

(***) Camilo — Memorias do Cárcere, Discurso PrelimtrMr, pag. XLII. 



cio, (*) o cardenho onde se pousavam os olhos do viandante, deslumbrados pelos 
lampejos, aterrados pelo zigzaguear das faíscas. 

Ro estrondeantc ribombo sucedeu o raio a lascar uma rocha, acendendo e re- 
queimando a urze que o escritor guardou cm memoria de ter escapado naquele 
ermo inícrnal, batido ptla procela num ardente verão. Topara o cadáver duma pas- 
torinha fulminada na sua esiameuha ; o mulherio chorava em volta e por todas 
aquelas chãs, legares, aldeolas, de Fornelos a Bilhó, de Sedielos a Ovelha, se falava 
de terríveis devastações. Descançara cm Vila Real, refeito do susto, guardando na 
retina a extranha grandesa do violento temporal serrenho. Hcorapanhado pelo sobri- 
nho Hntonio de Hzevedo, que então se preparava para o estudo de leis, passara à 
Samardã como sitio de maior resguardo. Vira a Luiza, à qual chamara «ílôr dentre 
as fragds> sentada num portal dum casinhoto, envelhecida e macilenta de d.>ença, 
espectro da linda camponeza que cie amara na infância, à qual dedicara bucolismos 
agora repetidos em ironias, pelo companheiro loução c moço, que também era 
poeta. 

Largara Ioga do refugio que lhe oferecia, mal a lua, enchendo de claridades as 
montanhas, lhe anunciou a paz. Fugira ; o filho da irmã seguira-o numa correria 
de duas léguas e não o convencera a ficar ; a montada chapara'0 num galão, contra 
um penedo na visinhança da Régua, c ele ao cstender-se no leito da estalagem, dei- 
tava Sangue pela boca. Desfizera-se do Cávalo, ganhara Amarante na diligencia^ 
comera pecegos do pomar do seu amigo Vasco Peixoto e fora acolhido por admiradores 
um dos quais o presenteou com as obras de Byron que tinham vindo das trágicas mãos 
do ultra-romantico marido de Fanny Owen. Porem a sua paixão chamava-o para o 
Porto, Não se tranquilisava, andava a olhar os luares, a inclinar-se na ponte do 
Tâmega, cora a vontade louca de se lançar às aguas fundas, ora scintilantes, ora 
amortecidas, já em brilhos vivos de cristaes facetados em irisações, já duma tris- 
tura enevoada mal reflelindo os salgueiros. Pensou em morrer; (**) a súbitas ouviu 
tocar uma flauta cortando o silencio do logar nos seus trinados dolentes. 

Naturalmente lembrou-se de quem era ao notar que ali, na província, o musico 
melodiava a chácara do seu drama Agostinho de Ceuta. {***) Correram-lhe duas la- 
grimas pela face crivada e elas refrigeraram o espirito turbado pela idea de findar 
no manto revolto e luzente que se estendia a seus pés como, naquela noite gclida 
de janeiro, o Douro côr de breu — havia cnze anos — desafiara a penetrar nas suas 
sinistras pregas o desventurado Jorge Artur, 

Conhecia-se a sua estada na vila; o próprio barbeiro lhe solicitara versos para 
as cavalhadas que se faziam quando da procissão, Desviara-se da sua dôr para gar- 
galhar facécias e receoso de que a popularidade enganchasse para ali os oficiais de 
diligencias volvera-se às Taipas e de aí a pouco andava pescando bogas à linha 
nas doçuras do Ave, à sombra vasta dos arvoredos marginais. 



V*) Camilo — Do^e Casamenios Felizes — 3,' ed. pag. 180. 

(**) (***) CamUo — Memorias do Cárcere - Discurso Preliminar, XCVII. 



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De quando em quando sentia- se atraído para o sacrifício, telegrafava á reclusa 
c ela recomendava-lhe, assustada: <não venhas, por piedade.» Contava-lhe, sucinta- 
mente, a doença que a acometera no cárcere ; o advogado que chamara, a ida do 
dr. Marcelino de Matos — o escolhido — à sua prisão. E ele declarara-lhe : 

<i:Foi a sahação; amanhã verás o bem que me fizeste.y E enviava um demo- 
rado e enternecido beijo para o filhinho dela. 

Imploraliva e amante, volvia-lhe: 

<Esicu melhor, filho, e agora alegre. Vive para a tua esposa e o teu Manuel.> 

Pela primeira vez metia assim eníre ambos o nome daquele pequenito nascido 
quando já amava muito o homem por quem se perdera c ao Cabo de infecunda 
união conjugal de mais de oito anos. 

Exilara-se, vencido pelas rajadas de desesperança, vcltíra-lhc a ideia do suicídio 
que o acometera jà psla terceira vez, desde o inicio da sua carreira e de seu 
sofrimento : no Porto, na sua hospedaria quando sentira a cólera de Patrícia Emília, 
a resistência da Browne, o consorcio de Ana Plácido, mais tarde ao traçar as suas 
linhas desalentadas a interrogar o futuro, e agora sobre a pont3 celebrada, nos ru- 
mores do enluarado Tâmega. 

Francisco Martins Sarmento não o convencera da antiguidade cellica da Citania. 
Filiara rudemente no começo da monarquia essas ruínas; capitulara-as de ataldas 
coevas de D. Henrique, vigias ou crastos de guerreiros luziranos revestidos de ferro; 
galgara aos montes, alrevera-se a ir até à melancólica Braga, talvez até a deter-sc 
sob as rexas do convento da Conceição e na entrada de egosto, dirigira-se mais uma 
vez para Vila Real de onde respondia às queixas da presa acerca da falta de suas 
noticias : 

«Se não recebes as cartas é que são roubadas no correio por irem em teu 
nome.-> 

Acolheram-no festivos c cm largas amisades os conh2cidos, mas era tão cruciante 
a sua amargura que não os frequentava e quando os saraus tomaram incrementos 
de elegâncias, com que o queriam animar e mostrar-lhe apreço, ele, num canto da 
casa familiar, quedava-se a escutar a tia, (*) a irmã do seu progenitor, casada com o 
miguelista ousado João Pinto da Cunha e que lhe contava a historia do «avô assas- 
sinado, do tio morto no degredo, do pae levado pela demência a uma congestão ce- 
rebral. > (**) 

R amante perguntava-lhe : 
«/á me não ouves?y 

Ele ouvia-a bem; o seu desejo mesmo era levá-la para ali, guardá-la no fundo - 

da aldeola mas ante o seu sofrimento enorme, houvera na família um despertar de 



(*) D. Rita Emiiia Castelo Branco. 

Camilo — Memorias do Cárcere. Discurso Preliminar, LX. 

(**) O avô do romancisti dr, Domingos Botílho Castelo Branco, o dr. Brocas, não morreu assa 
sinado. 



cóleras contra a mulher que arrastara naquele caminho. Hs almas burguesas acor- 
davam era revolta contra a senhora da sua classe que soltara o brado e fizera o 
gesto da renuncia. Não caberia no logar, onde eram mal vistas e escorraçadas as 
raparigas perdidas por amor. Deviam-no molestar com censuras ao passado c con- 
selhos sobre o future, e, então queixava-se à presa c recolhia a resposta decerto 
saída, atravcz do telegrafista, dos parentes que o asilavam e buscavam defendê-lo, 
repelindo a adultera. 

<Sofre os teus com resignação que eu perdôo-lhes o que me chega deles a 
mim. Estou aqui para amparar-to 

E num arranco, carecido de an'mo, enfermo do nervosismo, retorquia-lhe que 
<em toda a parte o pedia amparar melhor ali,> e tratava logo de avisar — em 7 
de fígosto — que partia, ia para a Régua, e destjava enlregar-se à justiça. Delibe- 
rara juntar-se-lhe e, ela, já sem o potícr conter, acedia: 

<Tens duas cartas em Penafiel. R tua resolução é inabalável, então Deus nos 
ampare, filho.> 

Consentia, porem, em interpor recurso i. sua pronuncia, dizia ir requerê-lo para 
Lisboa esperando bom deferimento a fim, de livre desse pesadelo, poder trabalhar, 
sustantá-la, salvá-la [^dos ferros, o que se tornava impossível desde que entrasse na 
cadeia. 

Prometia-lhc, numa idea a obediência, depois, voluvelmente, repelida: 

<Daqui em diante não quero ter acção que não seja a Dontade da minha mártir. 
Não sucumbas e cospe nas injurias da Ântonia.:> 

Assim como a família dele a culpava, também dcs lábios da irmã dela, esposa 
do Ferreirinha — tornado wn gra.ide ad\í'ersario — brotavam condenações. Vieira de 
Castro, na birgrefia de Camilo, chacotecva-o, punha-o de rastos, rcbra-lhe de ridí- 
culo Oo gestos e esgravatava-lhe nas origens. R condessa de Azambuja descendia de 
bem hiiríiildes c suadas gentes era o que mostrava ao revolver as nobresas do irmão, 
o amigo do romancista. Era implacável, exaltada, impulsivo. Chamara-lhe: <potencia 
dinheirosa com timbre de fidalguia espúria num dos becos da cidade do Por- 
to.y (*) 

Em Lisboa o periódico Politica Liberal, claramente apontava o ergentario como 
<inimigo> do escritor. 

Os rumores feitos à volta dos inculpados eram prejudiciais; os advogados ani- 
mavam Fina Plácido aconselhando-lhe calma e deixgvam-na confiante a participar 
30 foragido que: <em outubro estava nos seus braços.* Recomendava-lhe o refugio 
no Ermo, e ordenava: <Espera ali a felicidade que eu hei-de dar-te.y 

Mas a doença invadira-o. Em vez de se retirar para a quinta distante correra 
para Vila Real a amparar- se nos seus e um amigo, José António da Silva Baptista, 
era quem informava a presa da enfermidade que o assaltara. tQue tens tu, filho? 



{*) Nacional, de 12 de junho de 1860. 



Foi. 10 - '<5 - 



— interrogava desvairada — 7\rão me mates longe de ti. Reanimaste. O agravo saiu 
a meu favor. Procura carta da Régua e salva-me desta agonia.y 

Cimentava o seu desejo de venturas a uma trica do procurador do marido muito 
prejudicial para o seu caso embora parecesse excelente. 

Camilo, nuira maior crise de nervos, dizia-se mal dos pulmões. (*) Não ie 
aflijas, mártir, a felicidade não vem assim.» 

Continuava, sempre., desencorajado, afligindo^a, msguandoa aponto dela lhe rogar: 

«Se caíres leva-me comtigo ; será eterna a união de dois infelizes.-^ 

Consolava-a num dia, perturbâva-a noutro: «V^cu melhor. E Manuelsinho?» 

O seu carinho pela criança acentuava- se, — ele tão cioso dela — sentia zelos 
pelo homem que em seu nome baptisara o pequenino. 

Depois tornara, rom.antico, ensaudado : «£' o coração que te chora, filha.» 

Ho mesmo tom poético, arrebatado, lhe respondia: 

*Este grito pediu-to o coração. Salvaste-me, filho. Ãbençôo-te com o coração 
que é tão teu.» Acrescentava, a consola-lo: — <Vivo de ti e para ti.» 

Numa larga deliberação, irrefletida mas irreprimível, novamente deixou Vila Real, 
galgou distancias e a amante, ao receber a nova, sentiu-sc feliz: 

<0 coração adivinha-te mais perto.» 

Entrara setembro; voltara para Amarante c ia a Penafiel buscar as cartas. 
Uma vezes animava-a: «pe/o um raio de sol»; outras cxcitava-lhe o sofrimento que 
não sabia ocultar na sua correspondência. «O teu desanimo é fatal; diz-me que foi 
uma sombra que passou. Estão próximos dias de vida.» Sonhava assim a mulher; 
o homem só sabia amaldiçoar ou visionar loucuras. 

Escrevia em nome de Rodrigo de Beça, apelido emprestado a ura medico dedicado,^ 
ali residente (**) de ha muito seu amigo e admirador. Fora colaborador de jornais, era 
amador dramático c musico, no fundo um original muito inteligente, tomado de afecta 
e de respeito pelo talento desventurado. 

Não podia estar mais terrpo lorge dela; decidiu-se a tudo c em 11 de setembro 
num telegrama expedido de Penafiel, às cinco horas e m.eia da tarde, dizia-lhe ir 
compartícipsr da sua grande desdita. Estava farto de inclemências, sobressaltos e até 
de passar necessidades materiais. 

<:.Vou dar um passo de que depende tudo. Amanhã o saberás. Se o reprovares, 
eu te convencerei. Não temas o que hoje leste. Não me respondas.» (***) 

Penetrou na cidade. Acorreram os amigcs a dctê-lo. Custodio José Vieira c Mar- 
celino de Matos clucideram-no. A parte contrária propunha uma transacção, a que mais 
tarde voltaria a ser discutida: o seu exílio. Desistir-se-ia da queixa e mantinha-sc a 
esperança da regresso de Ana Plácido ao lar. Davem-lhe quinze dias para resolver 



(*) Todos estes telegranias são estraídos da Via Dolorosa inédito pertencente ao Museu Cami- 
lisno, 

(**) Dr. Rodrigo Xavier de Freitas Beça, antigo colaborador do Porío e Caria. 

(**«) Este telegrama tem errada a data do ano da sna expedição. O telegrafista enganon-se e escreTen 



em liberdade ; (*) sustinha-se a acção da lei Ele acederia se a amante se convencesse 
á entrada de novo no convento. Estéve ainda à espera e, ao cabo de ti es dias alem 
do praso, como ura louco dominado pela sua idéa fixa, eprcsentou-se no portão da 
cadeia, subiu as escadas infectas, pessou três grades e apertou nos braços, soluçando 
c gemendo, a querida mulher de sua alma. (**; Queriam roubar-lha; ligava-se-lhc 
de vez. Correriam a mesma sorte. Beijaram se entre os ferros, sagravam mais o seu 
amor, e cá íóra, o Porto, ruidoso e b-âfego, n^al acreditava na scena romanesca pas- 
sada sobre as suas ruas, de dentro do s» gundo ondjr dum cárcere. Prometeu à amada 
que voltaria e, ao som do berreiro da ciddde, sabedora da ousadia, dos brados do 
carcereiro, acusado de cumplicidade, dos magistrados c do procurador régio aterrado, 
ele foi solicitar dos juizes a sua captura. 

Na tarde de 1 de Outubro, saudoso do lindo ceu azul outonal, que toldava o 
burgo raivoso, saltou da sege, à porta da cadeia, c penetrou no cubículo que lhe 
deram como cárcere. (***) 

O Palheiro rejubilou ao lêr no Nacional: 

<ãpresentou-se hoje no tribunal competente o sr. Camillo Castello Branco, 
requerendo mandado de prisão para recolher se à Relação a seguir os termos do 
livramento na querella dada contra elle pelo senhor Manuel Pinheiro alves. > 

Era numa segunda-feira ; quasi estival corria o tempo, baforavam lufadas de bora 
ar e enclausurava-se ao som das risadas da Assembléa, do jubilo citadino, que 
festejava o esmagamento do romântico, enfim cí)nsiderado ura vencido. 

Raneeu sobre ele uma porta chapeada, batucaram nos ferros das grades e o seu 
cão, que o acompanhara, ao sentir descer a treva, fugira, pelos degiaus escorrcga- 



1863, Camilo, ao anotar a Via Dolorosa, aceitoa isto como bem e, na sua costamsda irreílexso dos name- 
ros, traçou estas linhas: 

<Se^aiu-se a entrada a» cadeia em 1 de Setembro de 1863 e absolvição passado anno e meio'> 

O despacho telegráfico é o namero 10267. 

Na realidade entnn na Relação em 1 de outnbro de 1861 e ssíu em 16 de outubro de 1862. 

Ha ainda entra nota errada qne diz: «Camillo Castello Branco entron na ctdeia, apresentando-se 
em 1 de Setembro seguinte e sahin absolvido em 1865, depois de desoito meses e tantos dias de prí$ãG,> 

(*) Carta a Eodrigo Beça, 18 de Setembro de 1860. 

(**) Id. a Vieira de Castro, 1 de Outnbro de 1860, 

(*♦*) No livro de registo da Relação lê se o segninte : 

< — Outubro primeiro de mil oitocentos ; sessenta. Camillo Castello Branco que assim disse chamar- 
•se, solteiro, trinta e quatro anos de id^de, escriptor publico e proprietário, filho de Nannel Joaquim 
Botelho Castello Branco e D. Jacintha Rosa Pre^nçs, já failecidos, natural da cidade de Lisboa. De esta 
tura regular, rosto comprido, trigueiro, bexigoso, cabelos pretos, olbos castachos escuros, vestido com» 
casaco e calça de pauno preto. Declarou que já aqui estivera preso e agora pelo crime de adultério de que 
lhe é parte Manuel Pinheiro Alves, > 

É muito duvidosa a qualidade de proprietário que se deu e também o nome da mãe, no qual ha 
recordações do apelido dum cavalheiro, casado com uma irmã de leu pai, qne en oficial de infantaria 16 
e K chamava Joaquim José de Proença, — (N do A.) 



- M7- 



dios e iôra atravcssar-se na rua a respirar o ar da lib8rdadc para voltar ao abrir do 
dia, mal se lha dava passagem. Ele sentou-se ; procurou no trabalho o esquecimento. 
Esse grande desgraçado molhou a pena no tinteiro e começou a traduzir a arte de 
ser feliz de J. Droz. Hs sentinelas espaçavam os alertas na nsite clara. De madru- 
gada acordou sobressaltado ao !>om dos socos tropeando nos lagedos da cadeia. Os 
presos moviam-se, as famílias e as suas visitas chagavam, depois, com os almoços e 
como matracas rijas os seus pés ecoavam sob as abobadas. Tocavam as sinetas e logo 
surgia um guarda a escancarar as taboas das portadas. Reclamou contra o tamanquear 
hórrido, o devassar forçoso do seu retiro aos olhares curiosos e o bater dos varões 
na sua janela. O carcereiro Alexandre do Nascimento, um veterano que vira o fogo 
de perto, concedeu-lhe todas as homenagens, garantidas de seguida pelo procurador ré- 
gio, dr. Camilo Hureliano que era autor dramático, antigo jornalista, amigo de rebus- 
cas em arquivos c apesar do seu ar severo um audacioso na politica e um facecioso 
na critica como o demonstrara no poema Os Ratos de Alfandega que saíra anónimo. 

O romancista apelara para a Relação de Lisboa, contra a sua pronuncia e 
anunciara logo na Revolução de Setembro um volume de ataque, num ar pa« 
tusco : 

^a aventaras sentimentais de Ambrósio Tanas, Obra póstuma edificante e con- 
sultiva por Camilo Castelo Branco, herdeiro do defunto. Estilo picaresco acomo- 
dado a todas as capacidades em 400 paginas.-* 

O destemido escritor reaparecia. Retomara o logar no seu palco de onde o 
Porto inteiro o via no meio de 294 presos, que tantos continha a cadeia, entre ho- 
mens e mulheres, desde os quartos de malta ao salão do Carmo c da saleta dos 
reclusos às enxovias égidiadas por santas. 

O presidente da Relação portuense acudira a visitar os detidos; reparou- se mais 
nas suas reclamações. 

Baforava à sua volta esse hálito morno e fétido de enxovia, mescla de vaporações de 
álcool, enxudações de corpos, exalações de sentinas, fartuns de rebanho, infiltrações 
de toda uma secular miséria aglomerada na mesma nitreira cerrada onde es limos 
humanos iam fermentar em montões. Camilo entrara com.o rajada a querer melhorar 
a sorte dos encarcerados já que não era possível perfumar o befo pestilento que os 
pulmões do seu cão só de dia podiam recolher pois o animal preferia o frio do 
inverno a enroscar- se nalgum canto do novo aposento concedido ao seu dono. Da 
janela engradada via-se a egreja de Bomfim psrto da qual tomara a diligencia para 
fugir aos inimigos, recortes branqueados de mentes longínquos faziam sonhar com a 
liberdade. Eram os cumes da serra da Qralheira; em baixo, ao alcance dos ouvidos 
do preso rugia o Porto ; olhos acessos era ira ou era bisbilhotices fixavam os varões 
do seu quarto celebrado porque, antes dele, ali habitara c saíra para a forca o desembar- 
gador Gravito da Veiga, um dos chefes da conspiração de 1828 contra a proclamação do 
governo absoluto ; (*) transitaram pelo aposento menos trsgicos e categorisados hospedes 



(*) O desembargador foi executado em 7 de Maio de 1829 bem como os seus cúmplices : Medeiros 



- 148 — 



até que coubera a vez ao duque da Terceira prisioneiro da junta após a Maria da 
Fonte. Voltara a ôlbcrgôr anónimos, que incrustavam legendas nes paredes negras, 
agora meio cobertas pelas estantes de pinho onde o romancista dispusera uns tre- 
zentos volumes. R um canto ficava o leito ; perto dele a m.esa sobre a qual se emcn- 
toavam pepeis, e era todo o seu ambiente alem dos conceitos que colara nos muros 
para sua resignação e guia. 

Rebus in angusties fácil est contemnere vitam : 
Fortiter ille fãcit, qui miser esse pctest 

O lalim que o padre fízevcdo — o doce sacerdote da sua meninice — lhe ensi- 
nara servia-lhe de consolo naquíla máxima e no aviso do capitulo 2° do Ecle- 
siastes. 

O penúltimo habitante daquela legar íôra o senhor Marinho condenado por 
amar muito ; sucedíra-lhe Cemiío por muito amar. 

Olhar para aquelas frases era beber vigor ; uma continha tcda a ardeneia : <é 
fácil despresar na angustia e vida; coragem é viver forte na angustia», a outra, a 
do livro santo ressumáva um altivo elsrta: <ai daqueles que perderem a paciência 1> 

No rebordo da janela, espreitando para es ruelas velhas, iam murchando as flo- 
res nos vasos. Ma!ava-as o sopro envenenado do antro. O preso queria salvar, re- 
gando-a, uma japcneira que desfalecia, se íinava ccmo uma noiva enclausurada; 
numa gaiola soltava carpido cântico uma ave digna do legar: uma viuva, com suas 
denas negras e seu «encadeamento de notas gennebundas .> Camilo trabalhava à luz 
dum candieiro de azeite. Yoltava-lhe a fraqueza da vista, mas sacrificava- se 
a traçar algumas doces historias qu3 chamava Casamentos Felizes. Na cadeia engen- 
drava diafaneidades de eltiias. (**) 

i\lem, no quarto das bandas da saleta estava Ana Plácido, a sua alma, a sua 
vida ; atravez daqueles corredores ela enviava-lhe as vozes maguadas do piano ; 
correspondiam-se em prosa c em verso e o prisioneiro podia vê-la, cora seus lindos 
cabelos soltos, acariciando o filho, sorrindo-lhe, palpitando num novo enleio namo- 
rado dentro das grades que os separavam. 

h. prisioneira escrevia : 

Quiz esconder-te no seio 
No sacrário da paixão 



e Vasconcelos, tenente de niilicias, Siherio de CarvalLc, fiscal dos tataccs, Silva Barjcs, guarda livres 
dos tabacos, Manuel No£ue<ra adTojíado, Brito e Cunha, contador da real fazenda, Soares de Freilas, 
juiz. Bfrnardo Pinheiro, capitão de ordenanças, Ferreira Lobo, tenente-coronel e o bacharel Maximiano 
da Fonseca. 

(*) Júlio Ccjar Machado — artigo da Revolução de Setembro. 

(**) Foram Doze o» contos, tuas apenas sete ele cscierea no cárcere. 



- J49- 



Fechaste os olhos ao mundo 
Postos no meu coração 



Foste iu o fraco e o forte 

Vi te sorrir e chorar 

Mataste me e eu já fria 

Ponho as mãos para te adorar (*) 



Respondiam ao Porto ccni literalurn. Hpareccra no Nacional (**) assinado por /i. R. 
c apresentado por Gonçelves Basto, um folhetim inlitulado: — Horas de luz nas trevas 
dum cárcere. 

Era trabalho da encarcerada. Pranteova-se, defrontando os outros, mas altiva por 
seu sofrimento. Confessava as suas aspirações; a missão femcnil como o entendia a 
sua cpoca repugnava lhe e evocava as grandes mulheres de letras: Steel c Sand, a 
marquesa de fliorna e D. Catarina Balsemão. Depois vinham as queixas amargas ; a 
lembrança, do peso do seu vestido de noivado, sentindo-se como «Ifigenia condu- 
zida pelo pai ao sacriíicio e acabava dizendo aos perseguidores que lhes «dcsprc- 
sava o Jadrido> preferindo a vê-los ces plogas remotas da soledade, es areias quei- 
madas do fxilio.s- Desaíiéva ; c o jcinal cxgctava-se. Os românticos batitm pelmas; 
choravam por sua conta as meninas que entreviam lobrcgo'? futuros e o Palheiro ba- 
rafustava contra o periódico onde Camilo acudia cm gritos de amor. Dcvoravam-se 
as linhas ensaudadas do beile cm que a vira pela primeira vez e a narrativa 
de quando ela lhe dissera : cscu a tua mulher fatal». 

<Eras, eras senhora da mirha elma, mão divina que sopesaste as paixões que 
me gladiavam o espirito, redentora de instintos bons que a ignominia convertera em 
consciência de desonra.» 

Concluía : «Bemdiía sejas tu, mulher, destino, fatalidcdo Hcudia gente a seu 
favor, mas era mais forte o vozear dos adversários. 

Ele, à noite nequele começo da invernia, encostava- se ao gradão c via os can- 
dieiros do gaz (***) a atcgaremse na ncblira; ouvia rugidos do Douro e deviam pa- 
rccer-lhe, os prenúncios do grande temporal, desse ano, es cóleras reíervcntes da cidade. 

Dum quarto do hotel Lusitânia, Vieira de Castro provocara, rude e íuriofa- 
mente, um articulista do Jornal do Porto, J. ão Lúcio, em sacões de vtrdugo no 
pescoço do condenado porque cie se manifestara contrario ao escritor preso. Era 
aquele o psecdonimo com que o Novais dos Óculos voltava a esvurmar a sua pe- 
çonha, sabendo-se a distancia do cacete pontudo do romancista. Fora também des- 



(*) Nacional— 8 de Oalubro de 1860, 

(**) 5 de Outubro de 1860 

{***) Foi em 1855 que principiou no Porto sste gjnero de ilaminação. 



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cadeírado pelo dr, Jerónimo Ferreira Pinto Basto, que, apesar de juiz, descera à 
praça a vingar afrontas do íolieulario, e tudo isto \hz lembrava o ardido polemista 
que até increpava julio César Machada pelo seu silencio ante a publicação do íolhc- 
**m de i\na Plácido. Enaltecia o adultério porque os condenavam, atirava a sua 
exortação ao mundo, orgulhosa e audaciosamente. 

R reclusa voltara a publicar um folhetim: O Mando do doutor Pangloss, como 
a lançar-se num sarcasmo de optimismo no meio dos seus infortúnios, achando como 
a personagem de Voltaire que «tudo ia pelo melhor, no melhor dos mundos pos- 
siveis.> 

Alfinetava o Porto à conta da heroina do romancinho, a Hdelina, nome que 
continha a primeira c a ultima sihbas de i\na; troçava dos maridos velhos que se 
arrapazavam, descrevia as dores duma sentimental e ao desenhar um amante a que 
chamava Henrique titulava-o de «grande desgraçado> porque «o que hoje lhe dava 
enorme contentamento lhe aborrecia amanhã. R mulher que à primeira vista o tomava 
pelo anjo anunciado na sua fantasia tornava-se dentro cm pouco uma vulgaridade 
custosa de suportar. (*) Dos delírios da paixão caía nos marasmos do desalento e 
na descrença do tédio.» 

Ninguém sentira neste escorço o homem por quem se perdera e que enterneci- 
damente amava ainda, ao exclamar: 

« — Ó Henrique! Henrique! — escrevia ela — amaldiçoar-te, nunca! Mas para que 
\ me apareceste? Porque me queixava eu quando a vida me corria monótona, mas li- 
vre das angustias que me assombraram a face e me envelheceram num dia?> 
;j R sacrificada mandava-o fugir-lhe, adorando-o: <É tremenda a expiação do crime. 
Parte; cu não te verei mais. R paz do Senhor vá contigo e nunca te sejam tomadas 
no trono do Altissimo, a» contas da minha desgraça.» Não lhe fugiria mais; estava 
ali, a dois passos, atraz doutras grades, labutando para grangear o seu pão ; e era 
bem possível que não soubesse sempre sorrir-lhe de egual modo, que mesmo, após 
a posse, começasse a idealisar novas heroinas para os romances que gostava de vi- 
ver mas apesar de volúvel como raros, queria-lhe muito c tinha orgulho dela, da 
sua belesa, da sua inteligência, da sua coragem. 

Mas a amante acordara do seu £onho. Sentia áspera e dura a vida da cadeia e 
menos carinhosas as palavras do amado. Dir-se-hia que lamentavam aquele final do 
seu romance. Faltavam- lhes as comoções, entreviam o degredo, viam-se amarrados no seu 
delicto numa possessão longínqua. E ele, tomado pela visão mais trágica, recordou- se 
do tio Simão, do irmão de seu pai, condenado também ao degredo porque assassi- 
nara, ra exaltação de um amor delirante. Estivera ali naquela cadeia, talvez que num 
quarto bem próximo do seu, enquanto contra ele rugiam os ódios dos parentes da 
mulher estremecida. Sentia-se numa situação idêntica ; já vislumbrava os areais incan- 
descidos, os porões infectos dos veleiros, exhalando ranços de gado humano acorren- 
tado para o degredo. Pedia, num desejo forte de romantisar a sua vida, atravez dos 



(*) Comrçoa-se a pablicar no Nacional em 7 de Norembro de 1860, 6.^ feira. 



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sofrimentos do parente condenado, os apontamentos para a urdidura da obra. O se- 
nhor Dias — o preso que acumulav^a funções de mestre escola e escrevente (*) — 
trouxera- llie meia dúzia de linhas forragcatías nos livros da Relação, relativas ao 
antepassado, cuja historia o escfiptor ouvira dos lábios duma irmã, que bem lhe 
quisera e lhe entregara a certidão de nascimento do desditoso, gerado numa moradia 
visinhante dos paços reais. (**) Com estes parcos elementos engendrara a estranha e 
comovente historia de delirante paixão, de dores, de amarguras, que arrancaria lagri- 
mas em côudacs. É que o autor, num febril anseio, tecera, com a sua infelicidade^ 
o drama torturante, evocador dos tormentos dum oulro, dum homem da sua íamilia 
que ali muito sofrera por muito entranhadamente amar. 

R Teresinha, em que telvcz ouvisse falar, estcva ali, ao fim de um corredor, 
afraz duma pjrta, onde íôra bater uma vez como alucinado ; era Ana Plácido. t\ 
Mariana, a plebeia, porventura a copiaria dessa Eufrásia, que tudo praticava para seu 
prazer, e que eh alindara, deixando- lhe só a alma de sacrificio. 

Como no tempo de Sirrão Botelho, a cadeia, baíorante de ncjencias, lá eslava 
com a sua fachada severa, vclleda para a rua de S. Bento, rodeada de sentinelas de 
passos pesados, cem as entradas dos cárceres por banda da Cordoaria e angulando a 
Ferraria de Cima. Hqueia cantaria pesada conservava todas as pestilencias, apesar de 
cento e trcz janelas que a rasgavam. Em baixo, um bêro fedorento exhalava podridões 
pelos telhados das casas de taipas partidos c pelas cancelas, onde se empoleiravam 
galinhas promiscuas com os habitantes nessas moradias. Ha trcz quartos de século 
que o espectáculo era o mesmo e que as legrimas, es gritos, os fartuns de muitos mi- 
lhares de desgraçados licham penetrado nessas pedras form.ande-lhes uma argamassa 
trágica c viscosa. 

Com aquela vertigem de enlouquccedora novela de amor, escutava dum moe- 
deiro falso (***) es dolorosas scenas aproveitadas psra ouh-a novela (****) e à sua beira, 
como florescencias estranhes daquele rincão, alfcbravam.-se criminosos de todas as 
castas, parricidas, cnvenenedores, quedriíhciros, contrabandistas, assessincs por amor, 
per cupidez, por cólera, infanticidas, uxoricidas, hipócritas, leais, vasa, lama, lixo da 
humanidade com seus brilhantes seixos à mistura. Misérias de toda a casta se expu- 
nham nessa feira dos corredores lamacentos, onde gente marcada de estigm.as fatais 
procurava distanciar-sc uma da outra. Havia ali culpados vindos de todas as cama- 
das: cemponios, artífices, lavradores abastados, morgados e até padres. Do lado de 
alem estava o mulherio: as tontas, as loucas, as ignorantes, as que tinham morto, 
roubado, as perdidas e quasi todas por amor. 



(*) <DeTo-ihe a íiaeza de ter rebascsdo nos velhos livros e encontrado a noíicia do encarceramento 
de meu tio Simão António Botelho, eto — Camilo, Memorias do Cárcere, 4.* ed., pag. 70. 
O preso íôra acusado de p2ssadt,r de moeda falsa. 
(**) Documento H. 
(***) António José Coutinho. 
(**♦*) Romance d'um Homem RUo. 



— 152 — 



R seara do vicio e do horror oferecia ao rcmancista os seus melhores fructos, e 
ele colhia-cs, rroldava-os, juntava-os no bélsarco do seu talento numa infusão de ter- 
ror e de piedade; ama>sava-os num livro (*) em que tanto falava deles como de 
si, senlindo-sc perdido no matagal onde rugiem, peroravam, choravam e riam os seus 
companheiros cm fúrias de saudades, de despeitos, de revoltas, de amarguras e de 
alceei que baforava de quasi todas as gargantas ululantes. 

E no meio desta fauna do crime havia quasi santos: um condenado fabricando 
caixinhas para pomada e privsndo-se do producto a fim de sustentar seu filho cos 
estudos de medicina; ura salteador desprovendo- se para alimentar os pobres das enxo- 
vias e muitos olhos chorando arrependimentos. 

Surgiam os disfarçados, os tredos, os mais nojentos como um que se eproximara 
de Camilo e do qual desconfiara. C rrera nos jornais de Lisboa a nova de que o 
queriam matar no próprio cárcere; o preso, que o assediava com pedidos e prantcs^ 
fora sentenciado à pena cdpital per assassinios, à conta dum mandante que o susten- 
tava na prisão. Protegia o condenado Cruz, o senhor Miranda de Lfmcs, procurador 
de Pinheiro Aivcs. 

O criminoso aparecia de maneiras mansas a sciicitar obséquios, m.es seguiao de 
pés nus cos ccrrcdorís escuros; outros passos, pcréra, soavam; uma estatura alta, 
desempenada saía da sombra, um rosto enérgico e berbaçudo se encarrancava na 
írentc do homicida. 

Era o célebre José do Telhado, que, depcis de ter salvo a vida a Sá da Ban* 
deira, capitaneara quadrilhas, com a To«-re e Espada ao peito, roubara aos rices e 
dera aos pobres ; e, desvalido, preso, amarrado, sem recursos, chorava entre as pedras 
do cárcere. Mas, de quando em quando, assomava- se; voltavam-lhe os Ímpetos e a 
fera enjaulada rugia como nas selvas, e, num desses bramidos, dissera a Camilo, aa 
entrever que o espreitava, andava em sua volta o assassino por dinheiro: 

— «Esteja dcscançado. Sc aqui alguém tentasse contra a sua vida, trcz dias e 
trez noites não chegavam para enterrar os mortos ! > (**) 

Lá fora a cidade também urrava ; os amigos de Pinheiro flives auxUiavam-no e 
ele gaitava, enlrcgava-se nas mãos largas do procurador. Em novembro, sob o fragor 
dos ataques e na fúria das intrigas, sentira- se ser necessário reagir cm publico e, 
ousadamente, se atirara ao Porto um brado enérgico (***) nas primeiras paginas do 
Nacional : 

«Ha perto de seis meses que a ex.""^ senhora D. Rna Plácido Pinheiro Alves 
está presa, solxitando sçr julgada. Quantos embaraços a trapaça podia sugerir ao 
sr. Manuel Pinheiro /\lves estavam esgotados. Pediu que não fosse ela julgada sem o 
suposto co-rtu ser preso. O juiz indeferiu, a Relação confirmou o despacho na pri- 
meira instância, tão repugnante seria uma deliberação contraria. Pediu mais que não 



(*) Memorias da Cárcere. 

(**) Camilo — Memorias do Cárcere, 4.* rdi^io, 2," vol , p?í, 25. 

(•*») 13 de noTcmbro de 1860, 



- 15J - 



lossc iulgada a sua esposa sem que iníormassem testemunhas no Brasil. Indeferiu o 
juiz c a Relação tambcm. Como o lim do auctor é prolongar a captura da senhora, 
a decisão da Relação foi-lhe favorável porque deite modo vinham as dilacções e recurso 
para o Supremo Tribunal c ameaça de as fazer demorar ura ano entre recursos enta- 
lhados no escriptorio do procurador geral da Ccrôa. flprescnta-se em juizo o senhor 
Camilo Castello Branco. Requere de novo o senhor Manuel Pinheiro Hlves, para que 
sua mulher não seja julgada sem o suposto co-ieu. O juiz indeferiu. O auctor agra- 
vou para a Relação. Esta ou confirma o despacho ou dá provimento ao agravo. Sc 
o confirma, o auctor recorre, se dá provimento, a infeliz senhora tem de esperar que 
o recurso do co-reu seja decidido no Supremo Tribunal. Custa a crer tanta crueza 
de parte d'um homem que expulsou sua mulher, que a espoliou do seu dote e até 
das roupas de seu uso ordinário, que a deixou viver livre mais d'um anno sem que 
a sua dignidade se ofendesse c que depois de tudo a fez entrar na cadeia sem como- 
didades, sem os recursos necesserios para tel-as e não contente ainda cera 6 meses 
de prisão lhe tolhe o poder ser julgada! Hqui é também o logar próprio para regis- 
tarmos um outro facto para demonstrar como a dignidade de alguns advogados 
se envilece c deshonra. /\lgucm pedira no tribunal da Picaria ao sr. Hlexandre da 
Costa Pinto que não demorasse o processo contra o sr. Camillo Castello Branco alem 
do praso marcado pela lei. O sr. Alexandre (que ainda ha pouco exercia as funções 
de juiz) respondeu que pedissem eo procurador sr. R. Miranda Lemos. Casualmente 
estava o procurador presente. Foi este rogado para que concedesse a entrega dos 
autos, respondeu que não seriam entregues sem mandados de cobrança. O advogado 
encolheu os hombros ccino quem diz : Eu sou um pcbre diabo que não tenho vontade 
rainha. Se me não prestar a estas humilhações cão terei procuração d'um constituinte. 
O sr. Alexandre pedia servir o seu conshtuinte mas pretextando e colorindo a bai- 
xeza de qualquer maneira. 

O caso é que foi necessário arrancar os autos da mão do advogado com a pena 
da muita. O que pede o dnheiro! Como tudo se deshonra e se degrada! 

Pobre senhora que até tem contra si o dote que seus pães laboriosos lhe deixaram. 

São estes os escândalos que a imprensa pudibunda cala. 

Cáfila de miseráveis que dfeixam o pudor na gaveta da escrivaninha e vão bajular 
a devassidão que deslumbra cem oiro!» 

Isto devia ter seído da pena de Custodio José Vieira ao ouvir o seu colega 
Marcelino de Matos encarregedo da deíera dos inculpados. 

Era um beirão eloquente (*) que servira cora a Junta do Porto. Patuléa exaltado, 
^ôra um dos verrinosos panfletários contra o cabralisrao, era que Camilo o excedera; 
penetrara-se de idcas socialistas, poetara no Crepúsculo, no Trovador, na Lyra da 
Mocidade, no Bardo; pcriodicara no Ecco Popular, fundara a Esmeralda, improvisara, 
do palco de S. João, um ditirambo a Saldanha vencedor; dedicara-se a largos estudos de 
jurisprudência no seu jornal O Direito q, pertencerdo à barcaça florida dos romianticos, 



(*) Pai do celebre alienista dr. JuIio de Matos. 



— 154 - 



defendia Carailo, de greça, cm arroubos quasi liricos, mas juridicamente recheados, 
erguia o seu nome como uma bandeira e, sem se importar com o lucro de clientela 
opulenta, agarrava- se ao amigo numa ardorosa campanha. Ro ver José do Telhado 
quasi a mendigar, depois de ter distribuído o seu dinheiro na cadeia, (*) escutara-lhe 
as suplicas c decidira- se a ir á barra cm seu auxilio, também gratuitamente. 

Os ecos da cadeia continuavam a reproduzir as vozes acusadoras de tentativas 
conlra o romancista; o chefe das quadrilhas temidas, ultimo rebento duma dinastia de 
salteadores, vigiava na sombra. i\na Plácido entristecia mais com as notas plangentes 
do seu piano naquele cavernoso antro, no qual o crime refloria cm cardos diaria- 
mente pois jamais se csvasiavam as enxovias, salas e quartos; c, lá íóra, a neblina 
acinzentava a atmosfera, enegrecia o aposento onde o trabalhador das letras ia 
cegando aos poucos, para «ganhar o pão duma familia.» 

Do cárcere desentranhava-se a vasa que era como perfume do crime e era entre 
ela que o ilustre preso debuxcva na fantasia e vivia na realidade o seu Amor de 
Perdição, o que faria chorar o publico c o outro, o que estrangularia de soluços pela 
vida fora a mulher que, ali perto, já bastas lagrimas derramara. 







(') Entrara na cadeia com 600$000 réis e deraos aos necessitados. Ficara k iDÍo£ua. 



ISS - 




l-llirl llcil.M |. 



IM^IMIO/ 



IP <> mw mm ^>w » 



Retrato d« Camilo com 
dedlcatora a Ana Pláci- 
do, (Reprodução do txtm- 
Dlar existenlt tm pnder 
da família do romancista) 



IX 

MEMORIAS DOS CADCERES 



OS ANTROS DA RELAÇÃO — UW A VISITA DE D. PEDRO V— CAMILO E O REI 
— O BAILE REAL NA ASSEíMBLÉA PORTUENSE-PALAYRAS CERTAS 
SOBRE UMA ESMOLA FALSA — POESIA ENTRE GRADES— NO 
JULGAMENTO DE DOIS AMANTES— UMA CRÓNICA DE 
HA DOZE ANOS— O JUIZ E OS JURADOS— A SEN- 
TENÇA ANTE A OPINIÃO 



Àlucta travava-se entre o preso da Rtlação com o bando romântico de artistas 
e patuJéas, c os acaudilhadores de Pinheiro Alves, à frente dos quais se 
mostrava o Ferrcirinha da Regoa. Vieira de Castro imputava-Ihe todos os 
males sofridos pelo recluso. 

Era possivcl que a influencia do cepitaiista esbarrasse contra os poderosos parti- 
dários do escritor; é mesmo naturel que cie epcnas protestasse em voz mais eltf, 
dandc-se ares, marcando atitudes, muito de seu feitio, e que cousa alguma movesse. 
Porém o seu cunhado era conde de Azambuja e filho do marquês de Loulé. Este 
subira ao poder em Julho de 1860, após a queda do ministério de Joaquim António 
de Aguiar, do qual fezia parte Fontes Pereira de Melo (*) simpático aos apaniguados 
de Camilo. Reinava desavença da gente da Revolução de Setembro, com Rodrigues 
Sampaio (**) desconfiado e José Estevão de atalaia e a do presidente do conselho, seu 
antigo correligionário ; todavia, por parte do gabinete, havia tanto respeito pelos adver- 
sários que 'o seu chefe declarara, no Parlamento, seguir a politica de reformas dos 
predecessores. 

Tais eram es defensores do homem de letras. Havia ainda outro auxiliar de 
considerável tomo por sua energia, audácia e irritada forma de agir. Chamava-se José 
Júlio de Oliveira Pinto. (***) Transmontano, pronto a encarar os inimigos, mais ainda 



(*) Camilo dedicoH-lhe o Jmor de Perdição. 

(**) O escritor oíerecea-lhe em dedicatória ^rata os Doze Casamentos Felizes. 

(***) Foi-lhe dedicado o Romance d' um Homem Rico. 



— 159 - 



afeito a desafiá-los, andava na politica muito tsmido e, como íuncionerio superior do 
ministério da justiça, onde seria oficial maior, goseva de verdadeira inRucncia junto 
do ministro, o conselheiro Alberto flntcnio de Morais Carvalho, ertigo emigrado 
liberal extreme, homem que vira o mundo com os olhos da miséria e soubera 
grangear a justa fama de grande jurisconsulto, devoto do progresso, experiente c 
ponderado. 

Os que pleiteavam pelo marido de Ana Plâcido, nos conubios do Palheiro cspe- 
rançavam-se no êxito favorável, dcsccnhecedores dcs rreendros da politica, acredi- 
tando facilmente no desejo do marquês de Loulé cm se tcrner o vingador da moral. 

Depois, o escriptcr, tomando a si as secções audaciosas do Nacional, esgrimia 
relas e no artigo de fundo centra o primeiro ministro, ccnsiderando-o seu persegui- 
dor. Isto ainda mais alegrava os outros arrimados á represália. Esta idéa, alimentada, 
por muita gente, conturbava o articulista que tinha necessidade de um desabafo; de- 
certo acreditava que o casamento do filho de Loulé cem a irmã do cunhado de Hna 
Plácido influiria no destino de ambos e vergastava, sempre que podia, o tio-avô do 
rei, naquela profunda cólera que o dominava. 

Da saleta húmida c negra onde vivia a amada, vinham-Ihe brados doloridos. 
Oueixava-se, nss suas canções tristes, acompanhando as notas do piano, ia para en- 
tre as grades fumar, e recebia no cárcere os amigos e colegas do romancista, afei- 
çoava-se-lhcs, íalava-lhes em camaradagem numa imitação ds George Sand, que muito 
admirava. Apareciam com os advogados, poetas e literatos, Marcelino de Matos, que 
ia por sua obrigação, c Custodio José Vieira, por sua ânsia de pleitear, o excitado 
Vieira de Castro, cora os redactores do periódico de Gonçalves Basto, onde Júlio Cé- 
sar Machado escrevia os chistosos folhetins. Também este íòra ao Porto. Metia-se lon- 
gas horas na cadeia, ora num cárcere, era noutro, visitando tanto o romancista como 
a bela prisioneira. Camilo enciumava-se a cada elogio q ;e ouvia à belesa e ao talento 
da amante; por vezes pretendia, infantilmente, desmentir aquelas frases, ferindo 
com fulminante c espiohenío espirito, as qualidades enaltecidas. Ela mandava para o 
jornal es sues produções; habituava- se a encher os quartos de papel rapidamente, 
como numa tarefa ; possuía um estilo próprio cndc, per vezes, instinclivamente, cm- 
brechava as locuções queridas do escriptor dilecto do seu coração c da sua inteligên- 
cia e abordava cera facilidade os assuntos. No aniversario da morte de D. Maria II, 
produzira um artigo, no qual passava, com a ternura da mulher, o senso de ura po- 
litico e que concluía assim: <Saudemos o senhor D. Pedro V, o penhor santo que 
nos ficou da santa c saudosa rainha.* 

Uma semana depois chegava á capilal do norte o soberano. Ia inaugurar a Ex- 
posição Agrícola, construída, num poderoso esforço dos portuenses, na Torre da 
Marca. 

Ventava e chovia nessa manhã de Novembro quando, õpós o alrroço im Gaia, 
na casa de Diogo de Macedo, a comitiva atravessou a ponte pcrsil, A cidade epe- 
rccia na sua luz mais triste, pardejante, que afcgava as suas bcleses, ensacando os 
edifícios no cortinado espesso de nevoeiro c cerdas de égua. No alto do Bandeira a 



— 160 — 



artilharia anunciou a partida do rei ; respondeu -lhe num eco, a bateria das Fontai- 
nhas ; estralcjaram foguetes c o monarca, com o seu rosto pálido c o seu doce sor- 
riso de principe moço, que parecia guardar a experiência de toda uma dinastia, 
olhava a cidade do trabalho no seu recolhimento pardacento e cujos habitantes o 
aclamavam por detraz das fileiras da tropa na rua de S. jcão. Alvejavam os aven- 
tais dos porta machados, era cujos decotes assomavam fios das barbaças negras; 
os cordões e o oiro das fardas cnfoscava-se, c, sua majestade, descendo da carrua- 
gem, magnificamente ajaezada, que o Ferrcirinha oferecera para o real transporte, 
escutava o conda de Lagoaça, presidente da Camará, a sauda-lo. Sóbria e clara- 
mente lhe respondeu ; recebeu as pétalas outonais que as senhoras lhe lançavam 
pela rua das Flores, praça de D. Pedro, Almada, até à Lapa, onde ouviu o Te Deum 
e depois, seguiu por Carlos Alberto, Cedofeita, Breyner, até ao paço das Carrancas 
diante do qual desfilaram as tropas. Vivia-se numa adoração à sua volta; tinham-no 
aclamado no teatro S. João no intervalo do Poluito. Como se confiassem pouco no 
gez das suas ruas es portuenses acenderam velas e foram iluminando a passagem 
do rei, que os via enternecidamente. Era uma longa procissão de brandões como 
num funeral apoteótico, aquela marcha dos homens de casaca, misturados com o 
povo, cm torno do trem magnificente do capitalista do qual D. Pedro Y descia com 
os irmãos, D. Luiz e D. João, correspondendo às gentilezas. Na noite sem estrelas 
cstrondearam os vivas, c à cadeia devia chegar, com o clarão alto das tochas, 
aquele rumor feliz, ardente, espontâneo. 

Na noite seguinte era o baile na Assembléa Portuense onde se aglomeravam os 
nimigos de Camilo ; de dia convidara-se o real hospede para visitsr a Escola Me- 
dica, a Academia Politécnica, a Fundição da firma Guimarães. De súbito como 
tomado por um sobrcsaltado pensamento, mandou avançar o carro para a Relação. 
Galgou apressadamente as escadas limosas, entrou na secretaria mal acompanhado 
em sua pressa, pelo séquito e ante o carccrciro-chcfe Alexandre do Nascimento um 
alferes de veteranos, encanecido e tremulo, ordenou-lhe que o conduzisse às en- 
xovias. 

Esgarçaram-se as passagens dos sobrados, espécie de escotilhas, no fundo dos 
quais mal se viam os presos atormentados c os baiíiques rentes dos muros viscosos. 
Subia a baforada nauseante na meia treva, a fumaceira acre dos fogaréus das refei- 
ções e do tabaco de picar. O soberano não parou nas escadinhas estreitas c escor- 
regadias; só se deteve no meio dessa gente que ajoelhava e levantava as vozes pe- 
dindo piedade. O cheiro dos detrictos vinha como esguicho fedorento de sargenta mis- 
turar-se com as exalações dos corpos dos duzentos detidos nas diversas divisões c 
ele, com a sua mocidade e a sua firmesa, passou vendo tudo, guardando na retina 
os horrores daquele inferno alumiado a purgueira que envenenava mais a atmosfera. 
Nos compartimentos das mulheres barafustava-se; uma doida fora amarrada para que 
os seus gritos não chegassem aos reais ouvidos ; novas e velhas rojavam-se no chão 
sujo e pediam misericórdia, supUcavam, choravam. O rei recebia a pestilência do ar 
e das almas, mas uma grande caridade avolumava, também, no seu coração e ao ver 



Foi. 1 1 -- 161 — 



que os presos, entre os quais um parricida, iam prostrar-se, ordenou a um dos guar> 
das: 

— Diga a esses homens que me recebam de pé! 

Assim se vingava da sua impotência para perdoar a algunis criminosos, o rei 
constitucional. 

Que mais podia ele fazer?! 

laterrogava-os, sorria com um nadinha de ironia ao saber da grande quantidade 
de moedeiros falsos ali existentes e detinha-se diante de um homem que curvava a 
cabeça á entrada de um quarto. 

O ministro das obras publicas, Tiago Horta, pronunciou um nome : Camilo Cas< 
telo Branco. 

D. Pedro V entrou no aposento como num refugio ao cabo daquela tormentosa 
travessia. O presidente do conselho acompanhara-o, os ajudantes ficaram no corredor 
e o escritor, cujos olhos iam enfraquecendo de tanto trabalhar naquela luz triste, 
ouvia-lhe a voz envergada de pasmo: 

— cNâo esperava encontrá-lo aquil (*) 

Mas, de repente, pareceu recordar-se; encarou-o, achegou-se mais e perguntou» 
-lhe com bondade: 

— «Ha quanto tempo aqui está ? 

— «Ha dois meses e meio . . . 

— «Entretém- se a escrever? 

— «ftpenas tento entreter-me . . . 

— «Diz bem: o local é impróprio para trabalhos de espirito. Deve haver aqui 
muita bulha. 

— «Creio que os primeiros quinze minutos de silencio nesta casa são os que 
Vossa Magestade aqui trouxe . . . 

Avançou mais na prisão ; pôs-se a olhar a secretaria ; reparou no Plutarco aberto 
e fixou o romancista, como a mostrar-lhe a sua simpatiõ: 

— «Estimarei que se livre cedo . . . 

O solicito Thiago Horta, que era um grande amigo do soberano, acudiu: 

— «Isto deve estar a terminar ... , 

— «Começa agora ... — volveu Camilo. 

O visitante íitou-o de novo, mirou as enegrecidas abobadas e repetiu, como a 
assegurar-lhe a sua vontade de o vêr solto: 

— «Estimarei que se livre cedo . . . > 

Dibse, estendeu-lhe a mão e saiu. Os seus passos perderam-se nos lagedos; 
atravessaram as enfermarias e, como se levasse um fim preconcebido, per- 
guntou ao velho Alexandre do Nascimento, o acanhado e comprometido carcereiro, 
que o acompanhava: 

— «Que é ali dentro? 



(*) Camilo — Memorias do Cárcere, 4.^ ed,, pag* 223 e seguintes. 



— 162 - 



— «Saberá Vossa Magestadc que é o quarto da senhora D. Rna Plácido . . . 

Ela estava trabalhando noutro logar; chamaram-na, acorreu. Era mais formosa 
no desatavio caseiro e na legenda da desventura. Ainda uma vez se tocou de piedade 
a voz do rei ao interroga-la acerca da sua estada ali. Ouvio-a comiserado e quiz 
saber se o filhinho a acompanhava. O inocente de quinze mezes entrou ao colo de 
Jacinta Cândida de Jesus, a sua ama ; a mão real desceu para a facesita de Manuel 
e acariciou-a ; perguntou o nome à criancinha que sorria à sua espada e aos seus 
galões mas não o percebia. 

O rei deliciava-se com o entreabrir dos lábios desse anjo internado no cárcere 
materno. 

Saiu, depois de saudar com respeito a mulher condenada pela cidade; e dai a 
pouco, na treva da larga passagem, sentia o José do Telhado de rastos a requerer 
basta escolta, no dia do julgamento, a fim de escapar à fúria dos inimigos. R fermen- 
tação das cavernas envolvia-o e à comitiva; parecia que se estrangulavam atraz das 
portas chapeadas as presas implorativas, abafavam-se desatinos de doidas e o sobe- 
rano, exclamou ao chegar à rua, diante do edifício que lembrava um tumulo onde 
turbilhonassem podridões : 

<Isto precisa ser comoletamente arrazadoh 

R seu lado o presidente do conselho devia meditar nas singularidades do des- 
tino que lançava num quarto lobrego da Relação a cunhada do homem de egual pa- 
rentesco com seu filho, do ofertante da carruagem de gala para as pessoas reaes, do 
comensal do paço das Carrancas, (*) o seu anfitrião, nessa mesma noite antes do baile 
onde assistiria com a corte, junto de seu amo tão amigo dos desvalidos e que tão 
comovidamente ouvira aquela mulher escarmentada. 

E foi, na realidade, pomposa a festa da Assembléa Portuense. Cento e trinta c 
duas senhoras enchiam de suas graças os salões; seiscentos homens aglomeravam- 
se á passagem do principe meditativo e nostálgico como se andasse ensaudado de 
glorias dos avoengos : D. Duarte de misantropia, D. Sebastião ávido duma conquista 
de bem estar para o seu povo. Os irmãos seguiam-no no grande respeito que lhe 
votavam : um alto, desempenado, lanceiro esbelto, o outro, marinheiro loiro cuja cabeça 
.uvenil parecia acariciada por um eterno raio de sol. R visão trágica da cadeia lobrega 
^esfumaçava-se sob os candelabros, espancavam-na as cintilações e os fulgores, os 
cclos faisc^antes e os peitos das casacas cheios de comendas; o hálito da miséria 
desvanecia-se nos aromas das elegantes, ia levado na aragem papejante dos leques e 



(*) Nacional, de 22 ds novimbro de 1860, dia da visita de D. Pedro V à Relação. No dia 2* janta- 
ram no Paço das Carrancas o presidente da Camará, governador ciril, secretario geral, general Ferreira, 
chefe do estado maior, barão de Palme, presidente da Relação, vigário capitular, intendente de marinha, 
comissarío de mnXtrizX de guerra, directorrs de alfandega e das obras publicas, comandantes de caçado* 
res 5, 6, 9, e guarda municipal, presidentes das associações comercial e agrícola e António Bernardo Frr» 
reira. Ao todo 29 pessoas com a comitiva. 



- 163 — 



no rugerruge das sedas. Hpesar de lá fora chover e friar as damas tinham as faces 
afogueadas depois das danças. O duque do Porto tirara para seu par a condessa de 
Saraodâes, ainda quasi noiva, depois a Palmela, D. Mariana da Anunciação, casada 
com o conde de Terena ; uma das esbeltas filhas do comerciante opulento Sandcraan 
precedera a senhora Chamiço milionária e a viscondessa da Trindade, quarentona 
mas cuja categoria na sociedade a enfileirava no protocolar convite de sua alteza. 
Também o duque de Beja preferira a Sandeman mais nova, gentil, encantadora c 
rosada, ficando bem a seu lado. De seguida outra senhora de sangue estrangeiro, 
D. Carolina Vanzeler, esposa do barão de Saavedra e sobrinha do velho Browne, 
volteara na sala com o príncipe que, finalmente, solicitara igual honra da viscondessa 
de Castro e Silva, da casa de Albergaria, da Chamiço c da nova c petulante consu- 
lesa de França. 

O rei não dançara; bebera uma chávena de chá e discreteara com a sisudez 
dum velho. Os seus olhos melancólicos volviam-se para mais longe, distanciavam-se 
da sala onde os infantes sorriam na animação do baile. 

No dia seguinte íalou-se no Porto em duas cousss apenas mas de largo pasto 
para as curiosidades: no baile da Assembléa e na visita regia à cedeia. Dcvia-se 
pasmar de tanto esplendor a da honra concedida aos detestados prevaricadores. 
O Jornal do Norte não pudera conter o sarcasmo: <Lê-se no numero do Nacional 
de sábado que na visita que Sua Magestade fez às cadeias da Relação desta cidade 
dissera El-Rei ao sr. Camilo Castelo Branco que não esperava vê-lo na cadeia, que 
aquele local era impróprio para ocupações de inteligência c que mostrara também 
desejos de conhecer o José do Telhado. > 

O escritor comentou logo o eco neste molinete descadcirantc : 

«Ha selvagens que não se domesticam, eto, c depois, sarjando em alta perso- 
nagem, querendo-a também, dorida em suas feridas, ajustava o bistouri ao chefe do 
governo. <cQue teria? — perguntava e acrescentava maldosamente: «Todo o mundo 
notou que o sr. marques de Loulé andasse por aí triste e pensativo e que fosse um 
mudo espectador das festas sentidas que por aí se fizeram aos seus príncipes. Uns 
disseram que o motivo de tamanha tristeza era a falta de descanço porque ha muito 
que não podia dormir, como costumava, 18 horas por dia, outros afirmavam que era 
a consciência da sua popularidade. > 

Querendo consolar o romancista de todos os infortúnios, a Revolução de Setem- 
bro, cm logar de destaque, acentuara que o aperto de mão do monarca represen- 
tava a aproximação «de duas realesas : a do sangue e do talento.> (*) 



(*) <D2 nós digo-te qn? ela tem saúde. E' a felicidade única que te posso contar da minha vida. A 
Revolução de Setembro vinda hoje chama-me realeza do talento, 

«Se sei isto antes, mandaTa pedir à redaçlo qne me desse em vez de coroa nm cento doutras eorôaa, 
qne me são aqui mais necessárias qne o reinado. 

«Faz-me lembrar isto a cana verde de Criste.> 

Camilo — Carta a Vieira de Castro. 



— 164 — 



D. Pedro V partira ; a intriga logo levedara, /llastrara um referver de vasa : a 
calunia da gente do Palheiro. R tempestade que se desencadeara sobre a cidade c 
encrespara o Douro, lembrava um extravasamento dos ódios como a quererem subir 
marulhantes e pestilentos, até às jandas da Relação, como as lamas do fundo revolto 
do rio, galgavam as muralíias. Chovia rijamente ; sumiam-se nas aguas os lampeõcs 
da iluminação da Ribeira. S. João e Estiva Velha; a cheia elevou-se a 10 metros 
cm Miragaia, arrastara os navios das carreiras c nas vésperas do Natal cinco em- 
barcações, com os ferros partidos, garraram na corrente cachoante com as pipas, 
fardos despedaçados, moveis e carros de mão. Bramia sinistramente o vento na 
noite sagrada ; o gazoraetro íôra inundado, faltara a luz, cmantara-se a cidade em 
lobrcguidões ; na ponte pênsil as chapadas violentas das ondas baldeavam a passagem 
c os portuenses recolhidos, de janelõs cerradas, em familia festejavam o nascimento 
de Jesus Os presos na Relação lembravam-se dos seus natais aldeãos, fina Plácido 
evocaria a vida desfeita, Camilo, que nunca tivera as alegrias do lar, escrevia sem- 
pre, sem detença, febrilmente, nervosamente. (*) 

Quando a tormenta cessou veiu a nevada c logo o sol, para voltar o graniso fulgu- 
rante por instantes sob os seus raios. No final do ano, gelava-se nos corredores da 
prisão e foi com a mão cntanguida mas de cérebro ardente que o romancista conti- 
nuou a sua obra. 

E ainda, por noite alta, ao acordar, escrevia versos apaixonados: 

R Rachel 

Meia noite. Dormes anjo ? 
Vês-me num sonho feliz ? 
Vem do ceu dizer-te um arcanjo 
O que a minha alma te diz ? 

Relembrava os males da vida de ambos c acabava docemente : 

Sonha assim viclima nohrz 
Dum destino miserando 
Diz-me o mistério que encobre 
O sonho qu2 estás sonhando 

Rssinava c datava estas expressões carlciosas c tristes da meia noite de 5 de 
fevereiro. 

E bichanavam-se sempre protervias ; passavam do Palheiro para os soalheiros 



(*) Durante o pcriodo da priião, escrcvea Dose Casamentos Felizes, o Romance dum Homem Rico, 
Amor de Perdição, croaicas para a Revolução de Setembro, nma larjaissima colaboração no Nacional e as 
Memorias do Cárcere. 



— 165- 



as noticias inventadas à custa dele e da amante e a mentira maior, que se alteava, 
SC aforava de veracidades, o salpicava, e tornava o próprio rei antipático à moral 
portuense, era a de que sua magestade enviara ao detestado desencaminhador de senho- 
ras, avultada quantia para seu regalo. 

Camilo adoecera e o homeopata, dr. Pereira Dias, acorrera, cheio de amisade, 
a tratá-lo e era exactamente na convalescença que o assediavam ferozmente. (*) 

Começara a publicar-se, com grande cxito, o Comercio do Porto, orgào das 
camadas ultra conservadoras da praça, e para que estas não podessero alegar igno- 
rância da sua repulsa, talvez pira que Pinheiro Hlves não o imaginasse a mendigar as 
sopas da mulher que o amava e a qual saíra sem recursos da alçada conjugal, en- 
viara, ncbrc e bravamente, a carta que o jornal inseria, c na qual dizia não saber 
donde partira co boato> que «maguara o ilustre romencista.» 

Havia grandesa nas sentidas palavras do encarcerado, que só as traçara quando o 
seu amigo Hntonio Joaquim Xavier Pa:heco lhe assegurara tercm-lhe mjstríído uma 
noticia de Lisboa, na qual se declarara, ir o conde da Ponte enviar-lhe o ragio 
presente. 

Então não hesitou ; amarguradamente se resalvcu da calunia : 

«Sr. Redactor. Muita gente me tem preguntado por dous contos d2 reis, que 
mandou dar-me o sr. D. Pedro V. Pessoas circunspectas acolheram c divulgaram o 
boato, comentando-o de diversos medos mas nenhum lisongeiro para mim. 

«Eu creio que o sr. D. Pedro Y é infinitamente delicado c só dá esmolas a quem 
lhas pede. Quando Sua Magestade me fez a honra de preguntar na cadeia em que 
rac ocupava, respondi a Sua Magestade «que trabalh va>. Ou o sr. D. Pedro Y enten- 
desse que eu me ocupava em chapéus de palha ou em romances ou cm caixinhas 
de banha, a minha posição ficava definida para o inteligente Monarca: o homem que 
trabalha não pede nem aceita esmolas ; c se a pedisse ao Rei julgar-se hia tam humi- 
lhado como se a pedisse aj mais iníimo dos homens. 

«/\ cousa é outra. Hi muita gente que se diverte comigo. 

<É bem ísito porque eu tembem me diviíto com muita gente. 

«Rogo a Y. a publicidade destas linhas Di Y. etc. Camilo Castelo Branco. 
Porto, Cadeias da Relação, 11 de Fevertiro de 1861 » 

Sacudira-se numa das suas d?spfjad s crleras. 

Os amigos que acorreram como Yieira de Ct-stro, nos seus cxacerbamentos, íe- 
licitaram-no. Houve quem acrescentasse ser gãudiosa para os adversários a ausência 
da caridade regia; acudia mais gente a visitá-lo depois de almoço. Eie interrompia o 
trabalho c recebia-os, com o cão aos pés, naqude inicio da primavera. Limpava os 
cansados olhos, falava com o seu costumado chiste, descrevia sccnas picarescas c 
enveredava logo para conversas eruditas. Per vezes o José do Telhado espreitava ; 
atrevia-se mesmo até à horabreira a contemplar as celebridades: Arnaldo Gama, o 
romancista da velha historia do burgo. Pinto Ribeiro, o poeta das Lagrimas e Flores, 



(*) Nacional, 2 de Janeiro de 1861. 



— 166 - 



julio César Machado, o celebrado folhetinista, os vates, os artistas, os do seu bando, 
o próprio José Estevam que olhando as grades, os vasitos onde as plantas emurche- 
ciam, escutando a gralhada e os socos das presas dominando as plangencias da 
viuva, era sua gaiola, exclamara: 

«Isto é dum homem partir a cabeça mas você conserve a sua.> 
Os intimes, como o Negrão, Iraziara-lhe recordações da mocidade c êlc sentia 
que todos festejavam a sua legenda romântica, a posse da mulher, o escândalo enca- 
rado com firmeza. Ela, porem, dcsoladamenfe, passava para o seu quarto os versos 
■escritos no abrir da primavera e nos quais se considerava uma precita, uma con- 
denada : 

Maldita I Maldita t Eis a voz que eu escuto 
Nas sombras da noite se geme o fufão; 
ão longe lá ouço bramir a tormenta 
Não menos medonha no meu coração. 

Hfírmava que em todas as manifestações terríveis da natureza palpitavam as 
mesmas sentenças cruííis, e tudo que a rodeava exalava votos severos de juises: 

Maldita I Maldita t os ferros me dizem 
Que inertes assistem à minha ajlição; 
E a estrela que passa, ligeira se esconde 
Deixando nas trevas o bramir do trovão. 

Camilo respondia-lhe, escrevendo torturadamenle. Os seus olhos feridos pela 
enfermidade, mal viam as linhas cm que a exortava: 

Maldita i Que importa que o mundo te brade 
Que a infâmia na fronte te escreva: maldita í 
O Cristo no lenho da dôr infinita 
Também foi maldito da raça precita 
E Cristo era um Deus. 

i\longava-se em consolos, era caricias inspiradas por seu génio: 

Maldita t porquê ? Mãe que adoras teu filho 
Que desces com ele aos abismos cuidando 
Que a paz te convida e voltas chorando. 
Maior desventura na terra buscando 
Com ânsia de mãel 

E gemia por suas amargas dores, coroava-a no sacrificio: 

Maldita I Porque se caída do fausto 
Em ferros escondes a rara beleza 



Elevava-a, acabava por sentir que ela constituía antes um raro exemplo e aben- 
çoava* a: 

Bemdita, bemdita, ó mártir tu sejas 
Que um dia sonhaste ventura no amori 
Caíste da altura dos teus devaneios 
Caíste e choraste; e a chorar passam cheios 
Teus dias de dôrí (*) 

Diante destas palavras de carinlio, destas linhas harmónicas e doces, enviadas 
como um santo bálsamo para as suas dores, a desditosa aquietar-se-ia embalando o 
filho. De longe vinham os bafos de abril; tinham florescido as arvores; os perfumes 
da viração roçavam a sua face entre as grades. O amante já dificilmente podia com- 
templar a serra da Gralheira, e os campos de Bomlim. Ia cegando; uma luneta preta 
defendia-lhe a vista do lindo sol que tanto amava; exactamente como as plantas da 
sua janela definhava no cárcere. Sósinho sofria; diante dos amigos enchia-sc de des- 
dém; ninguém lhe escutava a cólera mas os seus dedicados alanceavam-se, começa- 
vam a recear pelos olhos do ilustre preso. Houve entendimentos, combinações, pedi- 
dos, descnvolveram-se influencias, entraram na cadeia os médicos, que atestaram o 
descalabro de seu organismo e ele requereu para d^r passeios o que o dr. Teixeira 
de Queiroz deferiu e ao que obstou o dr. Corte Real, presidente da Relsção. 

Em Lisboa os políticos obtiveram a licença para poder sair acompanhado por 
um guarda, desde que a sua sauds se ressentia do cárcere. Despachara assim o con- 
selheiro Morais Carvalho ; Oliveira Pinto transmitira logo a bôa nova e ele acabava 
como um hospede da Relação; obrigava-se a dormir lá dentro ao contrario do seu 
cão qu3 o acompanhava no deambulamento pelo Porto mas continuava a passar as 
noites ao fulgor das estrelas aprilinas. 

Os burgueses encaravam-no pasmados ; percorria, com Vieira de Castro e outros, 
as ruas mais concorridas ou avançava sósinho, de cabeça alta, como um vencedor. 

Os caixeiros e os logistas encostavam-se nos portais a espreita-lo com a sua 
capa, o seu Terra Nova, o seu charuto c a sua bengala choupzada. Sob o bigode 
forte torcia-se um sorriso, desdenhoso ao descer a rua de *^antD ilntonio, segurando 
pelas azelhas (**) umas botinas de mulher. Os comerciantes c seus marçanos, bem 
como os <brazileiros:& ociosos, encostados aos balcões, ficavam sabendo que ele pre- 
senteava, nesse dia, fína Plácido. Garoteava em desforra dos boatos aleivosos da 
esmola regia; dava nas vistas, raostrava-se, parava bocados à porta dos luveiros, no 
Bérard, da mesma rua de Santo António 9, a cumprimentar os janotas e as mulhe- 
res voltavam-sc scismadoras à passagem desse amoroso cujo nome enchia o paiz. 
Envergava-se elegantemente para o publico, subia às redações a vêr as provas, gosava 



(*) Estas poesias foram publicadas no Leme com a data de 28 e 29 de março de 1862 mas devem 
ser do ano anterior em que estavam presos os sens auctores, visto as flagrante alusões ao caicere, 
(**) Alberto Teles — CamMo Castelo Branc3 na Relação do Porto, pag, 13. 



— 168 — 



em exibições propositadas, dos privilégios concedidos e que atormentavam os inimigos. 
R gente do Palheiro, naturalmente, excomungava os governantes, esse Loulé tâo 
combatido no Nacional, sogro da Ferreirinha e que consentia em semelhante insulto 
ao Porto como era aquele deambular do escritor por suas praças. 

Rié entrara na rua do Bomjardim, na fotografia de Horácio Aranha, a retratar- 
se para, no começo de agosto, brindar a que julgava ver iugir-lhe o seu amor. Es- 
tavam ligados para um largo e profundo sofrimento desde que iam sentar-se no mes- 
mo pretório. O tribunal superior de Lisboa aprovara a deliberação da instancia 
portuense que lhe negara o despacho de injusta pronuncia. £ ele, traçava, na sua 
letrinha egual, a dedicatória amiga, enternecida: <Cami7o Castelo Branco, ofereceu 
à sua companheira de cárcere á e;c.™a senhora D. Ena Augusta Plácido, em 2 de 
agosto de lS61.-^> 

Pouco depois voltou D. Pedro V ao norte. Tornou a subir as escadarias da 
prisão, a percorrer as enxovias, a penetrar-se dos horrores dos reclusos. Muitos tinham 
solicitado de Camilo as suas boas graças. i\o verem o rei apertar-lhe a mão julga- 
rara-no poderoso. 

/\penas se interessara por um de nome José Bernardino Tavares, lavrador abas- 
tado, de Santa Maria da Feira, ali preso por vingança dum padre ao qual roubara a 
tentadora ama. Requerera a Tiago Horta, em abono do condenado, esperando o per- 
dão do resto da pena que ali estava cumprindo a aguardar o deferimento. 

Era graciosa lembrança, disse-lhe, o soberano, ter visto a carta favorável ao 
preso 'e dirigida ao seu ministro; (*) depois puzera-se a contemplar as estantes c 
sorrira achando muito numerosos os exemplares daquela biblioteca numa instalação 
de preso. Sentira-o ali mal; chegara a pronunciar-se contra o aposento c o roman- 
cista redarguira: 

— *Vive-se aqui. Viveu neste quarto o senhor duque da Terceira, c . . . 

Ia referir-se aos liberais da conspiração de 1828 ma;» detivera-sc ante a directa 
pergunta do rei. 

— cRgora deve estar a terminar o seu infortúnio . . . ? 

— cHei-de ser julgado cm outubro . . . 

Despediu-se e partiu ; foi a ultima vez qu2 o escritor viu a sombra gentil e me- 
lancólica daquele grande romanlico de sangue reeil. Três mezes depois morreria no 
seu paço recitando os versos de Dante á sua Beatriz, (**) como um poeta num sui- 
cídio de amor. 

Naquela visita à Relação ainda encontrara Hna Plácido. Cumprimentara- a no 
corredor; ela entrava conversando com o general Caula que trazia pela mão o pe- 
quenino Manuel. Depois deixou-a, foi-se para a enxovia cora o seu perfil pálido c o 
seu olhar triste, murmurando : — «sempre a mesma miscria.> 

Novamente o Porto festejara o soberano com entusiasmo nos dias lindíssimos em 



(•) Cunilo — Memorias do Cárcere, 4.* edição, 2." vol. pag, 230 c 231. 
(**) Rocha Martins — Rei Santo, rominct histórico. 



— 1«9 — 



que se demorou. Parccia-sc edivinhar o fim próximo do soberano que o tumulo cha- 
mava antes que a maldade dos homens lhe enodoasse as intenções. Já murmuravam 
das suas tendências para o poder pessoal, das suas atitudes em que por vezes es- 
magava os opulentos donos do curo mal adquirido pronunciando-se sempre pelos 
pobres. 

Mais um clamor enorme se levantara contra Camilo. Jolgara-se que a carta de 
larga publicidade o indisporia com o ironarca e sentira se o contrario. Os algibebes, 
mercadores de baeta e os capitalistas, ao verem-no passear, continuavam em seus 
pasmos tendo uma ultima esperança nos iulgadores, nos juizes que o deviam mandar 
para o degredo cora a adultera diante da qual os príncipes se inclinavam. 

E por que assim sucedera, só naqueles tinham esperança. 

Desfiavam, revolviam, apreciavam os nomes dos que iam julgar os dois réus no 
meado de Outubro. Havia uma curiosidade enome. h gsnte do Palheiro pensava 
era invadir o tribuaal; os jornais anunc'avam o julgamento conforme a sua simpatia 
pelos réus, sobretudo em relação a Camilo que vivia num triste vale entre as monta- 
nhas das admirações e dos ódios. 

Na véspera da audiência o procurador de Pinheiro fllves mandara distribuir lar- 
gamente a crónica em que o escritor pintara o Porto traficante, havia doze 
anos quando vira a querida flna ir tasar-se com aquele, sem o menor amor, sa- 
crificada ante os parabéns ruidosos da gente da mercancia. O Nacional comcn* 
tava: 

<0S GRRNDES M1SER^YEIS> Os correios entregaram hoje pelas portas a 
reprodução duma revista que o sr. Camilo Castelo Branco escreveu neste jornal ha 
doze anos. Fdcilmente se vê que o fim de tal publicação é indispor o animo dos 
jurados centra o reu que hi de ser amanhã julgado. E' incrível que um procurador 
de causas abalisado e comendador como o sr. Albano Miranda de Lemos se não 
enverg nhe ás. sub-ícriíar as cintas do papelucho! Amanhã o enérgico advogado 
J. Marcelino de Matos soberá castigar os grandes miseráveis! O ?r. Marjuel Pinheiro 
illves, recomendou ha ainda oito meses esta publicação ao seu procurador. 

cNunca, porem, pensamos que fosse adiante a tolice que não tem outro nome a 
não ser antes infâmia.» (•) 

Tinha- se putado o animo dos membros do jury pelo dos energúmenos do 
quôrto forrado a esteira da f ssembléa. Bem sabiam que não fora naqueles últimos 
dias que o escritor tratara a ridade na sua contundente verrina, mas csp Ihavam o 
íolhfto às mãos cheias, c os interessados paravam, passavam-no para os lares 
buscando fabricar um ambiente hostil. 

Murmuravam principalmente contra um dos jurados, Augusto Luso da Silva, 
poeta e antigo companheiro do acusado nos outeiros. Os outros andavam muito dis- 
cutidos c como havia entre eles nomes do comercio, esperava-se a sua solidarie- 



(*) 14 de outubro de 1861. 



- 170 — 



dadc. (*) Do juiz Jerónimo Ferreira Pinto Bastos, já sabiam como lhes desejava dar 
assistência, flnunciava-se que a Companhia Nacional, com os actores Heliodoro c 
Cunha e as actrizes Maria da Luz e Carlota Veloso ia representar o Ultimo Acto 
no S. João. Reboava o escândalo à volta dos réus ; os artistas vinham acrescentá-lo 
com aquela tragedia duma mulher vendida, passando num palco a soluçar as suas 
amarguras. E chamava-sc Rna Augusta como a protagonista do drama judicial; 
consubstanciava a romantisada historia de ambos. Eles ali estavam nas cadeiras que 
ihes tinham oferecido no pretório sob as vistas do magistrado. O delegado do minis- 
tério publico era o dr. Manuel de Vasconcelos Guedes de Carvalho, da fidalga famí- 
lia de Mancelos e grande acatador da justiça. (*•) f\ sua severidade era fiadora de 
esperanças dos adversários do escritor. Em frente Marcelino de Matos aguardava o 
seu momento. Sentara-se rauitj perto d» advogado do marido ofendido, dr. Alexan- 
dre da Costa Pinto, o procurador que tanto se agitara para conseguir o degredo da 
mulher que ali se apresentava veslida de negro e do escritor que encarava o publico 
ávido das bancadas. Tomara o seu logar e ficava a ouvir a proposta do causidico 
contrario, para ser publica a sessão e a preferencia para os jury dos doze primeiros 
convocados, saídos da urna. Rscusou-se a segunda parte do articulado. 

Dípois da sorteados os ju'gadorcs foi-lh3s posta a questão de se deixar livre a 
entrada na sala. Votaram, imediatamente, pelo iul:íamento secreto. Sairam em cóleras os 
acirrados curiosos; viram na d( liberação um sinal de benevolência e, daí a pouco, 
pela Praça Nova falazava-se em desabono dos que assim tinham procedido. Mas havia 
muitos que ficavam rugindo ferozmente, rondando a porta, empurrados pelos oficiais 
de diligencias e pelos municipais. 

Tumultuavam; queriam ouvir o que lá se ia dizer, acicatados pelo escândalo, 
furiosos, arremetedores. Ouvií-se no tribunal, onde tinham ficado os jornalistas e 
muitos advogados, o clamor dos 1'igrados que ds novo entravam. O seu barulho 
influia no animo dos réus e dos jurados. Pretendia-se ainda chagar ao antigo acordo 
proposto pelo marido: a volta de D, Rna Plácido ao convento; o exílio de Camilo. 
Um grande pavor se apossara dos amigos dos acusados ante os ruídos que chega- 
vam; recearam por cies o degredo, e, reunidos numa saleta do edifício os represen- 
tantes das duas partes, com os réus, começaram a discussão do presumido ajuste. 
Chegai^a-se a pretender que a julgada adultera ficasse à disposição de Pmheíro Alves ; 
enquanto ao seu cúmplice, sairia da cidade e só poderia regressar quando o esposo 
abandonasse de todo a mulher ou quando ela vivesse com outra pessoa. Boiavam 



{*) Presidia, José Teixsira Cardoso e os outros jurados eram : Joio Pereira, Lima Machado, Joio do 
Pinho, Joaquim Lopes de Sousa, João Nunes da Cuaha, Joaquim de Sousa Ribeiro, João Paulo da Silva 
Manuel Mirques Macedc, Joaquim José de S^usa Ribeiro, Manuel Lopes Vieira, Joaquim de Sousa Lopes 
e Augusto Luso da Silr". 

(**) Julgo» o caso da Penitenciaria estrictamente seguindo só as normas da lei, apesar das influen. 
cias piliticat qoe se moreram inclusivaments a dum seu parente c intimo amifo que ocupara ama alta 
posição. 



nojencias; desejava-se entregá-la ao arbítrio do ultrajado, que nem falava no filho, 
pois só se dilacerava pela beleza da fugitiva numa satiriase que o enlouquecia. 

Marcelino de Matos, num rompante, decidiu escancarando a porta: «Vamos à 
causa! vamos à causal vamos eo escândalo já que assim o querem I> 

E ela surgiu, no seu vestido de seda negra, chorando, soluçando a balbuciar: 
<YamosI vamos !>. Recusava terminantemente aquela transigência que a diminuía (•). 

Quando se quiz expulsar os espectadores, visto ir começar a audiência dada por 
secreta, houve violentos protestos, gritou-se, soaram furiosas imprecações até que o 
juiz, de pé, ameaçou aquela turba com a lei e a guarda a escorraçou. Ficaram lá 
fora rumorejando. K voz do meirinho chamava as testemunhas c elas vinham como 
para um pleito comercial após o fracasso das negociações. 

O capitalista Agostinho Francisco Velho narrava acontecimentos passados cm 
sua casa; o argentario Joaquim Pinto Leite coníirmava-os. Insistiam muito no bom 
tratamento, na abastança, que o comerciante proporcionava à sua senhora. 

Também os acaudilhavara o tabelião José Ferreira Moutinho, o livreiro António 
Rodrigues da Cruz Coutinho c seu caixeiro Bartolomeu Morais. Uma crcada de João 
António de Azevedo, da rua da Picaria, onde os amantes tinham estado hospedados 
cm 1859, asseverava tc-los visto a passear no quintal c juntos à janela cora grande 
escândalo da visinhança que murmurava a ponio do seu patrão os despedir tendo 
cia ido para a Foz com o rnenino ficando ele a arranjar os «trastes». Acabara assim 
Joaquina Maria de Jesus serva de seu estado. Penetrava Novais Vieira, o Novais dos 
Óculos, antigo foliculario, amezcndado agora numa repartição de fazenda. Andara ran- 
coroso, pela Praça Nova, a prometer «enterrar> o escritor. Talvez não fosse apenas 
a sova recebida, havia nove anos, que o agitava. Era homem capaz de vender o tes- 
temunho. Rôssumava tanto a sua cólera que o juiz lhe perguntou se era inimigo do 
reu e à aíu-mativa o próprio advogado contrario lhe dispensara a Icqucla e a inventiva. 

Enchera-se de sombras o tribunal ; Ana Plácido desfalecera, correram para ela e 
suspend3ra-se a audiência. Rumorejara a gentalha ao vê-la assomar à porta; logo se 
calara diante dos que a rodeavam, do grupo dos advogados e dos poetas. 

Eram sete horas da manha, no dia seguinte, quando se abriu a segunda audiên- 
cia. Vieira de Castro escrevera um artigo tremebundo no Nacional no qual tratava 
os adversários de «farizeus». 

Também se ouvira o depoimento dos médicos que deviam pesar, segundo se 
julgava, no animo perturbado dos julgadores. O doutor Luís António Pereira da Silva 
narrara o escutado a Ana Plácido na casa de Agostinho Francisco Velho. 

O marido fora muito amigo dela; tratara-a sempre com «desvelo3>. Ignorava da 
sua mancebia após a saída do lar, usava de frases ponderadas, mas declarava tê-la 
aconselhado a aceitar a entrada no convento — como lhe propunham — e <dãí dis- 
cutir convenientemente o que servisse os seus interesses c de sua familia» ; também 
a ouvira argumentar com a alienação de todos os bens do casal. Fora vê-la na sua 



(*) O DiicUo, 16 áe Outubro de 1861, 



grande enfermidade, ao convento da Encarnação, no qual se dizia bem tratada mas 
segura de que <a sua saúde não permitiria que lá residisse por muito tempo>. Cons- 
tara-lhe, depois, a saída daquela senhora do asilo religioso c mais nada conhecia de 
seu destino. 

O seu colega Pereira dos Reis assentara nos autos cousas de mais tomo: a ré 
deixara a família porque constara «publicamente ter relações ilícitas com Camilo Cas- 
telo Branco». Tratara-a como medico e vira-a com o amanle a cuma janela na rua 
da Picaria>. 

O clinico de Braga, Jerónimo António de Faria, fora o que a visitara no reco- 
lhimento e no mês seguinte, descobrira à chegada a Famalicão a sege com a ama 
do filho de Rna Plácido, e ouvira dizsr que na outra seguiam os acusados. 

Abriu-se, logo, o caminho para a defeza. Rdiantava-se o dia; os advogados es- 
miuçavam as testemunhas cuidadosamente. Procuravam desanichar das luras daquelas 
consciências os argumentos fulminadores, fls da acusação foram assim poleadas ; as da 
defeza passavam a afirmar a bôa conduta da senhora tanto a sua creada Jacinta Cân- 
dida de Jesus, como a proprietária D. Emilia Cândida de Sá Garcez. D. Euírazia 
não íôra convocada. Pelo abono do rcu aparecia o neto duma celebridade como o 
avô chamado Hgostinho Rlbano da Silveira Pinto. Era escritor c jornalista c defendia 
com amor o seu amigo, Secundava-lhe as intenções um grande fidalgo descendente 
dos que tinham sofrido a perseguição de Pombal em virtude de o combaterem. Gon- 
çalo Cristóvão Teixeira Coelho era o herdeiro dos senhores dos Padrões de Tei- 
xeira; outro membro duma família respeitável Rodrigo José de Oliveira Guimarães 
sucedera no interrogatório que ia concluir com o depoimento do medico sabedor 
doutor Joaquim José Ferreira. Fora o confidente de ambos, o denominado de Janota 
que possuía cabedal de sciencia e tendências de mundanismos. Pedira para o reu se 
retirar a fim de mais livremente poder falar e ao vê-lo surair-se na porta da saleta, 
começava a dizer de seu sentir na presença dos jornalistas, dos advogados c do 
júri. 

Aquele homem de leiras, de alto talento, não era como os vulgares tipos ca- 
pazes de delictos. Nevrosado, tocado de romanlismos doentios, exacerbado por sua 
doença e suas leituras, ele vivia numa sociedade prosaica como se existisse no sé- 
culo anterior; a sua saúde periclitava e se o condenassem ao degredo seria á morte 
que o votariam. No fundo, tanto ele como a sua companheira de dores, eram mais 
infelizes que culpados. Alargara-se em razões psicológicas, falara cheio da segurança 
dum analista, dum observador, dum estudioso de novos processos, A sua linguagem 
de conferente impressionara com a delicada expressão de boa companhia. Concluirá 
e o juiz interrogou os réus que narraram a sua atração sem confessarem as culpas- 
Descrevia Ana Plácido como a vitima atirada para um lar cm nome de interessses 
de familia, Camilo como salvador indignado e um poético amoroso de suas amar- 
guras, 

Depuzeram também os médicos António José Moreira da Rocha c Vitorino Pe- 
reira Dias ambos antigos colaboradores de jornais onde o escritor os conhecera. 



I7S- 



o primeiro escrevera na Verdade c no Clamor Publico; o segundo no Nacional (•) 
tendo tratado o escritor na cadeia pelo sistema homeopático, quando, no começo do 
ano, adoecera com as primeiras crises. Pouco adiantaram; tomaram os logares na 
teia e ficaram a seguir as peripécias do drama. 

Quando o delegado do ministério publico se ergueu compreendeu-se que da sua 
oração dependia a finalidade do processo. 

Foi breve e lógico ; não chegou a acusar ; ainda defendeu e governo por dar a 
permissãe ao escritor para sair diariamente da cadeia onde a sua saúde sofria. Deixou 
ao advogado de Pinheiro /Uves o papel odioso. Este usou de galanteria para com a 
acusada; desejava-a afastada da sala para não sofrer algum abalo semelhante ao da 
véspera e quando se ia tomar essa deliberação o dr. Guedes de Carvalho argumentou 
com a impossibilidade de semelhante passo pois desarmonisava-se a lei e anulava o 
processo. Em todo o cãso o juiz concordava na ausência da ré mas quando eia se 
preparava para deixar a cadeira Marcelino de Matos dcteve-a; falou-lhe baixinho, 
mandou-a sentar. 

Eachera-se duma [larga esperança de vitoria; a seu lado Custodio José Vieira 
mostrava-se atento, pronto, com a perspicácia scintilante no olhar. O discurso da 
acusação começou num iucrepamento pela falta de publico nas bancadas e mostrou 
corao o lar, a familia, a decência social tinham sido ofendidas; tirava conclusões ar- 
caicas, apresentava como culpados dum grande crime os trangressorcs dos ditames da 
honra conjugal. 

Escutava-se esse exórdio de bom preparo mas falho das positivas provas jurídi- 
cas: o flagrante delicto ou as cartas do reu para a sua cúmplice. Sem cias não ha- 
via bases de condenação. Embora argumentasse com a opinião portuense — aquela 
que rugia atraz da porta do tribunal aguardando a sentença — não trazia ali decla- 
rações formais de testemunhas : algumas tinham-nos visto juntos, outras ouvido falar 
do seu caso, nenhuma constatara o crime no lar. Nem uma só palavra traçada por 
Camilo Castelo Branco, acerca dos seus amores carnais, existia. Viviam todas as suas 
afirmações num dourado halo de poesia. 

Eram esles os elementos destruidores com que Marcelino de Matos contundia o 
adversário e fora tremendo na eloquência declamatória da época ao apresentar o ro- 
mancista como <a vitima dum erro judiciário sancionado pelos tribunais superio- 
res». 

E ela — aquela senhora em cujos braços estava uma criança — não passava duma 
vitima do consorcio de conveniência em idade inocente. Expulsa de casa mais tarde, 
votada ao abandono, durante nove meses, sem recursos, sem pão, os bens do casal 
passados a outras mãos, sofrera por sua doença e suas perturbações; tinham-se-lhe 
agravado os padecimentos, em desassete meses de cadeia, num quarto semelhante a 
uma jazida. 



{*) Maximiliaao de Le:aos — Camilo e os médicos — Arquivos da Historia de Mediciaa ps^. 138 e 140. 



o outro replicara; ele fizera-lhe mais uma vez frente e à súbita descarga dum 
trovão nessa noite de Outubro, negra e abafada, exclamara: 

— <Ê Deus que fala pela voz da tempestade, indignado contra a iniquidade deste 
processo c contra a monstruosidade desta prisão. > (*) 

Custodio José Vieira limpcu uma lagrima, alguns jornalistas comoveram-se e o& 
jurados não escaparam ao contagio. 

Chovia em grandes bátegas; reboava longamente a trovoada. 

Quando o juiz, após a relação das culpas e dos incidentes da audiência, formu- 
lou os quesitos, espalhara-se uma grande comoção. O procurador de Pinheiro Rlves 
ficara sem movimento, pensativo, sentindo a derrota. 

<0 crime de que o rcu Camilo Castelo Branco é acusado no libelo do Ministé- 
rio Publico e da parte acusadora de ter cometido adultério com a co-ré D. Ana PiU" 
gusta Plácido, casada com Manuel Pinheiro Alves, está ou não provado? 

<R circunstancia atenuante do seu bom comportamento anterior está ou nãa 
provada ?> 

Recolheram os jurados. Kbriram as portas ao publico para a leitura da sentença. 
Entraram de rebolão indivíduos de todjs as classes, curiosos, interessados na conde- 
nação uns, em bisbilhotice apenas, os outros, e o rumor foi enorme e desencontrado 
quando Jcsé Teixeira Cardoso, presidente do jury, declarou não estar provado, por 
maioria, o adultério, e por maioria se julgar bom o comportamento de ambos antes 
do delicto de que os acusavam. 

Gravemente, o juiz impôs silencio à massa humana que lá em baixo revolteava 
nas bancadas ; os amigos já se achegavam ao romancista, sorridentes e o dr. Pinto 
Basto ia escrevendo rapidamente. Por fim, os acusados levantaram-sc ; uma calada 
soturna descera a qual era quebrada por sua voz ao lêr a sentença : 

«Em vista da decisão do jury que julgou não provado o crime de adultério 
de que era acusado Camilo Castelo Branco, o absolvo da culpa dando-lhe baixa 
nela e passando o mandado de soltura e pague o auctor as custas do pro- 
cesso.» 

Falou então, ao escritor, no mesmo tom severo, aconselhou-o num formulário 
banal a bom procedimento futuro. Mas ninguém o ouvia; baralustava-se, berrava-sc, 
discutia-se, envolviam-se os réus em abraços e apesar de terem já dado as onze da 
noite o Porto soube da absolvição num pasmo e numa cólera nessa noite de ribom- 
bos, relampagueante, de enervarnento. 

No dia seguinte, os jornais como o Nacional e o Braz Tizana apresentavam o 
publico delirante, pelo final do drama ; eram os paladinos dos românticos ; o Comer- 
cio do Porto abstivera-se ; o Purgatório, onde um energúmeno de nome João César 
Pinto Guimarães, combalia por conta de Pinheiro Alves, chapava de lama o tribunal; 
o Direito acabava deste modo a sua noticia: 

«Dizem que oito dos jurados são solteiros e que juraram não casar, para fugi- 



(*) Alberto Pimentel — Os Amores <U Camilo, piJ, 321. 



- 175 — 



rem a que lhes caia em casa a pena de Talião». Depois afixava «para memoria> 
os nomes dos membros do júri. 

Não se perdoava. Se uns se lançavam contra a Justiça, o periódico defensor dos 
absolvidos dedicava algumas frases vcrrumantes ao marido rancoroso (*) e que ficara 
como louco ao vêr libertos a mulher c o seu amante. 

Por íim voltara-se ao boato, ao insulto, ao esguicho fétido. Diziam-nos abraçados 
no tribunal c que tinham fugido logo numa sege para a Foz e, inventavara-nos juntos 
naquela noite a desmentirem a base da sentença ('*). O jornal voltara a retorquir 
num sacudimento formidável que certamente Vieira de Castro — o das extremas dcfe- 
zas — escrevera. 

Eles tinham, simplesmente, recolhido à cadeia a dormirem ali sua derradeira noite 
de separação. No dia seguinte fugiam a todos os olhares. Careciam de repouso. Camilo 
guardara os seus manuscritos, ela enrolara também os seus; desmancharam a apo- 
sentadoria e receberam os adeus dos carcereiros e dos presos que mais à sua beira 
se achegavam. 

Redemoinhava o escândalo; gritava-se, rugia-se. Mal se compreendia que aquela 
cadeia, tivesse deixado abrir as suas portas para a escapula de ambos. Quasi olha- 
vam rancorosamente o cinzento edifício no qual sempre tinham visto a imagem da 
própria justiça condenadora. 



(*) «Perdoar, devia ter sido o termo deste processo, se o sr. Pinheiro Alves, guiado pelos conselhos 
dos sens amigos, não tivesse oposto sempre uma pertinácia cega e tenaz àt propostas, que saa ex.™* es- 
posa lhe dirigiu por vezes, no sentido de entrar num convento depois de se tratar, ao ar livre, das mo 
lestias, que gravemente a torturam. 

Perdoar, sim, devia ter sido o termo deste processo, porque era mais nobre, para ele p;rdoar do que 
vingar-se; ele que não tendo a coragem de usar do direito de vida c de morte, que a lei ]he dá, a tem 
todavia para assistir aos funerais da sua prepria konra.> Nacional 18 de Outubro de 1861. 

(**) <Alnda os miseráveis'. — Disse-se aí que o sr. Camilo Castelo Branco, na noite do seu jaláa- 
mento, partira logo para uma hospedaria da Fjz com a ex.™^ sr.^ D. Augusta Plácido. 

É falso; falsissimo. O ilustre escritor, e aquela senhora, foram dormir à cadeia, Pwde confirmar 
esta verdade a maioria de cavalheiros que estiveram no tribunal da Picaria, c que lá os acompanharam, 

Disse-sc também que o distinto romancist» fora visto com a ex.™* sr.* D. Ana Plácido a uma janela 
de uma casa desta cidade, contiastando deste modo a sentença do júri. 

£ falso; falsissimo, A senhora D. Ana Plácido vive oo quarto modesta de um hotel, e, descansem 
os mandões, não lhe tem sido ali a vida menos triste que a do antigo corredor do seu cárcere, porque a 
não abandonaram ainda as agonias que o tribunal presenceou. 

Mentis, caluniadores! A vossa missão nã» está aiada cumprida, não o estará nunca, que a difama- 
ção e a injaria são o post-scrtptum eterno das vossas aleg2çõcs caluniosas. 

Mentis, caluniadores! Mentis, mas a baba dos vossos impropérios ha-de ser inofensiva como o ve- 
neno que se filtron na mão do apostolo. 

Daqui »e previne já a opinião cordata contra novas e futuras contnmclias dos difamadores apostados, 

A vós, caluniadores, o que pedimos é a honra da vossa ira, e o premio das vossas injurias. Ninguém 
qnere elogios que desonram, nem piedade que avilta. O vosso panegirico seria a mais vil traição ao pndor 
que vos repele com tédio e asco Nacional 18 de Outubro de 1861. 



Os amigos de Pinheiro íUvcs diziara-no combalido; lamentavara-no, apontavam- 
no como uma vitima. Sentira fugir-lhc a vingança, dcsaparecera-lhe a esperança do 
anhclo de voltar a abraçar a mulher ou de a saber no degredo. Dava-se ao desespero. 
Continuava como alheio ao filho c fugira do Porto onde o apontavam lastimando- o é 
certo mas irritando-o com tantos gestos de piedade. 

Buscava o refugio da aldeia onde nascera, a casinha de Seide, entre os montes, 
na sombra rumorejante dos pinhais, no contacto da gente rude. E deviam ser horrí- 
veis ali as suas noites de inverno, desse final de ano, só, sentindo-se batido, inutili- 
sado com a fortuna que julgara o seu eterno bordão, a sua vara de justiça, o forte elo 
para prender aquela mulher que, ao abandonal-o para sempre, ainda mais o desvairava, 
porque a amava doidamente. 




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uma lerna dedicatória a 
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a família do romsncisla). 



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o ORBE E NOVELO 



AO DEALBRR DA REFLEXAO — COMO PENSAVAM DOIS ROMÂNTICOS — AO 
QUE O ROMANCISTA CHAMAVA <ANOS DE PROSA> — BRADOS DUMA 
SOBRES AlTADA — O MARIDO E O AMANTE— MORTE DE MA- 
NUEL PINHEIRO ALVES — A SUA CÓLERA NA AGONIA 
— CAMILO ANTE O SOBRENATURAL — PALIDEZ 
DUMA PAISAGEM OUTRORA DESLUM- 
BRANTE—PRIMEIROS VERSOS 
DE SEIDE 



FOI sempre assim, o amor: Um orbe qae parece impossível cabzr num coração 
Emquanto suplica e balbucia é bem esse povoadissimo universo; desalterado 
compreende-se como tão pequeno espaço um mundo podia conter. Não pas- 
sava dum novelosito desenrolado, sem mistérios, uma meada que se imaginara cos- 
mos o qual alguém teria força para eternamente segurar como o menino divino so- 
pesa, a sorrir, a esfera terráquea, na rósea e pequenina mão. 

As mais formidáveis paixões não resistem ao contubernio dalguns meses no 
mesmo leito. Paramenta-se, no começo, a mulher com os mais raros atavios ; de 
seguida desnuda-se até aos vincos da alma, porque ela inteiramente se entregou» 
Assemelha-se a um fructo tido por inacessível e cubicado menos de desejos, mal 
tomba da arvore, e de que restam só as cascas quanto se esgarçou a calar os apeti- 
tes. O amor é um sopro divino fulminado no cadafalso da posse no patíbulo do 
grande arrepio material da vida. Em toda essa atração dos sexos se escarlata o rubor 
das rosas vivas e se demascaram os estames ; se vestem maravilhas e se topam 
caveiras. No fim, quasi sempre se julga impossível ter-sc rugido e chorado por 
tais despojos embora para outros olhos eles ainda tenham os embelecos da be- 
leza. 

Quando se reflecte, já não se ama, a primeira ponderação é o sinal duma sineta 



de alarme que fica a tocar até sair a ultima sombra do visitante. Camilo escrevera: 
«o amor que não perde, nem desvaira, esse é que é o amor.> (*) 

Chegai a ao auge da sua carreira literária. O Amor de Perdição consagrara o seu 
labor e o seu génio. Se fosse condenado ao degredo como seu tio Simão, o desordeiro 
de que engendrara um santo do delirio amoroso, as lagrimas das mulheres engros- 
sariam os mares para trazerem a nau do desterro às praias da sua pátria. Em todas 
as bocas se demorava o sabor dos beijos dos amantes e relembrava-se o inicial c 
único abraço de cadáveres nascido do irapeto das ondas. O reflexivo de agora dissera : 
«não ha balisa para as belas e para as horrorosas ilusões quando o amor as inventa.> (**) 

Tinham lido as paginas de desvairo e chegara até aos burgueses o con>^enci- 
mento. O publico pedia-lhe novas ou idênticas produções, dispunha-se a vibrar, en- 
tregava-se-]he. Dera-lhe o Romance dum homem rico, que considerava o seu melhor 
trabalho; as Três Irmãs, o tracejado de certos caracteres femininos. Seguira- se ao sucesso 
até então sem igual, as Memorias do Cárcere, em cujas folhas sangravam trágicos 
infortúnios, tão formidáveis que atabafavam o nauseante hálito da cadeia c apagavam 
o sonido das calcetas ante o sofrimento dos peores criminosos. Apareceram as Coisas 
Espantosas, o picaresco Coração, Cabeça e Estômago, como se ele desejasse mos- 
trar todas as laminas das suas armas desde as brilhantemente polidas às encabe- 
çadas de monstros, desde as aguçadas e finas às torcidas caprichosamente, extra- 
vagantes e contundentes. Concluirá as Estrelas Funestas mas os leitores só tinham 
cxtasiamento diante do que teimavam cm considerar a obra prima. 

Tanto labor prejudicara-lhe a saúde. Ganhara o primeiro plano entre literatos, 
porém, arruinara totahnente os [nervos. /Inemisara-se mais. h seu lado, Rna Plácido 
tornara-se a doce enfermeira. i\calmara-se o delirio, ele já escrevia ponderado e se- 
reno: «o pcrder-se ou transvcrter-se o coração é quasi sempre prova rial de não ter 
sido o primeiro nem o melhor um certo amor com que os alienados se descul- 
pam> (***). Dedicava estas paginas, que ela, a estremecida de ha pouco, via escrever, 
ao velho padre Azevedo, que o educara na infância, e insistia na sua definição: <o 
amor que não perde nem desvaira, esse é que é o amor>. 

Considerara ; e a amorosa bem o compreendera. Juntara as suas maguas num 
volume que a imprensa anunciara retumbantemente. Eram os escritos da prisão e 
oub-os novos, num refundimento do seu cogitar. Acordara. Titulava-se de Luz coada 
por ferros essa obra onde muito falava de si. Buscara nas paginas do amante ura 
titulo como um epitáfio. Abria o livro com o romancinho publicado no Nacional c 
onde já increpava aquele Henrique ao qual «o que hoje lhe dava duas horas de 
contentamento, o aborrecia ámanhâ> ; continuara nas Meditações encimadas pelo con- 
ceito do aventuroso jesuita Francisco de Sousa: «Pouco duram as alegrias neste 
mundo e sempre andam as ditas a braços com as desgraças». 



(*) Camilo — O Bem e o Mal — 3.* ed. pag. 27. 
(**) Camilo — Amor de Perdição — 29,* ed. pag. 43. 
{***) Camilo— O Bem e o Mal, 3.» ed., pg. 27. 



— 182 — 



Tomava também um doloroso pensamento de Hndré Chenier para signa doutro 
capitulo. Era aquele em que o amor próprio lança os orgulhosos perdidos no fundo 
do abismo c cies esperam vêr alguma mão estendida num socorro. «Je vois Ic fond 
de Tabime, mais je ne vois pas la raain . . . le desespoir ra'atteint commc un carcun de 
fer rugi . . . Tair manque à ma poitrine! Ia vie n'est plus en moi; la vie c'ctait mon 
amour.s. (*) 

Evocava, a irmã morta como se nâo tivesse ningusm a quem se confiar no 
mundo nem outra alma amiga no fllem para enviar suas preces. «/\i! o passado, 
Maria, o passado ! Qua sonho ! Feliz de ti que não conheceste paixões mundanas, 
que nâo soubeste o que é esta torrente impetuosa qu2 nos leva na sua correnteza 
aprazível, para mais tarde nos fazer amaldiçoar o erro de uai momento que tão 
caro nos custa em dores c nos confrange para sempre o coração num cstorcimcnto 
doloroso.> (**) E dizia-lhe ainda : 

Olha, vê como arrastada 
Nos tremedaes da vida 
Se estorce em cruas dores 
ã tua irmã querida I (***) 

Descrevia-se, abria o peito, como a atirar ao publico o seu coração sangrento, 
martírisado, desiludido : 

Vês alem aquela mulher de trinta anos? Foi uma mártir de obediência filial. 
Repara como ela pa?sa a mão na fronte encanecida pelas angustias e trabalhos, nâo 
deixes sem reparo aquele sorriso de supremo desdcm ãô mundo e o olhar humilde 
para o ceu, quando a consciência lhe está segredando : «fostes bem merecidas !> 

i\rrastava-se como uma sacrílega a penitenciar-se, subindo a escarpa vestida de 
tojos que lhe espicaçassem os joelhos até final da promessa de ir até ao crime dila- 
cerando-se na sua agrura rastejantc. 

<0h! Manai Voltemos ao passado, queres? Conversemos, conversemos daqui. 
Tu no teu leito de mármore, eu no pedestal da minha cruz. (****) 

Buscava for4alecer-se ao amparar-se na legenda de Xavier de Maistre (*****), <a 
force d'être malheureux on íinit par devenir ridicule». 

Porem, por vezes, alçava-se até à sublimidade sentindo- se a companheira do 
escritor singular que <escurecc a vista curvado sobre a banca de estudo, aprofun- 
dando a sciencia e os mistérios do coração humano, à procura do bálsamo para 
chagas inumeráveis, afigura-se-me suspenso à terra por um fio divino: tio perlo o 
vejo revoar dos segredos de Deu3>. (***•*») Rchava em seu coração resignações e 
desculpas para os desafagos dele quando pensava que <no homem o sublime do génio 
é a desgraça ; na mulher é o castigo do homem e a maldição do Senhor>. Só a estu- 



(*) (**) (***) {****) (*•••*) (•*•**•) Ana Plácido — Lat Coada por ftrros — 2.» ed, pagi. 77, 104, 
107, 111, 115 e 116. 



- 183 - 



pidez dá a felicidade; o verdadeiro elemento de ventura é a inépcia, enfeitada com 
a satisfação própria do seu valor>. (*) 

Mas dcsalentava-se logo: «É voar da terra ao ceu, para cair depois, no mais 
razo deste positivismo atrczl Aquele coração que arfou junto do seu, aquelas pulsações 
que se reproduziam nascendo e morrendo juntas, aquelas falas suspiradas como a 
aragem da tarde: tudo o que levanta o espirito às alegrias imponderáveis dum amor 
grande em dedicação, tudo isto acaba deixando um espinho roedor que a vae con- 
sumindo lentamente». (**) 

Ele, como numa resposta a estas prosas suas conhecidas, escrevera: 

€h mulher imprudente e leviana da sua vaidade quando observa desacostumada 
seriedade no semblante do esposo, entende logo que ele a presa menos ou que o 
seu amor não basta a preocupar o espirito do marido. Disto procedem os juisos fal- 
sos, as contendas funestas, os perigos desgraçadamente maiores». (***) 

Rn a Plácido sentia que ele tinha ciúmes e que a amava ainda, por consequên- 
cia, embora não existisse entre ambos aquela antiga harmonia de vistas românticas. 

O mundo povoado de todas as belezas ia-se tornando no desenrolado novelo. 

JWostrava-se cioso dela; até a sua ternura fraterna por Júlio César Machado, o 
chegava a preocupar com os olhares que, naturalmente, como em experiências 
dolorosas no coração do amado, deixava errar com c brilho da beleza a reter o das 
lagrimas. 

De resto Camilo era, como todos os seres de arte e de sensibilidade, um extra- 
nho volúvel, um imaginoso que volvia o espirito pcrscrutante para o passado, e dei- 
xava a sua pena ora fustigá-lo, ora servir de cautério aos rasgões fundos dos casti- 
gos. Numa produção começada na cadeia, Anos de Prosa, e que ia continuando nos 
intervalos das suas crises nervosas, dos seus padecimentos, retratava-a quasi nas 
ultimas paginas, ainda sob a designação de mulher biblica e ao mesmo tempo nar- 
rava todo o drama da sua familia. Relembrava a mãe csenhora de quarenta anos 
bonita ainda»; acrescentava que <se a perfeição das raças é admissível nunca foi 
mais sensível a gradação do aperfeiçoamento como entre D. Mariana (****) e Rachel»; 
não esquecia as irmãs cuma formosa se bem que já ferida da tísica, que dali a meses 
a levara para o lado duma sua irmã que a mesma enfermidade matou quando lhe 
sorriam duas primaveras, a das flores e a dos prazeres da vida. Outra é uma linda 
criança de doze anos (*****) com os olhos de Rachel. R que porfia desvantajosamente 
em beleza com a mais bela é já casada e tem vinte anos (******). Ha uma outra de 
aspecto vulgar, posto que o não pareça cnfrc outras que não sejam suas irmãs». 
Ao pai chamava, numa reminiscência de certo burguez opulento, não pelo seu nome 



(*) (**) (***) Ana Plácido — laz coada por ferros, 2.» ed., pg. 117, 119, 
(****) Era Ana. 
(*****) Maria José. 
(******) D. Antónia. 



mas Bernardo Joaquim Ferreira (*) e molestava-lhc a memoria colocando-o «ferido 
pelas palavras da filha que lhe apontavam direitas à consciência onde as fibras do 
remorso doiam sempre». Não esquecia Pinheiro i\lves — no livro Manuel Pereira — 
caricaturando- o com «cincoenta e cinco anos>, estatura meã, cabeça quadrilatera como 
ura queijo do Alentejo desde o ocipicio até à cisura do coronal> (**). 

E após estes esboços, prendendo-se, ainda mais uma vez no baile em que a 
conhecera, «era ela solteira e teria quinze^anosi, punha na boca duma personagem 
aquilo que ouvira varias vezes aos peraltas portuenses com a diferença apenas do 
apelido porque designavam na vida e no romance essas excelsas formosuras: 

«Que mulheres, que mulheres tu vais vêr ó Jorge — continuou bracejando o da 
Maia — Hs Ferreiras ! a nata, a quinta essência das mulheres belas do Porto ! E a 
Rachel! ai aquela Rachel casada com o nariz mais indecente que fez o acaso estU' 
pido a quem o Creador entregou a repartição dos narizes. 

h Rachel a mulher dos olhos de antilopa ! R.s mais belas carnes que ainda ves- 
tiram uma alma se è que uma mulher daquelas precisa de ter alma para ser perfeita!> 

Exaltava-a assim, fremente, extasiado mas feria-a, meguava-a: 

«Essa Rachel é uma das muitas aleijadas que por aí ha. Não a conheço mas 
sei que casou com um brasileiro hediondo e rico. 

«Também me quer parecer que a mulher pouco vale na alma quando contemplo 
o nariz de Manuel Pereira.> (***) 

Aproveitava para contar «a historia» da protagonista, da amante : 

«Bernardo Joaquim Ferreira conhece o valor do dinheiro e duvida da existência 
dumas paixõ8s que podem vingar e prosperar sem dinheiro. As filhas chama-lhes 
suas e não exclue desta propriedade o coração. O seu pensamento fixo dele é casar 
as filhas ricas. > A volta desta revelação engendrava um trafico de oferta c procura 
por parte de amigos negociantes e mostrava a donzela a desistir: 

«Desde o dia em que se fizera definitivamente a operação comercial dos quinze 
anos dum anjo formoso como a esperança duma alma pura, com ura homem de cin- 
cocnta anos sem o desconto dalguma feição boa do corpo ou da alma, Rachel era 
perseguida pelo seu porco demónio de todas as horas». 

Apresentava-a vitima das sevícias, «as faces escarlates das bofetadas qu« o pae 
lhe dava como incentivo para saber aproveitar-sc da fortuna caprichosa.» 

Depois de a pintar martirisada e cedendo, exclamava : 

«Rachel tem só um pecado de fraqueza: foi optar pelo marido, entre o marido 
e o suicídio. Desceu ao plebeismo das outras que lhe haviam dado o exemplo da 
renuncia de si próprias podendo afidalgar-se a ser a única pelo heroísmo de se en- 
tregar à justiça de Deus fugindo às injustiças do mundo. > 

Tornava-se crudelissirao. «Querem dizer-mc que se Rachel tivesse aceitado o 



(*) Recordon-se de António Bernardo Ferreira. 
{**) Até punhi certa a idade que Pinheiro Alret tinha nesse ano de 1862. 
(•**) Camilo — Anos de Prosa, 3.» edição, pag. 201. 



- 185 



beijo da morte, e fugisse ao beijo marital de Manuel Pereira (um beijo de Manue 
Pereira com aquele nariz na vanguarda. . . Santo Deusl) ninguém se lembraria do 
seu heroísmo a estas horas! (*) 

Voltava a íamcnta-la, e, no fim de tudo, aquele frasear, ora doloroso ora sarcás- 
tico, era um desdém ao imagina-la nos braços do outro embrechado no ciúme que 
ftria a sua vaidade. Ela desvelara-se, ele analisava os estamcs da rosa da sua paixão. 

Para que a torturava assim? É que a amara doidamente emquanto ela vivera do 
romance do seu martírio e queria-lhe como a uma menos etérea visão desde que 
a sentia romancista, h banalidade da existência; aquele eterno mover da sua pena 
psra manter o lar, que enfraquecia mais o seu organismo ner\roso e já depauperado, 
geravam as perturbações oscilantes daquele sentimento em que havia cólera c pie- 
dade, aeios c aborrecimento, o desejo de todos os amorosos da sua espécie — os do 
exclusivismo em relação à mulher, os da volubilidade concedida a si próprio. — 
Queria que ela tivesse nascido e fosse guardada apenas para o seu amor, para os 
seus beijos. Ro sentir-lhe o passado sofria c fazia-a pagar com os tormentos alfine- 
tados nos livros, nas palavras, nos olhares, e até nas referencias a ouh-as mulheres 
também poluídas pelos casamentos de conveniência. 

i\mava-a, mas a seu modo, ao extinguir-se-lhe a febre romântica, a novela que 
ambos viviam. Ho ficarem sós um com o outro, abatidas as dificuldades acirrantes da 
paixão, quasi se desconheciam. Passavam de personagens a autores. 

Ana Plácido não se empudorava de atirar aos leitores os seus sentimentos inti- 
mes. Hparecia-lhes, sempre, com o mesmo rosto de condenada, embora tocado duma 
beleza estatual : a das imagens formosas. 

Ele dissera: <Ha mulheres como as flores venenosas: Se te detiveres com cias 
mais tempo o necessário para lisongeares a sensação e regalares a fantasia, sen- 
tir-te hàs tomado dum marasmo de espirito, em que serão delidas as tuas mais nobres 
faculdades e a mais valida de todas, o mais nobre apoio da tua dignidade de homem, 
a Líberdade.> 

Parecia :responder-lhe senão a estes conceitos ao menos a alguma deplorativa 
queixa escutada na sua conversação : 

«Porque me iludiste com chimeras até ao momento cm que te vi a face toldada 
c dasfigurada pela indiferença que aí eslava escrita? E eu sempre a amar-te! Sem- 
pre a pensar no teu enfadoso viver, sempre a reforçar-me de coragem e sem poder 
nunca dizcr-te: Sou eu que desato estes laços para ti tão pesados que te privam da 
liberdado (*•) 

Mas aonde se desafogava era no capitulo do livro que intitulava Â's Portas da 
Eternidade, e no qual figurava uma mulher na orla duma sepultura escrevendo o seu 
trecho de despedida ao amante : 

«Se eu podesse contar com a tua piedade, suplicava-te que te esquecesses do 



(*) Camilo — Anos de Prosa, 3,* edição pag, 207 
(**) (***) Ana Plácido — Luz Coada por Ferros — 2.» ed. pags. 142 c 195. 



— 186 — 



que fui, considcrando-mc como irmã : c deixando-me chorar no mesmo seio que me 
abre as feridas. Sei, porem, que de pouco me valeria a humilhação. O meu único 
conforto é a lembrança de que um dia, quando te branquearem os cabelos, quando 
a consciência falar com os arrebiques emprestados por uma imaginação sempre 
ávida do desconhecido, o teu espirito voltará ao passado à procura desta sombra 
esvaecida que te arrancará o sincero pranto de arrependimento. Compreenderás, 
então, que eu era a mulher a quem não podiam ser exh-anhos os teus sonhos mais 
profundos nem as idéas menos lúcidas que te passam pela m^nte. Não quizeste ou 
não pudeste. K tua velhice correrá triste e isolada.> 

Nem mesmo se detinha num disfarce. Evocava uma data festiva, havia 
vinte e quatro meses, numa madrugada, «Dois anos, vinte e sete de setembro, qua- 
tro horas da manhã! . . . Serão teus passos, que de manso chegam ao leito onde 
repousa uma mulher que pouco depois recebias de joelhos ?> Lembras-te daquele 
vestido de setim verde, daqueles adornos graciosos, daquele colo c braços de rainha 
como lhe chamavas?» 

Se ele se lembrava e se lhes queria ainda I Mas aquele contacto diário, a morte 
da exaltação publica à volta de ambos, tornara-os em seu pensamento, talvez menos 
ebúrneos e realengos 1 

Como uma crcança à qual retiram os mimos, exclamava queixosa; 

cPorque me aborreces tu ? Oh ! amada por ti, desafiava o próprio Deus a 
tirar-me a vida, e com a certesa do teu ódio sou eu que a corto, desafiando o mundo 
inteiro a salvar-me.» 

Exagerava tudo na sua exacerbação novslesca ; andara embebida num dclirio c 
ao regressar à sua lucidez, dcsesperava-sc. Ro romancista sucedia o mesmo, para 
demais a doença, o exgotamento apoderarase dele que tanto trabalhara. Do Porto 
o seu editor anunciava-lhe êxitos brilhantes, e cheio duma aspiração, menos de glo- 
ria c mais de proventos que os desacompanham, lidava ganhando b bastante para a 
familia que juntara à sua volta. Não esquecia a filha deixada no Porto, ao cuidado 
da freira, pedia a José Gomes Monteiro que lhe entregasse dinheiro. Este era um 
erudito que bebera no sientismo germânico pesada ilustração. Descambara na gerên- 
cia da livraria More e mostrara-se amigo daquele auctor privilegiado. Respondia sem- 
pre em termos gentis às suas cartas de negócios. Os médicos tinham aconselhado 
ao escritor o repouso que ele não podia gosar pois carecia de agenciar mais recur- 
sos e a sua única machina de cunhar moeda era aquele cérebro, incandescente e fanta- 
sista. Hcolhera-se a uma vivenda de Belas, a que chamava <um retalho do Minho 
que está escondido a três léguas de Lisboa> {*) c como adoecesse mais gravemente 
tivera que entrar na casa de saúde do britânico Filipe Dart. 

R sua vista ainda não melhorara totalmente ; turbavam-no, nesse baforar do 
verão, todos os humores das suas doenças, sobretudo dos males secrefos que lhe 



(*) Ana Plácido — Lm Coada por Ferro» — 2.* ed. pags. 195 e 196, 
(*) Alberto Pimentel — 05 Amores de Camilo — pag. 332. 



137 - 



abatiam o animo, a anemia lavrava-o cm fundo depcrccimento c o nervosismo próprio 
da sua compleição, os acidentes extranhos de todos os temperamentos que mais 
vivem do cérebro que dos músculos, reuniam-se para o acabrunhar naquele leito do 
que chamava <o hospital do largo do Monteiro>. 

Estava duma sensibilidade extranha; o que naturalmente lhe aparecia como sombras 
vagas no enfraquecimento, surgia cm clarividencias. Trabalhava mais apressadamente 
a sua imaginação de histérico, c nessas horas dolorosas de sofrimento, no quarto de 
enfermo, creava extravagantes personagens, sucediam-sc cntrcchos, acudiam figuras, 
ora apavorantes, ora deliciosas. 

Maio, trazia-lhe em lufadas o «perfume das rosas dos jardins visinhos do palácio 
do sofrimento. Rna Plácido, cnchia-o da certeza de que ia ser pai. O marido nunca 
perguntara pelo primeiro nascido como a relega-lo a ambos. 

O pequenito vira a luz longe dos beijos paternos; seria na beira dum catre 
de doente que receberia os primeiros afagos do dolorido responsável de sua vinda ao 
mundo. 

Tinham passado as festas dos dois mais queridos santos lisboetas e na véspera 
do dia cm que se celebrava o terceiro, S. Pedro, chaveiro do ceu, de revoltosas 
barbas alvas, aparecia para as torturas dum inferno a criança robusta, de belos olhos, 
ao cstralcjar dos foguetes, das bombas, num chuveiro de fogos scinlilantes c ao som 
das cantigas das moçoilas. 

Camilo continuava sofrendo naquele aposento. Ele que tanto se embriagava com 
as claridades aíogava-se na penumbra quando lá fora o sol calcinava, sequiosamente 
chupava os regatos e queimava as searas, sorvia todos os frutos e todas as imundí- 
cies numa devoradora ardência de príncipe glutão. 

K maternidade ligava mais ainda os dois amantes do que a sentença do tribunal 
que os atirara para os braços um do outro em maior amplexo que o gerado pelas 
vagas ao arrojarem a filha do João da Cruz para Simão no sulco duma nau de 
prantos. 

Se Manuel Pinheiro Alves lesse as paginas desoladas que a esposa assinara no 
Nacional acreditaria no começo da expiação. Ele, porém, só de rancores vivia c à 
lembrança dessa mulher, o seu rosto, os seus modos, as suas palavras, deviam dila- 
cerá-lo, destroçar-Uie a alma tanto mais que não podia fugir dos lugares onde a pos- 
suirá, nos quais a sua voz se elevara, a sua louçanla de criança se desvanecera no 
socalco duma cruz erguida diante do portão da quinta de Seide como na entrada 
dum cemitério. 

Ele deixara lá os parentes, os cavadores de mãos terrosas, e fugira mas não 
para muito alem. O Porto devia ser-lhc odioso; o escândalo, que lhe parecera uma 
tragedia, atenuara-se nas paginas do formidável livro de paixão que fizera derramar 
lagrimas sem par. Sentia que já não o kmcntavam. Tornara-se o homem odioso, o 
tirano, o velho sinistro que levara para o seu antro, como um ogrc, aquela mocidade 
estatual. Guardara-a na soledade, tornara-a presa dos seus apetites até que, desal- 
gemada, partida a gargalheira das convenções e dos preconceitos, ela se livrara como 



lhe prometera ao sentir toda a grandeza do seu sacrificio na hora cm que amara o 
outro. Contivera-se em lembrança da mãe, contrariara-se enquanto ela vivera, mas 
depois deixara-o, cantando, até que lhe arrancara dos lábios as canções c lhas trans- 
formara cm soluços. 

Na cidade todos pareciam contagiados pelo Amor de Perdição. Só os do Pa- 
lheiro, a gente da mercancia, ainda embreada dos princípios que a tinham desgra- 
çado, protestava. Camilo começava a anichar-se no altar dos corações femininos, 
onde reinaria na geração seguinte, como um santo mago c libertador, que pregara, 
apostolizara, amara e sofrera por amor, mas cujo martírio maior — o da eternidade 
duma paixão ante o mundo sem poder esquecer o passado da amada — cias desco- 
nheciam porque se assim não fosse talvez fechassem o seu relicário de tão grandes 
devoções. 

No Porto atenuara-se, ante o talento, a fúria de maldades ; todavia, existh-ia sem- 
pre, c durante longos anos, cm certos meios e no âmago de algumas famílias, a 
raiva funda contra o revolucionador dos velhos costumes, o destruidor, o vândalo 
que turbara a moral, o chasqucador dos ricos c dos grandes. 

O marido de Rna Plácido não podia, porém, andar apenas nas rodas c nos 
lares onde se deitasse a oblata da cólera na csmolneira dos seus desesperos. 

Na aldeia os respeitos eram recordações doutro tempo cm que tanto a amavam 
c sem querer ir para terras distantes quedava se não no logarcjo, tampouco na cidade, 
mas a alguma distancia de ambas. 

Uma vez Camilo também fora a Vila Nova de Famalicão, entrara no único 
albergue capaz — a hospedaria da Eugenia — fronteira ao café do Gato onde os mes- 
mos freguczes continuavam a arrastar as mesmas pedras do dominó diante das gar- 
rafas pintalgadas das moscas. De manhã, ao abrir a sua janela de guilhotina, com 
os desasseis vidrinhos na brancura do caixilho, sentira o ruido arrastado doutra vi- 
draça a crguer-sc c a cara cihonica c glabra de Pinheiro Hlvcs surgira à sua beira. 
Das bocas de ambos sairam insultos, gritos de cóleras, desabafos ouvidos curiosa e 
pasmadamente pelos frequentadores da locanda a cuja porta, outrora, no tempo cm 
que o marido era confiante, o romancista namorava a formosa mulher de costas 
voltadas para os batucadores de pedras de jogo, scismaticos contempladores de chi- 
caras vazias c barulhentos puchadores de ensebadas cartas. (*) 

Fora tudo. Ele o ofendido, não sacara duma arma, nem se desafrontara. Bem 
dissera o Nacional, que ceie não tendo a coragem de usar do direito da vida e de 
morte que a lei lhe dá, a tem, todavia, para assistir aos funerais da sua honra.> 

Hpcsar desse encontro, e da possibilidade doutros, acadrimara-sc ao Vilanovense, 
instalara-sc no seu aposento, mostrava-se à mesa redonda, livre das bisbilhotices 
desenvolvidas à sua beira nos silios onde interessava ao publico o drama de amor 
da mulher com o celebrado escritor. R\[ era um brasileiro como os outros, propric- 



(*) Inionnações colhidas em Famalicão onde maaam recordações de Camilo, do marido de Ana 
Plácido e dos filhos qae ela tere do escritor 



— 199 — 



tario, individuo <que tinha que perder,» com seus modos chãos, sua corrente de oiro 
e suas opiniões sobre trafego e colheitas. 

Fica sempre um pouco de afecto pela terra ao minhoto por mais disparidade 
que exista entre seu mister e os cultivadores. 

£' a raiz ligada ao solo pela sua infância apegada à leiva. Ele para ali vivia à 
lei de todos os outi-os, tendo o seu quarlo, o seu logar, a distração da botica e dos 
dias de mercado. Conversava mas no fundo do seu peito tão pouco se recalcava a 
dõr que fusilava ódios impotentes. Esverdinhara-se-lhe a tez. Não os poderá mandar 
para o degredo, enlivicia-se e talvez que ao vêr-se no espelho pensasse ser o seu 
rosto, acusador do sofrimento a mancha do seu atormentado espirito. 

Devia ser isso com a bilis acumulada nos anos do trafego no BrazU. Vivia na 
mancebia dos seus rancores e queria-lhes tanto como bem amara a mulher. Devia 
ter vergonha de não saber vmgar-se; a consciência do valor maior do amante dela 
sobrepujar- se-ia em seu animo. Teria medo de abrir um jornal para não deparar com 
um elogio ao odiado. Perto dum ano após a libertação dele e da que fora sua 
esposa, fizera seguro testamento para não lhe deixar veleidades sobre a mais parca 
migalha além do que caberia ao filho batisado em seu nome. Não podia despojar-se 
de tudo. 

Não quisera arruinar-se, kizer doações em vida, amoroso também do seu 
dinheiro como dos seus torrões. Dera-lhes o sangue e a força da mocidade; 
a ancestral avareza decup!icava-se no homem que «tinha de seu» e emquanto 
o possuísse sempre receberia as vénias, os carinhos, os afagos, cubiçosos sim 
mas gratos à sua alma árida, tempesluada desde o lance do abandono a que fora 
votado. 

R doença fizera-o requintar mais na vingança ; teria medo de morrer subitamente 
e que a adultera aproveitasse de seus bens. Chamara a si o velho Souza Barbosa, 
que lhe assistira sempre, com o vice-consul do Brazil Hgostinho Francisco Velho e 
António Bernardo Ferreiía, o das exibicionistas vénias a Camilo e depois dos despejos 
irados ; convocara-os para testemunhas das disposições que, pouco confiado nas suas 
letras, ditara a João de /llmeida Pinto e Silva. 

Queria após a motte, uma singeleza à sua volta. O outro escrevera com ortografia 
dum livro de armarinho que se mandaria fazer «uma sepultura dessentc» no cemi- 
tério da Lapa. Começavam, os legados «aos cunhados Plácido, Eduardo e Hlbcrto 
duzentos mil reis em metal por uma só vez.» Eram os irmãos dela que, à excepção 
dum, a tinham desprezado, e aquele mesmo — o acolhedor — fizera partes de amigo 
esperançado no seu regresso ao convento. 

O resto da herança, dividia-o pelos da sua banda, a parentela cavadorci, o José, 
filho do seu mano Francisco, e os seus sobrinhos e sobrinhas, da prole do outro» 
irmão, do João, exceptuando uma rapariga: a Narciza. Debalde se investigaria essa 
cólera contra a camponeza. Não concluirá ainda; al»m de oitocentos mil reis de gra- 
tificação aos testamenteiros queria que se celebrassem cem missas por sua alma e pelas 
dos pais e irmãos mais duzentas de doze vinténs. 



- 190 — 



Blasonava de católico romano, às crente <em todos os Dogmas e Doutrmas de 
tão santa como verdadeira religião.» O resto da fortuna seria segundo a lei, pertença 
do filho que teria um tutor. 

E agora na orla da eternidade, esmagado pela doença no leito desacompanhado 
do Vilanovense, mandara chamar o sacerdote para se lhe confiar. 

Era num quente dia de Julho. O Minho exalava a sua vida fecunda e ele ia 
morrer. Cantavam as aguas das regas entre os milheirats e já engrossavam os bagos 
das uveiras ; nas sombras largas dos parreirais formosos merendava-se c uma emba- 
ladora poesia, vinda das vozes das mulheres, enchia, os espaços aza es. flli, naquele 
quarto de doente, cheirando a remédios, no escuro, tratado por mãos mercenárias de 
servas, ia expirar. Aqueles quatro anos roubados ao contacto da mulher por 
sua fuga, tinham sido a sua maior tortura, a fonte empeçonhada de todo o seu 
mal. 

Vivera junto dela, altivo de sua beleza comprada, naquela mesma albergaria 
onde já moribundo ouvia os passos egoístas dos hopedes e os rumores da rua. Lá 
fora um banho de luz alastrava formidável e bemdita, tocava as bouças, scintilava 
nas cruzes das egrejas, nos campanários, no ermitério de Seide, em todos aqueles 
templos para onde atirava a sua piedade, a sua fé, a sua devoção supersticiosa, 
talhada no seu intimo de rico curvado à religião e ao estado. Crente sem convicção 
e sem arroubos bem o mostrava ao vêr entrar o padre que o vinha confessar nesse 
dia soberbo do lindo mês das avesinhas novas. 

<01he que eu não lhes perdoo . . . Ouviu, padre ... Eu não perdoo nem a ela 
nem a ele . . . 

O reverendo pasmou ante tão singular coragem na hora da morte. Debalde o 
quiz conduzir à razão, aos ditames religiosos, aos preceitos da fé, obter as indulgên- 
cias divinas do Senhor desde que perdoasse aos seus inimigos.» 
O moribundo, só sabia acentuar : 

<Nâo perdoo, nem a ela nem a ele. (*) 

E Memuel Pinheiro iUves, que mandava rezar missas por sua alma morreu im- 
penitente, sem absolvição. Hs vestes do padre roçagaram no escuro corredor. Iam 
entrar os herdeiros. 

Havia exactamente desoito dias que nascera o filho adulterino de Ana Plá- 
cido. (*•) 

O escritor estava sentado no leito da casa de saúde a lêr, naquela noite em que 
o outro expirava no pobre hotel provinciano abandonado. Ambos se encontravam 
longe da que tinham amado. A súbitas Camilo sentira na garganta um aperto cxtra- 
nho, como se o laçasse fortemente a corda dum garrote. Havia luz no quarto; era 



(*) Outí a am respeitarei camilianista de Vila Nova de Famalicão, o tt. Sousa Fernandes, esta nai 
rativa a qual fOra escutada ao próprio sacerdote. 
(**) Nascea em 28 de Junho de 1861. 



191 — 



numa noite formosa de verão e num bairro burguês de Lisboa, guardado pelas 
patrulhas ; porem ele sobresaltara-se e enchera-se de terror. Julgara sentir cinco 
dedos enclavinhados numa convulsão nervosa a corlarem-lhe a respiração, falan- 
ges férreas grampando-o num alento sobrehumano tão forte quanto rápido como 
se desfalecessem para sempre após aquele derradeiro esforço, na mão ainda quente 
dum agonisante. {*) O romancista apavorara-se ; sentira o sufocamento, uma bola 
histérica mais intensa a cortar-lhe a respiração, mas jamais deixou de suspeitar um 
sobrenatural, e bem tétrico castigo. 

Ro cotejar a noticia da morte do rival com a hora da desesperada pressão nas 
suas carnes, ficara-se a scismar se alem das vinganças dos vivos não existiriam 
outras mais cxtranhas, conduzidas por um sortilégio ou por uma scicncia ignota 
desde as orlas do Riem até à matéria humana. 

Começava a visionar não duendes, fantasmas, mas os terrores do desconhecido. 
Jamais deixaria de scismar nessa singularidade do seu estrangulamento doloroso na 
noite de Julho em que o outro expirara c na qual ele se encontrava calma c socc- 
gadamente a lêr na sua cama de enfermo. Era um nervoso, um enfraquecido, aptis- 
simo receptor dum fenómeno telepático ou apenas a vitima duma convulsa ânsia 
nervosa, na hora dum acaso macabro? Nunca se poderá desvendar, mas Camilo sen- 
tira a mão engrifada a garreá-lo e dizia ao narrar o caso, insistindo nele: 

<Ha coincidências terríveis, correlações misteriosas no destino dos homens.> (**) 

Impressionara-se vivamente mas não tanto que receasse, quasi de seguida, vol- 
ver-se aos locais onde aquele inimigo vivera intensamehte, de se alojar, mais tarde, 
nas visinhanças do quarto onde ele se finara. 

Hna Plácido, ao cabo dum mês do nascimento do pequenito, chegava a Fama- 
licão; dali dirigiu-se para Seide. Como andava sempre vestida de seda negra ninguém 
poderia vêr no seu trajo um propositado luto. Seu filho Manuel herdava com ela dois 
prédios no Porto (***) e um em Braga, além da casita de campo que o Pinheiro 
Alves mandara edificar sobre o cardenho ancestral. (****) Apesar de todos os cuidados 
e reservas o capitalista não pudera, por não se querer privar totalmente de seus 
bens, deixar na miséria aquela odiada mulher. 

Porque era mãe da criança nascida no lar e registada nos arquivos paroquiais 
não a desapossavam. Herdava do marido, herdaria do filho. E o Palheiro falou de 
novo. Nunca se chamou a este rapasito nas conversas, senão Manuel Plácido 



(*) Esta scena tétrica é coatada pelo sr. Alberto Pimentel que a recolheo do próprio roman 
citta conforme assevera no seu livro Os Amores de Camilo — pag. 333, 

(**) Actualmente são numerosíssimos os exemplos do que se conTencionou chamar <{enomenos tele* 
paticos,> Camilo narrou nas Noites de Insónia, um caso semelhante ao seu e o qual atribue o sucedido a 
cm amigo na mesma casa de saúde do Lirgo do Monteiro á Estrela. Mais tatde qaeixoa<se de sufocações 
assidnas combatidas pela medicina com anti-espasmodicos. 

(***) Os prédios do Porto eram na roa do Bomiardim 856 a 862, 

(****) Ana Plácido herdou nns 15 contos e o filho perto de 8, 



— 192- 



A mãe ficava o encargo de o cducõr e manter conforme requerera sob a tutoria do 
visconde de Lagoeça (*) passada depois ao barão da Trovisqueira. (**) 

Empossada da casa aldeã, da qual seguiria mais de perto a questão do inventa- 
rio, recebendo cinda um adiantamento para sua mantença, aguardou que voltasse a 
felicidade. Tinha já quatro anos o primeiro filho e era claro c forte; parecia- se 
muito com ela, não tinha trcços do marido c já se inclinava a sorrir sobre o bcrço- 
sito do irmão. 

Na convalescença de Camilo foram, livres de peias, ao seu querido Bom Jesus 
do Monte. Já a sociedade não os impedia de se verem e aqueles bosques, onde se 
tinham estremecido, parecer a m-lhes diferentes. Não encontravam os ecos doutrora, as 
doçuras das folhas no sussurro mansíssimo da brisa, os regatos cantando, o contra- 
forte luminoso do Gerez com suas arvores anãs e o vale magnifico do caminho de 
Lanhoso disfrutado das estradas com o Cávado e o Homem a beijarem-se ccmo dois 
irmãos ao cabo de longa viagem e ao rojarem- se aos pés duma cidade feia mas sa- 
grada, a Braga canónica thcia de velhas embiocadas, de padres, de sacristães e si- 
neiros, parasitários das velhas abundancias religiosas, mas também tocada duma fé 
ardente na qual perpassa a magestade da sua pomposa tradição arquiepiscopal mais 
enaltecida por um humilde prelado quasi desdenhoso da mitra para não deslumbrar 
os pobres. 

Andaram os dois amantes a vêr os lugares onde outrora tudo lhes parecera 
megniíicencia c beleza quando ela deliberara fugir do lar, após o nascimento do filho, 
e ao lado da querida o romântico só novelescamente sabia íalar. flgora vinham re- 
cordar, reint*ígrar-se na sua paixão, pedi-la às arvores, às aves, às pedras, às corti- 
ças dos troncos onde tioham enb-elaçado os seus nomes. Ele sentiu frio. Estava-se 
no começo dum outono. Já ia distante a estação canora, a dos chilreios das aves 
que implumam e voam baixinho como o amor que não se quere perder. 

Havia altos e descidas, montanhas e vales naquela «imcomprecnsivel alma.> Se o 
dia acordava alegre, ele conforraava-se com a vida mas achava também cm certas 
manhãs ser scintilante em demasia para os seus pesares a gala da netureza. 

Sensibilissimo, tornara-se um ser de extremos. E' ceito que diante daquela pai- 
sagem tracejou sarcasmos quando de auroras eternas outrora a vestira mas deviam 
porejar da doença as ironias arremessadas ao Bom Jesus. <Eu dantes não me consti- 
pava. Era o clima de Paraiso terreal para mim, aquelo I 

«Bastava- me a lava interior para reagir às frialdades da periferia.» (***) ftlirava 
às arvores da floresta a sua descrença. Exteriorisava-se a sua volubilidade e o can- 
çasso dum espectáculo conhecido. Rrrazara-se «o viveiro de oiro donde me saíam 
as pombas cândidas das minhas quimeras.» — escrevia ele — na confissão de ter em- 



(^) António José Antaues Navarro que em 1864 paisoa a coode do mesmo titulo. 

(**) Jjsé Francisco da Cruz Trovisqueira baronado com o apelido tm 14 de Janeiro de 1864. 

(••♦) Camilo — No Bom Jesus do Monte — 3.» ed. Cipitulo relativo a 1863. 



Foi. 13 



- 193 — 



prestado ao logar formoso mais beleaa, da que topada agora, pois sentia até o cân- 
tico dos pássaros «como o gemer da ave hibernal sob um tumulo.> 

Considerava esse seu aborrecimento como um castigo, julgava ouvir a voz do 
Senhor a bradar-lhe <Expial> Depois recapitulava o que encontrara nesses bosques 
fragrantes das essências das arvores, gorgcados c cheios de ninhos, guardados 
pelas folhas amigas às quais as aves confiavam os filhos, e parecia ver um cemité- 
rio sombrio no qual os plátanos fossem duendes, subisse o cheiro enjoativo dos 
brandões, sinistras vozes se ouvissem, as pedras se abaulassem como campas c 
até os afofados berços das aves lembrassem caxõesitos de inocentes cm vez de con- 
terem alvoradas de vidas. Só evocava finados, Carlota, defunta, D, João d*Hzevcdo 
louco e caído, a irmã — dizia ele — pior que morta, velha, e também nas sepulturas 
Jacinto Navarro, Fanny, José PLugusto, e por fim nessa necropole dos seus afectos até 
sepultava em termos pejorativos, «a mulher de paixão,> <a mulher que me acorren- 
tou a um cadafalso de suplicies ignominiosos», «a mulher que me levou as vh-tudes 
d'alma,> «a mulher a quem a Providencia divina em sua ira justiceira atirara aos 
grifos do dragão do mundo, > «a mulher que me fez odiar a justiça de Deus e insul- 
tar a providencia dos homens> e exclamava: «essa mulher morreu !> Relembrava a 
doce Maria, irmã dela e balbuciava, ainda, que morrera também. 

R esta não a podia ressuscitar mas à «mulher da paixão», à mãe do seu filho, 
achava maneira de a fazer regressar à vida se lhe perdoasse senli-la-ía como uma 
morta, porque ele próprio se imaginava uma sombra do alem. 

Naquele inverno horrível de Seide, na casa que ela habitara durante a lua 
de mel, mostrava- se-lhe amante e andava saudoso da primavera no regelo da neblina 
das serranias, nas tristesas dos vales, no toucado pardacento dos pinhais afogados 
nas cordas dagua, sacudidos pela ventania que os fazia trocar entre si dilacerantes 
gritos de condenados à grilheta da terra sob as cóleras do ceu. Julgava-sc ele 
próprio, já longe, sob uma lousa ao dizer à sua Hna Rugusta: (*) 

<ão voltarem de abril as rosas lindas 
E as arvores vestirem as suas galas 

De mim te lembrarás 
Que tu bem sabes, filha, quanto era 
Amante dos festins da primavera 
Das rosas e Ulàs 

Depois irão teus olhos divagando 

No doce azul dos céus, e, talvez, triste 

Â' terra os voltarás 
E vendo em derredor a soledade 
Bem pode ser que digas com saudade 
Camilo I aonde estás ? 



(*) Escrita em Seide em 11 de Dezembro de 1863. 



— 194 — 



Pagar-lhe-ia assim os maus dias de cóleras, e de desesperos, e a aldeã pousada 
de S. Miguel de Seide, aquecer-sc-ia com os seus beijos e cora a brazcira emfim 
renascida de mornas cinzas nesses frigidos dias, que ele ali passou no logar onde o 
outro — o morto de que não falara — tantas caricias fizera à «mulher da paixão. > 
Voltavam a querer transformar o novelo num orbe. 




- 195- 




o mirante de ãiu PUcl- 
éo, em Selde (cliché do 
iluãtre agrónomo dr. Ve- 
tono de Areujo. de Fã- 
nullcáo). 



XI 



NOVELA DA DUA, TRAGEDIA DE CASA 



SEIDE EVOCADORA — OS FILHOS DO i\MOR CONTRARIADO — O FRUCTO 
DUMA PAIXÃO MORTA — CASAMENTO DE D. BERNARDINA AMÉLIA 
— O NOIVO - CASTILHO EM CASA DE ANA PLÁCIDO — 
AMOR BUCÓLICO POR UMA PERDIDA — CANTA- 
DEIRAS MINHOTAS— A AMÉLIA DE LAN- 
DIM — ESBOÇO DUMA NOVELA 
A BEIRA DUM DRAMA 



A Casa de Seide era melancólica no inverno diante da paisagem afogada em 
brumas : pinhais e pedregulhos, torrões amassados em lameiros, fraguas feitas 
cascatas rugidoras sob os repuxos das aguas despenhadas das lombas visínhas. 

Um ceu cinzento, côr de tristeza, toldava a extensão e com o presbitério fron- 
teiro, sua musguenta cruz, o largo empoçado a aviventar hervaçais, a moradia, 
ladeada por seus muros nas extremas, apresentava-se sombria no cere desbotado. 

Em feição e indumentária não se desviava do casalejo minhoto ; quinchoso afo- 
fado a mato, a esteva, a urze, lobrego como um túnel, arribaaas de gados, redis, 
capoeiras, currais e pocilga, os abrigos dos carneiros, bois e suinos que todos os lavra- 
dores da região possuem para o cardamento, o amanho da leiva, o carreto e a salgadeira. 

Em cima do andar corrido com seis janelas, de guilhotina, duas à direita e 
quatro à esquerda da porta, enxertava-se um pavimento alumiado por cinco venta- 
nas. Nas traseiras, sobrepostas às seis fenestras do primeiro piso, outras três se 
abriam sobre o campinho. Fumegava uma larguíssima chaminé da lareira, e um 
tubo de folha enegrecido, expelia as baforadas do fogão de ferro de aquecimento da 
sala. Outra abertura em arco, num capricho de trolha local, se esgarçava para as 
bandas do rio, o Pele, engrossado c rumuroso a alargar as margens. Abonava lar- 
gamente de agua a azenha trabalhadeira que ali estava à busca duma novela com a 
corrente forte, a invernia, a tristura negra das noites infindáveis em que se ouviam 
remeximentos de rebanhos, chocalhos sacudidos, o bolir das ovelhas, o longo mugir 



dos bois, ladridos furiosos de cães fâriscantes, antes dos galos, num alarme de azas^ 
charamelarem à alvorada. 

Então a porta abria-se para a escada de pedra, de quatorse degraus, a deixar 
ver alguna serva; rangia o portão de ferro fronteiro da cgreja e começava a faina. 

Desenfolhados os carvalhos c os choupos, os pinheiros arvorando trapicalhos de neve, 
muito se esfumaçavam ; levadas regougavam, cachapavam cheias, zuniam os ventos 
c com as bátegas, o frio, historias medrosas de caseiros, duendes aparecendo nas montadas,, 
malignos olhares deitados aos animais e às gentes, proesas de lobos sob os nevões, for- 
mavam a moldura da vida dos amantes, na residência edificada pelo marido e onde 
Camilo gosava nos primórdios da sua paixão. 

Sacudidos pelas rajadas, os pinheiros no seu roçagar de troncos, no violento oscilar 
das ramarias, desconcertavam suas orchcstras loucas nas noites e durante os dias, 
agitando as cabeleiras vastas, pareciam combater-se na vaguidâo da luz, 

Ro começo ainda o escritor fez os seus versos à amada, na véspera de Natal, 
quando mais se estreitava a alegria da familia minhota. Entre dois berços, naquela 
moradia do morto, ele reencontrara o entusiasmo para lhe dizer : 

« Quando em ieu coração imaculado 
O teu anjo infantil ainda sorria 
E tu vinhas aqui festiva e pura 
Rvesinha de amor toda poesia 
Scismar iristesas nas tristesas doces 
Prantos verter mas prantos de alegria 
Não eras tão feliz ãna, não eras 
Ó Santa flor das lindas primaveras ?2> 

Achava um encanto naquela existência ali esquecidos do mundo. Sem que acu- 
disse à sua retina a sombra do outro — do defunto — enroscara-se no seu ninho», 
procurava nas salas a que mais convinha ao seu labor. O prazer da novidade es- 
curecia-lhe os assomes da consciência. Considerava- se o senhor daquela mulher her- 
deira dos bens de Pinheiro Hlves, a quem a raptara. R sociedade maldizia o que cha- 
mava o conubio. Envolvera-se num halo de poesia c não acordava para os precon- 
ceitos sociais. Despresava-os, transmudara escrúpulos em anciãs de gosos, querendo 
cxgotar em paroxismos toda a sede resurgida do seu amor. 

Envolvia a amante numa doce evocação: 



«iVão lhe veiu. Tu vias no futuro 
tAnos depois essa visão mais triste 
<ãli virás sentar-te, ali na pedra 
<Daquela mesma cruz onde me viste. (*) 



(*) No Leme, com a data de 20 de Dezembro de 1863. 



— 200 — 



E a pobre cruz pingava a agua das chuvas fortes como os pinheiros que pare- 
ciam baguejar grossas lagrimas deixando ao rio o soluçar de suas maguas. 

A residência era grande para eles que queriam aconchegar- se. No andar havia 
um pequeno quarto destinado à ama e às crianças; ao lado abria- se a sala de visi- 
tas com seus tectos abaulados; quando se passeava mais agitadamente os moveis 
tremiam c ressoavam prohmdamente os passos. Outras dependências estavam meio 
vazias de moveis, uma escada de doze degraus conduzia ao piso superior onde 
eram os aposentos particulares. O gabinete que ele escolhera era amplo, a sua mesa 
vasta ficava defronte das janelas pelas quais iam entrar os sorrisos da luz, quando 
chegasse a primavera, a fundir os nevões. Lá estavam as aldeias de nomes cantantes 
c sonoros, algumas à sua vista, outras a rodeá-lo, a chamá-lo, Vermuim, Ruivães, 
Landim, Pragal, em baixo Famalicão, mais à sua beira Anta, a distancia o Ave, a 
banhar Santo Tirso. Ia devassar o Minho e ao sentar-se à banca sentia-se aleerc 
porque encontrara renovos no seu amor, remigios fortes nas azas dos seus sonhos. 
Ana Plácido aparecia-lhe como nos tempos cm que ia vê-la romanticamente sentada 
nos degraus daquele cruzeiro secular, musgoso, agora a verter os prantos das chu- 
vadas. Molhava a sua pena no tinteiro pesado e cada vez que se queria julgar feliz 
olhava para o passado. Assim como o seu anel de ferro com as tibias c a caveira 
lho relembravam, bem como o final de todas as ambições e dores, do mesmo modo 
encontrava, no rememorar do amor, seivas iguais às das arvores floridas na estação 
nova que se aproximava. 

O Pele volvera-se ao seu manso gorgolejar, até as piteiras se enfloravam nos 
valados, toucavam-sc de luzes os cômoros e os lavradores cantavam. Tinham fugido 
os lobos com a claridade, ou perturbados por tantos perfumes que subiam da terra 
estrelada do amarelo das giestas, do branco dos malmequeres, do roxo das urguci- 
ras. Tudo ressuscitava; as aves pequeninas noviciavam nos voos c nos esteios gre- 
lavam os pâmpanos das uveiras. O pinhal guardava a tranquilidade serena duma 
nave de pilares erguidos para o ceu. Quedara as fúrias; se a aragem bulia em suas 
carumas, o pinheiral parecia resar. 

Os livros do exilado voluntário obtinham êxitos (*) c agora, naquele casal de 
lavrador mi^ihoto, quasi desconfortável, mal mobilado, Camilo traçava o prefacio da 
sua obra. No Bom Jesus do Monte, no qual se dirigia ensaudado a Francisco Martins 
Sarmento declarando- lhe ter morrido a «mulher da paixão>. 

Torcera-se em curiosidades de desvendar os mistérios do cabeço onde se ergue 
o chamado Castelo de Vermuim — <um acervo de penedos onde nunca entrou broca 
nem estanciou gente que não tivesse cabras a pascer pelas lombas das montanhas>. 
Incrustara em Kuivães, vlsinha de Seide, a casa onde o bom Afonso de Tcive en- 
contrara a felicidade após as torturas da vida, no seu amor de Sahãção c onde se 



(*) Ante» de ir para Seide publicoa, nesse »no de 1863, o prefacio da 2.* ediçio do Amor d* Per. 
difâo. Anos de Prosa, Aventuras dt BazUlo Ftrnandtt Enxertado, O Bem eo Mal, Estrelas propicias, MemO' 
rias de OuU/urme do Amaral, Noites dê Lamego, Scenas Inocentes da comedia humana, Agulha en Palheira. 



confessava assim: «os meus vinte volumes e o meu tinteiro de íerro estão hoje sob 
o tecto gazallioso duma alma que eu noutras eras encontrei na minha. Não sei ha 
que séculos isto foi nem que congerie de abismos nos separam para sempre>. Des- 
Ycndava-se: «Parei aqui, porque ainda aqui, a tempos se me figura rediviva a imagem 
do passado, ainda aquela alma se me hospeda no coração em instantes de sonhos 
do ceu, ainda a pedra tumular das afeições caídas à voragem iDfernal do desengano, 
está fendida sobre a derradeira: que a saudade é ainda um afecto, excelso amor, o 
melhor amor e o mais incorruptível que o passado nos herda>. (*) 

O seu primeiro romance, escrito na casa do capitalista, finado no desespero, 
ousava declarações estranhas do fim dos seus sonhos e, todavia, ss já não sentia 
Rna Plácido a conviver com os literatos de que se enciumava, encontrava na própria 
imaginação c nos seus pesadelos pretextos para ciúmes. (**) É que a amava sempre a 
seu modo: amor de volúvel feito do capricho de oiro da luz e de pardacentas névoas. 
Pintava nas suas paginas uma visão dolorosa que o atormentaria varias vezes pela 
vida fora, agitada no seu sono. Acordava cioso dela. E apesar de na obra maltratar 
seu antigo afecto, ao abrir de Junho, quando minguavam as aguas dos rios, o sol 
incendiava as paisagens, e apeteciam os mercndeiros nas vastas sombras, o escritor 
traçara, sob o retrato, que lhe ofertava, uma aedicatoria meiga, suave, suplicante: 
«Amas o teu Nino?» E Nino era ele, como nos tempos românticos da correspondên- 
cia para o convento da Encarnação de Braga. 

Embebera-se no Minho, começava a scenograíar suas figuras, a descrever suas 
aldeias, a revelá-lo c enquanto andou entretido não despertou nessas salas onde vivia 
acompanhado de suas personagens e não relembrava a lua de mel de Rna Plácido 
adentro dessas paredes em cujo arcbito se lhe confessara gravida de novo. 

K criança nasceria em Setembro, a 15. Esse mês iníluia muito na vida da mãe. 
Em Setembro viera ao mundo, casara, teria aquele filho, o segundo mas o legitimo, 
visto já ter falecido o marido do qual não se desquitara, o dono daquela moradia 
onde o amante criava faitasias como a afugentar as rialidades. 

Nas Vinte Horas de Liteira, em que relembrava os tempos das suas viagens 
atravcz do Marão, da escarpa transmontana até ao Porto, de alma perturbada, ama- 
ciava suas cóleras contra alguns «brasileiros.» Intercalara na obra, trechos minhotos 
vividos na sua recente estadia, traíava-os com interesse e referia-se à sua compa- 
nheira crismada noutros romances em Adriana. Numa carta dirigida (***) por um na- 
morado à esposa do capitalista Francisco Elisiario que a «amava até à ferocidade dum 



(*) Camilo — Arnor de Salvação, 4 ^ ed., p^. 39. 

(**) «Vira Teodora em trajos de bacante, revolteacdo umas valsas lúbricas, e atirando-se ébria e 
torpe de impudidcia aos braços dum !icmem.> — Id., i^ , id,, id., 178. — Isto foi eícriio em 1864; numa 
carta para Ana Plácido, datada de dose anos depois, diz-lhe : <Un» perverso diaba se me apossou do espi- 
rito esta noite c não m'o larga, Vejo-tc sempre nos braços duai homem — aquele que apareceu nas aluci- 
nações do Jorge>. — Escritos de Camilo, por Júlio Dias da Costa, p^. 49, 

(***) Camilo — Vinte Horas de Liteira — 2* ed. pag, 70. 



— 202 — 



molosso que espia a caverna onde se lhe esconde a corça» havia passagens que ele 
naturalmente, outrora enviara à Plácido : «Estive hontcm no teatro lirico». «Que deli- 
ciosa musica a do Trovador, minha querida Adriana. Lembras-te sempre: foste o 
meu pensamento triste caquelas horas alegres ! l'u tào nova c tão linda aí techada a 
ouvir rcsonar o monstro !» 

«Que vida a tua I que mocidade sacrificada ao ouro amaldiçoado e pesado como 
a tampa duma sepultura!» 

«E o que é sobretudo atroz, é leu marido [ter uma saúde que aflige a gente l 
Estás casada ha três anos e não me disseste uma só vez que teu marido estivesse 
pálido.» 

Camilo apresentava «o monstro» <à beira da mulher com esta carta» e ululava 
«por largo espaço.» 

Adriana redarguiu- lhe quando a paciência a desamparou, e ele, alucinado pela 
ame?ça da separação, chegou a levantar un:a cadeira para derrubar o «aprumo da 
mulher.» 

Isto eram reminiscências do escutado à amante mas para o animo dela de- 
via ser torturante a forma de remeter a formosa protagonista aos braços do velho 
esposo como a arremessar o modelo. (*) 

Concluirá ainda em Seide A Filha do Doutor Negro, e quando o inverno vol- 
tou, scntindo-se isolado em demasia, ferto daquele sitio, qus não lhe trazia à imagi- 
nação mais do que desespero, deliberara partir para o Porto. Ia gosar da sua mere- 
cida gloria, vêr es amigos, lidar com os literatos, e beptisar os filhos. (**) 

Não era o horror de assistir no mesmo local onde ela se entregara ao marido, 
onde tinham vivido juntos que o obrigava a sair da aldeia porque se assim pen- 
sasse não escolheria para residência a mesma casita dura só piso onde Pinheiro 
fllves n: orara cclibafario c para a qual levara a rr.ulher. Era o mesmo andar, em 
que a vira debruçada da varanda, diante de cuja porta de cancelicha verde, pas- 
seara a pé e a cavalo, era a residência conjugal, tantas vezes namorada do passeio 
e o âmbito da leitura de suas primeiras missivas de amor. 

Entraram ambos no lar, levando t:cs filhos, um o mais velho, reconhecido pelo 
homem que entre squelas paredes formara o seu ninho, os outros produtos dos sin- 
gulares amores dos dois românticos ligedos para sempre. 

Se ao espirito tão cioso do escritor não acudiam colcres, na alma de Ana Plá- 
cido, vibravam desenganos, fremiam qufixôs, desolações. Também escrevia trechos 
tristes de aborrecimentos, dos quais se exalavam amarguras. O seu livro Luz Coada por 
Ferros nem sequer tivera o sucesso da curiosidade, do interesse, c entretanto cons- 



(*) Noi fins de Outubro de 1864, acabou as i'infe Horas de í.ltelra. 

(*•) Fornra batisadcj no mesmo dia 6 de Janeiro de 1865 na egreja da Victoria do Poito. O mais 
velho chamon se Jorge e tev: como padrinho Aatonio de Azeredo Castelo Branco, O sejnndo, chamou» 
se Nuno e foi afilhado do dr. Custodio José Vieira. 



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tituia quasi uma autobiografia; trabalhava um dramalhão extraído dunti romance de 
aventuras, e que intitulara aurora. (*) 

Começou a pablicar-se num periódico portuense intitulado O Civilisador, mas 
a folha eferaeramentc vegetou. 

Confessava-se ao publico ao recapitular a sua vida desde os desoito anos. Fazia 
claras alusões ao casamento de conveniência, ao seu pranto, à «túnica de penitente> 
que envergara para a rasgar despindo- a ao derramar a sua «primeira lagrima» a 
qual caíra «no estrado cm que ajoelhara anjo para se levantar mulher>. 

Lamentações enormes se seguiam nas quais apareciam corações sangrando, e 
torturas, com novos prantos, aos vinte e cinco anos. Concluía apresentando-se, aos 
trinta e dois, a idade que passara, havia vinte e tantos meses, (**) como uma mulher 
sentindo a «velhice a batcr-te à porta; o desvalimento a sopezar a tua cruz; c o 
castigo, a expiação maldita e adorada, a arcar com os teus sublimes esforços para a 
vencer !> 

Nesse trecho em que chamava adorada à «expiação maldita» revelava, sem que- 
rer, o prazer encontrado no sofrimento. 

Eles gostavam um do outro atravez dos romantisraos antigos, (***) ao cncontra- 
rem-se humanos sentiam a brutalidade, depois volviam-se ao sonho e pareciam achar 
sadismos em se maguarem para melhor aprecia'^em as caricias reconciliadoras da 
alma e da matéria. 

Diferente era a mulher tida dia a dia na intimidade e no desalinho, da visão 
clara entrevista num baile; e assim se afastava a dona de casa lidando cora as ser- 
vas, dando ordens, velando pela mesa e pela roupa, da dama imaginada num gabi- 
netezinho perfumado a escrever sentidas cartas de amor; bem desparecidas surgiam 
a mãe, embalando os filhos, da poetisa inspirada que se julgava uma flama, uma 
nuvem, um astro. Uma era o espectáculo; a outra o bastidor. O desiníeitiçamento 
nasceria da trivialidade porque ele era um romântico mas voltaria a encontra-lo 
exactamente porque na vida só bemqueria o sonho. Se o conseguia queria-lhe. Lem- 
bravam ambos fumadores de ópio. Porque suas carnes e seus espíritos se conjuga- 
vam, embora já em mais fugidios momentos, eles não podiam afastar-se nem nunca 
malquerercm-se. Era certo que ardiam em ciúmes; logo existia amor. 

Ela dera-se a entrelaçar o seu espirito nas cousas da religião como se seguisse 
as pisadas do amante que embrechara singularmente a sua literatura. Os artigos rcli- 

{*) Extraído do romance de ílery Les datniiés de 1'Iiuie e que se destinava ao beneficio da actriz 
Maria Adelaide. 

(**) O artisío apareceu em 1865. Ana Piacida nascera em 1831. Contava pois 34 anos. 

(***) Camilo sentia tanto a influencia dos romances nas almas que descreveu assim a sentação 
dama das suas htrof nas : <0s piisonaj^ens femlnincc da novela m-jderna são quasi todos a copia fisl da 
brilhante extravagância do espirito, Leem-te e a simpatia em vez do riso nos impressiona. Imitam-se, 
onde ha espaço, e é preciso têle, ainda assim, para ai scenas grandiosas, que afinal desfecham em lra< 
gedias que o mundo, fatil e chocarreiro, denomina <comedias». — Camilo — Agulha em Palheiro, 4.^ ed., 
pg. 225. 



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giosos do Cristianismo e da Cruz, escritos quando tentava o sacerdócio, cníeixava-os 
em volumes: a Divindade de Jesus, as Horas de Paz e logo em bem mundanais 
assuntos se mergulhava ao escrever O Esqueleto, a Sereia, as jocosidades do Afor- 
gado de Fafe amoroso cora as de A Queda dam anjo. Hna traduzia o Mês de Maria, 
obra cm cujas paginss o autor, o oratoriano Hugusto Gratry, da Hcadsmia Francesa, 
amenizava os seus concertos de filosofo e teólogo das Sources e dos Sophistes et la 
Critique. 

R seu lado vivia aquele homem amado por tantas singularidades c que não se 
coibia de descrever os sensações que o tomavam, mal se importando com a sua si- 
tuação. 

O escritor olvidava a amante, ou não a pedia esquecer um só minuto? apre- 
ciava assim es adulteras: 

«Chega uma hora em que a mulher esfacelada pelas cerdas em que estrebucha, 
quando a mão inexorável do dever lhas estira e reeperta, sente em si a descpcrada 
ousadia de pregoar à face do marido o seu amor maldito. 

<Se o insulto à moral não se desprende, então, dos lábios febris da energúmena, 
é porque em todo o coração congestionado de sangue peçonhento, como que se abre 
uma válvula por onda os pulmões ingerem um oxigénio puriíicante.> (*) 

Devia lêr estas cousas mas sabia que ele encontrava sempre defezas, separações 
entre as suas heroínas c o correntio da vida. Era todo o caso chocar-sc-ia mais 
com os actos da existência dele do que em presença de seus desabafos literários. 

No meio de ambos caíra de chofre uma noticia relativa à filha de Patricia 
Emilia. 

Recordá-la era relembrar os antigos amores, a sua aventura, a primeira prisão 
por um caso sentimental. 

Bernardina Kmelia ia casar-se. Tinha apenas desassete anos, fora educada sob a 
vigilância da velha freira, D. Izabel, no convento da i\vé Maria. Da paixão por Ca- 
milo, ficara na alma daquela mulher uma dedicadíssima afeição pela pequenita cuja 
mãe vivia cm Vila Kcal, sem perdoar ao seductor, desarreigada do romantismo que 
a perdera, h abandonada era professora, ensinara parentes de Camilo, desabafava 
com as discípulas as suas dores. Quando lhe chegou a carta da monja solicitando 
a licença para os esponsais, concedera-a, sentindo chegado um arrimo à criança cujo 
pai a sustentava mas que vivendo ao lado de outros filhos, mal lhe podia dar cari- 
nhos. O namorado tinha quarenta anos e era muito rico. Hntonio Francisco de Car- 
valho — a qu^m chamavam O Carvalho da Restauração, por nesta rua tratar de seus 
negócios — era um «brasileiro com duscntos contos de fortuna mas de Índole diversa 
dos enriquecidos nos armarinhos c seringais. Seu pai lôra desembargador e legara- 
Ihe um património de vinte contos c alguma educação. Era vez de comprar um 
cavalo, deixar crescer os cabelos c sobrcsaltar as meninas casadciras com seus olha- 
res fatais e o curvetear da montada, tomara um bilhete numa barca, mostrara ura 



(*) Camilo — o Esqueleto, 6." ed., pf. 223. 



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acréscimo de ambição, instalara-se sem desdouros, sem lidar em baixos misteres c ao 
cabo de vinte anos, os seus vinte contos estavam decuplicados. 

Viajara, lera, regressara ao Porto e indo ao convento visitar uma parente sensi- 
bilisara-se com as graças da menina enclausurada, cuja educação mimosa e cuja 
alma cândida se revelava em seus dizeres c seus pensamentos. Pedira-a à reli- 
giosa. Com as lagrimas nos olhos, recordando seus amores, respondeu-lhe que não 
lhe pertencia paio sangus. Contara-lhe a historia do seu nascimento, dissera-lhe o 
nome do seu progenitor tão celebrado e o da mãz apagada num canto da provín- 
cia. Insistira; entrara a conhecer das delicadesas ds Camilo, em relação a Amélia 
— como se lhe chamava abandonado o nomj extravagante de Beraardina: — oss 
livros que Ihs mandava, as quantias de certo vulto oferecidas para alfinetes da don- 
zela, as obras que não lhe enviava embora as assinasse, e emíim, até o episodio da 
troca duma carta que destinada ao pretendente e caída nas mãos do escritor em- 
quanto a cheia de mimos de filha era lida paio apaixonado. O romancista quas 
severamente, dissera à Amélia que <não fizesse a sua correspondência dum fôlego para 
não se enganar com os destinatários.» (*) Soubsra do namoro c também que o noivo 
mais que dobrava a edade dâ pequena. Opuserase terminantemente ao consor- 
cio (**) Recordava o caso de Ana Plácido sacrificada, enchia-se duma grande coe- 
rência, na sua imaginação turbilhonavam tragedias semelhantes à que se pyssara 
diante do país intsLfo por causa duma virgem da 18 anos, sacrificada a um homem 
de 43. Pelas confissões da amante sabia como são feitos esses amores, pelo seu 
conhecimento da vida armava-se duma razão máxima para negar o seu consenti- 
mento a semelhante enlace. Eles, porem, amavam-se, a menina não herdara nenhum 
dos desiquilibrios paternos, assemelhava-se à mãe e parecia, apesar de inocente, tsr 
herdado toda a sua pratica das desditas. 

Desejava uma vida quieta — um amor calmo — de resto aconselhado nas paginas 
dos romances do pae, o menos sereno dos amorosos e votava-sc a esse homem 
educado, digno, mais edoso do que ela, duma admirável tranquilidade no seu afecto 
cm que havia ternura, bondade, desejo sem as ondas revoltas dos desesperos* «O 
amor que não perde nem desvaira esse é que é o amor> — escrevera o romancista (***) 
c assim o ambicionava a pupila da freira. Casaram-se na egreja de Valbom só com a 
permissão da mãe, recolheram-se á quinta que ele comprara e começaram a ser felizes, 
numa família à parte, sem dramas na existência. 

Camilo não assistira à cerimonia ; (****) cortara as relações com a pequena aguar- 
dando um desastre que não se deu, talvez para abrir o seu coração enfermado de 
mal antigo à desditosa vitima dum casamento em tão grande diferença de idades. 

Foi feliz esse par c quando nasceu a sua primeira filha puzeram o nome 



(*) Camilo — Cartas a SUvàlPinto. 
(**) Teófilo Braáâ — Esboço Biográfico — pags 54 e 55. 
(***) Camilo — O bem e o mal— pag. 27, 5-» ed. 
(****) Fealisada em 28 de novembro de 1865. 



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de Camila a essa «trigueirinha engraçada. > (*) Eics é que venciam, perdoando no 
meio da sua ventura. 

flna Plácido sentira sempre um grande aborrecimento pela outra, por Patrícia 
Emilia, a mãe daquela menina nascida no tempo em que ainda não trocara a menor 
palavra com o escritor, quando talvez nem sequer o tivesse visto. (**) Por parte da 
filha de Camilo razões doutra ordem geravam a sua má vontade pela companheira 
do pac. Devia atribuir-lhe a repulsa do cscriplor pela mãe dela. Não se entenderiam 
jamais nem mesmo nos momentos desolesdos. Nos felizes, o coração de D. Bernardina 
Amélia ia para o pai; nos tristes, a sua alma se escaacarava mas nunca para a 
mulher à qual via como a verdadeira causadora da sua vida de reclusa, do abandono 
da desditosa que a dera á luz. h freira, repelida também, devia ter sido a autora 
de taes freimas em tão doce c equilibrado espirito. 

No fim daquele ano, quando as núpcias se realisaram, o romancista mostrara 
com a sua ausência ^como se conservava fiel ás ideias expostas acerca de uniões 
idênticas, alegrara a amante, reconfortada com esse afastamento da filha da mulher 
considerada — num retrospectivo ciúme — a sua rival e ao mesmo tempo porque de- 
sejava saber que não existia no coração volúvel do amado oubro amor paternal alem 
do dedicado aos seus filhos. 

Cora efeito ele adorava-os. Vibrava intensamente com os seus afectos. 

Não distinguia do seu Jorge — o benjamim, o mais querido — o Manuel que a 
mãe tivera junto de si no cárcere e usava o nome de Pinheiro i\lves, apesar de este 
não o ter reclamado para o seu lado. O pequenito saltava à sua volta, brincava no seu 
colo, gostava dos irmãositos em cujo balisado tocara na coroa de Nossa Senhora da 
Conceição que era a madrinha. Vivia à sua beira; não tinha com os seus sete anos, 
cdadc para discernir c via-o como um bom papá, pois não conhecera outro, e aquele 
enchia-o de caricias. Para o escritor ilustre seria verdade averiguar a falsidade da 
voz do sangue, embora só mais tarde, o acentuasse : 

<Nào vês que te avantaja em dom de palavra o que te cscassea em instinto 
filial? Se te não mostrarem teu pai passarás por ele, como ele por ti, se a roda lho 
cuspiu à lama que pisa. Desce do vértice da pirâmide em que te aclamaste rei da 
creaçâo c olha-me por essa espiral abaixo as simpatias instintivas que entreligam 
filhos c pais.> (***) 

Escreveria isto num momento em que certas amarguras lhe acudiriam ao espirito 
com reflexões extranhas numa hora das mais tristes da sua existência dramática. (****) 

Jorge enchia-o com sua meiguice c sua precocidade curiosa ; Nuno era muito pe- 
queno c guardava apenas as graças próprias desse periodo em que só a vida 
animal domina e ainda mal adejam as borboletas da razão. Era um excelente pai esse 



(•) Carta de Camilo ao viscoade de Úu^uela publicada por Teófilo Braga, no Esboço Blogrj/lco, 

(**) A pequenita BercsrJina nascera em 25 de janho de 1848. 

(*••) Camilo — Caveira da Mártir, pag. 106, 2.^ edição. 

(****) O livro foi publicado em 1876. Minnel Plácido morreu em 1877, 



homem que nunca tivera os afectos da íamilia, jamais sentira — que se lembrasse — 
os beijos inegualaveis de mãe, o boémio de vida à iarga tornado a súbitas, guardião 
dum lar, chefe de casa, responsável pelo sustento de trez boquitas inccentes que iam 
balbuciando à sua roda as toadas infantis, os dizeres singelos, as canções que lem- 
bram o ensaio do pipilar dos passaritos novos. 

Por isso ele trabalhava muito; só descançava à tardinha entre as portas da 
livraria More, muito rodeado, tendo subs'ituido a casaca àò botões amarelos por ura 
completo severo, usando a grande gravata preta mas guardando sempre a capa 
bandada de veludo, o chapéu ailo de abas direitas sobre a cabeleira grisalhante. 
Ostentava no dedo o seu anel com a caveira e as tibias cruzadas e embora não fre- 
quentasse os templos, guardava um crucifixo suspfnso do pescoço magro de ane- 
mico. Cercavam-no os literatos, os jornalistas, actores das companhias que ss exibiam 
no Porto, grupos de admiradores enlevados no seu espirito nos tíies cm que os ner- 
vos lhe davaru tréguas. R' sua beira marchava o Terra Nova, que submisso e cslmo, 
se lhe deitava aos pés quando o dono se detinha a conversar. 

R burguesia olhava o escripíor como antigamente. Não lhe negava já o talento, 
lamentava que Deus lho tivesse dado. 

Os amigos que tanto lhe tinham valido nos momentos amargos, juntavam-se aos 
conhecidos. R redação do Nacional exigia do celebrado escritor mais alguma cousa 
de que artigos, pedia-lhe a sua palavra, tocada de iodas as gamas, nos comícios que 
se iam realisar a favor da candidatura a deputado^do seu compadre Custodio José 
Vieira. 

Não hesitou ; c do alto das taboas, num quintal da rua Chã, Camilo, diante dos 
eleitores, arremeteu, numa tarde, contra o marquês de Sá de Bandeira, presidente do 
conselho. O dono da maior fundição do Porto, Joaquim Ribeiro Faria Guimarães, 
dispunha de mais votos que o advogado ilustre e pobre o qual não movia os alia- 
dos dos interesses e as dependências do industrial. Presidia àquelas reuniões viru- 
lentas o visconde de Lagoeya — tutor do pequeno Manuel Pinheiro Alves ; — eram 
oradores, alem do proposto e de Camilo, o ardente poeta Guilherme Braga, Caries 
Borges, então a literatar sob a égide do escritor, outros de menos nomeada, Ponce 
Leão, Francisco flntonio de Carvalho e mais adventícios. 

Parece que o romancista não se comprazia muito na oratória. Era mais um 
conversador; a auto-observação reinava em seu espirito. Preferiu ridicularisar num 
livro um dos vencedores, embora também adversário do governo, e a Queda dum 
Anjo foi o seu presente aos da grei romântica. Vingava, ainda, a velha querela do 
periodo dos abedessados (*) e dava-se por satisfeito no cantinho verde de Leça onde 
acabava a obra após os comícios. (**) 

Voltara a Seide, com Tina Plácido, no verão seguinte a aguardar os seus amigos 
de Lisboa, na casa banal que um «brasileiro» edificara para seu regalo após a sua 



(*) Tratara-se do dr. Aires Gouveia, depois arcebispo de Calcedonia. 
(**) Agosto dí 1865, 



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suada vida e se tornava, pouco a pouco, num lugar celebre, como uma choupana 
a S2grar-se à entrada de um viatico de génio c de dôr. 

Por aquele Julho, o Minho cnroupara-se de galas; cspulsaram-se de Scide as 
agoniadas horas. 

No fim da violenta polemica literária em que mestre Castilho fora alvejado des- 
rcspeitosamente por Antero dá Quental, Teófilo Braga c um séquito moço c rebelde 
parecia que o ancião ia buscar pousio no socego e alento junto de quem tanto o de- 
iendera. Sentira nele o seu amparo e, cariciosamente, em pilulazinhas de mel, propi' 
nava-lhe excitadoras queixas; metia-se-lhe na intimidade e, como um rei ante uma 
rebeldia, o príncipe dos poetas acolhia-sc à fidelidade e à força. Falara em ir visitar 
o romancista ao seu ermo nas «abas da serra de Córdova entre um souto e uma 
carvalheira> (*) onde sabia «todos os dias o preço do milho c do feijão fradinho. 
Envergonhava- se de morar no prediosito rústico do marido da sua companheira, c 
ante a ideia de que podiam ir vê-lo ali, mostrava-se era freimas de proprietário, par- 
ticipava seus desejos de adquirir uma casota na aldeia mas ao ver iminente a che- 
gada dos amigos — pois convidara também Tomás Ribeiro e Eugénio de Castilho — 
confessava não ser «o propnetaiio da casa e da carvalheira que me enverdece ao 
arredor do quintab (**); e afirmava-o com satisfação, a fazer-se muito despegado dcs 
bens prosaicos. As cartas do velho vate pareciam encerrar gorgeios, pipilos, ternura- 
^inhas, transbordavam de demasias. Chegaria a tratá-lo por «Camilinho>. 

O pontífice literário, com os seus sessenta e seis anos pesados por uma enorme 
celebridade, ia honrar a vivenda e consagrar a ligação tão falada dos seus habitan- 
tes. Não eram marido e mulher apesar de já terem passado três anos sobre a morte 
de Pinheiro Alves cuja parentela enriquecida morava ali à beira e não se pejava da 
visinhança (***). Andava esquecida do finado, que a deixara bem, mercê do passo da 
viuva em cuja residência iam entrar os grandes e falados senhores de Lisboa. 
O ceguinho pálido, de barbas alvacentas, cerradas as pálpebras, lembrava já uma fi- 
gura modelada em mármore, um Milton amparado ao braço dum filho moço e poeta 
também. Abria os pulmões ao ar perfumado das bouças e o coração a todos os ca- 
prichos esse cutro vate adolescente autor bucolista das Miragens da Felicidade. 

Camilo descera a Vila Nova de Famalicão escanchado nuiua montada magra, 
levando como companheiro o pequenino Manuel Plácido, de oito anos, já dado a gi- 
ncterias, c guiando um dócil cavalo. Estribeiraram ambos a sege (****) onde os hos- 
pedes se meteram: Castilho entre Tomás Ribeiro (***^*) c o filho. Prcparara-se tudo 



(*) (**) Castilho e Camilo, por Joio Costa, p<. 5. e 95. 

{***) Uma das irmãs dele chamava se Tereza. Camilo dizia: <Era rica e deixou-me a consolação de 
oarir badalar a defuntos, aquela sineta que V. Ex,^ conhece, ha quatro horas. Deixoa duas malas de ouro 
a cada sobrinho, pelo que vem o filho da D Ana a pcilizti ^ami foríu/ia, tio — Casíll/to e Camilo, por 
João Cost», paj2. 183. 

C"***) «Era aquela elefante criança qae mont<ra um cavalo lo lado da se^e tm que tu vinhas cem 
Castilho» — Cartas de Camilo a Tomás Ribeiro, pi. 34. 

C"**"*) Castilho foi encontrá-lo em Ccimbra. 



Ftl. M —209 - 



para bem farto e feliz gazalhado, muito á minliota, cora galinhas gordas, verdasco e 
rasgados bailaricos. R dona da casa não soccgara desde o anuncio dessas visitas 
importantes que se tornavam caras à sua solidão c ao seu orgulho. O amante com- 
preendia-a e felicitava-se por ver a alegria no seu rosto; cbservava-a como de cos- 
tume, gerava máximas lapidares em que dizia: «não ha contentamento comparável 
ao da mulher desestimada da sociedade quando se lhe depara prova de respeito, ur- 
banidade sem prova de am.or aviltante>. E se não pensava nela em relação à segunda 
parte, vira-a muito bem enquanto à primeira. Rejubilava a hospedeira formosa c in- 
teligente; o Minho paramentava-sc para os gaudios dos lisboetas. 

Os camaradas em letras, atroando os ares de risos, disputavam aos pássaros as- 
alegrias. Quando o seu carro rodou no largo fronteiro ao presbitério a banda ds Rui- 
vães rompeu no hino da Carta, estrondosamente, com grandes guinchos refinados pela 
requinta (*). Apearam; ao pateo acorreram moçoilas com cestinhas de pétalas que 
lançaram sobre as cãs de Castilho deveras comovido, a apoiar-se na bengala c no 
braço de Camilo. As vozes sonoras das minhotas erguiam-se em vivas ao poeta; as 
folhinhas tenras beijavam-no e parecia que a natureza se iluminava mais para festejar 
o ilustre cego. 

i\na Plácido, num trajo simphs, o adoptado nas ^uas estadas em Seide, espécie 
de roupão atado na cinta, por uma fita escura, estava no ultimo degrau da escada 
de pedra entre as creanças c dava as boas vindas ao Mestre. No fundo da sua alma 
a visita dum consagrado velho à sua casa, gloriava- a e dizia-lho numa sentida como- 
ção estendendo as mãos para o principe da arte que ia acolher sob os seus tectos. 
Estava linda assim em toda a beíesa escultural do seu corpo e com as rosas da 
ventura, tão pouco experimentada, nas faces moças. Convalescia duma doença que o 
escritor chegara a julgar a tisica c rejuvenescera porque foi sempre tónico do corpo 
a felicidade embora fugaz. (**) 

Lá em cima, na sala de tectos abaulados, de janelas abertas para os montes, 
sobre a estrada de Souto e dos Carvalhos, o hospede venerando lôra, mais uma vez,, 
aclamado. 

Dir-sc-ía um bom avô de regresso após uma homérica jornada. Rs raparigas 
da aldêa assomavam às portas cem todas as graças de seus bustos, as ramagens de 
suas vestes, o afogueado das peles brancas ou morenas, todas radiantes, livres do 
trabalho; c, entre elas, alta, de perfil senhoril, «cabelos de ouro e ancas boleadas,> 
ousada de gestos, contando com a sua belesa, destacava-sc a Amélia de Landin^ 
uma engeitada, que medrara na^ sombra do velho mosteiro. Trazia em si, a desem- 
penada moça, o azougue da formosura endiabrada c um mistério novelesco. R seu 
lado, menos bela, mas de audácia semelhante, a Custodia da Feira dava nas vistas 



(*) Camilo — A/ottíS de Iiisomrúa, N.° 2, pi. 19. 

(**) Chegara a imaginá-la tão^mal que escreTeza: «Estou assistindo à agonia de Ana Plácido. Morre 
tisica a desgraçada senhora que foi neste mundo o modelo do infortúnio.» — Castilho e Camilo, por João 
Costa, pg. 25 e 26. 



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e os rapazes na sã folgança minhota, pagã, ruidosa, só calaram os brados quando 
Tomaz Ribeiro, entre os pequenitos que seguravam uma bem entretecida coroa de 
louros naturais, avançou para saudar o poeta máximo numas quadras enternecidas, 
enal-cccdoras : o incenso devido ao idolo. 

Por entre cantos e flores 
Chegaste rei da poesia 
Como um clarão de alegria 
Jorrando em mansão de amores 

Turiíerava o Mestre como a um desses velhos bardos helenos, cujos berços as 
cidades disputavam, depunha à sua beira todas as boninas dos prados c todos os 
requintes do preito como um tapete para seus pés transviados, porque seus olhos não 
viam embora seu cérebro irradiasse luz. 

O moço vate ccmovia-se naquele âmbito sagrado pelo trabalho, como numa 
medieva corte de pagens trovadores com a figuração de povo ingénuo à sua beira 
e conduzia as creanças que entregavam o verdejante diadema ao ancião sagrado por 
seu talento: 

Somos de troncos robustos 
Os loiros, os tenros gomos 
Das flores surgirão pomos 
Se Deus regar os arbustos 

Eram os filhos de Ana Plácido e de Camilo, e seu irmão Manuel Plácido Pi- 
nheiro Hlves. Deita vez o poeta não tivera o sagrado dom da profecia que as gen- 
tes simples a vates atribuem. Os maus fados já os espreitavam e Castilho, não advi- 
nhando também, pousava as suas mãos suaves sobre as cabecitas dos pequenos e 
quedava-se como a estatua dum velho evangelista protegendo crcancinhas no relevo 
da pedra duma catedral. Dos seus olhos cegos brotavam lagrimas a pcrderem-se-lhc 
nas barbas alvas como rocios brandos em estrigas. (*) 

Nossa coroa e nossas flores 
Guarda em saudosa memoria 
O monumento é de gloria 
A coroa é só dos amores 

E o monumento a que se referiam era uma pedra, tomada nos rochedos visi- 
nhos de Vermuim e aíáiçoada por um alvinel, na qual Ana Plácido, a poetisa, man- 

(•) Camilo — Bibliografia Portuguesa t Exíraugelra — Critica dos Soiis qut Passam por TomaZ 
Ribeiro. 



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dará gravar uma legenda que daquele cantinho dura mesquinho jardim minhoto ecoa- 
ria na nação, e junto da qual Camilo plantaria ciprestes, ainda uma arvore romântica : 

HNTONIO 
FELICIRNO 

DE 

CASTILHO 

PRIMCÍPE 

Dft LIR/l 

PORTUGUESA 

ESTEVE 

NESTE LOGRR 

EM 15 DE JULHO 

DE 1866 

MANDOU ERIGIR 

ANA PLÁCIDO 

COM 

OS SEUS 

DISCÍPULOS 

TOMAZ RIBEIRO 

EUGÉNIO 

DE CASTILHO 

J. C. VIEIRA DE CASTRO 

C. C. BRANCO (•) 

Derramaram-sc lagrimas de alegria antes dos cânticos em que só choravam as 
violas no Vira e no Leva a ãgaa ao Regadinho, danças nas quais se dssnalgava a 
Amélia de Landim, muito franduna, cantando ao desafio. 

Camilo bem dissera a Castilho : Em Seide ha o aroma das boninas e carne 
assada à lareira : ha vinho verde e égua da rocha. Come-se quatro vezes ao dia c 
acorda a gente com íomo (**) 

Desta vez era um suculento jantar minhoto, cheio de pitéus c doçarias, abun- 
dante c forte que os chamava. O verdasco saltava nos cangirões, espumoso, esperto, 
desempoeirando as gargantas dos convivas e dos cantadores cujas vozes enchiam o 



(*) Carta citada no prefacio do Escritor da Graça 'e da Beleza pelo sr, José de Azevedo e Mene* 
zes, admirador e amifo de Camilo Castelo Branco. 

(**) Prometera-lhe o monumento antes de ali o receber, nejtes termos ; 

«Farei erguer uma pedra no meu quintal e mandarei antepor a uma data o nome de V. Ex.*, Quan* 
tos, volvidos anos, bão de vir com lagrimas aquela pobresa de corações ricos.> 

Castilho e Camilo — por João Costa pag, 67, 



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vasto pateo, galgavam os muros c atraíam os visinhos. Ribombavam os zabumbas na 
festa das musas emparceiradas com a turba, nesse ágape de delicadeza das estrofes, 
num contraste com improvisos rudes. No fim, tcdos eram poetas e até a natureza se 
enflorava, com seus pinhaes quedos, em hoste de parada de lanças altas embandei- 
radas, os toldos verdejantes das uveiras como pálios rústicos, as aguas cantantes 
do Pele a afinarem seus rumorejos, quando as violas se calavam ou os mctacs de 
Ruivães não lhe esmagavam as maviosidades no retinido da requinta na moda pica- 
resca da Maria Caxuxa. (*) 

Bebia-se bem. Na sala de jantar, aberta para o pateo trocavam-sc elegantes c 
espirituosas frases ; cá baixo, rebolando as saias emolhadas, a custodia da Feira, a 
Cantadeira, alarmava os ecos com sua voz mais retinida. Todavia a Rmelia de 
Landim, loireça de seios hirtos, mãos nas ancas só se desanforava para lançar o seu 
mote intenso, vivo, gaiato. Os vates entreolharam-sc ; continuavam a devorar os pra- 
tases saborosos, regionaes, bem condimentados, explcndidos, espumejava o vinho 
que parecia trazer na sua alacridade a frescura e o apetite. 

Sem o verde aperitivo ninguém poderia servir-sc de todo um jantar minhoto. 
/\na Plácido dava ordens, ia c vinha, e Camilo satisfeito com a linda dona da casa, 
festejada por todos, tratava-a por Rninhas, nome doce que encontrara para a intimidade 

E Aninhas ficaria para os dias de amer. Ia descendo a noite ; cantavam rouxinoes 
na beira dos valados, escureciam as bouças como a ocultarem os mistérios dos seus 
sons e no eirado acendiam-se as lanterninhas de cores, os balões de todos os arraiaes 
minhotos e os convivas, embrulhados em suas capas, por causa das surprezas da 
aragem, sentaram-sc em cadeiras rindo com bailados, gargalhando com descantes. 
Eugénio de Castilho já travara conversa com a Amélia, disputara-lhe as desgarradas 
ante as rodas curiosas e gargalhadas dos velhos, prendera-se naquela belesa campe- 
zina na qual havia modos senhoris e excessivos desembaraces. O poeta imaginou 
topar uma ninfa disfarçada sobre o lenço escarlate c roupinhas, dançando e verse- 
jando, uma vestal nas festas eleusinas daqusle celeiro minhoto. E era uma perdida a 
mulher que ele dizia já amar em confidencias amigas ao descendente dos alcaides 
de Riba de Rve, o pundonoroso senhor de Esmoriz, morgado de Pereira. (**) 

Enflorava-a de galas da sua imaginação, entrava em despiques à conta dela que 
o atraia com olhares arteiros, adextrados de suas pupilas azues, as faces avermelhadas 
pela agitação da dança, da alegria, do vinho c do orgulho que todas as mulheres — 
as de sangue real e as filhas dos carrascos — tem a ser preferidas. 

Quando ela partiu, noite alta, no meio da frescata, no caminho torcicolado da 
Passelada a endireitar para Landim, Eugénio, longs do depositário de seus sonhos, 
mal socegara e ao dealbar erguera-se. Fugia a neblina, descort'navam-se as campinas, 
o sol dedava de oiro a fértil terra do Minho e os pássaros, na sua filarmonia davam- 
Ihe um concerto, deslumbrados, vassalos da luz. Gorgorejava o Pele, acordavam, ao 
longe, os sinos tocando a matinas e o amoroso, ao abrir a sua janela, já encontrou 



(*) (*•) Camilo — f^ol/es de Intomnla, n.*» 2, pag. 19 e 21, 



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de pé, o pae, o Mestre ancioso de gosar também a frescura orvalhada da linda manhã. 
Deu-lhe o braço, passaram pela escada de p2dra, e como nesse tempo, mesmo entre 
poetas, havia o respeito dos filhos para os seus progenitores, naturalmente não falou 
do que lhe enchia o coração ou o desejo: a íascinadora anciedade para a perdida 
Amélia de Landim. 

Sabia apenas que era cngeifada, assim tão linda, corpo de ânfora, loira e senhoril 
como uma aia de princeza de outras edades, que andara namorada dum filho de la- 
vrador de terras pequenas e se perdera de braços em braços. E achava ainda na 
sua boca as canções, desenvoltava-se em danças e nenhuma outra rapariga era tão 
viva e alegre como ela a bater as paliras na rcda dos bailados, tão expontânea nos 
desafios das cantigas e tão efinada em metes das Torradinhas com manteiga e nas 
sarabandas da Cana Verde. 

O poeta já devia saber m.ais do que isto, pelo morgado e pelo que ana- 
lisara. 

R mente do velho Castilho rcírigerava-se na paz daquele amanhecer. Do rescaldo 
do arraial ficara com es tigelinhas pingadas de ccbo, uma viola pendurada deixada 
ali por ura tocador da casa. Dcí a pouco, ele, dedilhava uma modinha popular 
que os mendigos lisboetas cantavam pelas portas. E, ceguinho também, aureolado 
pela flecha do scl, punha-se a repicar as cordas, com as orbitas tristes ao ccu er- 
guidas. /\na Plácido surgiu risonha — transformada na doce Aninhas que os hospe- 
dava — e falcu-;he, aplaudiu-o, na mesma jovialidade das aves que cantavam pelas 
ramarias. Logo se elevou a vez do grande vate numa quadrinha espontânea, na 
mesma melopêa dos pobresinhos citadinos, ganhões de seu pão, ao som das gui- 
tarras como ciitrora os menestréis caminheiros rapsodiavam nas beiras dos castelos 
em busca do agasalho de amor. 

Senhora, dessa janela 
Deixae cair uma esmola 
Que também do ceu vos cai 
Um orvalho que consola 

Voltou a dona da casa a sauda-lo e a rir, feliz, por instantes e daí a pouco, á 
frente duma serva fresca, ofereceu aos hospedes a oblata pedida, o desjejum, o seu 
caíé e a regueiía. 

Um passeio á quinta e mosteiro de Landim, irapunha-se já pelas belezas do 
logar, já porque a loiraça devia atreír o moço poeta de imaginação ardente. Por lá 
andaram um dia (*) bem vivido. Nos outros divertiram- se no campo e quando o 



(*) o Braz Tlzaiia, relatou essa visita a Líndim. 

<Ha poucos di3s, tiveram os landinenses a ventura de ver nesta írtguezia quatro cavalheiros bem 
conhecidos pela agudesa e altura do seu talento em quasi todo o orbe literário, que foram jubilosamente 
acolhidos por estes circunspectos cidadãos com aquela atenção e respeito que era digna do seu elevado 



-214- 



calor apertava ficavam-se de conversa cm volta do patriarca cego que ia enrolando 
nos dedos finos bolinhas de papel de jornal (*) num entretenimento monótono, me- 
tódico, sentado num se fá, feliz, desvanecido, ouvindo Eugénio, Tomaz Ribeiro c o pró- 
prio Camilo a lerem a sua recente tradução das Georgicas e cujo quarto cântico 
oferecera a Hna Plácido como um brinde real na hora da despedida. 

Em brev« eles partiram. Hcabaram-se, por uns dias, as danças e os risos, pois 
logo de seguida surgira Vieira de Castro, que ia despedir-se dos amigos antes da 
viagem ao Brasil onde tencionava vender dez mil exemplares dos seus notáveis dis- 
cursos pronunciados no parlamento. Rira, divertira-se, folgara, falara com D. Hna c 
com o amigo dos amores que lhe tinham enchido a alma e queria egora abandonar. 
Uma senhora casada no Algarve, D. Henriqueta Couceiro (**), amara-o pelo talento e, to- 



^aracter. Estes oobr^s cavalheiros eram os srs. : Camilo Castelo Branco, António Ffliciano Castilho e filho 
e o exímio representante da nação o sr. Tomaz Ribeiro. 

Eram aproximadamente 7 horas da tarde quando elts se dirigirsm para o passeio publico de $• 
Brar. Aí saspenderam por algans momentos a sua excursão rtcrfatira na mcdesta contemplação da bo* 
nita paisagem que es cercara. 

O sol já declinava vagaroso para ir embienhar-se nas legiõfs do outro hemisfério, mas, comtndo, 
ainda deixava apoz de si cm loogo rasto luminoso, que mostrsva claramente o explendor dum horisonte 
surpreendente, A par deste excelente quadro, que apresentava a na'ur(z3, ainda se via fluctuar a pálida 
lua rntre o azul do ceu. Tudo parecia querer render homenagem iquelas grandes notabilidades do nosso 
paiz, que viam exiaticas, fugir o astro radiante para os longínquos confins do ocidente. 

Em seguida alcançaram o vasto Largo da Feira até que chegaram peito da igreja matriz, e para* 
ram, Lançaram atenciosamente a vista sobre o soberbo froctespício do templo, e parece que ficaram ma- 
ravilhados com a magestade dessa obra monumental dos frades cruzics. Não lhes foi também desperce. 
bido o eipaçoso cemitério publico, adjunto ao templo, que foi construído a expensas do sr, António Mar* 
q«es de Oliveira, cavalheiro que muito tem concorrido para o continuo aumento de&ta teria. 

O sr. António Feliciano de Castilho andava sempre pelo braço do sr. Camilo Castelo Branco, em 
consequência da impirfeição lamentável que afecta a vista do príncipe da lira portuguesa. 

A noite desdobrava a escuridão das trevas, e eles sfguiram o caminho da fregnrzia de Seide. Fo- 
ram hospedarse em casa da ex.*"^ sr. D. Ana Plácido, aonde se demoram cerca de S dias. 

Esta senhora mandcu erigir ao sr. Castilho, na quinta de Seide, um elegante padrão, aonde apa- 
rece gravado o dia memorável em que foi colocado sobre o pedestal e em seguida o nome do grande 
poeta do século XIX 

A inauguração desta monumento foi entusiasticamente festejada com imenso fogo do ar, balões, 
musica, "Ac. No dia 16 do corrente seguiram a estrada da cidade invicta. 

Braz Tisana — 22 de Julho de 1866 

(*) Ainda existem no Museu de Seide algumas das bolinhas enroladas pelas mães de Castilho, e 
ás quais Camilo se referia ao escrever: <a tigda das bolinhas lá rstá também á espera com o novtlo em 
meio.» 

{**) O sr. dr. Alberto Veloso de Araújo, vai publicar documentos comprovativos no sen livro Camila 
«m Seide. O romincista, mais tarde, fustigava a amante de Vieira de Castro, ao sabê-la viuva e em 
novos amores: <eraae já notória a sua girridice de casada e conjecturou a minha experiência que os lutos 
não lhe abastardariam a condição, eto — Cartas a Vieira dê Casírj, 2.' ed., pg. 63. 



irada de ciúmes da sua aroisade pela escritora, acabara, vencida pela verdade do 
santo afecto daquela atracção, por se tornar grande amiga dela. O orador despegava-a 
de si; anda >ra com a cabeça cheia de projectos de noivados na flmerica, estonteado, 
aplacando-se nas pescarias no Rve, na quinta da Palmeira, à beira de Landim, onde 
ia com o barão da Trovisqueira. Na quinta dos Jesuitas comeram melões e cm casa 
do morgado de Pereira, em Riba d'/\ve, viram despejar num jantar uma pipa de ver- 
dasco, o que fizera Camilo exclamar, pasmado: <cs bêbados e os comilões da Iliada 
por aqui seriam meninos de peito a comer sopinhas de lcite.> 

Por fim partira também aquele hospede, tendo solicitado para lhe inscreverem o 
nome na pedra do monumento, embora tivesse chegado tardiamente (*). h Custodia 
da Feira, muilo confiada, telegrafara ao velho Castilho, como uma emula na poesia, 
a pedir-lhe a ressalva dum sobrinho, um Manuel, filho de Joaquim da Silva, do lindo 
lugar de S. Julião do Calendário, c o romancista, hum brado, até trocava o nome à 
cantadeira (**) ao escrever: «R eudacia da mulher é a audácia do génio ou uma 
intermitente de vinho verde se é que ha intermitencias nas febres crónicas. > E acon- 
selhava o Mestre a despedi-la. 

Agora apegara-se à tarefa novamente no seio do Minho do qual amava a paisa- 
gem e detestava os habitantes (***) e como à sua porta havia sempre uma novela^ 
a Hmelia de Landim, a formosa perdida, soube ser a bastarda do fidalguissimo fíl- 
varo de Mendanha, de Barcelos, que ao morrer a fizera sua herdeira, Ftí estava a 
desditosa reconhecida de estirpe de alcaidcs-mores tão rica que parecia de conto de 
feiticeiras semelhantes opulências. Nascera, essa desventurada, que se amesquinhara 
nas lides e se pervertera por fome, duma formosa freira de Vairão e fora lançada 
aos berços mercenários das engeitadas. Senhora de grandes teres, morgada, cumulada 
de honras— ela que vendera a sua ao vcr-se na miséria — sentira-se lavada de todos 
es pecados nas agu5s de oiro que o procurador do aristocrata despejava sobre a sua 
reputação. Rebaplizava-a. Era a senhora D. Hmelia, riquíssima e de bom sangue, com 
caleças, lacaios, dinheiro em barda e uns primos arruinados, e netos de godos, a 
babujarem-na de madrigais, veniosos, muito assíduos nos cadeirões da sua sala ein> 
pavezada pelos «contadores atauxiados de prata c cnxadrezados a cores> (**•*). 

O coração da desgraçada que ela fora, por andar nas bocas do mundo e fazer 
de seu corpo esbelto, macio e branco, regalo de concupiscentes, chamava-a para 
Landim. Apeou da sege ao portelo humilde dum cardenho ; chamou a gpnte da casa 
e saiu, desbarreteado, a receber a dama entrajada de sedas e mais linda nos seus 
atavios um moço queimado pelas soalheiras. Era o António do Couto de Baixo e 



(") «Vieira de Castro mostiou dese}os de ser também nomeado entre os discípulos de V. Ex.^ na 
tal pedra tosca. Lá toi apesar da mentira cronológica.) — Castilho e Camilo, por Joio Costa, pg, 116. 

(**) Cbamara-lhe Maria Custodia quando era Custodia Maiia. — Id., id., id., id,, 143. 

(***) <A chusma gargalhava babnjando com a e>puma do vinho nos chascos vilanases como eles 
esrurmam desta ralé do Minho, a mais bestial raça que estanceia na Earopa.> 

(****) dmilo — Noites de lasomnia, n.» 3, pg. 25. 



— 216 — 



quizera desposá-la, no tempo da sua pobresa, quando cia ainda não andara de leito 
era leito, de feixe em feixe ou entre os milharais ao capricho dos homens. Encarava-a 
atónito pela compostura de senhora, quasi desmaiada ante os seus dizeres evoca- 
dores da desonra em que a lançara e na qual mergulhara mais, após a entrega que 
lhe fizera de seu corpo virgem e o abandono a que a votara. 

<Teu pai não te qiiiz deixar casar comigo porque eu era pobre. Sei que so- 
freste e quizeste fugir para o Brasil a fim de ganhares dinheiro para depois me 
receberes. Eu não te deixei ir. Sabes qual foi a minha vida depois. Hoje estou 
rica, ainda te amo, porque foste a origem da minha desventura. Queres casar 
comigo ? Caiu-lhe nos braços chorando. 

Casaram. Decerto foram venturosos. {*) i\' porta de Camilo geravam-se sempre 
novelas ; lá dentro do lar, passava-se o seu drama. (**) 




(•) Camilo — Nolíes de Insomnla, n." 2, pag. 26. 

(**) Um dos íilhot da Amélia de Landim veiu a ser abade de Requiio. 



-217 — 




VUlra de Ci strotrtlrêlo 
o[tr«cido a C»milo » p^r- 
ttttcentê ã sua famiiid)^ 



XII 



fdàgilidades de apóstolos 



SINGULAR COLÍIBORHÇAO JORNKLISTICH — O BASTIDOR DA <GAZETA LITE- 
RÁRIA DO PORTO>-COMO TERMINA UMA NOVELA— O INICIO DUMA 
TRAGEDIA— VIEIRA DE CASTRO AMOROSO— A ESPOSA E 
A AMANTE — DO APOSTOLADO AO CRIME — O 
DRAMA DA RUA DAS FLORES — A DÕK 
DE CAMILO - RECORDAÇÕES E 
FANTASMAS 



DEPOIS de tantos trabalhos e lutas, uma grande dôr, acometia Camilo. Aquele 
grande amigo que tanto o servira na sua prisão, José Júlio de Oliveira Pinto, 
secretario geral do ministério da justiça, íôra morto em duelo por um sobri- 
nho do marquês de Sá da Bandeira. Fogosamente, no parlamento, atacara um irmão 
do estadista, que era velho. Recebera com negativa de satisfações as testemunhas 
que ainda assim êle lhe enviara ; repelira também as dum novo contendor, ligado 
a António Cabral de Sá Nogueira pelo parentesco mais próximo, pois era também 
seu sobrinho. 

Miguel de Sá Nogueira se chamava o paladino. Servia como oficial de cavala- 
ria italiana e vinha de Roma com fama de duc- lista. Batera-se bem na batalha de 
Custozza e no Vineto, distinguira-se na escola de oficiais, em gineteria, esgrima e arte 
militar e como era estrangeiro referviam as invejas e doestos à sua volta. Desafiou 
o mais grado dos espadachins da academia do Pignerole, feriu-o gravemente, rece- 
beu no peito um profundo golpe, e creara desde logo, amisades e respeitos. Era ho- 
mem assomado e altivo ; não guardava ofensas, e, confiado na sua arte da espada e 
na sua certeza à pistola encarava todos os acontecimentos da vida como um ga- 
lhardo reitre. Chicoteara o sindico de Milão; tivera outras aventuras de estrondo, e, 
considerado na corte, ajudante de ordens do príncipe real Humberto, quando da sua 
vinda a Lisboa, ele de fronte alta, coração ao pé da boca parecia, mesmo à paisana, 
trazer sempre a mão no punho dum florete. 



Sortiu, no Largo das Duas Egrejas, à frente do insultador do parlamentar, exci- 
tadamente o provocou em arremetida de o escarrar e, sem a intervenção do medico 
Bento de Freitas Soares, teria recebido o tiro com que Oliveira Pinto se propuzera 
vingar a insolência. Chamara-lhe cobarde. 

No dia seguinte ficava no campo de Palma de Cima o amigo de Ca- 
milo. 

Crescia a aureola do duelista que se escondia das autoridades em casa de 
seu primo Francisco de Rlpoim, e logo passara para a de Martinho Homem de Bre- 
derode, visinha do cais de José António Pereira que ligava, pelo boqueirão das ter- 
cenas pombalinas, com o Tejo. Deste modo foi íacil ao perseguido entrar a bordo 
dum navio francês que o levou a Itália, esquecido, porventura, da campa aberta por 
um alarde do seu impulsivismo, pelo fanfarroneio do combate. Rssim, levantado em 
honrarias e glorias de blasonador quilate, foi para o casamento com uma filha do 
visconde de Borges de Castro, emquanto a família do morto, sem vingança possível, 
chorava. (*) 

O romancista não ocultava a sua magua profunda, a sua amarga dor, porque 
cm seu coração existiam, ainda e sempre, as recordações do bem recebido de quem, 
vivendo no cumulo da fílicidade, era atirado para o cemitério dos Prazeres num 
arranco de fúria combativa c exibicionista dum profissional das armas c das 
brigas. 

<R morte de José Júlio — escreveu desolado c saudoso — pungiu-me deveras. 
Foi muito meu amigo aquele honrado e brioso homem. Quando eu fui preso ou 
me recolhi à cadeia, José Júlio enviou-me uma portaria para que eu pudesse sahir a 
passeio. Imagine V. Ex.^ como cá me bateu no coração a bala que matou o homem 
a quem eu devia a liberdade em 380 dias de prisão. Tenho chorado c fujo para 
chorar à vontade. Que feio mundo este e que boa e consolaliva é a certeza de o 
deixar d'aqui a pouco.» (**) 

ía-se enchendo de lombas de sepulcros o caminho da sua existência. 

R casa da Gazeta Literária do Porto era na Rua do Almada, 171, porém a 
verdadeira redacção, onde se laborava o semanário, ficava na Rua do Triunfo, (***) 
defronte da entrada dos carros para o Palácio de Cristal, inaugurado, havia trcs anos, 
no sitio da Torre da Marca. 

Contratara-se Camilo Castelo Branco para dirigir uma publicação, na qual, com 



{*) As testemunhas de Oliveira Pinto, foram o coronel José Paulino de Sà Carneiro, comandante 
do 7 de infantaria, e António Camilo de Almeida Carrilho, deputados. As do adversário, D, Rodrigo de 
Almeida, tenente de cavalaria e sobrinho de Saldanha e Eduardo Montufar Barreiros, filho do general 
visconde da Luz. Sá Nogueira voltou cm 1872 para Portugal e entrou no exercito por uma lei especial, 

Trabalhou largamente, nas suas propriedades do Alemtejo c morreu em 1897 como um gentilhomeot 
agricultor rico. feliz e admirado. 

(**) CastUho e Camilo, por Joio Costa, pag. 198, 

{***) Alberto Pimentel — O Toiiumdo de Selde, paj. 183, 



-222 — 



as elegâncias, tão gratas à camada peralvilha, se inserissem composições poéticas, 
trechos de boa prosa, animadas paginas, por preço razoável. (*) 

Forrageando materiais para um livro, o romancista (•*) topara o titulo conve- 
niente ao que se lhe pedia. Havia exactamente cento e sete anos que o cónego 
secular de S. João Evangelista, Francisco Bernardo Lima, inaugurara no Porto a folha 
inicial, a matriarca de tantos e tão iluminantes noticiários da cidade da Virgem. 
Chamara-lhe Gazeia Litleraría ou Noticia Exacta dos principaes escriptos moder- 
nos. Obra periódica, (***) a qual correra com as licenças da Mesa de Consciência 
c Ordens. R esta bafienta folha fora o novo redactor buscar a designação e, no dia 
6 de Janeiro de 1868, apareceu o primeiro numero, no qual, após a apresentação, 
que ele assinava, se estampava uma carta interessante e que dizia assim: 

<.Meu amigo. O grande devastador de reinos e impérios não apaga no coração 
do homem a saudade dos dias felizes. Essa vive eterna até que o corpo resvale no 
sorvedouro do nada, a alma solta e livre voe, emfim, ao mundo indecifrável e mis- 
terioso do infinito. 

<.Ri! a memoria, meu amigo, a memoria l> Relembrar é o mais amargo dos 
absinthos para aqueles a quem o mundo despojou da esperança, dos sonhos, das 
chimeras e de todos os mágicos encantamentos dum coração virgem, opulento e 
nobre, dos vinte e dois anos.^ 

<.Conheceu-me você por essa época pouco mais ou menos. Éramos ambos mo- 
ços; arrastava-nos a mesma atracção. Caminhávamos a par na embriaguez dulcís- 
sima duma aspiração irresistível! 

<E hoje que resta de tudo isto? De mim o digo: uma pouca de matéria pe- 
sada e estéril; um coração árido e vario; uma cabeça gelada pelo nordeste do in- 
fortúnio. De você não sei. O que me dizem seus livros, que se sucedem uns após 
outros, é que o seu espirito remoça iodos os dias como reverdecido por uma eterna 
florescência, enquanto eu me vejo entanguido e mortalmente dissecado. 

tNas minhas horas escuras, sendo-me necessário sarjar feridas antigas, escrevi 
o papel que lhe remeto. 

<Leia, publique ou rasgue, conforme lhe parecer melhor. 

<Dê vida . . . ou aniquile o lavor do cadáver. Sobretudo, silencio e respeito aos 
mortos: não lhes rasgue nunca o sudário. Seu velho amigo, Gastão Vidal de Ne- 
greiros.» 

Esta prosa desentranhava ironias. Evocava aquilo a que o escritor chamava <o 
tormento da memoria>, revelava uma alma cm pena, a enviar-Ihe o romance do seu 
viver antigo, confessando-se <uma pouca de matéria pesada e estéril, um coração 



{*) Cnitava, pira o Porto, 1$400 por semestre; para a provincia, 1$S20 ; para o Brasil, 1$900. 
Por ano, respectivament*, 2$600. 2$840, 3$600 r<i$. 

(••) A Sereia. 

(***) O padre publicou a Gaxeta desde Janeiro de 1761 a Junho de 1762. Ele falecen em 1764, 
•penas com 37 anos. 



- 223 — 



árido e vario como se respondesse às tristuras e aos arrancos com que de, por 
vezes, celebrava as exéquias dum grande amor. Deste modo, Rna Plácido, sob o 
pseudónimo, ajudando Camilo a ganhar o pão do lar, se mostrava ferida embora 
fosse sempre a dedicada amiga debruçada sobre o seu leito de enfermo. Mal saíam à 
rua; nem mesmo abriam as janelas sobre as festas portuenses, nesse Janeiro de es- 
pectáculos no Palácio de Cristal que lhes defrontava a residência (*). Ela fizera da 
sua paixão uma saudade, empregava uma das mãos em embalar o berço do filho 
mais novo, noutra tomara a pena e, na sombra daqueles apelidos celebrados, puzera-sc 
a escrever, fornecendo auxilio à economia da casa. Numa evocação terna, procurara 
no nome de sua mãe os apelidos arvorados nos quais existiam todas as letras das 
silabas de B.naRugusta Vieira, (**) embora substituindo os uu por oo no segundo sobre- 
nome. Imaginar-se-ia que fora buscar esse abrigo literário à retumbancia dum celebre 
guerreiro do Brasil; porém, bastaria considerar que o hsroi se chamava ilndré 
cm vez de Gastão, para se verificar um propósito de integramento na lembrança ma- 
terna, de resto palpitando, fortemente, no romance Regina, oferecido à Gazeta Lite- 
rária do Porto. 

Camilo respondera lego, no seguimento da carta descoroçoada : 

«Não se chama Gastão Vidal de Negreiros o meu amigo que ha quinze ou 
mais anos vv. ex,", que já hoje são avós, também conheceram com um nome tam- 
bém bom para romance de amores, etc.^ 

Descrevia-o como um cavalheiro primoroso ; relembrava num ardimento, as mu- 
lheres de então, e exclamava, ao recordar-se de suas encantadoras pupilas analiza- 
das ao cabo do tempo e do convívio: 

<E às vezes em que estado vê a gente os tais olhos onde os jardins do pa- 
raizo se lhe espelhavam l Aquelas lagrimas a tremelazir como pérolas no que se 
converteram i 

^Excreções nocivas que a mão tremula e averdogada — a mão que beijámos 
com respeitosa tzrnura — está agura combatendo com a pomada anti- oftálmica da 
viuva Farnier.y 

ilna Plácido era sempre formosa, mas engordara um pouco e, como existia entre 
ambos o mal da convivência, a enfermidade dos contactos constantes, a morte dos 
desejos materiais, a trivialidade da existência, cspreitavam>se mutuamente. R mu- 



(*) <0 Giilo Cacho, o Fontaíahas, o Fídaaza e a Giat?, sujeitos qu; resplandecias! na prosperidade 
do Teatro Nacional, do Porto, cliegado ao sen apogeu, para depois cair até à I.tês dt Castro, representada 
hoje, 5 de Janeiro de 1868, no Palácio d: Cristal. C palácio faz avançar a gente a empurrões.» — Camilo 
— O Sangue, 2.« ed., pgs. 108409. 

(**) André Vidal de Negreiros foi um grande capitão brasileiro que começara a combater os holan- 
deses em Pernambuco em 1636. A coincidência de existirem nas letras dos seus apelidos, as acima apon- 
tadas, deve ter motivado a escolha de Ana Plácido, qae os leu no artigo que Camilo escrevera sobre esse 
notável militar na própria Gazeta Ltterana, trasmudando, todavia, André em Gislão. 



— 224 — 



Iher, porem, era mais generosa. Ele, gostava da mãe dos filhos de forma diversa 
porque amara a esposa de Pinheiro fllves. 

<Parabens porque morreste, Gastão l continuava — Que virias fazer aqui ? Sa- 
bes lá de quantos suplicios te forra essa morte ? Nunca te disseram o que hoje são 
aqueles que foram na tua mocidade os inspiradores da tua poesia ?> 

E chasqueava : 

«Não queiras vêr os nossos contemporâneos mas as nossas contemporâneas, 
€ssas então não as queiras vêr de modo nenhum se ainda te comprazes em repo- 
voar as tuas fantasias com as figurações de Laura, de Margarida de Ofélia, de Leo- 
nor, de Henriqueta, de Cecília, de (reticenciava como numa gargalhada e 

concluía: «de t^ês dúzias . . . não eram três dúzias, as mulheres que te amavam no 
ano económico de 1848 a 1849 ?> (*) 

Dcscrevia-as em exageros, trcçava-se c espicaçava : «a Margarida que os meus 
rorrances, de ha quinze anos, verberavam cm castigo da sua despótica formosura, 
tambcm hoje me castiga a indiscreção de rapaz. Doe-me vê-la tão vexada pelo tempo 
que lhe vestiu as esveltas e ílexiveis formas de enxúndias tremendas, de papas c bu- 
chas variadas no tamarho e feitio que julgarias romper do centro daquele esferóide, 
uma irradiação de estômagos. > 

Parecia castigar num propósito com suas casquinadas e apiedava-se, por fim, 
para não deixar duvida de que quisera contundir como um excitado, c fazer-sc per- 
doar como uma creança : 

«A^ão te digo mais nada, porque sei que vai muito espremido o fel da esponja.* 

Ddva-lhe conselhos sarcásticos e acabava na sua costumada reparação depois 
de ter maguado não abdicando das suas qualidades punidoras e tampouco das ga- 
lardoantes. 

<- se al£[uma hora vagares ao outro martírio da recordação, escreve, que eu 
nunca direi quem é o desgraçado, que, sob o pseudónimo de Gastão Vidal de Ne- 
greiros, tocou o extremo infortúnio de escrever romances.* (**) 

Ela, com fefeito, traçava uma novela e como sempre, era a da sua vida de sol- 
teira, que a tornara desditosa. Intitulara-a Regina e abria numa saudade do Porto 
burguês Icuvando-o. Parecia que a romântica abdicava. 

Exolçãva os lares; sentia-se, porém, imediatamente, o regresso da rebelada. 

Descrevia passagens imaginosas em fundos reais. Pintava uma familia por- 
tuense, sãcrif cando duas lindas filhas, Regina e Eugenia, a casamentos de conve- 
niência e sentia se nos trechos realistas que traçava, entresachando nos períodos fan- 
tasistas todo o doloroso sofrimento do seu noivado. 

Elas — as irmãs — amam e sofrera porque sentem a contrariedade dos pais ante 
os noivos escolhidos pelos seus corações. Regina, apesar de ser ainda muito menina, 
parecia mulher por suas formas estatuais, prendera-se no afecto não dum celebrado 



(*) Era nma alniio clara á Tclkice t^at te aproximaTt, e aos anos que se conheciam. 
(••) Doe. I. 



Foi. t5 -225 — 



dum singular devorador de corações, mas no enleio dum simples, dum romântico 
eterno rapaz seu companheiro de iníancia. Escrevia isto, lado a lado do amante, na 
casa da rua do Triunfo onde lidavam como camaradas nas letras. E a novela decor- 
ria nesse amor da heroina por Salvader — assim se chama o moço — e na paixão 
de Eugenia, por ura amigo dele de nome Rafael. Encantava-as o falarem dos namo- 
rados nos recantos queridos da quinta de Balbom, onde o negociante Anselmo da 
Costa, costumava levar a sua gente ao veraneio. E foi ali, numa tarde de domingo, 
em que volítavam borboletas sobre os canaviais ensoaihados, o logar do suplicio onde 
souberam como se decidira de seus destinos. 

Um dos recem-frequentadores da casa, quarentão c capitalista Juslino fílvim — 
nem disfarçava muito na novela o apelido do morto Pinheiro Alves que a infelici- 
tara — aparecera apresentado por um visconde cujo maior desejo consistia em levar 
para o leito conjugal a beleza fresca, a virgem, a encantadora Regina. Para Eugenia 
se volviam os olhos cubiçosos do outro. O titular confessava o seu afecto, numa 
singular maneira, à creança apetecida. 

«Desejava ser filho do seu papá» ! Quando ela quiz rir-se, retraiu-se porque com- 
preendera tudo e, quando foi procurar refugio nos braços da mãe, a doce D. Antó- 
nia, tão receosa do futuro das filhas, encontrara- a indecisa, desejando vê-la bem am- 
parada mas, ao mesmo tempo, tremendo porque em seu espirito ingénuo vivia a eterna 
impressão de que um destino malévolo perseguia aquela filha desde o berço. 

Procurava dissuadir o marido, (*) porém no animo dele não se fincara profun- 
damente a sua influencia. Debalde lhe dizia que, aguado do seu nascimento, «o virus 
das lagrimas amargas da desesperação, se tinha coado no seio do entesinho que lá 
vivia.» R orelhas moucas revelava o seu presentimento : «quando o vi nascer para 
tão pouco, parecendo que um leve sopro apagaria aquela luz de vida quasi a extin- 
guir-se, senti um aperto no coração inexprimível ; uma sensação de terror que quasi 
me desejava vê-la apagar-se. E daquela hora em diante ficou-me a convicção que a 
desgraça será sua companheira.» (**) 

Para cousa alguma, serviu este alarme torturante, e apesar de sentir como 
«o seu desenvolvimento fisico, é que não condiz cora as suas ideas, pensamentos,» 
Regina foi forçada a obedecer c a casar-se. Na hora em que a sua mão, e quasi 
violentamente se enlaçou na do visconde, por detraz dum pilar do terapio, o apaixo- 
nado Salvador desvairava c saía do perfume do incenso, ourado, semilouco para o 
leito de seu penar. 

Depois do consorcio dela, seguia-se o da irmã. Eugenia, muito débil, sofrendo 
duma queixa de peito, deixou-se arrastar, sacrificou-se, recusando ao seu Rafael o 
ser dele, fugitiva, raptada, pois os seus a amaldiçoariam. 

Ao cabo duns meses passou dos braços do esposo detestado para a jazida onde 



(*) Na Revista Literária. 

(**) Corresponde ao que escrevera na Luz Coada por Ferros c-3 relação aos presentimentos mater- 
nos a seu respeito. 



a irmã, quiz ir ajoelhar antes de partir para a Madeira onde esperavam curá-la dum 
mal de languidez que a ferira também. 

No cemitério da Lapa, perante o tumulo da imolada como ela, escutou as quei- 
xas do seu companheiro de infância, soluçante e desesperado, de mal com os vives, 
procurando consolos no silencio da necropole. 

Comovera-se e almejara um rápido fim; no dia seguinte partiu com o marido. 
Encontrou, lentamente, resignação enorme; salvou-se da sua enfermidade e quando 
regressou aparecia exuberante, magnifica, õtraindo todos os olhares. Em Lisboa, os 
elegantes adoravam-na e com as suas recordações vivia ao passo que o visconde, 
sentindo o regelo de tão formoso corpo, procurava nas caricias pagas de uma baila- 
rina o consolo das derrotas no lar. E exibia-se, gabava-se, desvanecia-se da amante 
como num desafio à esposa. Então, certa manhã, Regina chamou-o à sua saleta e 
falou-ihe claramente: 

<Muito para considerar fora o exórdio já; porém, às ultimas considerações, o 
visconde a quem o amor já não enfreiava temeu a cólera. > 

Hqui terminou não o romance roas o jornal que chegara apenas ao n.° 15. Uma 
nota da administração elucidava os bem limitados leitores: 

<Por vermos insuperáveis as dificuldades com que lutamos para darmos cm 
tempo competente es figurinos de modas aos assinantes, resolvemos suprimi-los e 
darmos em vez deles mais duas paginas de leitura cada mês c um romance de autor 
conhecido no fim do ano.> 

Deste modo findou, ao cabo de três meses e meio, a Gazeta Literária do Porto 
na qual os dois redactores se espicaçavam. Por grande amisade por Camilo tinham 
colaborado, também, Castilho com as Sabichonas e Ramalho Ortigão com evocações 
do Porto da sua infância. 

Rna Plácido analisara, além da sua alma, os livres Sons que passam de Tomás 
Ribeiro, Quadros Cambiantes de Cândido de Figueiredo, criticara Pinheiro Chagas, 
Junqueiro e Hlberto Pimentel, engendrara descrições de figurinos ao passo que o 
ilustre Camilo, no intervalo afanoso dos romances, tracejava revelações históricas c, 
numa cólera, sarcástico e tremebundo, descrevia o Minho, mostrando-o sob o titulo 
 Inocência das aldeias (*), apesar de era suas belezas ter achado o ambiente para, 
as paginas ternas, doces ou amarguradas que no ano anterior publicara (**). 

Trabalhara apressadamente, como sempre, e descrevera deste modo o fim da sua 
aventura literária, quando ao chegar o escaldante Hgosto voltara a procurar no rincão 
minhoto mais frescura e a beleza da paisagem do que a formosura das almas : 

<R Gazeta morreu no n.° 16. Estrangulou- a o proprietário roubando os assinan- 



(*) Aparscram ainda noutro ambiente; A deida do Candal, Cavar em Ruínas, Cousas leves e pêsada» 
Durante o ano de 1868 — o da Gazeta Literária — publicara no mesmo scenario minhoto: Mistérios de Fafe 
I loiSo O Sangue, o Retrato de Rleardlna t ainda Mosaico e Silva de curiosidades lústorlcas, literárias e bio- 
gráficas. 

(•*) A Bruxa de Monte-Cordova e o Senhor do Paço de Nlnães. 



-227 — 



fcs c roubando-mc a mim 70SOOO reis. Não me espantei. É o 4.» velhaco que me 
explora. Dificilmente serei logrado por outro» (*). 

Recolhidos na residência escolhida para a labuta passaram o inverno e o começo 
do verão enquanto dtfronte, no Palácio de Cristal, continuavam as festas. Rs senho- 
ras mosb-avam as suas toilettes, senlavam-se em cadeiras de ferro a ver passar as 
elegantes, muito aprumadas, deixando-se admirar, ao longo das aleas; apareciam ofi- 
ciais de cinturinhas apertadas nos uniformes, os de caçadores, com suas golas pretas 
de veludo, os de infantaria, de canhões azuis claros ou brancos c em vermelho e 
azul o estado n^aior e todos eles, na roda dos janotas, espartilhados c fatais, de ca- 
beleiras à Garrett, olhavam as damas portuenses que arejavam, quebrando os antigos 
hábitos caseiros cortados pelos estádios curtos do velho e abundante jardim de S. Lazaro. 

Lá em cima, naquela casa fechada, os moradores trabalhavam sempre para ga- 
nharem o pão da sua vida e de t;ês crianças que traquinavam nas salas distantes. 
Manuel Pinheiro fllves, com os seus onze anos, começava a ter propósito. Era muito 
claro, de cabelo alourado, com os lindos olhos da mãe, robusto, de sangue bem tem- 
perado. Jorge Castelo Branco começara por dar grandes esperanças; vivo, inteligente, 
de belo aspecto, chegara aos cinco anos e amodorrara. í\ mãe ia dar cora ele nos 
cantos, meditabundo, outras vezes a chorar sem motivos. Gostava de ouvir musica 
como se as harmonias o acalmassem, ao contrario do pai, que se irritava com os 
sons e apenas no fado encontrava encantos (**). 

O pequenito distraía-se com lápis traçando bonecos, enchia-se de curiosidades e 
de graças, porém, a súbitas, aranesiava-se, rancores fundos subiam a seus labiositos, 
e Camilo encontrava nessa desigualdade de sentimentos sintomas de génio. Auto- 
observava-se, via reproduzido o seu temperamento e julgava-o requintado nesse filho 
do seu amor, o mais amado, o mais querido, queria vêr em todas as manifestações 
da criança alguma cousa de superior. Enchia o espirito desta ideia e apontava à mu- 
fiíer, entristecida, os prodromos daquele desiquilibrio como marcas de altos talentos. 
Ela, aterrada, não o desenganava. Sabia-o já um louquinho e ocultava-o do homem 
em cujos braços sentira o arripio da grande paixão na qual se gerara esse ser sin- 
gular, desvairado, estranho, em cuja meninice ainda se podia disfarçar a sua doença 
impossível de esconder quando chegasse à idade dos estudos. E Ana Plácido chorava 
vendo naquele filho o castigo. O outro, Nuno., formoso, robusto, parecido com Ma- 
nuel nos olhos e nos cabelos, gostava muito do irmão, brincava, não se saia em re- 
velações que enchessem de alegrias a alma do escritor mas também não turvava 
com elas o coração sofredor da mãe já tão provado pelo mau destino. 



(*) Visconde de Vila Mou "a — Ca/nZfo Inédito. — Carta para Inocêncio Francisco da Silva< O editor 
era Anselmo de Morais ao qual Camilo escreven: <Pieciso qoe tome nma deliberação antes da minha 
saida com tefertncia às publicsções começadas e aos salários Tencidos da Gazeta Literária. A não conti* 
nnar Y. S.^ o Mosaico considero-me proprietário dos artigos publicados; e o mesmo se entende com a Re 
^na, eto — Vol. II, Cartas de Camilo Castelo Branco — publicadas por Cardoso Marta, p^. 26. 

(^) Sena Freitas — Perfil de Camilo Cabelo Branco, nora ed., pg. 52. 



— 228 — 



Na aldeia continuavam a receber as cartas felizes de Vieira de Castro, escritas 
do Brasil. Confia va-se-lhes; narrava o entusiasmo da colónia à sua volta, as festas 
que lhe ofereciam, os casatientos era perspectiva e até as quantias dos dotes das 
noivas que saíam à sua escolha. Tmha futilidades; confessava-se-lhes como a si 
próprio, abria o coração radiante àquele par que na casinha de Seide via crescer as 
infelicidades; ele doente, mal dos nervos e da vista, ela turbada a exclamar diante 
da insensatez dum filho, da vulgaridade do outro e da apatia de ambos pela cartilha : 
«Não sei a quem saem estes dois brutinhos!» (*) 

Era aquilo um singular desabafo de mãe aterrada que corria logo a beija-los e 
a bem quere-los, tanto mais a dar lhes o seu amparo, quanto mais desditosos encon- 
trasse essas ruínas, esses destroços de intelectos que o pai sonhara geniais. 

Aquelas missivas alegres, vindas de tão longe, quebravam um pouco os males 
da existência cheias de melancolias ou irritada nevrose. Começavam a habituar-sc á 
idéa da felecidade do a^jigo que de preferencia se dirigia a Hna Plácido em consultas. 
Não os esqaecia ; já desdenhava a outra amorosa, a do Rlgarve, casada c pecadora ; 
contava as suas venturas )á longe, e, emfim, apresentava nas laudas duma carta 
mais ardente, a noiva escolhida, aquela que encheria a sua vida. Não a tratava pela 
nome; chamava-lhe anjo, conforme o habito dos amorosos, ainda nesse ano de 
1868. 

D. Claudina Rdelaide Guimarães sobrepuzera-se no coração do orador famoso 
à imagem de D. Henriqueta Couceiro, que assim se apelidava a apaixonada traidora 
de seus deveres no fundo da província algarvia. K prometida tinha desassete anos 
e já amara. 

Estreara- SC bem cedo nos afectos dedicados a um empregado de comercio da 
sua idade e ao qual a familia não a daria. Voluvelmente aceitara a côrle de Vieira 
de Castro que contava mais doze anos do que ela. Escrevia-lhe enternecida, eloquente 
e fascinada : 

«Sou sua e promelo-lhe ser muito verdadeira c só dizer- lhe o que sentir mas 
desejando que não torne a repetir estas palavras : «J'ai peur de croire en toi.» 

Hjunta/a uma alambicada expressão mais de meiguismo banal, que de ingenui- 
dade: «/\ Nené lhe jura crer em si e ser sempre constante ao seu querido Jucá. 
Que feliz é a Nené t 

Andavam embebidos naquele grande afecto em que se ligavam, excitava-se a 
brasileirinha, cm amavios e requebros. Ninguém a diria bclbotreira, ou nalgum tempo 
capaz de ser treda. 

«jucá, meu esposo, adoro-te. Que recordações de hontem I 

Que momentos felizes ! Como me ha de parecer longa a tarde longe de ti !> 
Assinava já Nené Vieira de Castro, mais radiante com aqueles apelidos celebres do 
que se fosse usar uma coroa fechada. 



(•) Alberto Piatentel — Os Amores d* Camilo, 2* ed , pg. 336. 



-2W- 



Ele desvairava; não trocaria pelos duzentos contos das outras os vinte que os 
país davam a D. Ciaudina com as suas jóias. Anunciava para Seide a sua viagem 
à America do Norte que o captivara, encantara-se, enchera-se de aspirações de liber- 
dade. Passara a Inglaterra e a França sem que a noiva se mostrasse ensaudada dos 
seuá (*) e quando, por morte do sogro, falou em estabelecer-se cm Portugal ela íoi 
a maior no incitamento da partida. Dentro cm pouco estavam instalados em Lisboa, 
na rua das Flores, 109. 

Acorreram às reuniões do insigne orador os politiccs e os escritores. Uma das 
visitas mais intimas era Rodrigues Sampaio, que adorava aquele temperamento fogoso, 
impulsivo, cheio de nervos c para o qual se alargava um grande caminho ; Teixeira 
de Va^^concelos, soltou varias vezes na sua sala ditos de espirito mais saborosos 
pólo arrastamento da gaguez do jornalista sarcástico e ilustre. Ramalho Ortigão ama- 
va-o fraternalmente e sua esposa era uma das grandes amigas da brasileirita, toda 
tonta com a vida lisboeta; Tomaz Ribeiro íôra lá uma vez. 

Apareciam, ainda, o grande jurisconsulto Paiva Manso, o elegante conde de 
Rezende, julio César Machado, o comerciante Pereira de Miranda (**) que, tateando 
na politica, admirava aquela eloquência arrebatadora. Apareciam, ainda, os românti- 
cos, Castilho, os filhos, os amigos de Camilo, que nunca visitou o seu grande defen- 
sor nos dias da felicidade, nessa casa encantadora aberta a todas as delicadcsas. 
Enh-c os ilustres frequentadores da moradia assistiam-se os elegantes, os peralvi- 
lhos presos pelos olhos esbraseantes da senhorinha. 

Ela, ao cabo dum ano e meio de casada, deixars-se enlevar pelas gentilezas de 
José Maria de ftlmeida Garrett parente do escritor celebrado que devaneara em amo- 
res até mesmo quando a velhice lhe devia ter enregelado o coração. O namorado 
moço procurava-a propositadamente, a horas em que o marido se ausentava, c ela 
recebia-o. Entrara a ama-lo naturalmente, nos mesmos arrebatamentos que aos quinze 
anos usara para com o caixeiro e aos dcsassetc a levara a ardentes explosões, a 
dcDguiccs faceiras, a lançar-se nos braços Icaes do marido trintão barbaçudo mas 
cheio de renome, de gloria e de amor. 

Começara a notar-se o constante aparecimento de Garrett no palacete; as orça- 
das reparavam c b-ocavam impressões sobre o caso, andavam receosas, alarmadas, 
com medo de alguma desconfiança do senhor. D. Emilia Ortigão reprecndcra-a, che- 
gara a dizer-lhe que não voltaria ali se ela continuasse a acolher aquela culposa 
corte. 

Quando as servas viram a ama a pcrder-se aos poucos mostraram-se muito 
suas amigas. Sentiam que mandavam naquela casa, onde a boneca se enfeitava, 



(*) Sju pii era o grande capitalista comendador António Gonçalves Guimarães,' a mie chamava-se 
D, Ana Maria Guimarães. 

(**) Chegou a ser ministro do reino e provedor da misericórdia. Neste tempo estava estabelecido 
na roa dos Fanqueiros, 84-2.° 



— 230 — 



fazia loucuras e escutava as frases enternecidas do mancebo, a propôr-lhe fugas ro- 
mânticas, porqu2 não era possivel ela <gostar daquele homem que podia ser seu 
pai.» (*) 

Deram-se scenas teatrais entre ambos. Claudina, com as mãos presas nas do 
apaixonado, ourava-se, gritava numa alucinação, desejava-se longe do esposo ao qual 
havia tão poucos meses ainda, doidamente dizia querer. 

Duas das servilhetas entraram na saleta, a tempo de ainda ouvirem o demen- 
tado exclamar ante o receio que traziam em seus ares assustados prevendo a chegada 
súbita do atraiçoado. «Pois que venha e eu lhe cravarei um punhal nas costas.» 

Devia ser um excitado este parente dum génio. Mesmo diante das duas mulhe- 
res de serviço (**) tomara atitudes, declarara que nunca mais voltaria. Era já o 
amante, para poder impor-se-lhe assitn, dominava-lhe o espirito. Partira e deixara-a 
a soluçar, numa cadeira, diante das mercenárias e da amiga. 

Perturbadíssima cora a idéa da próxima viagem de Garrett a Roma não socc- 
gava mais. Fazia tudo para o vêr, e não se coibia de dizer abertamente que o amava (***) 
tanto quanto detestava o marido, mostrava-se dum grande desapego, despe>ada- 
mente, decidida a tudo, e dando tão pouco conta de seus modos que o esposo, já 
desconfiado, começou as suas dolorosas experiências, fllguem o prevenira, talvez. 
Naquela noite de maio (****j saíra para voltar a súbitas e deparara com a mulher 
sentada à secretaria e escrevendo. Saiulhe detraz dum reposteiro, engrifou a mão 
nervosa no pulso frágil da adultera, arrancou-lhc a carta, que ia fechar e viu nessas 
paginas toda a confissão da sua culpa. 

Claudina atirara-se num choro convulso para o sofá ; ele lia com o inferno a rcfcr- 
ver-lhe no peito: 

<Sonhei que me tinhas mandado o raminho de violetas que trazias ao peito, 
foi apenàs sonho l não tiveste a meiguice de mo mandares, não te devias esquecer 
para que a tua filhinha ficasse muito alegre; assim estou triste. Por estas coisas é 
que eu acredito no que me dizem de ti. Preciso convencer-me que hoje só me 
amas a mim e que nunca me disseste uma só palavra que não fosse verdadeira ; 
sofro atrozmente quando penso que tu me poderias ter enganado. 

Filho, eu adoro- te, estou cada vez mais apaixonada por ti, não sei o que sinto, 
não te posso explicar, sou feliz e desgraçada ao mesmo tempo.:i^ (****«) 

Ele ia devorando aquelas palavras dilacerantes; serenava o Ímpeto de a espan- 
car; parecia não poder acreditar nesse horror sem nome entontado ante o que ela 
assinaro. Não era um oandído amor de mal casada. Ressumavam lascívias das 



(*') Toda esU nossa narrativa é fielmente extraída do proc:sso. 
{**) Lropoldina Amélia do Espirito Santo e Josefina da Conceição. 

{***) Uma vez pergnotei-lhe se não tinham casado por amor e ela respondeu-me qae sim mas que 
depois o aborreceu a ponto de o não poder vSr. (Depoimento da testemunha Josefina da Conceição.) 
(****) Em 6 de Maio de 1870, 
(*****) Carta apensa ao processo. 



— 231 - 



Irases, a ardência histérica duma perdida bulcoava das caricias confidenciadas a um 
belo papel perfumado, na quietação dum boudoir de burguezinha. 

Pedia o retrato ao amante, ordenava-lhe que lhe enviasse também o duma fran- 
cesa da qual tinha muitos ciúmes, para não s?ntir na sua recusa as palavras tortu- 
rantemente adivinhadas em sua boca desde que não lhe obedecesse: <:não te dou o 
retrato porque não te smo e amo-a ainda a ela». Seguia na eterna toada das cartas 
das falsas, das adulteras, com o ele depreciativo para o marido : «Vai hoje ao cama- 
rote quando ele não estiver para vêr se podemos falar> e, depois de mais zelos,, 
afrodisíaca, impudica, acrescentava: «Rdeus até logo; olha muito para mim e tem 
cuidado em não olhares para mais ninguem>. E logo, numa nova queixa disfarçada 
cm desdém, o instintivo picrroxil das fêmeas: «Faze o que quizeres, porque me é 
indiferente que olhes para mim ou para outra qualquer; até é melhor». 

Caíra de joelhos, arrastara-se aos pés do marido que a amava com os seus 
vinte anos c os encantos lascivos de morena, suplicava lha, dizia-se uma doida, cho- 
cavam- se-lhe os dentes no arripio do medo. E não a matou logo; teve a coragem 
de sentar-se no seu lugar, diante dela, na sala da mesa. 

Foi um inferno a sua agitada noite. Não a assassinou junto dessas letras porque, 
lhe queria muito e agora, pelo fenómeno da saudade du que se perde, pelo inato senti- 
mento do macho ao vêr-Ihe disputada a ffmca, o homem tão cheio de talento c de 
energia acobardava-se, quedava- se num doloroso anceio. Devia lembrar-lhe, talvez 
nesse momento cruciante, a dôr terrível de Pmheiro Alves quando do adultério da^ 
mulher, da i\na Plácido, defendida com gritos arrojados contra a sociedade dos bur- 
gueses portuenses que não deixavam emar-se livremente dois românticos corações. 
E que era ele ali, amarfanhando aquela carta no bolso, além dum banal ciumsnto 
que nem se atrevia a lavar a sua honra como o Nacional dissera do «brasileiro, do 
ricaço, ferido por toda uma grei de românticos?! 

Telegrafou, nessa manhã, ao irmão António pedindo a sua comparência em Lis*^ 
boa, ficara em casa e acarinhara a netinha de Rodrigues Sampaio que viera passar 
o dia com a sua amiguinha. Tocaram piano c a criança reparara que D. Claudina 
tinha os olhos vermelhos de chorar. Daí a pouco aparecera Ramalho Ortigão, cha- 
mado à pressa, e, íechantío-se com ele no escritório, Vieira de Castro contou- lhe 
tudo numa fria serenidade e pediu-lhe que fosse, em seu nome, desafiar o amante da. 
esposa para um duelo o qual se realizaria naquela mesma tarde. Depois saiu, me- 
teu-se numa carruagem, mandou-a seguir para Belém e entrou na melhor botica local 
cujo proprietário, Pedro Inácio Franco, era muito seu conhecido da politica (*) onde 
tratava largamente. Não o encontrou; linha ido assistir a uma festa de igrejí na Luz 
e para lá mandou bater levado pela ideia fixa, alucinante, a que os homens da lei 
chamam premeditação, mas no fundo é apenas o mandado dos ancestrais insistindo 
num selvagem dominio c levando o homem a matar cm nome da animalidade ou 
do preconceito. 



(*) Depois conde do Restelo, 



— 232- 



Pedira ao farmacêutico um pouco de clorofórmio c ele entregara-lho mal imagi- 
nando que pessoa de tal mentalidade estivesse meditando um crime. Devia ter uma 
estranha atitude aquele acusador dos burgueses ciosos das mulheres quando pensasse 
nos prmenores estranhos da sua tragedia do lar. 

h maldita carta estava na sua algibeira, lia-a a mcude, procurava nela e na re- 
cordação dos quentes beijos da infiel a coragem para tuda quanto deliberara praticar. 
Ramalho Ortigão trouxera lhe a noticia de que Almeida Garrett recusava baler-se. 

Fora encomendar ao alfaiate Nunes Correia um fato preto, ao seu sapateiro umas 
botas de verniz. Era o luto púã mulher que ia matar. Ao sentir-se só, na noite alta, 
atormentado pelas kíras horríveis, sentia que não poderia figir à sua terrivtl deter- 
minação. Um amigo dedicado que não o abandonasse, nessas horas desesperantes, 
tê-lo-ia SôUo; entregue a si mesmo, vendo fugir-lhs o homem que o desonrara, sen- 
tindo ali perto a mulher que espazinhara o seu amor, não se contivera. Rbrira sem 
ruido a porta da alcova onde ela dormia, vira-a, linda, num desalinho de roupas, na 
noite quente de Maio. Exalava uma tentação; e se não fosse ali para a matar, a ideia 
de que tanta bchza se entregava a outro torná-lo-ia assassino. Chegou-lhe às narinas 
o frasco do clorofórmio. Não a queria ferida; não desejava derramar- lhe o sangue; 
vê-la-ia acabar quasi sem sofrimento. A luz suave da lamparina, naquele quarto lu- 
xuoso, onde se tinham amado, entre as finas roupas de bretanha, o corpo da n-.ulher 
estremeceu. E, ao senti-la repelir o frasco, ao ver lhe os olhos assustados de quem 
acorda em sobressaltos de maus sonhos, quizera obrigá-la a respirar o anestésico. 
Repeliu o, gritando : 

— Acudam ! Hcu-IaTi I... Expirou-lhe na garganta o brado de socorro. O marido 
tapava lhe a boca, chegava- lhe o frasco ao nariz, puxava a roupa do 1 ito e sofuca- 
va-a cheio de rancor, livido, em gestos fantásticos na claridade calma que alastava 
nas part-des as sombras bruscas dos seus gestos assassinos. 

— Cala-te 1 Cal a- te ! . . . murmurava roucamente — Cala-te 1 

R adultera estrebuchava, as suas mãos afastavam ainda as roupas, e na lucta, 
arranhavam-no fkbrilmcnte, doidamente, numa def 'za felina. Então, ao vêr-se ferido, 
temendo que se escapasse, lançou se sobre ela, envolveu a mais, deixou o frasco des- 
tapado no apertado envolucro que formara com os lençocs, a manta, a colcha e, du- 
rante um quarto de hora, a mantivera sob a forte pressão, de suas mãos raivosas. 
Nem a destapou, deixou-a para ali, saiu, deu a volta à chave t chorou até que a ma- 
drugada scintilou nos vidros da janela do seu escritório na formosura do esplendente 
maio. 
Já não SC equiparava ao burguez que se contivera, esse romântico assassino. 

D. Claudina lá estava ni sua alcova, morta; ele íôra passear para o Aterro cora 
o irmão, a fazer-lhe as confissões extranhas, os servos pasmavam de tão longo sono 
de sua ama, e puzeram-se a desconfiar quando ouviram o alucinado ordenar-lhes que 
não entrassem naquele aposento. Depois, quando Ramalho Ortigão, voltou com uma 
carta de Garrett acentuando sua negativa cm se bater por se julgar culpado, Vieira 
de Castro, como se acordasse dura letargo, declarou falhar-lhc cora essa recusa, a 



— 233 — 



primeira parte da sua vingança, mas que já executara a segunda : «a mulher morrcral> 
E o escritor, num pasmo, soube não se tratar duma figura de retórica: o crime dera-sc, 
D. Claudioa fora assassinada. Escutou torturadamentc o assassino; sentiu sumir-se 
nos horrores dos castigos aquela bela inteligência que fanto se excitara ao vêr prender 
Camilo por cúmplice no adultério de Ana Plácido, considerada a mártir. Quando 
aconselhara a Júlio César Machado ccurva-te à magestade desse infortúnio mal sus- 
peitava que um dia não encontraria na sua raiva funda, palavras suficientes para 
condenar uma perfídia de mulher ; ao clamar «contra o aviltamento dessa imprensa 
que passa sem descobrir-sc diante de tão grandioso holocausto> não imaginava que 
numa hora da sua vida, teria tão poucos epítetos para lançar a uma adultera que se 
veria obrigado a procurar no assassínio o seu desabafo. 

Hgora, depois do seu acto, perguntava aos amigos o que devia fazer. Estava 
arruinado, gastara o dote da infiel; ali, a dois passos, o cadáver enregelava, e, 
quando lhe aconselharam a fuga, clhou-os num desvairamento, vestiu-se de negro, 
tomou uma carruagem, foi apear-s3 à porta do governo civil. Introduzido com as 
atenções devidas ao seu renome, declarou ao comissário Luiz Wadington que matara 
a esposa. Ouviram-no D. Rodrigo Salasar Moscoso e Belarmino César de Vascon- 
celos, empregados da Justiça. Depois o dr. João Rodrigues da Cunha ilragão e Mas- 
carenhas, juiz do crime, interrogou o desgraçado que se lhe entregava completamente 
€ respondia num laconismo constante às suas interrogaçõas. 

— «Tendo achado minha mulher fechando uma carta e sendo essa carta prova de 
adultério, resolvi dar-lhe a morte, o que efectuei na madrugada de 9 do corrente, 
às quatro horas, pouco mais ou menos.> 

Era tudo; não ocultava pormenores, apresentava-sc numa cruel nudez de alma: 
<0 que desejava era arrancar-lhe a vida para que desaparecesse o ultrage. 
Como o clorofórmio se derramasse sobre o leito, envolvi-a na roupa e cstrangulei-a.> 
O magistrado escutara-o c acabara a perguntar- lhe: 
~- «Sabe que vou mandá-lo conduzir para a cadeia ? > 

— «Não vira aqui para outra cousa. O que eu queria era vingar-mc c depois 
morrer.> 

Yingar-sel E esta palavra forte na boca do defensor dum caso semelhante ao 
seu, soava como uma heresia. Renegava a romântica religião do amor diante do seu 
ciurae exacerbado que o arrastara áquêle crime. 

Entrou no Limoeiro c não lhe faltaram visitas, desde os conselheiros da coroa, 
como Barjona e Rodrigues Sampaio, até aos sábios, os literatos, os artistas, a popu- 
lação dos cafés, cenáculos e gente da /Icademia. 

Lamentavam-no ; os nomes celebres das suas test2munhas de deÍ2sa acentuavam 
bem o valor do criminoso e, sem a premeditação do seu delicio, a sorte vcltar-sc-ia 
favorável e amiga para esse impulsivo que só não o soubera ser na hora mais an- 
gustiosa da sua vida. Ficou a penar na cadeia naquela tarde luminosa. Do seu quarto 
gradeado avistava-se o Tejo c ele, atravez das lagrimas, via as aguas scintilantes, as 
velas trianguladas numa doce ondulação, nesgas verdes de povoações da outra mar- 



234 — 



gcm, casarias brancas, chapadas da soalheira, reíulgencias nas azas dos moinhos. 
Scntia-se, naquele scismar, querido pelos que o sabiam de antemão condenado mas 
lhe davam esperanças; estava destinado a essa finalidade, sobretudo, porque defen- 
dera Camilo, ferira muitas vaidades e gerara maiores invejas. 

Quando ecoou por todo o país, levada pela imprensa, a noticia do seu crime, 
Camilo, ao recebê-la cm Seide, encheu-se de desolação ; Rua Plácido, desde esse 
10 de Maio, até ae cabo do julgamento c do recurso, raro era o dia em que não 
chorava, fazendo assomar as lagrimas nos olhos do romancista, alanceado pela sin- 
gular acção do seu mais estrénuo defensor nas más horas da cadeia. Como o inju- 
riara a sociedade semi-barbara, que sacrificava nos altares dos preconceitos! Como 
titulara de mártires dois amantes abraçados numa paixão e que tinham destroçado 
um lar! 

Chegara o momento de pagar parte da divida irremivel, e, numa carta, dolo- 
rosa, tresvairada de dores profundas, o escritor dizia ao seu grande, ao seu melhor 
companheiro, ser «depois de seus irmãos, um dos que maior abalo sofreram com a 
tua incomparável angustia». Continuava, cheio de sinceridade que o seu talento tor- 
nava mais bela pelas expressões lapidares: 

«Sinto-te em minha alma quasi desde a tua infância. Vi-te entrar no mundo c 
não pude ainda descobrir duas horas de verdadeira alegria c paz na tua exis- 
tencia>. 

E era assim ; desde os desanove anos que lutava contra o mundo numa cólera 
de apostolo arremeçado, no fim de tantas teorias, para a feição vulgar, descido à mi- 
séria de que se salvavam, por vezes, os mais comuns dos mortaes. O desesperado 
homem de letras tornava : 

«Que te hei de dizer hoje? Não sei. Mas o que não posso é calar-me. Pcçc-tc 
coragem ! coragem, que eu receio que sucumbas perante ti mesmo.» E acabava numa 
forma cxlranha : 

«Vieira de Castro não sejas menos forte do que o foste na defesa da tua digni- 
dade. Essa salvou-se, mas o pior é o coração despedaçado. (*) 

R defesa da dignidade! Ele esquecia nesse minuto de consolo, o que teria sido 
a tortura de Pinheiro Alves. Olvidavam-na ambos. O romancista sentia já limada a 
sua paixão na convivência (**) com a amante que chorava a sorte do grande amigo, 
soluçando talvez, pela recordação da defesa que ele fizera na época em que por 
amor tanto sofrera. 

Todos três deviam sentir duendes à sua volta. Ela foragida do lar, não vira os 



(*) Camilo — Correspondência Epistolar, 2.' ed. pag. 11. 

<Não s; amaTam! Qne grande milagre não se amarem. O uso de se verem duas pestoas eittrc- 
amadat gasta-Ihet o amor. O nso de se verem es que muito s: estimaram, não lho deixa nascer. O im- 
previsto, a surpreza, o dominio incerto e disputado, isto sim, é o cen on inferno onde o amor rejubila 
como anjo ou se estorce em fogo réprobo.» 

(**) Camilo — O Sangue, 2.», pag. 51, 



— 235 — 



dedos cnclavinhados do marido em paroxismos de zelos c de demência a procurar- 
Ihe a garganta para lhe afogar as palavras que soluçasse: 

Escapara na hesitação do material comodista que era o cônjuge, capaz de mor- 
rer amaldiçoando mas acobardado ao pensamento de se vingar pelo assassínio. 

Camilo, lembrar-se-ia, decerto, das horas atormentadas em que ao criminoso de 
agora tanto devera, e, no seu cérebro, passaria a idea empolgante de que ele conde- 
nando então, os tribunais onde se acorrentavam em nome da lei as adulteras estava 
iá lavrando no livro do destino os articulados irrespondiveis a todos os seus agravos 
futuros. Quizera um largo perdão para os crimes de amor; desgraçado, não soubera 
perdoar. 

E lie, no seu cárcere, julgar- se-ia a si próprio, encontrando para a sua defeza 
exactamente o que aos outros recusara na fúria impetuosa da sua pena, na ardên- 
cia brava da sua palavra, nas indómitas rasões da sua amisade pelos que tinham pre- 
varicado. 

Aos olhos de Rna Plácido e de Camilo, por sua vez, Vieira de Castro, surgia 
merecedor de todas as desculpas, e em sua busca ambos lidariam na anciã de o 
salvarem do degredo à beira do qual tinham estado quando muito se amavam. 

R sociedade exigia, nesta hora, mais terrível castigo, fíquele romântico, acusa- 
dor dos que mandavam prender as mulheres infiéis, acabara assassinando a que o 
traíra. Desta vez a Autoria pertencia aos positivos, aos defensores da ordem e dos 
preconceitos que também seguira não se libertando do erro, ele, pobre apostolo, de 
sonhos quebrados ante a paixão pela carne formosa que a um rival se queria dar, inteira, 
esplendente, senhora de si, a algemar-se num régio presente de amor. 

E acabada essa beleza que o levara a matar, se alguma cousa restava era ainda 
um fantasma. 




— 236. 



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Mêno*l Pladdú (retrato 
ptrtancantê â jamiU*) 



XIII 

CAMILO, AS ADULTERAS 
E OS BASTARDOS 



O JULGAMENTO DE VIEIRA DE CASTRO — COMO O ROMANCISTA ENCARAVA 
AS PECADORAS — O «CONDENAD0> — O <CASTIGO DE ANA PLACIDO> 
- PUNIÇÕES DO <OUTRO MUNDO» — MANUEL PLÁCIDO E O 
ESCRITOR — A MORTE DA <VOZ DE SANGUE> - D. LUIZ I 
E A MANCEBIA DE CAMILO - O IMPERADOR 
DO BRASIL EM CASA DO AUTOR DA 
<INFANTA CAPELÍSTA> — MULHE- 
RES DE PAIXÃO E MU- 
LHERES DO LAR 



O coração de Camilo era um sacrário que se abria para que o seu grande 
amigo enclausurado nele comungasse. Não lhe ocultava nada, e, sempre 
tão cauteloso acerca da vida do seu lar, e das transformações do seu 
amor, mostrava-se duma enorme franqueza que definia admiravelmente a sua grande 
ternura pelo desditoso. Fezia-lhe profundas confidencias como a mandar-lhe do Minho 
pedaços de alma para ele se abrigar. 

Descrevia-lhe a sua existência de Seide ao lado de /\na Plácido, da mulher da 
antiga paixão, tornada a companheira. Mostrava-se dum afecto calmo, sereno, mas 
não isento de ternura pois, que se não lha dava em fogo de beijos a transmitia ante 
as suas torturas de mãe. R loucura do filho mais velho, que não se podia ocultar mais 
tempo, soldara-o à desditosa por forma diferente da primitiva. É que encontra>ra um 
peito onde derramar lagrimas, o rosto resignado da arrependida — à qual nem 
dera o seu nome — ensaiando sorrisos quando tinha vontade de verter amargos 
prantos. 

«Sonho muito contigo — declarava ao seu intimo caído na estrada da vida como 
varado por uma bala. — Esta madrugada sonhei que estavas aqui, recitando alguns 



— 329. 



fragmentos de discursos teus. Os ouvintes eram ilna e eu (*). Ela, porém, como hos- 
pedeira burgueza c dos tempos homéricos, apenas concluíste, perguntou-te o que almo- 
çavas. Tu respondeste: «uma chávena de chá e ura biscou to>. 

Não havia duvida; exi-tia entre eles um afecto calmo, o acordo tácito de vive- 
rem cm Idços indissolúveis perante as suas consciências, sentiam- o tanto que não 
duvidavam escrevê-lo cm impressões nítidas, vincadas, inapagaveis. Hss"ci:ivam-sc 
nas penas e no desi/clo pelos íiihos Ele fazia-lhc justiça: charaava-lhe amiga enquanto 
não a proclamava «martir> e ela apenas sabia claisificá lo como ao H.nrique do seu 
antigo conto: <um grande desgraçado>. Choravam ambos pclis desventuras alheias» 
alianiO"lh2S as suas: 

«Rna sentou-se ao pé da minha cama a Icmbrar-me que h=í quatro anos te er- 
guias cedo a tomar com ela do seu caíé e pão com m3ntí>igí. Estas memorias aqui 
no se'o de pess< as que te arram não te serão pueris», dizia ao preso infelicitado. 

Camilo recaíra num peri do de alucinação, de doença física que o moral pertur- 
bado ainda mais exacerbava: 

<A noite passada pedi a Ana que não me desamparasse um instante com medo 
da morte. E5.}a cobardia vem- me dos filhos». 

Neutra carta dizia lhe: «Conto muito com o coração; as outras faculdades de 
escritor tstão qua^i delidas. i\na vai pa-a as Taipas no primeiro de Julho, obrigada 
por sofrimentos qua datam de 1861, daquclts quarto fétido e Mo da cadtàa.» E 
anunciava lhe que ia escrever ali o livro nascido «sob inspiração da tua des- 
graça. > (**) 

Consoldva-o desventuroso à custa de feridas feitas! na própria carne ; expelia em 
borbotões cóleras e com elas palavras raaguantes para a amante, e nas quais não 
reparava, no seu desejo de lenitivar os mal«?s do desditoso, 

«Paraizo ha-o aqui nara as esposas honradas, e o respeito do mundo e o culto 
do marido ainda qucí ele stja um selvagem na rel'g ão dos deveres de esposo. Inferno 
também ha aqui para as que prevaricam, atraiçoando não só o dever mas o coração 
sem macu'a.> 

Todavia nas paginas da obra de desagravo punha na boca dum julgador esta 
exottação a uma adultera: 

<E não lhe pediram seus filhos que fosse honesta? — replicou sevc^amentc, o 
capelão — Ter dois filhos, dois anjos da guarda, dois amparadores, afectos tão gran- 
des com que enchera sua alma ... ter dois filhos . . . e resvalar por entre eles à 
voragem !> 

Esqurcia-sc que a esposa de Vieira de Castro não tinha aquele arrimo c que 
i\na Plácido era mãe bera recentemente, quando abandonara o lar, o que gerara, no 



(*) Eram estrelinhas qae nesta correspondência designavam Ana Plácido, nome suprimido no 
epistolario com Vieira de Castro ao vir a pnblico. 

(**; Chamava-Ihe Espelho de Desgraçados. Saía, porém com o titulo de Livro da Consolação onde n» 
4.^ edição, pag. 210, se 12 aquele período. 



— 240 — 



Palheiro, a acusação de que o filho, balisado em nome do marido, (*) cousa 
alguma tinha dele. Olvidado da sua acção, do delicto ds ambos, continuava na 
diatribe : 

«Seu pai mata-la-ia ... eu por mim, choro- a; porque não pude saber isto um 
dia antes da sua perdição . . . não pude salva-la . . . 

E insistia : «Y. Ex.^ ... a sr.» D. Júlia ... — prosseguia ele — aquela menina 
que eu adorava . . . está aí poluída.» (**) 

Quando Venceslau Taveira, o marido ultrajado, matava o amante da esposa, 
grilava para a culpada : <Viva . . . peça a estes dois inocentes que a defendam do 
remorso. E se eles, algum dia, lhe perguntarem pelo pai, diga-lhes que as mulheres 
perdidas não sabem quem é o pai de seus filhos . . .> (***) 

Increpava as adulteras à conta de defesa do amigo e num drama cm que traba- 
lhava e intitulava O Condenado, só tornava simpático o assassino da mulher. 

Queria lidar muito para criar uma atmosfera favorável ao acusado, e chegava a 
extremos onde implicitamente, polreava em tratos a que deixara o lar para o seguir : 

«Se rainha filha amanhã prevaricar e fôr morta eu terei vergonha de pôr luto.> 
(****) Era o máximo arranco e escrevia-o ao lado da amante que chorava pelo preso 
c talvez também pelo seu passado honesto desde que lia aquelas palavras contra as 
mulheres de delicto idêntico ao seu. Ele, porém, em definitivo, tanto quanto é possivel 
concebê-lo era tão versátil c irrequieta pessoa, qucria-lhe a seu modo como à 
carinhosa cm suas doenças, à apaixonada formosíssima da recordação do seu pas- 
sado : Longe dela parecia senti-la como outrora ; alguma cousa o chamava para o 
seu lado. R paixão morrera ; ficara uma amisadc ungida pelo doloroso romance que 
juntos tinham vivido e o fazia dizer : 

«Volto para a pobre mãe e para os pequenos. Sofro lá menos, como quem vê 
03 braços onde ha-de expirar.> (*****) 

R doença levava-o a estes negros pressentimentos e o egoísmo de ter alguém 
para escutar suas dores ajudava-o aos iropetos de ternura volvidos à mulher que lhe 
queria como a uma grande creança cheia de birras e de caricias, de maldades c de 
choros. R saudade do que ela fora, pungia-o ; comprazia-se era relembrar as horas 
da lucta de ambos diante do Porto ao qual não perdoava. 

Hnimava o preso, inspira >^a-lhe consolos, não ia para o seu lado porque a doença 
o atirava das CaHas das Taipas para Vila do Conde a ouvir o medico Freitas Soa- 
res c de ali para Braga em busca dos efeitos da sciencia do sabedor Pinheiro Tor- 
res. Asseverava no intervalo de seus males, ao homem entrevisto pela sociedade como 



(*) Informações do falecido sr. Carneiro — a qaem na roia jornalística alcunharam de <Consal 
do Porto em Líiboa>, pela deksa permanente qae fazia da sua tetra e pelo muito que sabfa das tradi» 
fõei e factos, da capital do norte, qoe referia às mesai dis caf^s. 

(•*) ('*') Camilo — Uvr» de Consolação, 4." ed, pag. 210 e 223. 

(****) (•****) CorresporuUncla EpUtolar, 2.» ed, pajj 33 e 43. 



Foi. lo 



o apostolo duma religião de perdões às adulteras, derrubado desde que matara uma> 
delas : «O meu convencimento, mais do que vaticinio, é que serás absolvido. 

Se não o fosses, todo o homem de honra e pejo devia vestir luto.> 

Felizmente que não trazia então para publico estas frases as quais levantariam, 
naquele momento, a sua volta uma celeuma capaz de prejudicar quem esperava 
dos juizes: R tua condenação será o marco da franca estrada da corrupção. Se na 
vida conjugal de aí avante houver vestígios de dignidade, será isso o resultado da 
organisação — a inércia incapaz do vicio Levedava no seu espirito uma grandiosa 
cólera contra a imprensa que acusava o amigo ou guardava a seu respeito um silen- 
cio de desdéns : cMais tarde te contarei o que é a imprensa do Porto. Espero con- 
tar-te e vingar-me ao mesmo tempo. Que admirável! Quando eu estive preso achei 
grande dificuldade em encontrar um jornal que dissesse que eu sofria da vista.y 

Mergulhava nas fáceis cóleras dos impulsivos que tomam sinceramente a peito 
as mais extranhas aberrações e não vêem com os mesmos traços os actos dos que 
lhes são afectos c os dos indiferentes. Por vezes apaixonam-se, até, pelos gestos de 
desconhecidos paralelos com seus pensamentos ainda por exteriorisar. Lançava-sc 
contra o procurador régio, que era o conselheiro José Maria Pereira Forjaz, residente 
na travessa de Santa Justa, grande amigo do ministro do Brasil que se movia — pen- 
sava ele — pelas suplicas da sua corapatiiota, mãe da morta, e capitulava o alto ma- 
gistrado de «comensal muito frequente dum tal Ulrich, deputado brasileiro, rico, ctc.» (*) 

Reportava-se ao seu caso. «Lembra-te das sovas que eu dava num xxx por causa 
dos insultos feitos à Rna. E mesmo cu não tinha contra mira senão o dinheiro dum 
sujeito incapaz de sacrifícios grandcs.> 

Chancelava deste modo a memoria do marido da mulher sacrificada, na sua freima 
romântica ; ao matador da malfaria inoculava alentos : 

«Trate de vêr se se imprime o drama a tempo de eu ir em pessoa entregar a 
cada jurado um exemplar cora dedicatória. 

Este acto não pede ter consequências boas nera más». Sacriíicava-se à araisade, 
punha a acção dele em termos bem diferentes da sua, na hora delictuosa conforme a 
considerava o irritado Porto : «a defesa duma adultera ha-de ser apresentada no tri-' 
bunal como desmoralisação do defensor e prova da incapacidade dele para se des- 
forçar da afronta. 

Entretanto creio que não defendes lá a culpa; apenas invectives contra a vila- 
nia da perseguição. Sobre tal assunto creio que i\na te escreverá não sei para quê. 

Eu por mim terei grande prazer se lá no tribunal íôr injuriado juntamente 
contigo. > 

Tinham-se apossado dâs palavras dele em relação ao adultério de i\na Plácido ; 
buscavam fabricar com as suas arremetidas, uma arma contra o acto ainda mais 



{*) Refería-se não sabsmos com qae base da interferência dele ao pai de João Henrique Uliich. Este 
frequentava então (1870) distinctamente o curso de aitilharia; foi colaborador das /'a/7;a5, Tice gorer- 
nador do Credito Predial, distinto nas finanças, teve certo destaque na literatura, e faleceu em 1895. 



— 242 - 



criminoso visto ser praticado por quem pensara da maneira então atirada às faces 
dos julgadores. E a própria acusada dessa época — aquela a quem o cúmplice cha- 
mava de adultera — escrevia também ao preso, quem sabe se a pcdir-lhc que não se 
prendesse e a acusasse, desdizendo as suas frases antigas se isso podia servir à sua 
defesa. É que na sua vida torturada, diante do filho louco, do seu companiieiro en- 
fermo e transtornado, encontrara a sentença. 

Na peça o Condenado^ Camilo ia muito longe. Desenhava Jorge de Mendanha, 
rigido, honrado, a própria figura da justiça, procurando na sociedade o amante da 
mulher assassinada, para nele continuar a vingança. i\pós o pagamento de sua 
divida, no degredo, chegava a pedir uma nova vida. R de José Maria de Almeida 
Garrett, que amara Claudina Vieira de Castro, já estava oferecida a Deus. Entrara nas 
ordens religiosas ; vivia no recolhimento de S. Miguel das Aves à beira de Santo Tirso, 
não distante de Seide, onde o romancista, polia as armas de arremeço contra os que 
acusavam o amigo, ao mesmo tempo em que pensava enviar o seu drama aos jura- 
dos que o deviam julgar. Não era de tendências literárias e ainda menos dados a 
romantismos a maioria dos homens aos quais se entregara a sorte de Vieira de Cas- 
tro. Pertenciam quasi todos, à classe dos proprietários, comerciantes, esteios sociais 
e incultos : Augusto César da Fonseca, latoeiro; Gabriel José Ramires, dono de barcos; 
Carlos Joaquim Pedro, armador; Manuel Soares Guedes, patrão de fragatas; José An- 
tónio Salgado c José António Rodrigues Chaves empregados de comercio; Izidoro da 
Silva Mota, cambista; José Izidro Jorge, cirurgião. Alexandre João Valente de Figuei- 
redo, medico e o conde de Nova Gôa, seriam as únicas pessoas instruídas nessa 
falange de julgadores. 

Na cadeira do juiz estava o dr. Aragão Mascarenhas que ouvira a confissão do 
reu; como delegado do ministério publico o dr. Luiz da Costa Azevedo Coutinho; 
a acusação particular reforçava-se na pessoa do advogado Ernesto Adolfo de Frei- 
tas. A defesa fora entregue a um moço de talento, o dr. Jaime Constantino de Frei- 
tas Moniz, o qual contando apenas trinta c três anos, já regia a cadeira de historia 
universal e filosófica no Curso Superior de Letras. Deputado c comendador, perten- 
cia à Academia Real das Sciencias na qual era consócio do acusado, do grande 
orador, agora ali emudecido diante da opinião publica. Evocava-se num escarnco a 
recordação da sua defesa de Camilo e de Ana Plácido, infiel ao marido; lançavam- 
Iha ao rosto esmaecido, emborcavam-lha na alma torturada. 

Parecia ter descido sobre ele a garra do morto Pinheiro Alves que andava en- 
grifada nas almas dos que o tinham feito sofrer. O romancista não o pudera esque- 
cer ; apesar de espancar a sua imagem, até em ironias, diante dos outros, ela acudia- 
Ihe nai suas horas tormentosas (*). 



(*) Aquele acto de negar o perdão à hora da morte traçou o deste modo como se não o olvidasse 
ao querer negar a voz da natureza impelinio o» filhos para os pais e estes para aqueles: <0 meu 
caro filho, como sabes, acabou ao Harre ; e acabou estarrecido de paixão, segundo lá mesmo me dis- 
•rram no hotel onde ele expirou. Quando a febre o fazia delirar, gritava contra toa mãe, dizendo que 



— 243- 



Um dos amigos do assassino, cujo nome estava próximo do seu, no padrão 
de Seide, Tomás Ribeiro, escrevera uma carta a alguém na qual chorava a 
vitima, dedicando ao seu confrade palavras de menor intono do que à morta dirigia. 
No governo da índia, a tantas mil léguas de distancia, o bardo dera larga à poesia. Para 
a má esposa as coroas votivas; para o ultrajado apenas isto: <o infeliz que deixaste 
mais desgraçado porqua vive nas pavorosas solidões dura cárcere». Era só literatura 
raas produzia efeito e dela se servia o acusador. O lado sentimental do acto, queria 
este esíamaçá-lo, mostrando o reu endividado, perdulário, tendo devorado o dote de sua 
esposa e ao tratar do adultério relembrava sagazmente, vitoriosamente, as ideias an- 
tigas do matador acerca desse delicto que tanto desculpara. 

«Não a podia matar porque a mulher segue ordinariamente a opinião do marido 
c tem orgulho quando esse marido é escritor. R mulher do reu lia os escritos dele, 
entre os quais um livro de 286 paginas, intitulado Camilo Castelo Branco, na mór 
parte do qual o adultério era exaltado. Logo na pagina 5 vem o oferecimento do 
livro: 

«A IL"» Ex»» Sr." D. Ana Hugusta Plácido, encarcerada nas cadeias do Porto, 
oferece José Cardoso Vieira de Castro 

Estava ela presa por adultera. Na pagina 17 responde-lhe : «O seu livro, esse 
trabalho acendrado com tanto carinho na sua inteligência tem um grave defeito aos 
olhos dos moralistas; c eu por modéstia calo-me, meu amigo. Espera-se o voto das 
mulheres ilush-adas, mas eu desde já lhe profetizo que lhe será adverso; basta que o 
meu nome ali apareça para lhes assinalar os epigramas espirituosos, a que cu não 
curo mesmo de fugir. O senso comum e esclarecido da nossa terra é assim, meu 
amigo ; pela altura da frase, peio vôo da ousadia, o seu livro vai ser causticado por- 
que é para os outros incompreensível. > (*) 

Para ele próprio o fora ! Porque não sucederia o mesmo igualmente aos jurados ? 

De cousa alguma serviram as palavras quentes de Rodrigues Sampaio, de Rama- 
lho, de Levi Jordão, do conde de Resende, de Pereira de Miranda, o depoimento de 
D. Emilia Ortigão, das creadas, da viscondessa de Paiva Manso, de Teixeira de Vas- 
concelos, do lente da Universidade José Rdolfo Troni, que todos o defendiam, lhe 
apontavam a honradez e mostravam a esposa a desonrá-lo. R brilha ntissima oração 
do seu advogado desfizera a parte relativa ao acto criminoso ter sido praticado para 
cobrir a dissipação do dote da morta ; no resto o que influia era a premeditação e o 
desacordo das idéas do acusado com o seu crime. O ministério publico sentia toda 
a grandeza daquela peça oratória, digna de quem tão glorioso orador fora, mas 
concluirá : 
'^., «Lembro só aos senhores jurados a verdade seguinte: se no reu ha imaginação 



morria sem a matar. Basta que eu te conte que pedindo-lbe o confessei que perdoasse à mnlher, ele 
saltou furioso da cama e não quiz confessar>se, Foi ela que matou o meu filho, foi ela, Deus o sabe!> 
— Camilo — O Sangue, 2." ed., pfi. 247. 
(*) Do Processo. 



— 244 — 



ardente, extrema sensibilidade, as outras faculdades deviam ser grandes para lhe re- 
primirem o ímpeto das paixões.> 

R obra em que atacava a sociedade defensora da fidelidade da mulher marcava 
a sua influencia como uma bandeira corsária substituída, ali no tribunal, pelo pendão 
da ordem. 

O advogado da mãe da morta rcpizava na sua replica: <o reu quando escreveu 
o livro de Camilo Castelo Branco era mais novo — diz o meu ilustre colega da de- 
Í3za — e que as suas ideias não podem ser as mesmas de enlão. Porque não reco- 
lheu o reu 03 exemplares que ha desse livro à venda nos livreiros ? Ou então porque 
não protestou contra essas ideias a favor do adultério que ele tanto sublima no tal 
livro ?> 

Eram uma pedra de toque aquelas páginas. O juiz formulou desanove quesitos 
nos quais não aludia à obra, mas no animo do publico ficara o rastro das suas 
antigas opiniões esfaceladas, mortas na mesma asfixia que dera à esposa. 

No dia 30 de Novembro de 1870 José Cardoso Vieira de Castro foi condenado 
a dez anos de degredo para uma possessão de Africa de primeira classe ou em cinco 
de prisão maior celuhr. O drama O Condenado recebera os aplausos da im- 
prensa do Porto com as severidades da maioria dos jornais lisboetas c o autor dizia : 

<Hont2m fui vitoriado no teatro por amor de ti. Hoje creio que lá serás adorado 
no infeliz que tem uns traços remotos da tua desgraça. Ana tem chorado esta tarde. 
Porquê? ela csperava-te livre, esperava-te aqui; e todavia a cada hora a assaltava a 
convicção de que não podias ser absolvido (*) depois que a honrosa franqueza das 
tuas respostas no tribunal exigia que tamanho triunfo de dignidade não saísse à praça 
deste infame mundo sem pungente castigo.» 

Noutra carta acentuava-lhe : «Que valeriam dramas se a tua desgraça não fosse 
o drama? Uma idéa de teatro c essa escrita a medo, como quem receava danificar 
a tua posição é que é a obra que o mundo, este mundo do Porto, teria reprovado se 
tu não traisparccesses alguma vez no personagem cm que os parvos quizeram 
vêr-te.> 

E logo, relembrando a sua própria tragedia, Camilo rcferindo-se a Jaime de 
Freitas Moniz, abria-se com o sentenciado que apelara para a Reldção : 

«Diz-lhe que nós lha agradecemos infinitaraente o afectuoso respeito com que 
mandou desviar a injiiria de sobre a sepultura das nossas alegrias. Dize-lhe que 
ela passou dezanove mezes encarcerada entre paredes que gotejav^am, c, que desde 
então, ha onze aaos, ainda não teve um dia em que a desgraça não a puzesse diante dos 
insultos da sociedade. Dize-lhe, emfim, que ela teria abençoado o marido se a ma- 
tasse, visto que esta sociedade não prescinde de atirar lama ás que não morreram. 
Está muito castigada. Digo-to eu como um penitente o diria a Deus para haver mi- 
sericórdia pela humildade da confissão. (**) 

— «Está muito castigada I> e ele próprio se tornava por vezes, no seu Dagclo. 



(•) (**) Camilo — Correspondência Epistolar, 2" ed. país. 71 e 79. 



— 245 — 



Devia ferir-sc nas paginas dos seus livros como se, ao folhea-los, topasse afiados 
gumes. Umas vezes ele dizia : «Ha só uma mulher que salva, é a que se lança nos 
nossos braços ungida do sacramento do evargclho>. 

<R perdição duma adultera não impede que milhares de adulteras se goscm do 
crime e da impunidade.» 

Não se coibia mais. Quando devia lançar-se a defender as perdidas por amor, 
como outrora, quasi as condenava também: «uma mulher com 'dignidade num só 
lance de olhos desarma os mais atrevidos projectos dum homem.> Perdia-se em ar- 
rancos cxtranhos: 

«Uma mulher não se mata. Se ela é infame untam-se os degraus da escada 
para ela resvalar mais depressa ao abismo. Se ela está na posição dessa mulher, o 
homem retira-se com sua dignidade c paga ao mundo com as lagrimas choradas a 
lição rccebida.> Os seus conceitos eram contundentes: <R obediência ao marido re- 
cebe-se como um dever quando a razão jà está formada e começa com o amor.> 
«ft mulher receia o descrédito só depois de saber como ele se alcança.» Repuxava 
o arco de suas setas com pontaria firme, com destino seguro : «uma senhora é sempre 
um objecto para assombros; e se tem talento é um belo disparate.» 

Os inimigos achavam tanto a maneira de sublinharem taes pensamentos de seus 
livros como os jornalistas de lhe relembrarem seu piocesso escandaloso de ha dez 
anos. 

«Quando apareceu o Condenado, uns periódicos portuenses de dez reis asso- 
biaram-me a valer. Um deles pediu-me que escrevesse o drama do meu crime cora 
uma mulher que fizera morrer de paixão o marido. Achei certo bom senso nisto dada 
a hipótese da capitulação patológica da moléstia do defunto.> 

Falava deste modo mas não podia apagar da lembrança certas supertições ex- 
tranhas. O romancista ora duvidava da Providencia ora se entregava como um nau- 
frago ás abusões. Depois de acreditar em mãos de finado apertando-lhe a garganta 
via-as apontandolhe o seu destino. 

«Se eu ha doze anos quando comecei a ser tão infeliz (*) padecesse como hoje, 
ter-me-hia matado. Estes pequenos em vez de me adoçarem a vida amarguram>ma 
com o que são e o que hão de ser.> 

Não tinha ilusões acerca dos filhos; o afecto dedicado ainda a i\na Plácido 
iundava-se nos seus 'Sofrimentos como mãe. Do que ele mostrava receios era de 
ignotas forças punidoras. 

«Que será destes infeUzes a quem Deus fará gemer com o peso do meu castigo ! 
As vezes cuido que do outro mundo se contempla a continuação ou o efeito das más 
obras que cá se deixaram a frutificar. Os filhos expiando as culpas dos pais seria 
estúpida crueldade, se os pais, com o inferno na alma, os não vissem de outro ponto 



{*) Escrevia em 1871. Logo datara de 1839 o seu infortúnio, e era esta a data da rictoria do seu 
amor. 



--24é 



sem lhes poder enviar um estremecimento de angustiosa compaixão. É horrível assim 
a ininteligível eternidade das penas.» (*) 

Considerava-se desventurado na ultima escaleira ; sentia a seu lado a mulher da 
paixão sujeita á mesma cadeia de desditas. 

«/\na recebeu hontem a tua comovente carta, e íoi contigo chorar na vida que 
lá nos ilca para além de nove anos, nos dias últimos das nossa felicidade. Fomos 
desgraçados todos a um tempo. Morreremos sem saudades do que deixámos, porque 
teremos gasto a alma a deplorar o que irremediavelmente se ha perdido.» (**) 

O volúvel, doente para demais, não se habituava aquela vida sem arrancos. 
Jlpenas tinha para desenfado do espirito c correctivo dos nervos as campanhas lite- 
rárias, aquelas em que servira Castilho, (***) as provocadas á menor beliscadura cm 
seu orgulho. i\gora, porém, passada a sanha, entretido no combate em prol do amigo, 
sacudia-se por vezes, nuns rugidos que só encontravam eco em Seide no âmbito da 
<:asa do traído. 

H sua preocupação estava nas creanças e na dcfeza do condenado. Debalde 
Rodrigues Sampaio interferira junto de Ferreira Lima, juiz da Relação a favor dele. 
Não se lhe podia valer. Tinha contra si a opinião publica dirigida pelas senhoras da 
sociedade, que no dia da comunhão aos presos das enxovias, o tinham ido insultar ao 
cárcere em demasias de megeras sendo algumas Hndas. Elas, mais do que a mono- 
tonia da prisão, levaram o degredado a pedir a breve partida para a Africa, logo 
concedida. O morgado de Pereira — o descendente dos alcaidcs-mórcs, senhor do 
couto de Esmoriz — acompanhava-o. Era um fidalgo alegre, que encontrara no sangue 
dos avoengos ardências combativas para além das romarias minhotas. 

Hquele a quem Eugénio de Castilho contidenciara os seus amores pela Amélia 
de Landim — a perdida de alma romântica — dizia que a Africa não servia apenas 
para se plantar de ossadas de soldados e de sepulcros de criminosos. Como se um 
antepassado batalhador, que por lá tivesse andado na conquista, o atraísse, ele não 
duvidava ir traticar em café com o gentio, de chapéu de palha e escopeta, em nome 
do restabelecimento da sua casa empenhada como o guerreiro palmilhara o sertão 
em busca de gloria e lucros para levantar mais uma torre no solar que o neto via a 
esfarelar-se. Vieira de Castro associava- o na exploração a tentar. Levavam consigo 
o filho de Ana Plácido, o Manuel, que era ainda uma criança, mas desejava embrc- 
nhar-se na selva. Mal se compreendia como o deixavam partir para tão longe. Era 
já alto e esbelto, amigo de montearias e cavalgadas ; depois sentia uma grande admi- 
ração pela força e dextreza do morgado; habituara-se a querer-lhe e assim como na 
casa de Seide iam ticar a mulher e os filhos do senhor de Pereira também este 
adoptava o primogénito da que lhe albergava a família. 

O esciítor adorava o rapaz que apresentava beleza máscula, galharda e desen- 



(*) (••) dmlla — Corretffondencia Epistolar, 2.» edição, paíi. 104 e 1J3, 
(>•*) Questão Coimbrã. 



-247 — 



volta; só os olhos eram belos em demasia, para ura rosto de aventureiro que o soj 
da Africa ia queimar. Parcciam-se com os da mãe. Esperava voltar mais rico, com 
a barba a apontar-lhe e o desembaraço de palmilhante da terras longínquas, h parte 
da legitima se pediu o seu transporte c sustento. Não o mandavam embora ; custava- 
Ihes muito separarem-se dele; porém, o romancista sentia-o afastado de si, desde 
certo tempo era diante, como sobressaltado à medida que ia crescendo. É crivei que 
algum dos parentes de Pinheiro fllves, em madrugada de caçadas, no fundo dalguma 
bouça, lhe revelasse o adultério da mãe, o seu nascimento e o pai morrendo na es- 
talagem da Eugenia, em Vila Nova, soltando imprecações c anematizando os dois 
naquela hora da agonia diante do padre aterrado. Na sua alraa abrir-se-ia uma clari- 
dade e um desespero. Profundaria mais na historia materna e por isso, ao sentir o 
ardente carinho de Camilo, na casa que pertencera ao homem cujo nome usava, en- 
chsr-se-ia de pezares. É que, rialmente, o escritor queria- lhe muito, imenso, tanto 
como se fosse seu filho, e atormentar se-ia de tal modo com seus desdéns que redo- 
braria era meiguices às quais replicava fugindo-lhe, indo para muito longe. Deve 
estar nesta sensibilidade da criança a razão de seu afastamento. Da alma do roman- 
cista, ante o golpe, brotavam cntrechos para livros que só viria a escrever após a 
morte do Manuel. Todos viam que o amava como a um filho queridíssimo c, sem 
duvida, guiado por tal sentimento, poz-se a imaginar, para a composição de duas 
novelas, ser o verdadeiro pai daquele rapaz, nascido na hora tormentosa das grandes 
infelicidades da mãe. Descreveu verdadeiros progenitores repelidos pelos que lhes de- 
viam a vida, ao ignorarem os laços íntimos de suas existências. Emudecia o roman- 
tismo da voz do sangue ; negava-a, calava-a como se a sepultasse em jazida profunda 
para onde a arremeçassem factos iniludíveis. Fazia chorar de dôr, na Caveira da Már- 
tir, o pobre frei Francisco Xa/íer porque sua filha, baptisada, por escrúpulos do reve- 
rendo, em nome do irmão, ouvidor de justiça, só a este queria como pai, detestando 
o frade seu suposto tio. 

No livro O Sangue mais dilacerantemente apresentava o drama. 

Insistia no assunto ; coraprezia-se cm rcvclve-lo, e fazia defrontar em duelo um 
rapaz com o autor de sua existência, ao qual o desafiava para vingar a morte do esposo 
de sua mãe, julga-lo o seu autentico pai, visto lho terem apontado como tal e usar-lhe 
CS apelidos. 

Tratava-se, pois, apenas dum enganador preconceito, ilquele de quem recebera 
os legados prevalecia era seu espirito sobre o gerador. 

Como se Manuel Plácido Pinheiro Alves herdasse do marido da mãe, dinheiro e 
sobrenomes e pertencesse ao escritor pela materialidade do amor de sua gestação, 
Camilo não se fartava de iautilisar as velharias da misteriosa influencia do nasci- 
mento que faria um abandonado reconhecer o seu pai num lance de olhos. 

«A natureza entre pais e filhos é a cousa mais artificiosa neste mundo (*) — 
asseverava. 



(*) Camilo — Caveira da Mártir — 2.* ed. pag. 192. 



248 — 



No romance narrava a fuga duma mulher qae se perdera durante a ausência do 
coDJuge. Não pudera levar consigo o filha do adultério porque andava em passeio 
com a ama, no momento em que ela sairá aterrada ao julgar vêr chegar, a súbitas, 
o marido. Creou-se o pequena com o avô que jamais se dissuadira da sua ori- 
gem legal embora lhe contasse ter o atraiçoado morrido no Havre ao saber do 
abandono em que ficava, revolvendo-se em iras. Na hora extrema ao «pedir-lhe 
o confessor que perdoasse à mulher ele saltara furioso da cama e não quizera con- 
íessar-se.> (*) Egualava esta scena a pagina rial do fim de Pinheiro Alves. Pois era 
o suposto descendeate daquele amaldiçoador que ao ch?gar à maioridade, ia procu- 
rar o desinquietador da honra materna c o insultava. Frente a frente, no campo, a 
a bala do pai alcançava a cabeça do filho sem que o menor estremecimento tivesse 
revelado um cu ao outro a sua grande afinidade: Eram adversários. Nem o nascido 
do arrípio delicioso do adultério, sentira a alma a enoitar-se-lhe ao apontar a sua 
arma ; tampouco o outro estremecera mais do que um homem lavando a tiro uma 
afronta vinda dum desconhecido. 

<0 sangue sintetisava ele, com ares de titulo filosófico c assim com presum- 
pções de tese. Porque has de ter ouvido dizer que um filho conhece seu pai c um 
pai seu filho, por um secreto impulso de sangue.» 

Conturbava-se na singularidade do desconhecimento entre si dos que tinham fontes 
tão próximas. Tantalizava- se deante dum grande desejo de soltar um brado reprimido. 

<0 sangue — repetia — é um engenhoso registo que a Providencia implantou na 
economia animal, para regulamento dos deveres de familia.> (**) 

A^ais tarde, ao referir-se ao padre Bento da Mó, e ao engeitado Manuel Vieira, 
no Demónio de Ouro, não variava : (***) 

«Ele mesmo já se havia espantado, quando menino de entre doze a treze anos 
da frieza e de nenhum intimo abalo que sentira ao defrontar-se com o homem a 
quem poderia dar a sacratissima invocação de pai. 

Repisava tomado dum forte anceio de vincar seu pensamento: 

<R compaixão que o moveu, expiica-se com dispensados estímulos secretos do 
sangue, impulsores de mera convenção que nada tem de genial em si e acaso se des- 
envolvem com o artificio da educação da dependência e da reciprocidade dos afagos.> 

Reincidia, bem seguro à presa qae lhe sabia bem ; a essa idéa destruidora da 
lei enleadora dos mistérios de atracção de corações para corações porque o acasa 
dum amor gerara um pequenino atirado à rua, pzrdido nas cidades, como um câo- 
sinho, o qual desconhece o ventre donde veiu e o padreador do acaso. 

«Se filosófica e filantropicamenle lhe dissessem os moralistas que lhe corria o 
dever de socorrer o Padre Banto, porque entre este homem e certa mulher se for- 
mara um ser despresado que aa estilo humano se chamava «filho c ctc.» (****) 



(•) Camilo — o Sangue, 2.» ed. paj. 247. 

(**) Camilo — O Sangue, 2.» ed- pags. 274 e 275, 

(*••) (***-) Camilo — O Demónio do Ouro, pajs, 172, 173 e 174 — l.*» vol. 



— 249 — 



•st: 



Assim SC pronunciava o romancista. Depois, como se tivesse chegado ao máximo 
da demonstração da mentirosa «voz do sangue>, remetera-se a moteja-la nas novelas 
onde de quando em quando, explodia a paixão pelos filhos creados, como os seus, 
è custa de sacriíicios. Não olvidava, porem, o que andava na aventura africana. 

Parecia tomado por uma ideia que não podia afogar embora sentisse o contrario entre 
Plácido e ele. Aquele moço que lhe fugia «que pouco caso fazia dele» vivera ao seu lado 
desde os seis meses, e herdara do outro o dinheiro, os apelidos c talvez as cóleras, h novela 
fora sugerida ao invez da vida a não ser que outras rasões actuassem na alma do autori 

«Demonstrado isto — continuava no romance O Sangue — corrc-te obrigação de 
mostrar uma coisa; e vem a ser que tu e eu e os mais da nossa espécie somos os 
reis da criação; e que os bichos, que estremecem os filhos, são os bichos.> 

— «Mas — continuava ao fechar o romance — não posso dizer que o pai de Pedro 
Barros era . . . 

— «Era o que as núpcias demonstravam, como diz a lei romana. Era Inocêncio. 
O sangue de Pedro vinha a ser o dinheiro de Inocêncio. Lá está o axioma que diz: 
o dinheiro é sangue. Um filho só pode ser filho de quem é seu pai, quando não 
herda oitenta contos de outro que foi casado com sua mãe.» 

Quem sabe se, analizando bem o documento humano, ele escreveu as duas no- 
velas da ingratidão filial ante o desconhecimento do verdadeiro progenitor?! 

Adorava aquele a quem sempre se chamou simplesmente Manuel Plácido. Yia-o 
partir e ficava com a sua doença; o outro filho adulterino, Jorge, nascido durante o 
período em que ainda era vivo o esposo da sua amante, e o Nuno, o legitimo. Um, 
o do seu coração, fugia-lhe; outro, o do seu amor ardente, andava atontado, já com 
furiazinhas de louco; o terceiro, vindo da calma da paixão, só revelava indolencias. 
Olhavam-se os pais naquela casa de Seide, e sentiam-se desgraçados. Fugiam dali, 
mais usa vez, deixando a esposa do morgado com os seus no lugar da desdita 
onde o padrãosinho de granito se ia emusgando, escondendo no esverdinhado dos 
iichens, o nome do condenado, o penúltimo, mais ao rez da terra, e abaixo do qual 
ficava só o de Camilo, como a esperar por destino, mais funda vala do que a aberta 
para o amigo a queimar-se nas florestas africanas. 

Contemplavam-se os dois românticos enquanto a sociedade rejubilava embora 
nem conhecesse metade de suas dores. Viviam num andar da rua de S. Lazaro 
desde o começo do ano. Ele voltara aos livros. Afora os da batalha denodada pelo 
seu amigo degredado pouco mais produzúa num ano. 

Ela trabalhava também. Editara, com o pseudónimo de Pedro de Souza, um 
romance Herança de Lagrimas (*) e que fora impresso em Guimarães. (**) O cnlre- 



(^) Existe nm fxemplar em Seide, pertença da neta de Camilo, D, Rachel Castelo Branco, 

(**) Gulmarãis. Redacção do Vlmareaense. Editora. Tipografia do Vlmarenense. 

Apareceu cm 1871, quando naturalmente a tipografia do jornais e ocnpava de ediçScs, poij o pe. 

riódico terminara em 28 de Julho de 1863, dando logar à Justiça de Guimarães, e Ipèo ao Berço da Mo- 

aarquia que formaram a impreasa da cidade. 



— 250 — 



cho consistia na evocação duma rapariga casada com um velho,?bondoso e atilado. 
i\' volta de Diana — mais uma vez o nome de Rna ressurgia — os janotas delira- 
vam. Concedera uma entrevista a Nuno o que mais a encantava, mas o esposo, ao 
saber do seu deslise, entrara na sala e, em vez de a matar, soltara palavras nobres : 
<Não quero de modo algum prevalecer-me dos direitos que me conferiu a sociedade 
e a [religião ; entendam-me bera, sou velho, a minha vida está por pouco ; gostoso 
faço o sacrifício dos breves dias que me restam a bam da minha filha. Rqui te 
entrego, Diana, este manuscrito de que fui depositário até hoje. Lê, medita e resolve 
depois.> E ela leu a trágica vida de Branca de i\lvarães, casada com D. Jorge de 
Melo, do qual não gostava e que um dia topara quasi nos braços de uma marquesa 
— a de S. Gzns — quarentona de belesa picante, das que não querem envelhecer. 
De ai por diante sentiu o direito de amar. Álvaro de Sepúlveda fora um dos seus 
adoradores de Isolteira c aparecia-lhe ; Rodrigo Correia de Lacerda também, o este 
foi o preferido como sucedera a Camilo no baile onde ela quizera saber o nome do 
homem de tão singular presença. Egualmente a heroina do romance fazia egual inter- 
rogação a Álvaro, ao desditoso apaixonado, c pouco depois sentia-se abalada, pres- 
tes a ceder, quand* o amado lhe escrevia a dizer-lhe ir íâzer-se padre, renunciar à 
vida tormentosa de paixão insatisfeita. Devia ser a linguagem camiliana do período 
do desejo ; o facto, pelo menos, era egual. Respondera-lhe com o seu enternecido 
amor e quando acabara a missiva entrara o esposo a suplicar'lhe beijos que lhe 
negara. Quizera então saber se ela amava alguém e muito francamente, confes- 
sara-se-lhe. Num ímpeto, recebera a ordem de expulsão daquele lar. Saiu sem o 
menor objecto valioso, correu a casa do amante, a laaçar-se-lhe nos braços e 
encontrou-o quasi frio, reservado. Era muito pobre para a manter; aconselhava-a a 
tomar um quaito numa pensão, a escrever ao marido. 

Acabaram por chamar o antigo apaixonado, encarregaram-no de transacionar 
com o traido o qual repeliu a adultera, achando que a sua grande punição estaria 
nos tormentos inflingidos pelo amante. 

É certo que não se deram bem ; as volubilidades dele desesperavam-na, surgiam 
desatinos e a tentativa de suicídio da desditosa. Narrava, a autora, a vida da personagem 
como preceptora numa casa de Elvas para onde entrava gravida, sob o nome de 
Madalena de Queiroz, em cujas silabas se encontravam as letras de Ana, mais uma 
vez. Deu á luz uma filha que a dona da casa decidiu educar, tomar para si em- 
quanto a desgraçada, no auge duma doença, escrevia as suas memorias. Mas o pae 
corria a buscar a pequenita, e instalava-a num lindo palácio, a Arroios, onde ia Ál- 
varo de Sepúlveda, recordar com ele a morta e rever, nos lindos olhos da filha, a 
que tanto amara. 

Mas Jorge de Melo, que o acaso dos romances, conduziu á residência de Elvas, 
onde existia um retrato da esposa, embora desfigurado pelas amarguras, aprendeu o 
triste fim da que expulsara e foi assassinar o sedutor, o qual ainda tivera vida para 
entregar a creança ao seu amigo Sepúlveda e acabar sem dizer quem o ferira. Da 
paixão pela morta veiu o amor por sua íilha que se tornou a esposa do homem que, 



-251 - 



naquele dia da sua vida em que ela se decidiu a amar outro, lhe dava a lêr a nar- 
rativa escrita cora lagrimas c sangue, da pobre Branca de Hlvarães, adultera. 

ilna Plácido parecia atirar um aviso às mulheres que se avisinhassem da ladeira 
escorregadia das paixões pecadoras ao desejar que: «estas lições da desgraça ser- 
vissem para abrir os olhos a alguma dessas almas desvairadas.> 

No fundo da fantasia havia reminiscências da vida dela e de Camilo, primeira 
ao chamar-Ihe Nuno — como o filho — depois incarnando-o em Rodrigo Correia de 
Lacerda que podia bem ser Correia Botelho, pobre e aíidalgado, conquistador c volúvel. 

Até mesmo aquele apelido da mãe de Diana o fora buscar á semelhança de 
fílvarães com Hlvações que o escritor tomara para uma personagem dos Mistérios 
de Lisboa. 

Por toda a obra está espalhada a ideia dos lugares do sul entrevistos quando da 
sua fuga c por vezes, ao desenhar o fascinador, toma Camilo por modelo fidelíssimo 
logo transformado pelas exigências da acção inventada. No ponto do dessjo de o do- 
minar, de o querer ao vê-lo amado pelas outras, na fuga para a casa modesta que 
ele habitava, na própria idéa de se recolherem a um ermo romântico se dedavam os 
transes da saída dela da morada de Hgostinho \ elho para a de D. Carlota Eufrásia 
de Sá, c logo para o hotel. Na pessoa de Álvaro de Sepúlveda deve existir um pouco 
de Ferreira Quiques ultraromantizado c até na transformação do lugar do baile onde 
viu o tentador ha semelhanças flagrantes. Na vida deles esse sitio fatsl íoi a sala da 
Assembleia Portuense, na novela a Assen?bleia Lisbonense. Depois a tentativa do re- 
pelido amoroso se fazer padre, a entrada do marido, a súbitas, quando ela estava escre- 
vendo ao amante, recorda.m a fase religiosa do escritor c a sortida de Vieira de 
Castro a surpreender a adultera traçando a missiva para José Maria de Almeida 
Garrett. 

E assim por toda a obra, estranha de lances impossíveis, mísmo d ara novelas, 
mas laivada de palavras, ilusionada por figuras que pertenceram à rialidade, embora 
dentro dela tivessem procedida de maneira diferente : primeiro o romancista disfarçado 
num aristocrata mas a revelar-sc nalguns actos, e cartas, sobretudo nas expressões 
empargadas para com ela, doces, ternas, à moda do tempo c muito de uso dele ainda 
naquela época em geito que lhe ficara. Pinheiro Alves e o Quiques, c ela — pobre 
dela! — cm varias scenas ali estão desfigurados como num pasâdzlo ma? não tanto 
que não se conheçam— sempre como num sonho — atravez de deformações. 

A Herança de Lagrimas era isto. Pagaram-na à autora os editores mas o pu- 
blico deixou de a julgar pois a obra não entrou no mercado. 

Camilo, achara, mesmo no meio das agruras, veia para peças de teatro cómico; 
(*) fizera também, a biografia do seu antigo amigo Alves Martins, que reòactoriara 
a seu lado o Nacional e subira à dignidad? de Bispo de Vizeu; colecionara 
artigos e publicara-os; transformara o Espelho de desgraçados, no qual queria tratar 



(*) Morgadinha de Vai de Amorts - Entre a Flauta e a Viola. Escreveu também c romaace Mu 
Iker Faial. 



-25: — 



das dores de Vieira de Castro, numa obra sedativa para seu males c chamara-lhe : 
Livro de Consolação. Entrara a encher-se dura grande ódio contra a sociedade que 
não lhe perdoava as diatribes e a absolvição ; enfurecia-sc no Porto que se lhe aplau- 
dia as peças e os romances detestava a sua presença num ressentimento propagado 
de pais a filhos. Estava muito pobre. Pesava sobre a sua enfermidade o sustento do 
lar; a educação daqueles filhos, um adoidado, o outro desentendido, as chagas mais 
cruciantes de sua tortura e ao mesmo tempo sonhava compensações, honrarias, cou- 
sas que pudessem ocultar a sua derreta de dinheiro, enaltecer-lhe o valor que não 
era arnês suficiente para os golpes num balance de bater moeda forte. Havia quatro 
anos, que cm segredo solicitara uma mercê régia. O exemplo da consagração oficial 
de Castilho viscondisado, como já o íôra Garrett, tinha-o feito acalentar com a 
honraria a esperança de não ficarem ao desamparo os filhos dum homem ao qual 
um governo nobilitara por seus talentos. Para demais, outros literatos de menor 
categoria estavam amerceados : Ricardo Guimarães, era visconde de Benalcanfôr, 
Manuel Roussado, o folhetinista, barão do seu apelido. Porque assim os vid solicitara 
do bispo de Viseu o titulo a emparceirar-se com eles. Na sua habitual íranquesa, no 
seu modo rude, tendo com ele a confiança, de quem trabalhara na mesma banca 
da gazeta c na mesma politica, o prelado respondera- lhe: «el-rei não lhe dá o titulo 
que você pretende, porque você não é casado e diz que vive em mancebia.» (*) 

Fustjgara-o ; no espírito de Camilo, acumulou-se a cólera conb*a o soberano a 
qual envolveria os Bragenças mesmo os já apodrecidos nos túmulos. 

Mas nem com a mira no tihilo dava a mão de esposo a Rua Plácido como se 
vivesse numa vesânia. Longe dela delirava enciumado ; a seu lado torturava-a e vendo-a 
como companheira, mostrava-lhe bem que mais nada dele havia a esperar era 
afectos, alem dos oferecidos. 

Destas batalhas imensas 

Obscuras e sem brilhos 

Tens dois padrões de vitoria 

Tens dois trofeus : são meus filhos. (•*) 

Pobres deles, farrapos da fantasia paterna; pobre dela, desataviada das pompas 
teatrais da sala da Assembleia, do camarote do S. João, do boudoir, das rcxas do 
convento, das grades da cadeia, tornada a dona de casa que esse surpreendente 
criador de beleza entrevia muito pertinho dos potes c da lareira. Para demais diziara- 
Ihe as razões porque não o enobreciara c, olhando- a, recuava sem dar uma satisfação 
ao mundo. Sentia-se tão grande que se desejava fora da lei comum; ou um receio 
de perder mais ainda cm ternura para com ela fa-lo-ia hesitar? 



(*) Cartas a Tomaz Ribeiro, paj^. 28. 

(•') Datada de 27 de Abril de 1873.— Do Leint. 



-Í5J — 



o visconde de Castilho, a seu rogo, falara a Rodrigues Sampaio, quando este 
era ministro do reino, e conlinuara-se em duvidas, em hesitações melindrantes para 
ele, tão orgulhoso e tão irritável. (*) 

Concebera um plano demolidor, ousado, um projecto de marcar à gente do Paço 
quanto valia por si próprio c que da sua vida intima ninguém tinha de cuidar. Rn- 
dava meditando o primeiro golpe aos Braganças de cujo descendente se queixava a 
um homem politico, embora de seu pouco conhecimento. 

Mostrava-se capaz de tudo ao sentir-sc dominado por aquela idéa fixa da nobi- 
litação. Pouco depois da saí^a de Vieira de Castro para o degredo (**) renovava ele 
o pedido que fizera ao bispo e ao Sampaio. Dirigia-se ao deputado João António 
dos Santos Silva, a quem chamava estimado amigo, apesar de só duas vcses lhe ter 
falado. (***) i\bria-se com ele, punha-se muito à vontade, confessava- lhe o insucesso 
do prelado -ministro e acrescentava: «chegada n ocasião pedi ao visconde de Cas- 
tilho que intercedesse a meu favor com R. R. Sampaio. 

Volvidos poucos dias o ministro respondeu a Castilho que el-rei não dava títu- 
los a homem que tenha um viver desmoralisado, adultero, e escandaloso. Ora os 
meus pobres filhos são os inocentes filhos duma senhora a quem o sr. D. Luiz se 
referia na sua severa arguição ; (junto ?) eo meu leito estava a extremosa mãe deles 
quando recebi a humilhante resposta. Esta descaroada repulsa, meu caro amigo, 
trsspassou-me o coração onde eu sentia palpitar o sangue destas creançâs cujo 
opróbrio tão cedo lh2 começa e de tão alto as fero Rinda assim eu penso que po- 
derei diminuir-lhes o gravame da desonra dela e deles, casando com a infeliz senhora 
que expiou acerbamente as suas culpas. Dando esse passo não ficaremos valendo 
mais aos olhos um do outro mas ganharemos que a sociedade se esqueça de nós 
por não nos achar dignos da maledicência. Os filhos cá ficam. Se alguma vez V. Ex.» 
os vir homens e desvalidos, prcstc-lhes a esmola da sua proteção {****) 

Sentia isto, mas não casava, não a reabilitava; a lança de arremetida contra o 
rei que o tratava assim (*****) aguçava-a ele para traçar as paginas dum livro onde 
os Braganças eram poleados e se chamava a Infanta Capelista. 

i\certou de ir nessa data ao Porto o Imperador do Brasil D. Pedro II amigo 
dos literatos, admirador de Camilo que cm Lisboa fora visitado por Herculano c Cas- 
tilho no Lazareto. Hospedou-se o monarca, no hotel do Louvre (*) arranjado para a 



(*) «Foi ao podei o nosso Sampaio. Pedi ao Castilho que solicitasse do Sampaio a mercê modifi- 
cada só em mim, na hipótese que mais tarde a alcançaria para o pequeno, Sampaio respondeu o quer que 
fosse ao visconde de Castilho, que significava u-aa negativa; pcrem eu não percebi se o rei fôra consul- 
tado, se o ministro receava consultá-lo.» — Cartas a Tomás Ribeiro, pg. 28, 

(**) 4 de Outubro de 1871. 

(***) Eu conhecÍ3-o pouco: falei com ele duas veses; lia-lhe os seus discursos como quem estu» 
dava a grande frase lusitana etc,; Camilo — Noites de Insomiila, vol. V — pag. 41. 

(****) Publicado no Mundo, Tem a data de 20 de Dezembro de 1871. 

(*'***) Camilo e os Braganças— Artigos no A B C cm 1924, 



— 254 



circunstancia. Depois das maniíestaçõzs oficiais, das saudações dos burgueses da 
cidade depositaria do coração do pai do soberano, este desejara vêr Camilo Castelo 
Branco e enviara o dr. Forbes da Costa, a transmitir seu pedido ao romancista. Hfir- 
mou-lhe que estava doente, desculpou-sc com sua raagestade, (**) c logo o emissá- 
rio voltou com maior gentilesa. Seria o monarca que iria visitar o escritor. cQue a 
sua casa era bastante pobre para receber o impgrador, mas tal como era, ficava às 
suas ordens> retorquira- lhe muito desvanecidamcnte. 

As duas horas da tarde, (***) o imperial visitante apeou-se na porta da residencia,^ 
com o doutor e o barão de Itauna, seu camarista. No limiar estava o romancista 
vestido de preto, grave, diante da visinhança pasmada. 

O Porto caíra na maior surpreza e uma das testemunhas contrarias do processo 
de adultério, o grande amigo de Pinheiro /\lves, Agostinho Francisco Velho, 
vice-consul do Brazil, devia alarraar-se diante do que julgaria capricho de D. 
Pedro II. 

Lá em cima, na modesta sala, foram apresentados Guilherme Braga, o poeta 
demolidor c José de Azevedo Castelo Branco, quintanista de medicina e sobrinho do 
dono da casa. flna Plácido (****) teria assistido à recepção, segundo uns, fora rele- 
gada dela, asseveram outros. Devia exultar com aquela visita diante dos portuenses 
que os detestavam. 

Sentado no velho canapé o régio amigo dos literatos falou largamente; analisou 
escolas literárias, tratou de obras de arte e o visitado ofereceu-lhe um quadro do 
tempo de D. João IV no qual estavam retratados todos os monarcas porluguezes das 
dinastias anteriores. Comovidamente lhe agradeceu. Evocaram sombras ilustres, Gon- 
çalves Dias, o poeta brasileiro, Júlio Diniz, romancista nacional, ha pouco falecidos 
e quando o Bragança sôíu, a ddade, ao encara-lo e ao sauda-lo espantava-sc muito 
da sua ida à rua de S. Lazaro, à casa onde se forjavam as setas destinadas aos 
seus parentes. 

O homem de letras pobre pagava no oiro do seu talento (*****) a gentileza imperial. 
Mandou desmanchar as formas da Infanta Capelista que estava a ser composta na 
tipografia de António José da Silva Teixeira, da rua da ICancela Velha, 62. (*) 
Mandaram-lhe para casa as folhas impressas e cie numa fúria, ao vêr tanto papel 



(*) Pertencia a D, Henriqueta Alvelos e ficara á esquina da rua do Foiario. Le?ou 4.500$000 réis 
pela hospedagem do imperador o que motivou um processo visto o cônsul do Brazil se recusar a pagar o 
que julgava um exjgero. A proprietária foi ao Brazil e recebeu. Montou depois um hotel em Carreiros, 

(*-) Em 2 de Março de 187J. 

(***) Artigo do autor na Portugal áo Rio de Janeiro. 

/««««\ Os autorrs do livro Viagem dos Imperadores do Brazil a Portutal ao descreverem a visita a 
pag. 115, não falam de Ana Plácido, mas o sr. Eduardo Sequeira no seu artigo a Infanta Capelista pu- 
blicado no numero 106 do Tripeiro dá-a como presente o que pode ser engano visto errar também ao 
chamar-ihe esposa do romancista. 

(•*•«*) Dedicou-lhe o Livro de Consolação. 



25S 



deu-0 ao barbeiro que o servia o qual o vendeu a peso, salvando-se apenas algumas 
folhas mercê dum admirador (**) do romancista ilustre. 

No Porto, após a visita de D. Pedro lí, encarava- se cora maior curiosidade Ca- 
milo Castelo Branco na sua passagem. E ele, sem dinheiro, arrazado de saúde, inu- 
tilizado o trabalho do livro e dispondo- se a oferecer ao seu visitante outra obra, 
aquela onde passava o infortúnio de Vieira de Castro, sentia em volta a traquinada 
alueinantc do filho endoidado, o desdém do outro pelas letras ali, diante dele, que 
ia subindo lestamente à mais alta gloria literária, e da mâe, a escritora martirizada 
«m suas afeições e que talvez se visse, emparte, focada numa pagina que o amante 
escreveria : 

«O leitor, se quer compreender melhor, contemple o reb-ato de George Sand de 
1835 c o de George Sand de 1875. Depois leia o romance de ha quarenta anos, a 
Lelia, e leia o romance de hontem, Monte-Revêche. Aquela mulher de olhar sobran- 
ceiro, que transluz na pupila acesa o doce inferno do seu amor, que matava Mussets 
€ atirava as tranças negras c os escândalos dos livres à cara da sociedade — assom- 
bra- me. Siíilo que era forçoso saudá-la na morte como os lutadores ao César no 
circo. 

«fl. outra, a Sand dos setenta anos, filtrada do iodo do mar, asotada da sadia 
cosinha da província, com a touca de dispenseira e os bandós espalmados nas fontes, 
€sta que faria rir a sã moral vingada, a mim faz-me chorar. Hhl as mulheres que 
deram a vida e a morte a muitos corações deviam morrer cedo !» (***) 

Oh! se a invejosa cidade, que os detestava, os podesse vêr naquela casa bur- 
guesa da rua de S. Lazaro choraria ante o seu- romance novo como ao lêr as suas 
fantasias doloridas. 




(*) Acerca da inutilÍ23ção da Infanta Capelist" escrevera o romancista a Vieira de Castro: «Ha 
muito que está desfeita. A consciência entrou-me pela algibeira, Perdi muito, cavei dificuldades, mas 
sinto-me bem comigo.> 

(**) O sr. António Joaqaim Rebelo. 

(***) Camilo — /t Caveira da Mártir, 2 ^ ed., pg. 12. 



— 256 — 



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Jorge Ctmlto Castelo 

Branco (rtlrato i>erttn- 

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PoU 17 



XIV 

À DESVENTURA DOS FILHOS 



O LflBUTHDOR DESESPERADO — ACRÉSCIMO DR LOUCURA DE JORGE 
MORTE DE MANUEL PLÁCIDO - CEGUEIRA E REVOLTA — A <AN- 
GINA PECTORIS» DE ANA PLÁCIDO — O FILHO <MISTICO> 
— O FILHO <FAIA> -QUEM ERA O <FISTULA> 
— O VENCIDO SILVA PINTO — O 
FELIZ LAR DA PRI- 
MOGÉNITA 



CHNÇRDOS de tanto labutar cm letras e de desaguarem amarguras, os olhos 
do romancista quasi lhe negavam o consolo da luz. Depois do primeiro 
anuncio do mal da vista, na cadeia, peorara, por vezes, e embora quizcssc 
enganar-se, capitulando de inflamações moléstia mais grave, ia deixando no rastro 
de sua pena descrições desconsoladoras, sentidas : 

<0 professor — escrevia ele — começou a queixar-sc de que via uma nuvem ao 
redor dos objectos brancos e de grande enfraquecimento de vista em ambos os olhos. 
No discurso de dois meses, o nevoeiro condensou-se a ponto de já mal divisar as 
cousas alumiadas por claridade brilhante. Por fim apenas enhrevia os contornos dos 
vultos que se lhe figuravam erradamente na distancia.> {*) 

Hndava muito consumido. Custava- lhe o labor c embora D. fina Plácido o aju- 
dasse, (**) da literatura não manavam os consolos pecuniosos, os réditos, o bem 
estar. Ia levar os filhos para os preparatórios de Coimbra ; após um tempo decorrido 
da morte de Vieira de Castro, no degredo, (•**) Manuel Plácido aprcstara-se para 
voltar com seus experientes desenganos, uma lanugem no rosto e o desejo de se 
casar, fazer um ninho, confiado no rendimento de seus bens e na força para agen- 



(*) Camilo — O Demónio do Ouro, pag. 37, 1 rol. 

(**) Trabalhava no Dicionário UniTcrsal de Edncação e Eniino e iniciara com a tradnção da Mar- 
ettk, de Achard, a RlbUoteca para Senhoras. 
(•*•) Em 5 de Outubro de 1872. 



- 259 — 



ciar a vida. Num dia de apuro maior, Camilo deliberara vender uma taça de prata, 
d« lindo lavrado, oferecida pela colónia portuguesa de Hong-Kong. 

Pediu a alguém para esculcar o animo duma opulenta dama portuense, D. Ca- 
mila de Faria, que tinha bens sobejos, fama de artista, muito subida em elegâncias 
c à qual o grande romancista honrava dizendo-a senhora «de riqueza e gosto supe- 
rabundantes.> Rpesar do consentimento para «aspar o nome» do brinde cnaltecedor, 
a guindada amiga das belas artes, recusara-sc a adquirir o objecto empurrado pela 
penúria da casa modesta do talento para as suas salas de ociosidade servidas peia 
sempre estúpida fortuna. 

Ele, cinzelara a sua dôr na carta em que dizia: 

«Taças de prata em casa de escritores portugueses são como taças de amar- 
gura quando o vácuo delas é como o da gloria em Portugal.» 

h jóia talvez não valesse tanto como a frase em que havia lagrimas delidas no 
oiro da prosa mas a sécia, toda presa em preconceitos julgados de boa lei, ano- 
java-se de proporcionar algumas das moedas de oiro dos contratadores do tabaco, 
milionários e seus parentes, ao desvalido ilustre que atirara às faces do Porto todo 
os desafies. R visita dum imperador não o ilibara; as palavras dum rei não c lava- 
vam aos olhos dessa upada burguesa em cata de entroncamentos ncfoiliarchicos para 
desgastar a chancela da chstinsgem dos ancestros. Talvez que nem sempre respei- 
tasse os dizeres do mundo, pela sua vida fora, a mulher de alta sociedade repeti- 
dora do escritor celebrado. 

As compensações às suas dores estavam na g'oría diariamente acrescentada em 
finha com os sofrimentos. Sentira Castilho nobilitado e recebera a chapada de fel 
da recusa real para a sua vida de labuta e ainda, por um mal de seu espirito, 
vacilava na descrença, vasquejavam-lhe no animo os vislumbres da fé antiga. Ha 
pouco, mesmo após as renuncias ao seminário, declarara : 

«Isto resvalava-me no atheismo; todavia eu sei que tenho erguido as mãos e 
orado quando já vi Hna moribunda.» (*) 

Demorava-se quasi nada nesta impressão: «a desgraça e a doença teem-me 
feito descambar a um atheismo absoluto.» (*•) 

Tornava a mudar, preso em hesitações; subia dcs vales das duvidas para os 
pinoaros da confiança: Porque ousamos duvidar da celestial origem da religião em 
cujo seio os mais desamparados dos bens da vida encontram a doce preexistência 
da bemaventuiança?» (***) 

Continuava ferventemente> quasi em ardência : «Tenho orado e hoje ouvi com 
profundo recolhimento os meus filhos orar por ti.» (****) 

ilqaela crusinha de ferro que trazia ao peito desde os vinte c cinco anos pare- 
cia despertar a religiosidade a que o estudante minorista não se afizera. 

«ft fé nasce na paixão do desgraçados — escrevera; c porque assim o sentira 
apegava-se aos santos e a Cristo num idealismo medroso «com a devoção dum 



(*) {**) {***) (****) Camilo — Correspondência Epistolar, pags. 16, 42, 65, id. 



— 260- 



asceta ou com a boçal superstição dum crctitK» — asseverara — «ao pé do berço de 
Jorge ameaçado de morte>. (*) 

Era este o seu filho predilecto; desvanecera-se com as suas graças onde encoa- 
Irava scentelhas de talento, faulhas de génio, as quais brilhavam na imaginação pa- 
terna como falseamentos de superinteligencia quando eram brasido de loucura. 

Como ele se entretinha pincelando cartões futiu-ou>lhe veia de pintor e naturd- 
mente, na ardência da sua fantasia, entrevia o seu nome ilustre continuado nas gera- 
ções por um esplendente pincel rival da sua pena. Depois viet-o dedicar-se à traça 
de frases em relâmpagos súbitos e breves; por fim era a musica que o encantava e 
Camilo sentiu-o poeta e compositor para um dia soltar o grande brado de desalei^ 
ao compreender o enoitamento dum cérebro que julgara um foco gerador de imeM" 
sas claridades. 

Turt}ava-se em longidões de remorsos; taxava de castigos os seus males ao r&* 
colher as jarras deixadas por Vieira de Castro, vindas de Rfrica, de cima do seu 
tumulo. Vendo saltar dois insectos de dentro delas mais se lhe acirrara a idéa duma 
fatalidade perseguidora contagiada ao espirito de Ana Plácido a qual os fixara num 
artigo (**) : «um, todo preto a que chamam vulgarmente besoiro ; o outro, todo verde, 
c que tem o nome de louva a Deus». Tinham-nos encarado «com religioso terror». 
Pávidas sombras os entenebreciam e pareciam enegrecer o seu ambiente, o lar onde 
trabalhava tanto no livro que dedicava ao Bragança amigo, ao imperador, como nos 
que lhe verberavam os avós com endereços ao reinante avesso a amerceá-lo. 

Vivia longe das amisades embora acorresse para elas ao sabe-las infelizes. En- 
tr£U'a num período de tormantos ; se a politica o tentasse teria sido um revolucioná- 
rio e mesmo assim, prestando seu culto fraterno ao visconde de Ouguela, preso come 
inimigo da monarquia, buscava acirrar-se mais num combate de que o paço come- 
çava a recear. 

Visitara no Limoeiro o conspirador em cuja alma lucilavam rebeldias ; tomara-* 
seu colaborador nas Noites de Insomnia, onde se fuadibulavam avoengos brigantinos 
e no fundo de todo este revoltear havia apenas a cólera sentida por vêr alçados ès 
grandesas cubicadas, os que menos brilhavam em talentos. (***) Garantia desejar o 
titulo em duas vidas para que o «Jorge fosse a desculpa do desvario do pai.> É que 
descera das luminosas esperanças do génio cntresonhado nos seus gestos para a cer- 
tesa da escuridade do seu espirito. Em vez da coroa de loiros, cobri-lo-ia na da 
nobresa num triunfo banal, porém garantidor do futuro do louco. Um governo pre- 
míador do talento do pae não poderia despresar o filho herdeiro de seu titulo. Desde 
aquela invasão da doidice amava-e roais. Aos onze anos chegar a-ihe o desarra- 



(•) Camilo— Conespondenría Epistolar, 2.' ed., pf, 16. 
(•*) Ana Plácido — A Promessa. 

(***) Não peço que iales, qae peças o riscondado ; p;de menos do que i»so, menos aimla ^}tt • 
caiparelkaicm-me com o Alannel Routsado ou Ricardo Gnimaríes.» 

Camilo — Cartas a Tomaz Ribeiro, pai. 29 



- 261 - 



zoamcnto. Belo de rosto cora lindos olhos negros, claro de tez c de mãos e pés peque- 
níssimos, o primogénito só sabia casquinar risadas ao vêr a sua cara reflectida no 
vinho dos copos. Levava assim as horas das refeições na casa dos Arcos do 
Jardim que o romancista alugara cm Coimbra com a anciã de vêr os pequenos me- 
drados* na sciencia. E ali estavam um a rísalhar, tonto, diante da sua imagem nos 
líquidos, o outro desatento. i\na Plácido substituíra o copo de Jorge por uma caneca 
a fim de lhe desviar a atenção dos reflexos e ele passara a colocar-se diante de todos 
os espelhos, dias inteiros, gargalhando sempre. Já olhava para a mãe, maldosamente, 
extranhamente, e a pobrita alucinava-se, ocultava aqueles receios ao pai, não lhe apon- 
tava as suas maneiras extranhas. 

Esconderam-lhe os espelhos. Ela devia recordar aqueles versos feitos no ano 
anterior ainda à Rachel de outrora transmudada aos olhos do autor, querida doutra 
maneira: 

O que hoje sentes, oh l mãe 
Tem menos vividos brilhos 
Mas tens n'alma três afectos 
Tens o teu, tens os dos filhos. 

Os filhos t Aquele que fora gerado quando Pinheiro Alves a amaldiçoava; o 
nascido poucos dias antes da morte do marido furibundo e anatematisador, ali estava 
a encará-la colérico. Cantava docemente para o embalar e via-o a suavizar-se, tocado 
pela sua voz, aplacado pelas suas melodias. E pedia uma flauta; desejava ser musico» 
acalmava-se atè com os sons da viola. De quando em quando grítava, excitava-se; 
depois volvia à sua gargalhada, punha-se a pintar bonecos em tintas vivas que o pai 
— a adorá-lo cada vez mais — lhe comprava no Porto e lhe enviava com gravatas para 
o Manuel Plácido (*), muito querido também, à medida que lhe notava o desapego. 
Em Seide fugia-lhe; o romancista tracejava as suas obras, aceitava até tarefas de pe- 
queno estipendio para lhe mostrar como vivia sobre si torturado, invadido pela enfer- 
midade. O rapaz repudiava-o, desaparecia, decidira casar-se e ia para a Povoa atraz 
da noiva, procurando formar depressa O seu lar, desviar-se de quem tanto lhe queria 
e do qual tão «pouco caso fazía>. Possuía maiores haveres do que os seus a esco- 
lhida ; era mesmo muito rica e residia em Famalicão bem aparentada e sob o requesto 
cubiçoso dos galãs. Preferira o garboso rapaz, que contava desanovc anos, a gracíl 
filha do capitalista opulento e respeitado Bento Simões que já casara outra das suas 
herdeiras com o pri mogcnílo dum potentado do Minho, o barão de Joannc, Antó- 
nio Luís Machado Guimarães, enriquecido no Brasil, o qual achara para seu escudo 
as armas dos conquistadores de Santarém, velhas como o reino. (**) 

Camilo vira- o adoecer, de repente, na praia onde desde ha muito, passava a época 



(*) Cartas de Camila a Costa Santos, pg. 60, 
(**) Pai do conselheiro Beraardiao Machado. 



— 262 — 



dos banhos com a familia. (*) Fazia de Varzim um sanatório para a sua convales- 
cença após um estádio na casa de saúde de Braga, onde curtira dores pai te dd 
verão e, nos a) dores de Agosto, para ali se deixara estar, olhando melancolicamente, 
a agua onde o seu Jorge ia vêr o rosto a reflectir-se no engelhado das ondas. Ma- 
nuel dançava no salão do Club, folgava com a noiva, e uma noite, recolhendo suado 
metera-se no leito e no dia seguinte, declarava-se a doença, a pneumonia. R febre 
cerebral espreitava-o. 

Hcudirara os amigos á cabeceira do leito do enfermo que sorria e só pensava 
em se erguer. Camilo fixava-o dolorosamente e a mãe ajoelhava no seu quarto solu- 
çando ao lembrar-se da influencia nefasta daquele Setembro na sua existência. Nas- 
cera e casara em Setembro, todas as suas agonias maiores se passavam nesse mês 
(**) em que via morrer-lhe o filho. Porque Manuel Plácido ia finar-se aos desanovc 
anos e noivo, sentindo ao seu lado, durante os quatro dias alucinantes da sua enfer- 
midade, aquele homem, o amante da mãe, a insistir no seu afecto, a mostrar-lhe- 
uma amisade louca e a chamar-lhe filho. 

Para D. Ana voltava-se, no delírio que o acometera de seguida, e, como se 
uma luz extranha se acendesse no seu cérebro, nos paroxismos, lançara-se nos bra- 
ços do romancista, beijara-o, tornava-se creança, a mostrar-lhe as carnes causticadas 
e a pedir-lhe que o levasse para o seu quarto de aldeia. Seide era o seu sonho como 
como se lá encontrasse prazeres maiores ou como se algum braço de alem tumulo 
o puxasse para a cabana das torturas. 

Num momento, teve forças para se vestir ; soluçava a desejar os afagos do sol, 
estendia os braços para as bandas do mar, e na sua face emagrecida, as lagrimas 
corriam como as dum pequenino teimoso a quem se proibissem loucuras. Quiz vêr o 
mar; o escritor amparou-o até ao fim dum corredor, julgando-o salvo, vendo-o 
a enxugar o pranto. 

Balbuciava frases doces e deixava-se guiar para a claridade, com o contenta- 
mento de quem se despede num beijo do derradeiro osculo da luz. Queria descer « 
escada e ante os braços daquele que o tratava de filho e que o detinha, balbu- 
ciava: 

<Eu já sabia que não me deixavam sair. Contavam que caísse de fraco. Enga- 
nam-se. Não caio. {***) c. sustentado pela febre, sorvendo sofregamente o ar, engu- 
lindo a agua que pedira, diante da janela, olhando a vastidão das ondas, acabara por 
se deixar levar para o leito onde o escritor o deitava, o ia despindo com carinhos de 
pai, aconchegando-o a seu peito diante das lagrimas de Ana Plácido, por terra, su- 
focada, sentindo passar a aza torva do drama antigo naquele aposento onde a morte 



(*) Em 1874 ji ele escievia a Seatu Freitas, de Vaitim. 

('*) Cintiauara a sua mi sioa aeisc m2s. Morrealhe o filhe, a aeta e ela própria em Setembro 
acabaria seus dias. 

(•**) Camilo — Surtas da Hora final. 



— 263 



rondava. O doente quizcra deixar a cama de Camilo porque ele ali o deitara como a 
desejá-lo bem na caricia do leito onde seu pobre corpo também sofrera ; mas Manuel 
soluçara de novo, entrara era suplicas, volvera para a mãe os olhos e estendera- lhe os 
braços, para logo sorrir ao vê-la a agarrá-lo, buscando levá-lo consigo: «a maman 
pode lá com este Hercules !> (*) c punha-sc a olhar para ela como para a fixar 
na alma e prendê-la consigo até aos segredos do ftlém. 

Pareceu soccgar um pouco mas logo o quarto se encheu da sua respiração ca- 
vernosa. O medico (**) devia afastar-se para dar o lugar ao padre que chegava, 
alto, de negro, em pranto também. Era mais do que ura sacerdote; um escritor ilus- 
tre e um amigo. Sena Freitas, que nessa época já ganhara merecida fama, passara 
algum tempo junto do doente como visita da casa c consolador do romancista; pres- 
sentira- lhe a morte mas não deixara transparecer os seus receios aos enganados 
olhos de quem lhe parecia tanto o pai (***) daquele moribundo que nem hesitara 
em como tal o apontar nas paginas do livro de recordação dessa hora atormentada 
na qual perguntara a Manuel Plácido: 

«Quere receber os sacramentos da religião católica ?> 

Impetuosamente volvera : Quero ! 

Disse, e tomando a mão do reverendo começou a rir baixinho, feliz, após a 
confissão. Ele absolveu-o, beijou-o, fez o sinal da cruz e abandonou o quarto. Deu 
uns passos no corredor a mostrar-se ne fim da sua missão e sentindo-se preso nos 
braços de Camilo, ouvira-o balbuciar choroso : 

«Hh! Senna Freitas, Senna Freitas, encontro-o sempre ao meu lado quando 
sofro.» (****) 

Entraram ambos no aposento onde a mãe suplicava a Deus a vida do filho 
que lhe sorria ainda, depois de sentir o romancista a enxugar- lhe o suor; csfor- 
çava-sc por se voltar, e estendia as mãos, a quem tanto lhe queria, c o contem- 
plava, o segurava, o sentia esvair-se, desmaiar, morrer, sem conhecer que se finava. 
E daí por diante tudo foi pranto naquele recinto, na noite quente que se enchia de 
ruidos de banhistas a caminho do Club, das luzes, das festas, emquanto se acendiam 
as velas à cabeceira do morto. 

R dôr de Camilo foi intensissima ; não ocultava as lagrimas ; arrebatadamente 
lamentava aquela morte duma creança que sentira a seu lado desde a hora em que 



(*) Seenas da Hora final. 

(**) Dr, José de Andrade Gramaxo. 

(***) Aaos depois tinda igaorara que Camilo não íesse o pai do rapaz qae confessara. Tão intensa 
achara a d6r do romancista qne, ao escrerer o sen perfil, dizia: <CaBiIo é pai e tem aos filhos um amor 
lonco. Um, o Ilanael, morrea e as suas ultimas palavras íui es qoe as colhi e as guardo seladas>. Ao l&r 
isto TolTia o ilustre escritor: <Nos seus artigos ha am cqairoco. Aquele Manuel a cuja agonia V. Ex.* 
assistiu nio era meu filho. Adeptei>o no coração extremoso de pai e senti então qae o sangue nada é, 
nada conclui>. — Carta a S:na Freitas em 1886, 3 de Setembro. 

(*•**) Senna Freitas — Perfil de Camilo, 2." ed. pa6 46. 



— 264 — 



a mãe fugira do lar para a aventura, que vira brincar e crescer, c, depois fugir- 
lhe (*) desgostoso para, até se deixar beijar com enternecimento na hora da morte. 

7\li estava por terra, chorando, aquele que escrevera acerca dos filhos das mu- 
lheres amadas, dos nascidos das [caricias dos detestados maridos delas, ou das dos 
amantes bem queridos : 

«Quer nos parecer que nem o marido de Rosa podia amar cxtranhadamentc o 
filho de Rlexandre nem ela, sacrificando o filho iligitimo a um egoísmo de coração» 
em que era grande parte o capricho, se devia presar de mãe excelente.> (**) 

Punha-se a amar o rapaz que usava o nome do outro, num mistério de sua alma. 

Confessava-o, ao dizer julgar amortisar em afecto por êlc «a indemnisação devida 
à memoria do pai.> (***) 

Pensava assim? Seria ainda uma superstição ou alguma cousa de mais pro- 
fundo se enraizara em seu espirito guardada como um segredo enorme que nem a 
si mesmo quereria revelar? Lerabrar-se-ia, por ventura, que emara aquela mulher, 
estéril durante oito anos de convívio com o esposo e que lhe fizera madrigais, no 
Bom Jesus do Monte, cm Julho de 1858, quando ela trazia no ventre o filho — 
aquele filho — nascido um mês depois ? 1 Coincidência estranha 1 S6 após a materni- 
dade fugira do lar. E o romancista soluçava: 

<Adeus Manuel, filho do meu coração l> 

Hcresccntava, ainda : 

«Ha confortos aqui para os que tem os lances íntimos da vida c confortos ainda 
mais necessários para os que assistem às agonias inconscientes de um amigo, dum 
filho! 

Rh ! vêr morrer imi filho ! . . .> (*^) 

Era este [o seu grande, o seu inapassavel gemido, a queixa formidanda. Vol- 
tava-se para o destino num singular terror: «17 de Setembro de 1877. > Era a fata- 
lidade ! Quatro setes , . . Eram quatro machados para o deceparem.» (*****) 

E ficara sempre tão agarrado àquela recordação que mais parecia dum vcrdeiro 
pac qye dura amoroso da mãe, esposa doutro. Não recordava o cadáver amado 
sem se volver para o ccu, tremulo, confessando não saber do «pobre espirito desde 
que «Manuel me expirou nos braços.> (*•****) Voltava-se para Deus; sonhava • 
finado no Alem : «Não posso dcsconvcncer-mc que hei de encontra-lo em outro 
mundo. Se eu me convencer que daquele rapaz resta uma podridão a diluir-sc, serei 
ainda mais desgraçado.» (•«*****) Eosaudava-se; não o olvidaria jamais. Era muito para 



(*) <llUitaram-iBe as saodad«s de Flanael Plácido qse pjaco se Ih« dará de B>im.> — Carta a» 
vl»c*ade de Oa^aela. 

(••) Camilo — Demónio áo Ouro, 8." ed., paj. 73. 

(•••) Alberto Pimentel — Amores de Camilo, l.* ei, pif. 351. 

(«••*) Sctnai ia Mora Final. 

(**•••) NarntlTa de D. Ana Correia de Stide, ao aactor. 

^•««w») ^•«•••••^ CarUs a Senna Freitas em NoTembro de 1S77. 



-2tó- 



afecto brotado ao vê-lo nascer, porem, sendo assim o ciumento que tanto sofria 
longe da companheira tornava-se numa sumida personagem aceitando o fruto 
do amor carnal do possuidor da mulher tornada mãe já muito depois de lhe protes- 
tar ser unicamente sua. 

Dele restava-lhe a podridão; do irmão adulterino, Jorge, a treva; aquele garga- 
lhar diante dos espelhos ; e, todavia, sempre uma esperança ao imaginar refundir em 
génio o que era declarada loucura. 

Continuava a mirar-se nos vidros e quando chegara à idade de quinze anos, 
havia admiradores do pai — como o dr. Pereira Caldas — que procuravam fazê-lo 
aprovar no exame de instrução primaria. Desalentadamente, o romancista declarava: 
<o meu filho não estava era caso de ser honrosamente examinador ilgradeço muito 
ao meu amigo qualquer favor que tencionasse prestar-lhe mas eu nunca consentirei 
que filho meu obrigue os meus amigos a condescendências e indulgências dessa na- 
tureza>. 

O «decano do liceu bracarense> devia suspender a pitada nos dedos afeitos ao 
folheio dos velhos códices e meditar nessa recusa do escritor que tinha com ele liber- 
dades irritadas, o descompunha a meude para depois o elogiar. Passada a surpreza, 
atulharia as ventas, escorvar- se- ia, salpicaria de consolado espirro algum pergaminho, 
já esquecido da resposta do letrado. 

É que um grande pudor de homem talentoso, diante duma aberração formada 
pelo seu enorme amor, pungia o pai infelicitado. Envergonhava-se da sua obra mas 
adorava-a exactamente porque se esperançara na beleza sonhada. Como um escultor 
diante duma estatua, esbarrondada após a gestação, aquecida pela fantasia, vcrgava-sc, 
submetia-se, dobrava-se, oferecia*se em holocausto ao seu impossível ressuscitamento. 

Tinha desesperos enormes ; enervava-se ; considerava-se um precito e após o de- 
sastre do comboio que o levava para o Porto, e no qual ficara muito queimado {*), 
voltara- lhe o mal da vista e bradava num formidável arranco de desdita: «Tenho de 
volta de mim 14 luzes para vèr o que te escrevo. Desde que o sol se esconde estou 
cego e nem apresento sintomas de amaurose nem de cataratas>. (**) 

Possuia-se da idéa do suicídio e cada vez que a sentia tumultuar lembrava-se 
dos seus, dos que devia amparar; da mulher que desinquietara do lar, do doido, 
do inconstante e leviano. 

«Se eu fosse só, como devia ser se tivesse juizo, já tinha resolvido isto suma- 
riamente.» (***) 

Quando pensava nisso, quando procurava o triste fim, ouvia os gritos do aluci- 
nado, deparava com ele a deitar a lingua de fora aos cristais ou ouvia-o a tocar me- 



{*) Ficara ferido na persa direita e na cabeça e tinh.9 enormes dores aerrosas. Dizia ser mila^t» 
mão ter morrido. 

(**) Carta a Oafiuela. 

(***) Carta a Oajaela, em Agosto de 1878. 



— 2«6 — 



lodias na sua flauta e tão tristes, tão choradas, como a daquela chácara do agosti- 
nho de Ceuta que escutara, havia vinte^ anos, na ponte de Hmarante, pela noite de 
luar e quando imaginara ir sepultar-se nas aguas marulhantes e prateadas do rio que 
o chamava. 

A seu lado Rna Plácido gemia, vestida de luto pelo Manuel, dizia que antes o 
queria vêr pobre por seus desperdícios — pois sempre lhe valeria — do que estendido 
no caixão. Apoiava-a, declarava-se infinitamente ensaudado e tomava* se dum súbito 
acesso de ternura ao ouvi-la a queixar-se do coração. cQue por ele havia de acabar !> 
R sua sorte seria diferente das irmãs a morrerem pelos pulmões. De quando em 
quando parecia sentir arrepanhar- se-lhe o peito, uma dõr fina, aguda, como a dum 
alfinete enorme a atanchar- se-lhe na carne, ferindo- a até à espádua e ao braço esquerdo, 
julgava sentir a aproximação da morte no latejar do sangue e quedava-se à espera 
derramando lagrimas, aiando. Depois do enterro de Manuel viera intensamente essa 
pontada garreante, cruel e Camilo — sempre ledor de livros de medicina, numa 
auto observação, péssima para a sua cabeça profana — compreendera, atravez dum 
tratado que ela sofria de angina pectoris. Contagiava-se de maiores padecimentos, 
aferrava-se a ideas tétricas, de mais não existir; almejava deixar o mundo mas lem- 
brava-se dos filhos e cada vez que se encontrava longe da mãe deles acentuavam-se 
os negrumes de sua mente. 

Então, num esplendente abril, em constantes viagens ao Porto à busca de 
especialistas para a sua falta de vista, amparava-se àquele coração lacerado, enfermo : 

<Creio que cheguei ao termo da vida. Resignadamente, minha querida, até à 
morte adorada ilna Augusta. Agarra-te á vida que é taboa salvadora deste [filho que 
está ao pé de mim com a morte estampada no rosto Era do seu Jorge, do louco, 
cada vez mais amado, que ele tratava e para quem pedia o arrimo da mãe: <Segue 
a tua vida de amargura com a coragem que tens sempre revelado. Fica neste mundo 
por alguns anos como quem sacrifica ao pae na pessoa dos filhos. Lembra-lhes muitas 
vezes o teu Camilo.» (*) 

Ela desolava-se entre tantas desventuras e o coração mais se ressentia; tanto se 
sucediam as crises que o alarme chegara mais violentamente ao espirito do escritor : 

— Ana Plácido — dizia ele ao padre e amigo Sena Freitas — tem uma angina 
pectoris. Eu considero-a perdida. Tenho dois filhos desta senhora. Um deles é adul- 
lerino, está privado de lhe suceder nos bens. Alem disso se ela morre a saudade 
ha-de pungir-me com o remorso de não a ter honrado aos olhos dos filhos e do mundo. 
Eu queria que v. ex.^ me obtivesse licença do seu arcebispo para eu a poder receber.> 
Pedia empenhadamente e dizia escrever-lhe naquele anceio às duas da madrugada 
<ouvíndo-a gemer nas agonias do coração. > 

Como ela melhorasse tudo foram risos e o esquecimento do consorcio veiu 
diante da mãe dos rapazes que perdera as graças da juventude. Engordara ; fumava 
muitos charutos desde que estivera no cárcere. Viciara- se de nicotina e queimando 



(•) 23 de abril de 1879. 



— 267- 



por dia dez c doze Flores de la Reyna causava o pasmo das creades aturdidas. O 
escritor entremeava as orgias do fumo com as aliviativas pitadas. Ro chegar o in- 
verno, metia-se dias inteiros na cama ouvindo zunir a ventania nos pinliais, escuta- 
va-lhe os uivos pensando ou construindo tragedias. 

Como todos os doentes de nervos, insistia em narrar seus males. Escrevia a 
Tomaz Ribeiro, desolado, sentindo aproxiraar-se a sua hora, o momento de deixar os 
filhos; largamente se queixava a Freitas Fortuna — àquele que considerava mais entre 
os seus Íntimos — de tudo quanto o afligia. Ia procurá-lo à loja, desabafava. Este era 
ura comerciante que tratejava em papel e livros (*) e embora não editasse frequente- 
mente, interessava-se pelas cousas de literatura a que também se dedicava. Contava 
ao tempo uns trinta anos e sendo homem pratico, de boas idéas positivas, sempre 
encontrava consolos para dar ao fantasista. Visita va-o a meude era Seide e de tal 
maneira se ligara — ele o sereno — a esses excitados românticos que fína Plácido, 
perdido Vieira de Castro, já a apodrecer num cemitério colonial, entrara a dar-lhe o 
batamento de <irmão> que ao desgraçado conferira. 

Ho conselheiro, que então ocupava a pasta da marinha, o poeta do D. Jaime, 
Camilo descrevia seus males c dizia-Ihe os dos filhos que tinham crescido e iria en- 
contrar muito diferentes. Pejava-sc de negar a inteligência de Jorge, de o relegar para 
as trevas da loucura e tratava-o de niistico. Com «feito ele aparecia cm ares cândi- 
dos, de olhos baixos, amodorrado como um seminarista em arroubos cora a fé ; que- 
ria recolher-se; pedia ao pai uma casota para se meter, uma espécie de cela, de 
isolamento. O que se atribuía a repuxamentos da crença na alma do louco eram os 
sintomas dos onanistas que par2cem sempre receosos tfe fixar as pessoas, caminham 
de cabíça baixa, enviezam o olhar e deperecendo aos poucos comem vorazmente. 
Mandara-se edificar um colmado para ele passar o seu verão no fundo do quintalejo; 
estiraçava-se longas horas num catre a ler, a meditar ou a pintar os seus bonecos. 
Oub'as vezes tirava sons doloridos da flauta e o pai entemccia-sc, punha-se a amar 
tanto esse desditoso que qaasi o adivinhava. Tornara-se o seu companheiro, o seu 
amigo, dava-lhe confianças c dinheiro. 

Precisava de confidenciar suas amarguras; receava que uns não o lamentassem 
bastante e escolhia outros para seus Íntimos desafogos. O visconde de Ouguela era 
dos mais assíduos assistentes a tantas aventuras com suas cartas lenitivadoras ante 
as enormidades vindas do fraternal amigo. 

<0 Jorge está irremediavelmente doido. Sinto-me tão esmagado que faço esforço 
para me salvar escrcvendo.> (**) E com efeito lidava noite c dia e encontrava sem- 
pre as mesmas cores para as ternuras, as mesmas modulações para as graças e até 
o chasquear chistoso e verrumante como nas paginas da Corja, donde o burguez 
sa!a vexado, até às da Senhora Rattazzi nas quais uma princesa era esfarrapada. 



{*) João Aittonio de Freitas Foitonz, autor de Tarios trabalhos sobre assuntos financeiros e ccmer* 
ciais, Irmão do medico Urbiau de Freitas. 

(**; Carta a OB£aela em 29 de ílaio de 1880, 



— 268 — 



Uma das personagens do Eusébio Macário era também um dos maiores consola- 
dores de seus males. Animava-o ; acompanhava o Nuno — capitulado de faia pelo pai 
— e que se afizera, aos desassete anos, a uma vida de balbúrdias, todo interessado por 
cavalos, dedicado à alquile, trotador eximio nas montadas de má estampa da estre- 
baria de Seide. E sonhava alasões, fouveiros, bestas de preço para pompear na feira 
de Vila Nova c nas festas de Landim e Requião, Não o desamparava, o amigo — 
também aquietador das fúrias de Jorge — e que o grande romancista caricaturara no 
filho do Macário ; «caçador e fadista de tabernas sertanejas.» <Tinha andado para 
padre e esbanjara a herança materna em Braga, em orgias de frigideiras e na boé- 
mia das travessas.» Atirava- o para as tendências da medicina, de querer <formar-se 
pela escola do Porio, marcava- o de hereditaricdades <o pendor para a tasca, a pai- 
xão furiosa das taberneiras de peruas rubras e espáduas roliças» e tornava-o um 
fadistola <a sapatear fados e a berrar desentoado palavras do conde de Vimioso à 
Severa.» Expunha-o «com o cigarro ao canto da boca, o joelho no ar cora o pé 
sobre o gamão e a viola na coxa» a cantar «pungido com intercadentes ais soluçan- 
tes a apoteose toda da Severa.» 

O original desta copia se tinha pontos de contacto com ela nas pandegas, em ter 
andado para padre, nas franciscanadas de fêmeas e no aiar de fadinhos, não sabia 
repenicar as cordas das violas. Ho vêr-sc desenhado e cognominado de José Fistula» 
Francisco Correia de Carvalho, assim se chamava o parceiro de Nuno, o amigo de 
Jorge, o servidor por admiração e amisade do romancista, exclamava: «Este senho 
iaz de mim tudo quanto quer!» 

Era filhote de S. Paio de Seide, nascera na casa abastada de junto da igreja, 
dum rude trabalhador minhoto e duma brasileira, mas herdara mais as tendências 
languidas da mãe que o desembaraço paterno para a lida. O irmão Hilário frequen- 
tara em Coimbra estudos de medicina mas morrera de pneumonia no casal por umas 
ferias grandes. Os ouh-os, José, Francisca e Augusto, trabalhavam na lavoira vasta 
e no lar, e aquele, Francisco, partilhando dos rendimentos da casa, frequentara o se- 
minário bracarense, viera minorista, chegara ainda a acompanhar enterros mas, pe- 
gando-se de amores com uma moça de Vermuim, deixara a alva e a sotaina e pu- 
zera-se a viver dos bens, muito à vontade, em estroinices de brado, pelas redondezas 
de Seide a Santo Tirso, de Famalicão à Povoa. (*) 

£nsiivara-se na amisade do glande homem; gostava que lhe chamassem «o Fis- 
tula»; acrescentava a seus apelidos essa chaga com desvanecimento, como a mos- 
trar-se na celebridade e se Camilo o tivesse exigido ele tiraria um curso de viola 
para melhor corresponder á personagem. 

Tinha uma enorme paciência e sendo um ocioso achava-se a toda a hora prestes 
para recadejar, ser como o guardião de Nuno, sobejando- lhe tempo para acalentar o 



(*) Camilo f«i pidríaho dnm filho dele qae se encontra em Maoaas. Estas e outras informações 
desta obra foram fornecidas ao aator pelo ilustre agrónomo dr, Alberto Veloso de Araújo, de Famalicão, 
a quem maito derem as paginas deste lirro. 



— 2M - 



louco, cada vez mais estremecido pelo pai desvairado a dizer ao seu velho Ou- 
gucla: «principio a desconfiar que meu íilho me está comunicando a demencia>. 

Perguntava a meude se estava doido c o escritor chorava ao ouvi-lo. Lcvava-o 
consigo para o Porto e via-o aterrar-sc diante do publico, desejar o seu colmado, a 
que chamava cascata. Inventava historias extravagantes como os bonecos que dese- 
nhava e a mãe, aflitivamente, ao ouvi-lo desarrasoar, procurava remediar o mal dis- 
cutindo, emendando-lhe os dizeres, o que o excitava. A alucinação dava-lhe ardên- 
cias cxtranhas. Imaginava-se um génio — talvez porque o ouvira alguma vez ao pai ; 
— sentia-se apto para tudo e como lhe faziam todas as vontades, capacitava-se 
serem homenagens aos seus talentos mais do que caridosos e doces afagos de fami- 
milia a prontidão em lhe obedecerem. 

Pensava em escrever um livro e o pai, se não lhe concedia as altas qualidades 
nesta arte, asseverava sempre que o enoitado pela doideira era um superartista na 
«musica e na pintura.» Ia discreteando à volta destas tendências da creança na época 
em que plantara aquela arvore no pateo à qual também ligava um sentido amigo. 
Queria com ternura aos seus troncos; charaava-lhe «a acácia de Jorge, do desgra- 
çado que desde que enlouqueceu odiou o piano e na flauta denota o estado daquela 
alma.> Buscava-lhe outras distrações; fazia tudo quanto lhe diziam poder aproveitar 
ao estado do enfermo; não hesitava em dar as mais largas caminhadas se elas o 
aplacavam c até seguia com ele para Traz-os-Montes procurando socega-lo. Mas o 
louco sofria de irrequictismo ; não podia viver no mesmo logar fora de casa, onde se 
entretinha em todas as fantasias. Emagrecia a olhos vistos; ao onanismo juntara-se 
o gosto pelo vinho. Bebia largamente e acabava em vómitos e em risos ou de olhos 
incendiados, era cóleras, ameaçador. Quando se aquietava chorava ; punha-se a tocar^ 
cantava, fazia péssimos versos, bradando ter talento para tudo. 

E o pai — ao vê-lo assim — buscava salvar o pão do seu futuro e insistia cm 
que o fizessem visconde. Quando a cegueira o ameaçava punha-se a pensar que não 
SC poderia em breve defender das arremetidas do seu doido querido. 

i\ndava muito carecido de carinho e se por vezes os seus ataques de nervos o 
levavam a clamores, a berros, logo eles se desvaneciam, a súbitas, como as rajadas 
que passavam no Monte Córdova sibilantes e se transformavam cm aragem nos vales. 

Ela habituara-se ao seu temperamento desencontrado, às suas criancices e ao 
seu génio e achara uma resignação enorme naquele viver na casa onde passara a 
lua de mel com o marido e agora povoada de fantasmas. De quando cm quando, 
irritado, fantasiava as suas idas ao Porto mas, ao chegar, não se encontrava bem, 
queria voltar depressa, atraido também para o scenario do drama intimo como se 
não pudesse viver sem os duendes. 

Nos dias de mais calma dava passeios longos pelas margens do Pele, escutava 
as narrativas das scenas da aldeia que a companheira lhe fazia, pois as ouvia, debru- 
çada no seu mirantesito, às linguareiras mulheres da visinhança. Mas, de repente, 
como tocado por um mau espirito, o romancista, aborrecia-se e falava em morrer 
acariciando a coronha do revolver já muito poida, gasta do atrito de sua mão ner- 



— 270 — 



vosa, impaciente, que parecia andar tateando a morte. Grandes lés em médicos o 
enchiam ; acreditava neles com tanto aían como descria. Não poupava o dinheiro ; 
desejava curar-se, c eles — os clinicos — ouviara-no, procuravam dominar aqueles 
nervos ou quedavam-se admirados a escutar as anedotas graciosas, contadas pelo 
doente num estilo muito seu. 

Por mais que quizesse não encontrava socego paia muitos dias, porque se seus 
males achavam lenitivos logo os de Jorge redobravam. Sacudia-sc em Ímpetos ; lar- 
gava de novo de Scide para o Porto, para Braga, demorava-se em Santo Tirso e achava 
sempre para as suas viagens o pretexto de vêr um facultativo logo desdenhado. Che- 
gava a troça-los, a satirisal-os num chasquear torturado e nem poupava os mais 
Íntimos. 

Constantemente repisava as suas dores e feria-se nas próprias armas que usava, 
pois ironisava-se impiedoso e colérico. 

h herança de Manuel Plácido coubera à mãe, que ia gastando ao sabor do ca- 
pricho, iípós umas descadeirantes polemicas em que um jornalista do Porto íôra ce- 
iebrizado sob as tagantadas de Camilo, aquele determinara, numa volta de seu animo, 
submeter-se e entregar-se vencido ao Mestre, como os valentes batidos por outros de 
maiores posses, numa admiração, num rendido preito. 

António José da Silva Pinto, o avassalado, encontrara um largo perdão e uma 
bonhomia feita de gentilezas por parte de quem o moera e agora parecia querer pa- 
gar em franco afecto o mal que fizera. Camilo era assim todo feito de volubilidades. 
Péssimo como inimigo, não havia mais generoso vencedor. Condoera-se do contricto 
e ouvira de seus lábios a narração da vida agitada que levara quem só de nervos e 
excitações também vivia e não procurava mais nada além da gloria literária. O as- 
pecto simples e lhano do gigante, ao qual se atrevera a irritar, deixara- o prostrado 
como um idolatra. Era o seu mais sincero admirador, o seu turiferario em conversas 
antes de o ser ení publico, muito tomado de vergonhas, fazendo dos seus pudores 
os cilícios com que se vergastava. Tivera uns ruins principies. Fugira dos balcões 
da casa Anjos & Companhia, da rua dos Fanqueiros, onde o instalara o pai, abo- 
nado comerciante, para os armazéns da alfandega a fazer os despachos da firma 
opulenta. Tomado de romantismo, largara o emprego e fora bater-se para Espanha 
contra os carlistas, defendendo a republica, clamando pela democracia. Assinava pan- 
fletos virulentos e diatribes anti-religiosas. Pcgara-se na polemica com o romancista 
por aquele desejo de notoriedade que enchia todos os contendores do terrível fundi- 
bulario e encontrando-se rico, por morte do pai, deliberara fazer-se industrial de teci- 
dos, já de mal com as letras, muito afeito a sonhos de riquezas. Dentro em pouco 
ia a caminho da ruina e como topara um poeta de sentimentos iguais aos seus. Nar- 
ciso de Lacerda, não mais o largara e deliberara ir viver com ele em Seide, à beira 
do grande escritor, como sacerdotes junto dum templo. Quizera edificar uma casa (*) 



(*) A cau ]i tem janelas ; como ainda nio tem portas, o frequenta-la tem escada de mio será ar- 
riscado. — Cartas de Camilo a Silva Pinto, 



- 271 — 



e era nos seus fundamentos que se ia enterrando algum do dinheiro da herança do 
Manuel Plácido, visto estar aguardando liquidações de beos, e inventários, o icono- 
clasta jornalista da Actualidade fascinado peio génio acolhedor. 

Empenhavam-se os recursos do casal cm erguer a propriedade, (*) aguardando-se 
sempre o pagamento mas, após algumas faltas, desaparecera nas agitações o arrui- 
nado c o seu companheiro. 

Debalde Camilo lhe escrevia, bondosamente, como quem compreendia aquela 
vida tumultuaria. Pejava- se de lhe aparecer cnchia-se de vergonha, fugia até da 
sombra do consagrado. 

Isto durara muito tempo. Tornara-se mais difícil a vida daquele p«r que devia 
sustentar os filhos, dois homens, um cheio de caprichos, o outro num pandegar 
constante como se cm vez de ter nascido dum escritor pobre descendesse dum rico- 
homem de Entrc-Minho c Douro c andasse empenhando vastas quintas, herdades c 
solares, h. sua vida era em rópia pegada por feiras e romarias e se algum desgosto 
tinha era o de ver suas montadas inferiores às dos ricaços, rebentos dos ^brasileiros» 
e dos morgados que lhes deixavam os bens nas mãos plebeas para não fazerem 
má figura á sua beira. 

£ sob a ameaça da cegueira, as torvas atitudes do fiiho doido, as estroinices do 
mais novo, a doença de Ana Plácido, Camilo sofria e constatava que de toda a sua 
vida só restava uma felicidade: o lar venturoso de sua filha Bernardina Amélia como 
se o destino quizesse pagar-lhe em risos as lagrimas choradas pela mãe, por Patrícia 
Emilia, abandonada. 




(*) O mestxe qae fazia estes trabalhos de constroção dumava-se Malrario, eariqueceo e tornoa-se 
inimigo de Camilo. 



— 272 - 




D. Maria Isabt í da Cosln 
Mfc*do irtlralo perlen- 
canle i fómIUa d» CamUc) 



Vol 18 



. 



XV 



o «BRILHANTE NEGEO* 



OS PRETENDENTES DUMA RICA HERDEIRA — UMH COMEDIA CAMILIANA — 
AS AUTORIDADES E O CORAÇAO— CARTAS DUM SINGULAR «AMOR 
DE PERDIÇÃO> — UM RAPTO ROMÂNTICO— A FORTUNA DUM 
FILHO E A DESDITA DO OUTRO— REFLEXOS DUMA PAI- 
XÃO ANTIGA — COMO DESAPARECEU O «BRI- 
LHANTE NEGRO> — VERSOS A UMA PE- 
QUENINA MORTA — RESULTADOS 
DAS MISSIVAS FATAES 



VIVIA, por cslc tempo, na rua Formosa, cm Vila Nova de Famalicão, à beira 
da egreja, uma menina celebrada em todo o Minho. Em descendência de 
<brasiIeiros> nenhuma havia com tantos pretendentes e à medida que sua 
fama se espalhava mais êles acorriam como flibusteiros em piratarias de naus opu- 
lentas. Para demais D. Maria Isabel da Costa Macedo — assim se chamava a preten- 
dida de três concelhos — era galantinha com os seus dezasseis anos, seu corpito fran- 
zino, sua pele morena herdada da mãe nativa do Brasil, podre de rica, atirada aos 
braços do caixeiro minhoto e tendo morrido ambos, deixando a pequenita confiada a 
amigos, ela habitava a casa de António Joaquim Ferreira Tinoco, delegado pelo con- 
selho de familia para vigilante guia da < tricentenária > como lhe chamava Camilo 
numa alusão picaresca aos tresentos contos do seu apregoado dote. Enquanto à pro- 
genitura êle tirara também suas inculcas e francamente afirmava referver nas veias 
do nBrilhanie Negro* — como a alcunhavam ainda — «sangue da m ãe (*) que era 
mulata, da avó que era preta e do pai que era um patife incestuoso e crivado de 
vicios>. Acrescentava que ela tinha ainda «parte daquele cérebro desorganisado>. E 
como a não teria se na edade em que as raparigas idealisam galãs a seus pés 



(•) Escritos de Camilo, paj, 87. 



— ?75- 



CS via todos fascinados, madrigalando cm volta, elguos calculando já es alqueires ã& 
moedas dos rendimentos de suas quintas de Vilaça, no Outeiro da Quebrada, seus 
cafezaes de além mcr e as redondas somas cncofredas nos Bancos! Os melhores 
rapazes dos arrabaldes concorriam à sua mão, pela rua jamais se vira passar tantos 
namorados, apesar de ser a principal àa vila, endireitada do Campo da Feira para 
â egreja Matriz. Falava-se do <iBrilhantQ Negro» como do D. abade de S. Tiago 
de Anta cujos reditos pingues empalideciam com a comparação dos atri- 
buídos à requestada. Também a guardavam — os da casa — com mais cuidados que 
a Colegiada de Guimarães usava para cora o tesouro ôe Santa Maria de Oliveira e 
rodeevam-na de tantas cautelas como se fosse qucbrar-se na fragilidade de seu 
mirrado peito, no adelgaçamento de seu corpinho débil. 

Quando Maria Isabel aparecia na varanda e olhava a rua encontrava sempre 
nalguma loja fronteira, na janela da Assembléa, ou escscchado em montada bem 
ajaezada — à falta de melhores predicados — algum dos repszes cubiçosos de sua 
mão. Deixava-se contemplar, fria c calma, não amando nenhum, com a indiferença 
magnifica do <Regcnte> na sua vitrina do Museu. Parecia que rcalmsnte havia nela 
alguma cousa da pedra preciosa da qual se fizera d alcunha, mas aquele coraçãosi- 
nho batia de-xando aflorar na faccsita trigueira da sua dona, fugitivos rubores. So- 
mente se mostrava indecisa entre tantos apaixonados que lhe diziam adora-la vee- 
mentemente ; a sua alma, quasi infantil, procurava viver ura romance e apresenta- 
vam-lhe apenas uma banal disputa de ambiciosos como num mercado minhoto em 
tomo duma toirinha prometedora e galante. 

Ela devia saber que mcsn:o alguns dos membros do seu conselho de família, 
tinham mandado vir os filhos uns de Braga, c utros do Brasil, onde endevara moure- 
jando, para se enfileirarem ra linha dos disputsdorcs do dote. Correra a nova por 
lodo o Minho e enchiam-se de esperanças iruites almas ávidas de comunhão naquele 
viatico resplandecente, precioso. 

Partiram as cartss para o Rio de Janeiro e Bshia e outros pontos do império 
onde se instalavam os cavadores de fortunõs cm busca de seu bera estar. Foram 
surpreendidos por delraz dos balcões ou nos ermazcns de secos e iTiOlhadcs, arma- 
rinhos e botequins com a noticia de haver em Vila Nova, ao alcance de suas mãos, 
tesouro maior e de mais rápido acesso que os da possível conquista e sem riscos 
da febre amarela e das más operações da praça. 

Largaram lego nos primeiros barcos os rebentos de dois dos membros do con- 
selho de íamilia, de Brega veiu o terceiro tomados d^ mais probabilidades de exilo 
que os pobres adversários de Barcelos a Santo Tirso que andavam a habilitar-sc com 
menos vésos de falarem à cubicada herdeira. Eram aqueles, José, filho de Leonardo de 
Carvalho, Joaquim Fernandes c José Carvalheira, (*) que procuravam oferecer seus 
banais apelidos á que o acaso gratificara cora alguns bem mais sonantes, os de 



(*) Informações recebidas pelo autor mesmo defronte da casa de Maria Isabel e fornecidas pelo im- 
portante industrial de tipografia e distÍ23to jo-nalista sr. Manuel Pinto de Sausa 



276- 



Costa Macedo, ligados à laia da fídôlguia. O próprio administrador do concelho, um 
bacharel de largâs aspirações, João Santiago, conseguira ser visita da casa, tomar-se 
um dos mais assiduos pretendentes à mão da menina e boquejava-se ser este o noivo 
pois nenhum havia com tanta educsçâo, meios cdptadores, grande sciencia, futuro, 
aberto na politica regeneradora pois era, em Vila Nova, o delegado de Fontes e Ro* 
drigues Sampaio, então no poder. R autoridade impunha-se e por aquele começo do 
ano — em 1881 — as certezas chegavam de que Maria Isabel, seria dentro em pouco^ 
a esposa do feliz l>acharcl. 

Por vozes de recoveiras, b&klas de povo e fdlacías dos companheiros de Nuno 
Castelo Branco, tudo isto estalava em Seide como canhonaços rudes. É que o fiilio 
do romancista, contando desassete anos, ccnic a «brasileirinha», {ambem se apre- 
sentara a requesta-la não porque a amasse mas por desafio, desejo de conquista ft 
jimt&r às de mais lacil posse contados já no seu rol de folião e ao mesmo tempo — 
sobretudo por isso — porque aquele dote enorme lhe spresentava um deslumbramento 
de estrebarias bem providas de estampas raras, carros de boas molas, em estado de 
fâzer inveja ao de S£u tio Ferreirinha da Régua. 

Tanto se celebrara o «Brilhanta Nfgro> c os desejos de Nuno, que o escritor 
se tornava meditativo e derã>se ac trabalho de preparar scenas de teatro para serem 
representadas em Vila Nova ccmo num palco que ele dirigia, por actores ensaiados 
no seu modo magistral 

R Seide acorriam alguns dos ômigos do Fistula e do namorado da Maria Iza- 
bel, gente da esturdie, divertida, sem arreganhos de grandes feitos mas capaz^ 
duma boa aventura na qual ainda houvesse que se descadeirar qualquer intrometido^ 
Eram — com o Correia Carvalho — um mais atilado que andava requerendo coloca- 
ção, à conta do escritor, certo Marques Coelho amigo de bem bt^ber e meliior es- 
troínar, Luiz Barroso que servia na casa do romancista fiel e dedicadamente, bem 
como o celebre creado de Camilo, Maauel Caniço. Juntavam- se e falavam entre si 
dos predicados da cubicada e da maravilha do seu dote. 

Se alguns destes não iam aos ágapes onde Camilo, quasi cego, ainda encontrava, 
na sua veia romântica, situações teatrais e graciosas para uma vitoria, todos, de bom 
grado, colaboravam na arremetida. Ele entrettnha-se a enscenar o mais formidável 
dos romances vividos. Continuava a dizer-se que o administrador do concelho condu- 
ziria ao ditar a disputada menina, e ele sonia, imaginava uma vitoria retumbante tão 
entusiasmado, decerto, como nas épocas cm que procurava arrebatar Hna Plácido do 
seu lar. Tratava-se primeiro de fâzer com que a opulenta senhora léssc algumas das 
cartas escritas em arroubos de paixão c assinadas paio indolente Nuno. R correspon- 
dência eLtabeteccu-se e se Maria Izabel volveu de novo a vista a esses papeis ro- 
mânticos devia senil-los como fet'ços, pois devera lhes a sua inclinação para o filho 
do seu autor. 

i\li, pertinho de Famalicão, havia, pois, uma alma enamorada como as das no~ 
vcIâs e que lhe oferecia amor em I.ases tão lindas que julgaria estar lendo as 
paginas do Hmor de Perdição tão arrebatadoras que a faziam chorar, a tia, tão rica^ 



- 2T7- 



tão rodeada de pretendentes, como se íossc uma desditosa. Para demais, o signatário 
das missivas era garboso, esbelto, tinha belos olhos e má íama, o que seduz tento as 
mulheres como as perfeições fisicas dos amados. Hquela minhota milionária era uma 
sentimental que guardava nas suas gavetas versos tristes como pétalas mortas colhi- 
das nalgum dia de amor ou enviadas por mãos de apaixonado. E no seu ccercbro 
desorganizado, como Camilo o definia, decerto pela leitura das respostas às suas 
letras, deviam produzir singularissim.a impressão aqueles juramentos de ternura, numa 
linguagem de oiro, que lhe lembraria a dos seus poetas queridos (*). 

Ela lia e arrebatava-se. R chegada dos protestos de amor devia ser esperada 
impacientemente. O romancista, velho, decrépito, quasi cego, ainda ateava uma pai- 
xão, de longe, no seu gabinete, como um mago com cujo poder de génio não conta- 
vam os banais pretendentes à mão da que já se decidira a ser a mulher de Nuno 
Castelo Branco. i\traía-a a fama do futuro sogra tanto como o noivo loução c que 
julgava o herdeiro do talento paterno como ela fora dos cabedais de D. Teresa Mar- 
tins Marques — <a mulata> — ^sua mãe e de Rntonio Joaquim da Costa Macedo — co 
patife incestuosos — seu progenitor, no dizer do fogoso autor das estonteadoras mis- 
sivas. Quem se dandinava em atitudes de galo vitorioso era o administrador do con- 
selho que devia rir muito duma farça de bom esnirito na qual eram demolidos os 
seus rivais recemchegados para o assalto do novo velo de oiro. 

Ninguém sabia de onde partira o cómico espectáculo que se estadeava nesse 
Carnaval nas ruas de Vila Nova, e passara e repassara sob as janelas da pretendida 
a qual rira a bom rir como todo o povoléu de Famalicão c a gente grada que o 
gosava. Dentro dum carro, armado a capricho, três individuos desconhecidos cm suas 
caracterizações imitadoras dos rostos dos senhores José, filho de Leonardo de Carva- 
lho, Joaquim Fernandes c José Carvalheira jogavam aos dados sobre uma banqueta 
alguma cousa diante da qual a vila delirava. Sobre as suas cabeças, como uma signa, 
erguia-se um poligno lusidio, no seu tafetá, que representava o brilhante negro. Era 
o que eles disputavam na sua macaqueação, através das ruas, instalados num veículo 
patusco, de bestas enguizalhades, por uma lerça-feira de Entrudo, caída no l.» de 
Março. 

Se ela já não estivesse encantada com a prosa adorável das cartas recebidas, 
aquela alusão, mais do que iluminante, acerca do que desejavam os seus «apaixona- 
do8,> vindos de longe, com singular prestesa, por ordem dos pais seria concludente. 

Maria Izabel, dessa hora em diante, estava convencida. O romancista que pre- 
parara aquela forte comedia, c a ensaiara, triunfava. Ninguém sabia donde viera o 
CfflTO, pois dera uma larga volta pelas bandas de Santo Tirso ; tampouco tinham 
sido conhecidos os mascarados que parodiavam os pretendentes. Só Camilo poderia 



{*) «Achei hontem entre a papelada pueril de minha aora traslados do D. Jaime. Mas o mais cariosa 
é não saber ela que o Tomás Fibeiro — o ToEiás Ribeiro que ela conheceu no Bom Jesus — é o autor d« 
D, Jaime. ImaSinava-te talvez um jovcn louro, de melenas, luneta num olho e badine. Que decepção para 
ti, meu amiío> Cartas de Camilo a Tomás Ribeiro, pag. 40. 



— 278 — 



m 



imaginar semelliante maneira de derrotar os ousados. R sciencia de caracterisador e 
sccnografo do actor Dias — um dos amigos de Nuno, que ia a meude a Scide devia 
ter feito o resto. 

O bacharel João Santiago rejubilava. Agradecia, talvez do intimo de sua alma 
«o gracioso que assim ridicularísava os outros, deixando- o fora da scena porque era a 
auctoridade e não conviria a sua intromissão no assunto. Com aquela cumplicidade 
alegre se devia mesmo ter contado para não incomodar os atrevidos e de forma que 
toda a sua alegria c tolerância revertia a favor do rival ignorado, flssiduava-se junto 
da menina que, diariamente, ocultava no seio alguma das missivas soberbas e per- 
turbadoras do seu mais amado, de dcsasscte anos, como ela, e tão inteligente — a 
pobresinha de espirito ingénuo assim o julgava — que encontrava para exprimir seu 
amor frases de romance geradoras de comovidas e doces lagrimas. 

Yigiavam-na mais; alem do Tinoco c seus servos outros olhos a seguiam; po- 
rem, já SC decidira. Era menor ; dependia do conselho de íaroilia a sua scrte ; 
mas tudo se remediaria — como num conto de fadas — atravez daquelas frases mira- 
culosas. Bastava deixar-se raptar, entregar-se ao seu querido e ninguém obstaria, 
de futuro, ao casamento ambicionado. 

Neste sentido apareciam as letras, dia a dia mais apaixonadas. Encaminhavam-na 
para a fuga, com tanta segurança, como vinte e dois anos antes sucedera a Hna 
Plácido, inteligentíssima, casada, e com um filho nos braços. Era a magia do estilo, 
-ã irradiação do talento. 

Entretanto [o administrador pompeava aos olhos da vila pacata. Tornava-se o 
alvo de todos os olhares ; surgia com mais prestigio porque se dera um grande crime, 
ele andava açodado, cheio de importância, activo a descobri-lo. No propósito deslum- 
brador de fazer falar de si movia-se com uma presteza enorme, contava ao fim do 
dia as suas habilidades e ia requestar a <brasíleirinha.> Fora o caso que aparecera o 
cadáver dum negociante de gados no bifurcamento n^ estrada de Famalicão para a 
Povoa de Varzim c Barceles, na quarta feira de cinzas. Depois do entremez do 
Entrudo chegara a tragedia. O marchante viera de Barcelinhos para tratar com um 
seu deveder em Vila Nova, antes de se dirigir para a feira de Moncorvo. 

Requisitara- se policia de Brega, em grande alarde, conseguira-se lançar mão de 
dois dos indigitados criminosos, os irmãos Malícias — de S. João do Kalendario — e 
que segundo se espalhava, tinham cosido o desgraçado às facadas sem deixarem 
rastros de maior. (*) 



{*) Assassínio — Na estrada que de Vila Nora de Famalicão rai para Barcelos e no sitio em qae 
a mesma se bifurca com a da PoToa de Varzim, apareceu na manhã de quaita-feira o cadiver de um 
homem corpuleato, teado o crânio qnasi separado dn rotto, em consequência de um enorme fetimento, e 
o corpo crirado de facidis moimTnte no lado esquerdo do peito. 

O sr. administrador do concelho de Vila Nova de Famalicão fez remover o cadáver, que foi reco- 
nhecido por algumas pessoas. Era o de um negociante de ([ado, residente cm Barcelinhos. 

Dada parte à familia, esta prontamente compareceu em Vila Nova de Famalicão, declarando a 



— 279 — 



Mas nem com tanto dispêndio de superioridade ele conseguia desviar a herdeira 
de seu sonho. Passou Abril e quando Maio entrou, com o seu sol e as suas rosas, 
desabrochou na alma da minhota a sua sede de bem amar. Mandou dizer ao reques- 
tador que estava pronta a deixar-se raptar. Nuno exultou; Camilo radiante, deu as 
ultimas ordens no sentido de mais a deslumbrar. Ele considerar^se-ia extranho a tudo ;. 
partiria para longe de Seide onde se iriam acolher os amorosos na sua ausência. 
Mostrar-se-ia, assim, o propósito serio do raptor, ao levar a amada para casa de 
sua mãe. 

Huxilia-lo-iam na ação os seus amigos; uma carruagem aguarda-lo-ia a distan- 
cia, como nas scenas novclescas, c ela desceria — ainda romanticamente — por uma 
escada de corda atirada à meia noite à sua varanda. 

O sinal de que acederia, a resposta que aguardava o apaixonado, não seria pre- 
ciso escrevê-la. Bastava que puzesse na sua janela uma flor. £stava-se em pieno 
teatro; Maria Isabel, arrebatadamente, prenderia uma rosa, das lindas desse Maio, nos 
varões como se na sua corola oferecesse todo o seu amor. Porém não chegou a 
fazer esse gesto romântico. 

Era em 3 de Maio, terça- í eira e véspera de mercado em Vila Nova. O bacharel* 
João Santiago, considerado como noivo de Maria Isabel da Costa Macedo, andara a 
passear com ela de braço dado, de tarde, pelo campo da Feira, acompanhados por 
parentes de Ferreira Tinoco. Famalicão inteira os vira assim desde os barões da Tro- 
visqueira e de Joanncs — os grandes senhores da vila — até à Maria da Conceição 
— a Marcada — a mais fina alcoveta e a maior bêbeda saboreadora das pipas das 
vendas minhotas. Hté mesmo a propósito dela, que era rondeira notivaga, bisbilhO' 
teú-a c espreitadora, se tinham dado ordens, em Seide, a fim de lhe evitar a lingua e 
a espionagem. Se a boémia adregasse vêr o carro na barreira da estrada de Guima- 
rães, os homens ocultos nas ruelas em ares de coropiradores õguardando uni mo- 
momehto feliz, algazarrearia e poderia dar cabo da peça tão bem urdida. Também 
se ela surgisse de qualquer banda tratar-se-ia de a levar para os lados de S. Tiago 
de i\nta, iscando-a com promessa de bons cangirões de verdasco a cngulir nalguma 
tasca, e sacudi-la-iam rijamente para seus gritos desviarem as atençôss para o 



riara qae o iafeliz asiassisado seira ds casa com dettino à feira de Monccrro, tencionando pernoitar 
nesta TÍIa em casa de nm icdÍTÍduo, que lhe era devedor de certa quantia. 

O sr. adminislraicr procedeu às neceasaiiai diligencias para haver às mães os verdadeiros crími' 
aosos, requisitanio para isso alguns agentes de policia, de Braga, qoe lhe foram enviados. 

Como suspeitos íoraoi presos dois indivíduos, sendo um aquele a casa de quem o morto devia per- 
noitar, e para cuja captura parece terem concorrido as circunstancias altamente notáveis de não se des» 
cobrir no sitio em que apare :eu o cadáver, vestígio algum do crime, nem ter a roupa sido atraves.«ada 
pelas facadas que se encontram no corpo ,- segundo nos contam, a própria camisa estava intacta. 

£ de esperar qus o digno adsuinistradcr encontre o vetda-Ieiro autor ou autores de tão horrtroso 
crime, para terem a puaição que merecem. 

{Primeiro de Janeiro de 5 dt Março de í88l) 



— 280^ 



ponto opoilo àquele onde o veículo aguardaria a raptada, c da rua Formosa, onde » 
scena se representava. 

Quasi defronte da casa estava enião instalada a Hssembléa e os parceiros, entre 
cies o administrador, demoravam a retirada. É que a noite de Maio, baforada de calor, 
não convidava ao leito. 

De tarde o Luí» Barroso, seu vislnho, passara com um grande araor-perfeito na 
lapela — até na ílôr se evocava a paixão — c chamara para êle a vista da apaixonada 
de Nuno como a preguntar-lhe se sempre acedia a fugir naquela madrugada. Passa- 
va-lhe sob a janela essa flor a substituir a rosa que não poderia pôr na varanda sem 
levantar suspeitas. Hccnou com a cabeça. Consentia. E assim ficou de csculca até à- 
hora tarda para a sua sortida de amorosa. 

Maria Isabel devia seguir atentamente os movimentos dos jogadores, escutar os 
ruidos das suas palestras das portadas de suãs janelas, no angulo da igreja Matriz. 

Nuno Castelo Branco envergara um disfarce; comera c bebera à tripa forra e 
quedara-se numa indecisão perto do mercado do peixe onde o deixaram. O Caniço 
ficaria na Praça da Mota e correria a avisa-lo. O outro amigo, que muito devia ao 
romancista, vigiaria a assembléa e os companheiros encarrcgar-se-iam do rapto. /\a 
começo imagioara-se conduzi-la para Traz-os- Montes no carro do Cosme de Guimarães, 
que providenciaria para as mudas em vários locaes, ainda como num romance antigo. 
Decidira-se, por fim, a alberga la em Scide. Camilo entretivera-se largamente com o 
advogado portuense, o celebrado Vasques de Mesquita, ouvira dele a necessidade 
de não recolher os fugitivos, evitando responsabilidade conjunta no roubo de menor. 
Pretendera, então, que o sobrinho Hntonio de Azevedo arranjasse esconderijo para os 
noivos, «uma casa onde cies se alapardem>, como escrevera a i\na Plácido, metida 
na confidencia, bem cumplicisda para regalo do filho, e acabara por seguir outro con- 
selho. Bastava-lhe não estar na residência, fazer-se surprezo, para não o culparem no 
delicto. 

Imaginara, como num capitulo de seus livros, um sacerdote trasmontano para os 
unir na lura que o parente lhes arranjasse à beira da Samardã e ao qual, segundo 
afirmara à companheira, valia <a pena oferecer um ou dois contos de reis>. Hqui 
acabava o novelista e surgia o pai a querer garantir o futuro do seu rebento incapaz 
de qualquer esforço trabalhadeiro. <0 que não podemos é desistir — insistira ainda 
com a mãe do raptor — porque lances destes não se repetem na vida». Que diferente 
fora o romance de ambos I 

E porque lances destes não se repetem na vida, Nuno aguardava, que o desper- 
tassem, pois dormia proíundamenie na hora em que os amigos começavam a escul- 
car na rua Formosa, onde estavam ainda iluminadas — apezar de ir além da meia 
noite — as janelas da Assembléa. 

O Janga, lampionista, peitado, apagara o candieiro de purgucira ao sumirem-se 
as luzes da casa onde se jogava até tarde. Maria Isabel surgira. R milionária vinha 
descalça. O Marques Coelho e o seu parceiro aproximaram- se. Este falou para o 
vulto, baixinho, cm discreto sussurro de conjurado: 



— 281 — 



— Salte, menina, nós a seguramos. 

E ela, não teve medo, trepou à varanda e dcixou-se cair nos braços de quem 
mais íinas maneiras tinha para a conduzir: o Luís Barroso. Dera um ousado salto 
de mais de dois metros, mas íôra tão suavemente agarrada que mal o sentira. Não 
sucederia assim no salto brusco da sua vida. Escoltavam-na os outros felizes com 
a partida e quando a meteram no carro, na barreira de Moço Morto, sentiram a 
jalta de Nuno que o Caniço, não íôra chamar, visto ter adormecido à semelhança do 
amo que saia do sono para a fortuna sem o menor esforço. 

Hntes do amanhecer estavam em Seide, após a volta pela Portela de Hequíão* 
com o cocheiro, o auxiliar e os servos. 

Pouco depois aparecia Camilo em Santo Tirso à busca do filho; contava que 
<lesde a véspera não o via e receava por sua vida. Ninguém dera fé dele e recolhia 
a casa tendo semeado a impressão da sua ignorância do rapto que, dentro em pouco, 
alarmava Famalicão e arrabaldes. 

Para um dos seus rapazes já conquistara um futuro; conseguira-lhe, por 
seus talentos, um dote digno dum romance fantasioso. Fio vê-lo no lar com a ra- 
ptada, escreveu a Sena Freitas solicitando do cardeal-bispo do Porto licença para 
efectuar o seu consorcio em qualquer lugar. Na caria ao sacerdote mostrava-se ago- 
niado, como aborrecido de si próprio; não confessava o seu acto mas almejava 
-«morrer>. 

Rebentara um alarme rijo em que o Tinoco era contundido pelos mexericos dos 
outros membros do conselho de familia; chamara-se à pressa o tutor da menor, o 
ÚT. Teotónio José Rodrigues de Rbreu Fontes, de Braga, o qual aconselhara o 
casamento diante das discussões calorosas dos seus indignados parceiros na 
pupilagem da fugitiva. Com o escândalo e a fúria viera a troça, a zombaria, al- 
vejar o bacharel Santiago, autoridade que não soubera guardar a menina de que 
era braceiro e que todos acreditavam seria a sua noiva. Nuno o rival menos 
temido tornara-se o rtiunfador. Em vez de fazer um inquérito, fugiu de Vila Nova, 
«ntregando o cargo a Adriano Pinto Basto, seu substituto, c a alma ao desespero 
^a derrota. 

Fora uma grande e desairosa queda a sua. Os outros pretendentes ainda po- 
-áiam volver -se aos beliches das barcas ou ao armazém bracharense; ele, porém, admi- 
nistrador c bacharel, devia sumir-se, com o seu prestigio arranhado, deixando a 
outros o processo do crime de quarta-feira de cinzas, /indava-se a boquejar que o 
comerciante fora morto pois ia casar com Mana Isabel e embora o Primeiro de Ja- 
neiro, puzesse a falar a sua viuva, não deixavam de querer relacionar factos desvir- 
tuados, em alusões, em remoques a quem recolhera em Seide os foragidos. Já 
a rica herdeira requerera a convocação do conselho de família onde largamente 
se disparatara. 

Um dos membros, teimosamente, se opunha ao casamento; argumentava 
com cruezas, pedira castigos severos. Era o pai dum dos gotescos preten- 
dentes. 



— 282 — 



Os jornais (*) entraram a tratar do caso com menos sobriedade da que a usada 
para ura moço que raptara certa menor de Mcssul — à beira do Lanhoso — e Camilo, 
sem descrever o bastidor da aventura, falava do rapto aos amigos com a eloquência 
dum autor que não assina a obra mas suspira pelos louvores. Mal se decidira o en- 
lace tratara de arranjar padrinho de categoria e escolhera o seu velho amigo conse- 
lheiro Jerónimo da Cunha Pimentel, governador civil de Braga; a madrinha era 
D. Hmelia de Carvalho, a filha de Patrícia Emília, convocada como para trazer um 
pouco da sua felicidade aos noivos que se separavam por uns quinze dias, a fim de 
evitar impedimentos canónicos. Sé em Junho, (**) se realisaria o acto solene na egreja 
de S. Pedro de Maximinos da cidade archi- episcopal. O romancista descrevia, deste 
modo a nora : cRapariga de 16 anos, não feia c doze contos de renda. Rmbos muito 
ignorantes. Olha que grande felicidade ó Tomaz Ribeiro.> (***) Outro dos aspectos 
porque a via era o seguinte : <quanto a fortuna a coisa está muito áquem das atoar- 
das publicas : Tem 7 contos de renda ou 150 contos. É uma rapariga estimável com 
uma inteligência rudimentar. (****) 

Tivera certa returabancia a cerimonia. Tomaz Ribeiro, ministro de estado, assis- 
tira, e de Vila Nova íôra gente grada dar o seu consenso ao rapto desvanecido em 
suas vergonhas — se as havia fora dos falatórios — sob a estola do padre. Enquanto 
«Ics noivavam no Bom Jesus, onde o pai tanto sofrera e amara, na casa de Seide os 
amantes entreolhavam-se. Restava-lhes tratar de Jorge, que só falava em suicídio, 
Camilo levava-o para o Porto e satisfazia-lhe todos os seus caprichos. Era um semi- 
-cego conduzindo pelo braço uma inteligência igualmente em meia treva. Comprava- 



(*) Consordo auspicioso — Vão aair-se breremeate pelos laços do matrimonio o filho mais velho do 
grande romancista e eminente literato Camilo Castelo Branco, e a Ex.°^ Sr.^ D. Maria Isabel da Costa 
Macedo, órfã e filha única do capitalista António Joaqaim da Costa JNacedo, de Santa Cecilia de Vilaça. 

O rendimento anual da fortuna desta menina orça por 12 ou 13 contos de reis fortes, procedentes de 
propriedades urbanas no Rio de Janeiro, quintas e foros do Minho, Domingo reuniu-se o conselho de familia 
em Vila Nova de Famalicão, e todos os vogais, à excepção de um, deram o consentimento para o casamento. 

A menina está depositada em casa do sr, Adriano Pinto Basto, administrador substituto do con- 
celho, até se obter a dispensa de pre£3es. 

Tudo preiagia, dadas as condiçõss de fortuna e de educação dos desposados, um enlace venturoso. 
Aatecipamo-nos a felicita-los, assim como ao pai do noivo, nosso ilustre e prestante amigo. {Primeiro dt 
Jaiulro, 18 de Maio de 1881). 

(**) Noivado — Ouiota-feira, realisou-se na freguezia de S, Pedro de Maximinos, em Braga, o co« 
sorcio da Ex.™* Sr,' D, Maria Isabel de Miccdo com um dos filhos do eminente romancista o Sr. Ca- 
milo Castelo Branco. 

Siguidamente aquele acto partiiam para o Grande Hotel do Bom Jesus do Monte, onde lhes foi 
•ervido um lauto almcço, assistindo os Srs. Tomaz Ribeiro, Jerónimo da Cunha Pimentel, Mendonça, 
Adriano Pinto Bastos e outros cavalheiros distinctos. Apetecemos acs cônjuges a mais imperturbável 
felicidade. [Primeiro de Janeiro de S de Junho de 1881). 

(••*) Cardoto Maria — Cartas a Tomaz Ribeiro, pag. 38. 

(*••*) Carias a Silva Pinto, pag. 189, 



Jhc o vestuário como ele queria, de casaco muito comprido, levava-o ao teatro de 
S. João onde a Missa de Yerdi lhe agradava. i\placava-sc. O pai não gostava de 
musica, irritava-se com as melodias e só a do fado cabia bem em sua alma, como 
se de lisboeta apenas tivesse guardado a paixão dessa canção da tristeza. O iado é 
o hino da desgraça e Camilo amava-o como desgraçado. Contrariava-se com as ope- 
ras, com as grandes peças de arte e o louco percebia-lhe o aborrecimento e pedia-lhe 
desculpa de o reter a ouvi-las. Apesar de lhe desagradar a diversão, guiava-o de pre^ 
ferencia para os logares onde havia bandas, orquestras, simples pianistas tocando e 
esperava muito da sua acção. Mas as noites eram tão horríveis para o enfermo que 
o pai julgava contagiar-se no mâl e perguntava a si próprio se iria até <à escuridade> 
de Jorge, ilssim andava e, ao recolher-se a Seide com o seu louco, encontrava o 
pateo invadido pelos carros, pelos cavalos, pelos p tros que o recem-casado adquirira 
sob a experiência do José Barracão, alquile de fama em todo o Minho, troquiiha de 
malas artes em trafego de gineta. Nuno parecia uma creança empecilhada no meio 
de brinquedos. O escritor analizava-o e pensava que «o Jorge era doido mas aquele 
ainda mais pois julgava ter juizo>. 

E o desditoso, ante aqueles filhos aos quais um poeta vaticinara felicidades c glo- 
rias, era para a mãe deles que se voltava, querendo-a aconchega-la ao coração, a vêr 
SC lhe encontrava o calor antigo porque eram ambos muito desditosos ao reverem-se 
nos resultados de seu amor. 

Ana Plácido envelhecera; enrugara-se-lhe a testa ficando lisa a face, rubros os lábios 
de seus amorosos beijos. Ele via-a doente, nas vésperas do fim do ano em que jul- 
gara fazer a ventura dum filho e o deparava a estroinar, atrevido, gastador, ante os 
berros do outro atordoado pelos grandes ruidos de alquilaria do pateo de Seide. Vol- 
iava-se para Ana Plácido como um romântico, novamente, esquecido da promessa 
do casamento mas votando-lhe um afecto reverdecido diante do seu conjugio de 
desditas. 

Ó ãna ãugu.stã, ta dormes 

Nessas andas que se apressam 

Para o perpetuo dormir; 

Teus paroxismos começam. 

Espera que eu quero ir. 

Não morras oh! minha luz. 

Porque se eu perco a razão 
E à campa te não sigo, 
Oh 1 que existência, que cruz l 
Filha leva me contigo l (*) 

Nos versos aquecidos na derradeira cinza do seu espirito apaixonado fâldva lhe 
assim; nas cartas amargas, desoladas, Ismbrava-Ihe : 

(^) Do Ume. 



— zn 



«Em tempo disseste-me que seria bom acabarmos ao mesmo tempo. Não sucum- 
bas emquanto poderes viver e amparar o Jorge mas quando ele morrer Dão tenhas 
pena de deixar este inferno de tantos anos > 

Acusava- se ; soltava como um grande brado de profundo remorso : 

«Nenhum de nós teve o coração preciso c a valentia da responsabilidade no 
infottunio. 

ftssim estavam frente a frente ao cabo de mais de vinte anos de vida em comum. 
Veiho, quasi cego, sentia-a a ela «como uma visão dantesca, morta» mas da qual 
tinha ainda ciúmes, pávidos, nascidos nos delírios da excitada fantasia. 

«Um perverso diabo se me apossou do espirito esta noite e não mo larga. Yejo-tc 
sempre nos braços dum homem, aquele que apareceu nas alucinações do Jorge.> — 
dizia-lhe como um mentecapto, o homem de génio. 

Da sua irritação saíam as paginas violentissimas da polemica mais do que os 
cntrechos dos romances. Descompunha, cm golfadas de desdém, a Rlexandre da 
Conceição, que depois choraria ao vê lo morto, c era a novela da sua ancestralidade, 
os Brocas, com que poderia explicar a geração de doidos que deles brotara, a 
preocupação do seu espirito como se desejasse atirar ao mundo as razões das infe- 
licidades dos seus. 

O doido gritava sempre; bebia, masturbava-sc, implicava com o irmão que se 
julgava muito lesado no amor do p^ e se iníatuava pimpando de milionário — ele, 
outro louco que se julgava com juizo — e, então, o romancista, alucinado na sua 
meia treva, tivera que o escorraçar de casa, ao ouvir-lhe as injurias, as protervias. 
Num abandono enorme escrevia (*): «Eu ofendido por grosserias de meu filho in- 
timei-o a sair daqui com os seus sete burros, com os seus coches c com os seus 
lacaios. Se ele tem dignidade e brio decerto se retira; mas eu duvido que cie o faça 
porque a intercepção frcnelogica me faz supor que na sua concerebração aquelas 
bossas não se pronunciaram > 

Todo o seu amor ia para o outro, para o doido que o olhava torvâmenle depois 
de beber, flna Plácido chorava e ele, no seu quarto, rodeado por quatorse velas, ia 
enchendo de vivíssima prosa os quartos de papel do seu romance de ao pé da 
porta, a Brazileira de Prazins. 

Tinha ali vivas as nersonagens dum grande drama e o ambiente das soas exis- 
tências. Puzera-se a escrever, o s?mi-cego; tendo conquistado a riqueza para um 
íilho, implorava para o outro um titulo que o salvasse da miséria. E achava ainda 
gracejos sob a pena, ao descrever agentes do seu romance novo. 

Desarrasoadamcnte ia Nuno na vida. Redobrara de bródios com o ouro a íun- 
dir-se-lhe nas mãos rctas, perdulárias. 

O pai vivia em grandes aflições de dinheiro e, como tinha um enorme orgulho, 
não se dirigia aos amigos a solicitar auxílios; gastava grandes quantias cora os mé- 
dicos e cm viagens sucessivas ao Porto cm busca de atavios c a Braga à cata de 



(*) Vlieonde de Vila Mcnra - Camilo Inédito, país. 113 e 114- 



-285 — 



sistemas apregoados; experimentava tudo e, embrulhado na sua capa engolada de 
peles, fazendo do seu antigo cacete de arruaceiro um arrimo, era como a imagem 
de um capitão famoso de aventura baleado c querendo ainda desempenar-se, erguer 
a sua pluma a um vento de desafio. Jorge continuava a arremeter e a ameaçar. 
O escritor chorava e sentia o outro, como um flagelo devastando tudo, inventando 
diariamente maneiras de despejar os cofres da mulher cm tunantadas inímdaveis. Não 
havia pobre à sua beira a não ser o pai. Largara de casa com a esposa, instalara-sc 
em Requião e levava as noites perdidas. 

No espirito do romancista avolumavam mais ainda os defeitos deste filho à me- 
dida que para o louco toda a sua alma se voltava. E entre o que o encarava num 
balburdiar constante, mal tendo tempo para lhe pedir a benção e o que nas suas 
fúrias o ameaçava, erguia as mãos ao ceu, já mal cnh-evisto, a pedir a morte. Estava 
crivado de dividas e sentia a riqueza a catadupar por aquelas mãos moças c deci- 
dia-se a vender a sua biblioteca: (*) «os amigos de 30 anos que, por serem amigos 
devim servir de alguma coJsa> ; (**) e dava esse passo «para pagar umas dividas e 
não lesar o pecúlio ao Jorge. Receei que, por minha morte, o Nuno vendesse a livra- 
ria a peso (***). Mas, de repente, o segundogenito tornava-sc pai e o romancista 
delirava ao lado do berço da neta. 

Despcdira-se dos livros com lagrimas que eram enxugadas no consolo de sentir 
nos braços a pequenina, fraquíssima, uma bonequita idolatrada desde logo pela avó c 
que ele disputava a seus beijos. A mãe definhava-sc, estava hiberculosa ao cabo de 
três anos de casada e Camilo cnchia-se duma enorme piedade. Em volta dos risos da 
creança, fizeram-se as pazes, tanto mais que cnb-evia o desditoso Nuno contagiado. 
Era a doença assassina dos irmãos de sua mãe, passando sebrc ela, e vindo gar- 
rea-lo ou teria brotado dos beijos de amor da <brasilcirinha> esse mal que fazia o 
pobre romântico, sucumbido, já nem aos quasi estranhos ocultar suas dores ? Pos- 
suia-se duma anciã de desabafo. 

«O Nuno chegou agora de Lisboa c vai brevemente para a Madeira vêr se 
salva o outro pulmão. Tenho o desengano por um dos médicos que o auscultou em 
Lisboa.> C***) Todas as zangas acabavam diante da ruina fisica que ia começar a ser: 

«Confirmo infelizmente a minha carta a respeito do meu pobre Nuno. É a tisica 
no l.o grau a passar ao 2.® O ultimo c bom medico que o auscultou não aprova 
como inútil a ida para a Madeira, eto (****) 

E continuava nos seus lamentos doloridos mal podendo com seus sofrimentos e 
velando pelos alheios: 



(*) Rendeu 2:300$000 reis, sendo composta por algumas raridades. Roubaram-no os leiloeiros. 
Devia dinheiro a Matos Moreira, que se encarregara da transacção, e ele levara-lhc 9 "[, de juro. Ficou 
■penas com l:570$COO reis. — Camilo— Cartas a Costa Santos, pag. 21. 

(**) Visconde de Vila Moura— Ca/ni/o Inédito, pag. 112 e 1!3, 

(***) Cartas de Camilo a Tomaz Ribeiro, pag. 56, 

(***) (**■*) Camilo _ Cartas a Costa Santos — pag. 11. 



-286 — 



«Foi no que pararam as cstravagancias que eu debalde quiz evitar a tcmpo^ 
Era muito fraco e muito mal construído. Rbusou até se perder irremediável» 
mente. (*) 

Esquecia as cóleras antigas ; decidia-se a acompanha-lo ao Bom Jesus c ante o- 
grande perigo em que o via, quasi esquecia o preferido, agora mais aplacado a fazer 
versos de manicoraio, a querer dedicar-se às letras, não podendo ser contrariado. 
Lembrava-se de lomaz Ribeiro e oferecia-lhe rimas mancas que o romancista 
enviava ao amigo, cumprindo o desejo do doente c acrescentando : «por aqui está 
tudo morto, envidraçado de gelo ; e o meu pobre filho tem na fantasia flores, mari- 
posas.» (**) 

Escrevera o louco: 

Florinha perfumosa 
Que estás no meu jardim 
Concede à mariposa 
h jolhinha formosa 
Que tinhas para mim 

Depois almejava vêr suas composições impressas c o pai fazia-lhe a vontade 
mandando compor «2 exemplares de ^rosa e poesia> como tristemente classificava 
a produção do enfermo, numa incomensurável desdita : «só 2 exemplares que lhe 
quero dar ; porque muito me penalisaria que ficasse aí algum que podesse ser o 
incentivo ao riso — riso impróprio de tamanho infortúnio.» (***) 

Como ia longe o tempo em que escrevia cm chascos a sua prece sarcástica! 

«Começo a pedir à Providencia que me faça bem brutos os meus filhos. No 
intento de os fazer odiar as letras, logo que eles saiam da escola, tenciono dar-lhe& 
para se instruírem os livros de João Félix Pereira, as odes modernas, e o enxacôco 
da Paquita. Para enraiva-los contra a Historia, dou-lhes os 4 volumes de Rlcxandre 
Herculano. 

Este sistema de burrificar rapazes não é ainda perfeito. 

Falta uma espécie literária que lhes faça parecer a lingua portuguesa uma coisa 
deslavada, com brotoeja e sarna, cheirando a hospital de gafos, fedorentissima como 
o diabo. 

Ha-de ser o Bistcr o inocente facínora, corrupção de besta, que me perdoe a 
meu cavalo.» (**"*) 

O filho doido pedia-lhe provas dos seus versos, das suas prosas; (****) revoU 



(*) Camilo — Cartas a Costa Santos pa£. 11. 

(**) Camilo — Cartai a Tomaa Ribeiro, paj. 50. 

(••*) Camilo — Carta, a Costa Santos, pag. 135. 

(**•*) Castilho e Camilo, por João Costa, paÉ 195. 

(•**«•) Existe em poder da farailla nm exerapUr desse impresto que D. Raquel Castelo Branc» 
publica no sen lirro Trinta Anos d* Stlde. 



— 287 — 



via-se já em ocessos de ódio e falava cm malar.» O pai não resistia a confidenciar 
o que SC lhe deparava. «Sc houver vitimas, a primeira ha de ser a mãe que era 
íjuem ele adorava.> Suplicava-lhe que não se embriagasse c via-o a cair, feroz, de 
olhos fusilantes. 

Aquela casa na qual entrara para amar tornara-se num antro onde as dores 
surgiam como serpentes chicoteantes c bravas. Parecia que um fatalismo imenso ali 
habitava com eles. Cousa alguma resistia ao hálito da vivenda que fora o lar de 
noivado de Hna Plácido com o marido. 

Por um formoso agosto, quando cantavam os segadores c os filhos dos pobres 
andavam nos silvedos, tisnando-se à soalheira, de bocas besuntadas pelas amoras, 
a neti.iha de Camilo mal abria os olhos à luz. Num leito distante dela, muito re- 
ceosa de a contagiar, a mãe agonisava. Ia vomitando os pulmões cm bac'ss de m.ãos ; 
parecia uma sombra; c com os seus dcsanove anos queria viver, apcgava-se a santos, 
esperava milagres, e, numa egonia muito lenta, chamando pelo marido, morria 
aquela que três anos antes juntava à sua volta tantos adoradores. Finãra-sc numa 
hora de luz explcndorosa o fascinador Brilhante Negro. Quinze dias depois acabava a 
creancinha que a avó andara embalando dois mezes noite c dia. A beira da sua camita 
ocupada pelo cadáver, os dois ajoelhavam e craquanto a mulher derramava pranto 
refrigerador ele «sentia estalar- lhe o peito de saudade» e não cessava de chorar 
lambem. (**) Encontrava ainda outro desafogo o, de descrevera mortazinha: 

Parecia dormitar: tinha morrido; 
pedi que não a levassem no caixão, 
que a deixassem mirrar e desfazer-sa 
como a flor se desfaz em podridão. 

TeimaDam em levar-ma e eu cingia a 
ao peito que se abria pela pressão; 
depois, pude esconde-la, e sintoa morta 
no meu despedaçado coração. 

Hna Plácido enviara ao viuvo a seguinte carta acompanhando es quadras : 

«Filho : 

Fiquei com cuidado em ti. Diz-me se estás melhor c se as feridas teem secado. 
H vida cada vez é mais triste. Se ao menos tivesses saúde! Yejo-me condenada a 
tremer sempre de que a morte me não leve para te sobreviver. Já agora nada mais 
ialta ao meu triste coração ! Envio- te uma poesia dedicada pelo papá pela morte do 
nosso anjo. Copiei-a com lagrimas. R saudade! A saudade! Adeus filho, o papá 
também está com cuidado cm ti. Falamos sempre a teu respeito. R tua mãe, R. 
Plácido.» 

E ele? «nem uma lagrima nem uma fingida sensibilidade sequer. Consola-se 



(*) (**j Camilo — Cartas a Tomaz Ribeiro, pags 56 e 57, 



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Fac- símile da caria de 
Ana P!acldo a atu [ilho 



jFol. 19 



com 200 contos que herdou da filha e da infeliz mulhcr> /Issim pintava o filho o 
romancista das desditas no meio do seu drama real Quisera enriquece-Io e as cartas 
que escrevera em seu nome pareciam ter levado o condão fatal duma nova espscie 
de amor de perdição. 

A greudg agonia daquele par de náufragos fundeado entre baixios era o 
futuro de Jorge ensandecido. O pai quasi não podia trabalhar e sob o peso da sua 
grande gloria, metido naquele recinto da aldeia c a cegar, dizia para os que o rodea- 
vam na casa onde Nuno habitava — e que íôra a destinada a Silva Pinto insolvivel — 
sentir abrir em si, agora que não via — idéas vastas para livros tão admiráveis como 
jamais os escrevera. ílndara cora um medico original de Braga, o dr. Ulisses; Ri- 
cardo Jorge tornara-se o ssu assistente mas ele descria, mudava, tinha formidáveis 
cóleras pois desejava vêr, escrever, lêr, não ser ima vegetativo no canto da casa das 
torturas, comendo de bom apetite, pois jamais o perdera, bebendo um calicesito de 
Porto, tomando a consoladora pitada ou fumando o seu cigarro. Tina Plácido, «enve- 
lhecida de dez anos>, era a consoladora, não podia, passar sem ela; ao sentir que ia 
ficar nas trevas completes, mais docemente lhe chamava a sua Aninhas. Durava-lhe 
muito a crise do coração; mas, mesmo assim atacada, acorria ao menor grito delc^ 
a acalmar alguma das suas insensatas cóleras ou acudia ao doido que se excitava, 
sacudia de grandes raivas c se tornara temido dos rurais porque largava fogo às 
medas, aos feixes da colheita e os ameaçava. Chegara à loucura furiosa. 

O escritor mandara vir um bilhar para ele se entreter c craquanto a novidade 
durara ecalíaara-se um pouco. R mãe acalentava- o, dolorida, tomada pela sua grande 
dôr e pelo único vicio que a dominava: o sorver o fumo dos seus perfumados La 
Reyna. 

Nuno prometera pensar em curar-sc. Mcis pouco lhe durara a deliberação. De 
quando em quando voltava para a pandsga com os amigos cada vez mais nume- 
rosos e endiabrados — o Fistula, com seus ares compostos, o Pinheirinho, facecioso, 
o Barracão, deste.iiido, o Dias, actor sem teatro a representar scenas licenciosas 
pelas quintas das visinhanças para onde levâvam coristas dos teatros de terceira 
ordem. 

Camilo sabia das tunantadas c participava-o a Ana em palavras cruas, escritas 
do Porto, onde ia a meude em ânsias de consultar o Guerra, medico, de ouvir o Plá- 
cido Costa, oftalmologista de fama, ao qual fizera certa vez uma dissertação de seu 
mal. O outro escutera-o com serenidade, brincando com ura lápis e tomando a atitude 
inclemente dum degeneroso senhor da situação, perguntara-lhe: «vem consultar- me 
ou desenvolver mal uma tese dos seus sofrimentos ?> 

O grande homem empalidecera, calara-se, génio esmagado por um clinico do 
acaso, tào banal como a maioria, « saíra dali quasi desenganado, sentindo, talvez, 
mais do que nunca, ser seu bordão de arrimo apenas aquela antiga e celebrada ben- 
gala das aventuras de marialva romântico, la como uma sombra, lembrava a carica- 
tura trágica do dominador que fora nessa cidade à qual fulminara, ridicularizara, ferira, 
embora ressalvasse os seus h-õbalhadorcs. Os velhos como ele, os do Palheiro, viam-no 



-iti - 



passar já sem rancores, os novos com pesar, mas havia ainda quem o odiasse, lhe 
quizesse muito mal no mundo do comercio, da charra burguesia. Então apetecia-lhe 
Seide, de onde saía sempre irritado, como fugido, cm grandes excitações, tendo feito 
zangar aquela a quem chamava já «mártir» e que lhe dizia com energia «estou morta 
por o vêr fora de casa> num desabafo que até as màes têm para com os filhos bir- 
rentos. Longe dela cão se sentia bem, nem mesmo no carinho da filha de Patrícia 
Emilia. Esta falecera havia dias e, acerca dela, o escritor pronunciava-se sincera- 
mente: «as personagens da minha comedia vão assim caindo no palco em que eu já 
mal posso andar. Não me produziu tristeza grande nem profunda saud3de>. Ycncera-o 
o amor maior que sentira pela i\na, companheira de sua maxim.a tragedia, c à qual 
de longe suplicava: «manda-me ir para casa». Escrevia-lhe grandes cartas nas quais 
capitulava o «Jorge de enorme talento que deu o salto dum extremo para o ponto 
cm que o espirito sobe até onde já não ha ar que o vitalizo c por sua causa tudo 
fazia para obter o solicitado titulo de visconde. Tanto combatera, ao vêr-se repelido 
pelo Rei, que acabara nuraa das suas fúrias (*), a qual fora acalmada à menor ponte 
que se lhe lançou. Modificara o seu feitio, subordinara-se ao lembrar-sc do seu pobre 
louco, embora fosse dizendo a Tomaz Ribeiro: «consultado previamente por ti, meu 
Tomaz, respondo que aceito como titulo supremamente honorifico querer S. M. con- 
ccder-mo; mas sé isso porque não tenho filho algum a quem possa utilizar o meu 
sacrifício aos 58 anos. O Nuno, cm quem decerto pensavas quando me escreveste 
não está mais longe da sepulhira do que eu e até poderá estar mais perto. O Jorge, 
bem sabes, já lá está». 

Era ainda um pouco de orgulho, mas confessava, pouco depois, «que pedira três 
vezes a graça» e agradecia «a boa disposição da Sua Magestadc» a seu respeito. 
Os jornais já chasqucavam da honraria, c ele, calava-sc, como se aquela mercê lhe 
tivesse roubado as faculdades plebeas de ardido e combativo. 

Continuava nas suas peregrinações ao Porto; cncontrava-se com o dr. Azevedo 
c Albuquerque e este levava-o pelo braço como por gentileza e não por necessidade 
de lhe dar auxilio. Numa das vezes cm que entraram no Sanches oculista a experi- 
mentar as lentes de que o romancista carecia, ainda ele, catracego, quasi um invalido, 
soltara um grito de admiração — o ultimo — de conquistador antigo ante a formosura. 
Fora uma linda vareira que viera cm recovagera a buscar uns óculos para ura senhor 
de Vila do Conde que lhe despertara o entusiasmo. Esbelta, a cinturinha cingida 
na faixa larga cadilhada, rosto rosado, cabelos loiros cnastrados, lindos dentes numa 
boca feita para beijos como as covinhas das faces, tal era a fascinadora que o fizera 
exclamar: «Que linda! Ó Albuquerque, que lindai» A rapariga mcdiu-o, torceu o beicinho 
rubro num desdém, e volveu subitanea c rijamente: <Ó seu cara de areia mijada!» (**) 



(*) Vêr na revista A B C os artigos Camilo e os Braganças, onde se faz toda a historia do titulo 
de Visconde de Correia Botelho. 

(**) Narrado ao autor, pelo sr. Cristiano de Carralho, ilustre artista do Porto, que o ouviu ao pro* 
prio dl, Azeredo de Albuquerque. 



— 292- 



Camilo, no auge do espanto, bradou para o companheiro, repetindo a apostrofe: 
<É a rainha cara bexigosa ! É uma fotografia I É assim mesmo . . . Como o povo tem 
a sensação certa das cousas. . .!> c poz-sc a rir, ensaiando os óculos, talvez a pen- 
sar como cm semelhante rosto recebera tantos l>eijos de amor profundo, ardente, sen- 
tido. E decerto que se consolava com a idéa de que os devera ao talento, que ainda 
no declinar da sua vida fizera o milagre de entregar a seu filho o disputado Brilhante 
Negro do qual se lembrava com muita saudade e quem sabe se com remorso. 




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D. /ína Plácido (rdralo 

perlencent* á família d» 

C.milo) 



XVI 



DESDITAS DAS REALEZAS 



O SENHOR VISCONDE CHMILO — RETRATO DO ESCRITOR POR UM ALIENISTA 

— R MEDALHA DE ANA PLÁCIDO — JORGE INCENDIÁRIO E ESPAN- 

CADOR - RESIDÊNCIA DE CAMILO EM CARNAXIDE — O SEU 

CASAMENTO — O DR. GAMA PINTO EM SEIDE — 

DOAÇÃO DUM CADÁVER - D LUIZ I E 

O ROMANCISTA — LAMENTOS 

DE DUAS REALEZAS 



EM 18 de Junho de 1885, Barjona de Freitas — o grande amigo de Vieira de 
Castro — referendava o decreto pelo qual se nomeava Camilo Castelo Branco, 
visconde de Correia Botelho. 

Largamente a imprensa lhe enaltecera o talento e a mercê, mas houvera tam- 
bém despiques, chascos c ironias que conseguiam aborrecer o antigo demolidor dos 
titulares improvisados. Era como uma creança a quem davam o apetecido brinquedo 
e num grande ar de seriedade, de convicção, chegava a mostrar-se-lhe estranho como 
participava a Melicio, director do Comercio de Portugal: <a respeito do titulo sei 
apenas o que V. Ex* escreveu na sua amável local. Como não solicitei a graça, 
exlranho-a de cl rei. Conversaremos. > (*) 

Ocultava os seus trabalhos, berros, gestos rebeldes, canceiras, sujeições c supli- 
cas desde 1868, havia desassete anos, atraz de tão banal satisfação só desculpável 
pelo pensamento de garantir possivel arrimo do filho doido. 

Ana Plácido também não se mostrava desvanecida, apesar de o ver alegre,, 
contente, a caminho do Porto com uma disposição que ha muito não tinha. Espe- 
raria que lhe chamassem visconde para logo abominar o qualificativo. Ela fingia igno- 
rar as lutas para se obter uma tão vulgar graça, conseguida com alguns contos de 



(*) Visconde de Vila Moura • Cimilo laedito, pij. 89. 



— 297 — 



reis por todos os cbrasileiros» tortulhantes no Minho. Mostrava-se cm compl cta 
surpresa. 

«Camilo aceitou, porque diz que quer casar comigo e deixar-rae viscondessa. Isto 
foi sem cu ser sabedora porque na verdade, (só para nós) cu nunca serei viscondessa. 

Para quê ? Se Camilo vive (o que espero era Deus) temo o arrependimento que 
para mim era horrivel ! Se o perco, que importa à mulher enterrada as glorias pos- 
himas depois duma vida de desgostos e amarguras? 

Acho ridículo esse passo ná minha edade e não o quero sobrecarregar com o 
odioso de que fui eu que o levei a aceitar tal titulo que vem escurecer o glorioso 
nome conquistado tào nobremente.» (*) 

Disso sim, desses apelidos celebres tinha orgulho pelo que representavam c por 
quem os usava. Era a bandeira do génio pelo qual se perdera. O titulo que agra- 
dara tanto ao agraciado, e causava as zombarias dalguns zoilos ainda ao começo o 
enchera de ventura pouco duradoura. Sempre íôra assim «espirito desequilibrado, 
instável nas convicções e nos afectos, oscilando constantemente entre as crenças reli- 
giosas mais arrciigadas e o scepticismo mais completo» (**) com o acréscimo de 
«animo exaltado e agressivo amando a polemica na fase emotiva das personalida- 
des c das referencias propriamente individuais.» (***) Esta ultima característica pare- 
cia aniquilada nele peia vaidade nascida da consagração oficial de seus méritos que 
o levava a aborrecer-se quando notavam a palidez da mercê ante o fulgor do seu 
nome ilustre : «Por aqui certos tipos, para me honrarem, dizsm que nunca me cha- 
marão senão Camilo Castelo Branco. Figura entre estes Grachos o teu dentista.» Ha 
muita inveja é o que te posso asseverar.» (****) 

Na casa d3 Seide a companheira devia sorrir ao lêr estas palavras e também 
as chalaceadoras com que ele respondia ao conselho dum agradecimento ao rei : 

«Escrever a EI-Reil Eu sei lá como isso se faz! Dizc-me como se começa e 
como se acaba c como se sobrescrita. Que ignorantíssimo visconde I O do Granjào c 
defunto das Hortas não se veriam em maiores angustias !» (*****) 

Recaíra no seu estado de desalento pouco depois. Sentia-se perdido da vista e 
escrevia a todos os amigos a lamcntar-sc de seus males. Ora se agarrava a um mé- 
dico ora o repelia; experimentava tudo antes de se voltar para a religião numa 
ultima esperança : a do milagre. Hlgumas vezes acreditava nos clínicos Quintela o 
dos depurativos, outras no Sebastião Guerra, muitas no Lopes Santiago. Variava da 
homeopatia para a alopatia e chegara a empregar para cora os facultativos lin- 
guagera de colega haurida na leitura dos tratados de medicina o que mais o per- 
turbava. 



(*) Nunes Branco — Cartas da se^anda mulher d« Camilo, pags, 15 e 16, 

(**) (***) Júlio de Hatos — na caderneta da doença de Jorge Castelo Branco, publicada pelo ir» 
Maximiliano de Lemos. 

(****) Dias Costa — Escritos de Camilo, pag. 69. 
(*****) Cartas a Tamaz Ribeiro, paá, 65. 



— 298 — 



Ricardo Jorge era o da amisadc, o que acorria nas crises graves e o acompa- 
nhava como um intimo; o Pedrosa, de Santo Tirso, com o seu colega da localidade 
Rodrigues Ferreira, alternavam à sua chamada. O primeiro dish-aía-o ; o segundo dou- 
trinava-© c fugia-lhe ao cabo de algum tempo. Como este era o chefe progressista da 
região, Camilo solicitava até de José Luciano de Castro empenho para o correligioná- 
rio não lhe negar a assistência. Aquele tratava-o das perdas seminais nocturnas, das 
constipações de ventre e males secretos, dos herpes que o roíam. Tinha tantos nas 
costas que íôra preciso esburacar a espalda duma cadeira de repouso para lhe ba- 
nharem as feridas sem grande incomodo para a mudança dos parches. O medico 
cnchia-se de piedade; chamava-lhe como Ana Piacido: «um desgraçado> (*). O colega 
quando acorria, no seu cavalo tão esperto que parava às portas dos doentes habituais 
do dono sem o menor puxão de rédea, distraía o enfermo. Ficavam muito tempo a 
conversar naquele ermitério de Seide onde três cães ladravam à chegada das visitas. 
O mais ardido chamava- se Nero. Ninguém era capaz de o arrancar dos togares esco- 
lhidos para seu repouso e arremetia à passagem de toda a gente. Habitualmente esta- 
telava-se, sobre as patas, nos limiares. Não transpunha o portão de ferro sósinho. 
Nem ao Caniço c ao Tomaz da Brasileira — creados do escritor — ele seguia. Só 
passeava atraz de Camiio ou de D. Ana e mal se apanhava na rua o seu regalo era 
correr atraz dos bácoros c arrancar-lhes os torcidos rabos cm dentadas feras de suas 
brancas presas de molosso. R população irritava- se; o romancista ria-se; gorgeteava 
os lesados a afagava o seu Nero tão caprichoso, sucessor do Tigre e do Neptuno. 
Era branco com malhas, de pesada cabeça e velho, desrespeitoso mesmo para os 
famifiares da casa. Guardava os amos como se tivesse recebido com o nome as en- 
tranhas do César, do Abenobarbo. 

Ninguém o acariciava e todos o olhavam de revez. Freitas Fortuna, que se tor- 
nara uma frequente visita do amigo, desviava-se com cautelas, mal se fiando no res- 
sonar do arteiro. 

O irmão do comerciante, clinico de nomeada, Vicente Urbino de Freitas, era um 
dos mais prestes a consolar o doente que tinha nele grande fé. Ao começo escu- 
tava-o, com a deferência devida a um lente da Escola Medica, carinhoso, trazido até 
ao seu refugio por quem titulava de «querido irmão. > 

Entre o pratico da vida, avaro e positivo e o romântico pródigo estreitara-se 
este incompreensível laço de profunda simpatia entre temperamentos ião diferentes, 
Ana Piacido que o seguia nos afectos também tributava ao Fortuna grande ternura. 
Trazia pendente do pescoço uma medalha na qual figurava o retrato do amado mar- 
tirisador de sua vida. Do outro lado Castilho, com as suas barbas alvas, represen- 
tava mais um doce. amigo. O patriarca da poesia homara-a hospedando-se no seu 
lar. E quando Camiio o aborreceu, Ana guardou sempre fielmente, a sua lembrança. 
No meio de ambos, oculto, como uma sombra que se desvanecera, e só ela contem- 
plava ainda, ocultava uma figura de rosto glabro, testa saliente, o busto consumido 



(*) Masimiiiano de Lemos — Camilo t ot MedUos, pa]2. 76, XI ano, 



pelo tempo : a efígie de mais alguém que também titulara de irmão : Vieira de Cas- 
tro, o condenado. Agora era Urbino que os atrata a ambos por sua gentilesa e cul- 
tura ; por sua sciencia e interesse familiar. Mas não curava o romancista, que já 
desdenhara o próprio Ricardo Jorge, tão seu devoto : despcgava-se do professor, pro- 
curava outras experiências, dispunha- se a largar para o Porto e possivelmente para 
Lisboa levando consigo a indispensável e torturada mulher. E foi nesse mesmo mo- 
mento em que pensava partir que o filho amado entrou nas maiores fúrias. Largava 
fogo diariamente às palhas e aos tojos; em breve o pegaria a alguma casa. Já 
ateara o incêndio na nora do Pinheiro, no montado, perto de Landim. Tinha predile- 
ções estravagantes, anceios horríveis nos quais insultava o irmão e tentava mo- 
lesta-lo. 

O pai de olhos semi-cegos pela doença e pelas lagrimas, queria separa-los ; a 
mãe chorava e suplicava e quando se acalmou, nas suas pupilas surgia o luzeiro de 
uma resolução decidida. Na noite seguinte voltava a acender as medas na proprie- 
dade que tomara à sua conta pelo desejo de vêr faulhar, crescerem as línguas das. 
labaredas das quais fugia rindo. 

h desditosa i\na Plácido descobriu o fumo, as chamas, sobre os casais, subindo 
na noite ; escutara os passos cautelosos do incendiário, que surrateiramente, se metera 
no quarto ao ouvir os sinos tocando a rebate. Ela acordou os servos e viu o filho 
na sua frente, ameaçador, baforando vinho, soltando imprecações e quando o roman- 
cista SC achegou, tacteando, com a bengala, o soalho, ameaçou-o, insultou-o, quiz 
lançar-se sobre ele. Um criado possante dominou o doido que, dias antes, ainda 
acompanhava a mãe ao piano e lhe agradecia, beijando-a, pela sua musica serena» 
terna, ho pai respeitava-o tanto que só o tratava por senhor visconde. E de repente, 
sem mais se importar com os instrumentos, detestando o bilhar, olvidado dos gran- 
des sacrifícios — que talvez já não entendesse — arremetia furioso, «maquinav^a o 
parricidío.> Diante do irmão enfurecia-se também. Este, cada vez mais estróina, 
começava a pensar em vender a ultima quinta. Pedia dinheiro emprestado ao velho 
escritor; recebia trinta e sete libras que não lhe devolveria. O seu desejo era ir aa 
Brasil espertar o administrador da fortuna que nem lhe respondia às cartas e o ia 
desfalcando. Jogava; numa noite perdera mais de dois contos na Povoa; firmara 
letras por conselho dum medico de Famalicão, o Moreira Pinto, cujas palavras para 
ele eram de valia. 

R propriedade que lhe restava sobrecarregava-a uma hipoteca do Banco de Gui- 
marães e quando o irmão, nas suas arremetidas, alanceava a gente da casa, delibe- 
rava partir, ir ao Rio, sacudir o delegado carioca, muito abonado com cartas do pai 
para o imperador D. Pedro. 

Jorge provocava os aldeãos, bravejava e dispunha-se a assassinar, reccava-sc 
sempre que incendiasse alguma habitação; repelia a família, largava de casa era 
sanhas, cm iras rubras. 

Escreveria mais tarde, que «fugia ao parricidio.> 

/\ssim vivia o génio na casa do morto, no mnho que Pinheiro Alves fizera para 



— 300- 



os seus amores c ao qual o novo habitante — trabalhando à luz de quatorse velas 
para espancar a treva de seus olhos — chamava : «esta sucursal de Rilhafoles.> (*) 

Um momento houve em que se espalhou em Seide uma endemia de terror à 
conta do alucinado Jorge. Olhava-se para a casa como para um fojo e quem adregava 
encontrá-lo, fugia-lhe. Temiam-no como a um lobishomem. Nos dias em qae bebia 
desfigurava-se ; redobrava-lhe a íuria e a íorça epiléptica e nem o Tomaz da Brasi- 
leira o podia conter; soltava rugidos bárbaros. D. Ana colocou-se uma vez na sua 
frente para o segurar, salvando das suas mãos slguem que ele perseguia, e, então, 
— Camilo bera o profetizara — arremeçara-se contra ela num Ímpeto, de olhos fais- 
cantes, a boca espuraejando, ameaçador, ousado, rubro na sua formidável raiva. 
R pobre amorosa avançava imaginando domá-lo, e sentia-lhc as mãos nervosas no 
SÊU rosto por onde corriam lagrimas. O filho do seu amor esbofeteara-a, ali, entre as 
paredes da vivenda onde o marido traído habitara como os seus ancestros. Fugia 
espavorida a chorar, foi metcr-se no seu quarto emquanto o doido soltava impreca- 
ções no auge do delírio. 

O romancista íôra ameaçado mais duma vez pelos pontapés do seu Jorge Ca- 
milo, do amado, do nascido no grande periodo da sua paixão como um flagelo e um 
castigo. 

<Chegou a bater na mãe> (**) — participava-o com um horror profundo. Acres- 
centava: «Considero-o morto, perdido para a família» e tornava: <Não ha nada a 
esperar. Dali à passagem para a demência é a derivação lógica da doença. Imagina, 
pois, a tristeza desta casa e a deplorável velhice dos pais daquele infeliz, menos 
infeliz que nós>. 

Os amigos deploravam-no ; acorriam ao seu chamamento, encontravam-no des- 
figurado, emagrecido; o seu rosto tomara a araarelidão dum marlim velho, no qual 
os olhos, quâsi sem luz, tinham enganoso brilho e os crivos das bexigas lembravam 
picadas de azebre numa sumida moeda gasta, roída pelo tempo. Desbotava-se, con- 
sumía-se, parecia guardar traços de lagrimas na cara sofredora, empelhancada. 

Nuno encontrara uma senhora dedicada pêra o acompanhar nos vendavais da 
vida que ele provocava e D. Ana Rosa Correia, da casa da Passelada, à beira de 
Seide, ia tornar-se a grande amiga de Rna Plácido, a respeitosa admiradora de Ca- 
milo e até a resignada enfermeira do louco, que já não havia forma de se conter. 

Deliberara-se, então, seguir o conselho de Ricardo Jorge; interná-lo no hospital 
Conde de Ferreira. O ilustre clinico encarregou-se de tudo ; foi buscá-lo e cntregou-o 
ao cuidado dos especialistas. Havia de tratá-lo, cora uma secura de clinico sceptico 
que só vê casos e não infortúnios, o filho de Marcelino de Matos, do grande amigo 
do escritor, do seu advogado no processo celebre, raorto era enorrae pobreza. O seu 
primogénito devera a ura tio a educação recebida e a si próprio a altura a que as- 
cendera na sciencia. Sacudido, desdenhoso ante o valor e a celebridade do roman- 



{*) Cartas de Camilo a Costa Saatoi, paj. 93. 
(**) Cartas de Camilo a Tomaz Ribeiro, paj. 91. 



cista, que atacava os stus amigos, os positivistas Tcoíilo e Hlexandrc da Conceição, 
desviava-se da beleza das suas obras e chamava-lhes : a sua própria «historia escrita 
cm desenas de livros, emineníemcote pessoais, todos eles apaixonados>. Só via o 
eníermo que lhe entregavam como um limo humano, um vertebrado na escala deca- 
dente do génio do progenitor para a alienação. E o desgraçado, que tanto amara o 
pai daquele medico severo e cru, lamentava o seu Jorge, sentindo-o ainda assim 
mais feliz do que ele era: 

Meu triste filho, passas vagabundo 

For sobre um grande mar calmo e profundo 

Sem bússola, sem norte, sem farol! 

Nem goso nem paixão te altera a vidai 
Eu choro sem rasão a luz perdida 
Bem mais feliz és tu que vês o sol! (*) 

E ao entrar em casa, depois duma visita ao manicomio, puxava do seu velho 
revolver e gritava para Ana Plácido: cYou cfgar « se cegar raeto-me. . . raato-me. . .> 
Os seus berros atroavam a casa onde o consagrado — o visconde — se estorcia em 
clamores histéricos, roçantes da loucura de que sofria o descendente — o filho do seu 
amor. 

Em volta, na aldeia tranquila, aqueles brados soavam e rostos da familia de Pi- 
nheiro rllves assomavam às portas como se fossem os de alegres e consolados 
espiões. 

Scntia-se morrer — cruelmente o alienista o dissera também — : <prel<iadcndo-sc 
em véspera da morte ha mais de trinta anos>. Em certo periodo lamentava-se não 
ter casado com a sua companheira que, ao ouvi-lo falar de suicídio, resignadameotc 
SC dispuzera a acompanhá-lo na morte se ele não tivesse mais esperanças de recu- 
perar a vista. Devia estar farta de sofrimentos a romântica burguesita que nem podia 
usar o nome do sacrificador adorado outrora, agora objecto da sua imensa 
piedade. 

Era ele próprio quem mais falava no consorcio, sobretudo desde que recebera o 
titulo, mas não se decidia por uma singularidade de seu feitio, por alguma estranha 
superstição. 

<Nào cheguei a casar com ela. Parecia-me que não devia em artigo de morte 
conceder a esta senhora o que os celibatários concedem às creadas com quem casam 
quando vão morrer. 

Foi minha am.ante querida 27 anos. Isso será até ao fim.> (**) 



(*) Camilo — Boémia do Espirito. 

(**) Camilo — Cartas a Tomaz Ribeiro, paá. 66. 



302 — 



E lembrava-se das lagrimas dela, clagrimas alegres no dia em que por amor de 
mim perdia familia, fortuna e consideração.> (*) 

Os amigos, porem, apoquentavam-no ; mostravam-lhe como lhe devia a repara- 
ção diante do mundo e se numas vezes consentia, noutras destrambelhava. Dizia 
a um deles, Ferreira Moutinho: <Não devo protrair por mais tempo o casamento 
com a mãe de meus filhos. Quero deixa-la não mais feliz, mas mais respeitada. Tem 
pois Y. Ex.a de falar com o sr. dr. Hlves Mendes e designar-me o dia em que farãa 
o sacrifício de vir aqui. Devem dirigir-se para casa de meu filho Nuno. Rna Piacião 
ignora esta resolução mas tenho como evidente que a não contraria. > flgora usava 
para com ela, referindo-se-lhe nas cartas aos amigos , um certo cerimonial : «a Se- 
nhora D. ilna.> Escrevia assim esquecido dos destemperos que o torturavam, agora 
adorando-a, logo feriodo-a, «com aquelas palavras que ele sabe,> dizia a desditosa 
amparadora do génio perturbado. 

Acabara por tomar unia resolução, a da obediência ao que cie desejasse em re- 
lação ao consorcio. Quasi no fim do ano de 1887, parecia decidido: «iremos ao Porto 
a fim de se realisai* emfim o preceito canónico se o nosso Alves Mendes estiver aí.» (**) 

Insistiam em demasia, falavam-lhe da egreja e Camilo sentir-se-ia ridiculo aos 
olhos do Porto ao levar aquela mulher de paixão, já envelhecida, até ao altar sendo 
a seu lado a caricatura do romantismo. Tinham desafiado; parecia-lhes aquilo uma 
submissão. 

«Hinda não se fez a tolice malrimoniab (***) — acrescentava irónico — a noticiar 
a sua viagem a Lisboa com o filho e i\na Plácido. Iriam para o Mata, ao Calhariz, 
8 acrescentava: «o nosso pudor de velhos impcdiu-nos de ir ante as aras. Queríamos 
um casamento sem testemunhas. Parece que os cânones se revoUam.>' 

Escolhera o Mata talvez por conhecer o hospedeiro «pois a bulha dos hotéis 
não me incomoda porque estou surdo e as bclezâs arquiteíonicas do edifício não me 
fazem falta porque estou cego>, (****) declarava no seu doloroso sarcasmo. 

Pouco depois, Camilo encontrou abrigo em Carnaxide à beira da magnifica vi- 
venda que Tomaz Ribeiro ali possuia. 

Era uma quinta a cujos portões de ferro não chegava jamais um pobre que não 
levasse a sua esmola. Em volta da casa a vinha crescia num terreno largo visinho 
ao jardim. O poeta encontrara ali socego c um santuário na lapa da Senhora da 
Rocha que ele cantaria cheio de fé. 

Imaginara arranjar para o romancista um cantinho de paz bem apctecivel mas 
ele albergava em si a eterna dôr, o espicaçamento da lucta. Cedeu-lhe a sua casa 
um conhecido (*****) industrial de corturaes, estabelecido no Cruzeiro da i\juda e que 
se chamava António Marccano Alcântara. Acorreram os médicos que o grande 



(•) (•*) António Cihral — Camilo e Fça, psgs, 148-150. 

(*•*) (****) Cartas ilc Camilo a Tomaz Ribeiro pags. 89 e 90. 

(*«*«*) Branca de Gonta Golaço — Prefacio das Cartas dt Camilo a Tomaz Ribeiro. 



- 303 — 



amigo do Mestre convocava e que eram com o dr. José Joaquim de Almeida, (*) 
um moço ha pouco saído das escolas, o dr. António Bossa, <dedicando-se com 
âíinco c cxito a experiências de hipnotismo.» (**) 

Mal SC soube da chegada do doente à aldeola arrabaldina a romaria dos inte- 
lectuais principiou com tanto entusiasmo como a do povo à Senhora Aparecida cm 
S. Romão de Carnaxide. Surgiram os escritores e os políticos e com eles as celebri- 
dades da medicina. Iam contemplar aquela ruina íisica aureolada pela gloria. 

Oliveira Martins, então em toda a combatividade do Portugal Contemporâneo, 
visitara-o c bem assim Bulhão Pato, já conhecedor do sitio por seus passeios largos 
com Herculano ; Barjona achegara-se a oíerecer-lhe seus serviços e sua casa de Bem- 
íica para quando quizcsse arvoredos que ali faltavam. Também Antero c António 
Cândido entraram na moradia, ilustrada pelo seu habitante, com Sousa Martins, 
Toraaz de Carvalho, Manuel Bento de Sousa, May Figueira, a raestrança da medi- 
cina, as celebridades. 

Em volta reinava uma grande serenidade ; ouvia-se correr, cm plangencias, as 
éguas do Jamor de desguarnecidas margens, avistavam-se os cômoros de Linda-a- Ve- 
lha, as duas quintasinhas de Linda-a- Pastora e longcs de penhascos. Para as bandas 
4o mar alteavam-se lombas que ocultavam Quejas, Laveiras, Boa- Viagem, Caxias 
e era tudo quanto se oferecia aqueles nervos mais irritados na solidão. Queria lêr e 
não via, aborrecia-se com os passeios, quando não vinham visitas de longe nas quais 
encontrava sempre encanto, ainda se entretinha com Tomaz Ribeiro e a familia, a 
esposa, as pequenitas. Também o visconde de Moreira de Rey, ali visinho e muito 
pitoresco procurava distrai-lo. Por fim já nem se divertia com as graças do chistoso 
Ferreira de Melo viscondisado e habitante do rincão saloio. 

Acometiara-no acessos, encontrava em pretextos fúteis bases de cóleras fecundas 
das quais Ana Plácido sofria o embate, resignadamente, de olhos no ceu, muito 
envergonhada quando o ouviam. Uma manhã tomou uma resolução estranha ; deixou 
a vivenda, fugiu, não se despediu de ninguém. Apenas enviara a Tomaz Ribeiro um 
bilhete desvairado nas suas curtas linhas: 

«Estou a cegar. Perdido!» 

«Vou fugir daqui para me não matar debaixo dos teus olhos e do teu amor.> (***) 

Abalou para Seide, a acalmar-se, a submeter- se às caricias da companheira da 
<]ual finalmente se decidira a fazer sua esposa. Durante uns dias não parecia o 
mesmo excitado nervoso que aterrorisava as pequenitas filhas do poeta ilustre, na 
placidez de S. Romão de Carnaxide, aquele de quem nos seus terrores infantis fala- 
vam como dura ogre : o Camilo. 



(*) Medico muito celebrado na região de Casc9<:$ e fundador dum sanatório para creanças. Era 
irmão do eximio toureiro Manuel Casimiro, 

(**) Branca de Gouta Colaço — Prefacio das Carias de Camilo a Tomaz Ribeiro. O dr, António 
Bossa obteve renome na clinica e recebeu mais tarde a carta de conselho. 

(***) Branca d« Gonta Colaço — Prefacio das Cartas de Camilo a Tomaz Ribeiro. 



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Para os salvar das curiosidades, pensaram era consorciá-los, de noite, na Sé. 
Teria o ar dum final de novela medieva aquele enlace de dois velhos. Na imaginação 
do romancista passara logo o ruido produzido pelos assistentes na claustra soturna, 
a marcha peias naves, ressoante sob as abobadas góticas, à luz tristonha dos bran- 
dões como num funeral. E o altar mór, com os santos mal alumiados, nos seus már- 
mores coloridos, guardião de relíquias, os foles dos crgãos, as tribunas douradas, tudo 
aquilo a confundir-se na meia treva, formaria um scenario esplendido para o casa- 
mento duma castelã raptada mas não para o de amantes de ha mais de vinte anos 
armados com suas galochas e seus guarda-chuvas por uma noite fria de Novembro 
no Prrto glacial e nevoento. 

Julgavam repenicar-lhe o bordão romântico e ele respondera quasi irritado: 

«Hgora duas palavras a respeito do fétido assunto casamento. Jlna Plácido e cu 
recusamos celebrar o acto na igreja, ft idéa da Sé nocturnamente parece-me sinistra 
como um responso de defuntos em trintario cerrado. Nada, meu amigo. Se o casa- 
mento se pudesse fazer aqui, no meu escritório, ou num quarto de hotel, como v. cx.^* 
diziam, isso parecia-me uma mera formalidade em família sem espectáculo, sem sa- 
cristães, nem estapafurdismos arqueológicos» (*). 

O que já nem convinha às personagens de suas novelas, todas ao gosto da 
época, muito terra a terra, numa parodia aos escritores modernos ou dum quente 
naturalismo, menos servia à sua vida tão trágica dentro do mais banal ambiente 
duma aldeola numa vivenda de «brasileiro» rico. O Nuno chegara do Brasil, cora 
o seu creado Caniço, mais assente, revendo-sc na filhita Flora (**), aguardando mais 
um descendente, falando em títulos, contentando- se com o de barão, O pai espé- 
cara-sc a olha-lo preferindo o clamor do louco. 

Esse descera para Famalicão c instalara-se na hospedaria da Carolina. Hli perto 
licava o quarto onde Pinheiro Hlves lhe amaldiçoara a mãe na hora da morte. 

Hcabaram por nomeá-lo barão de S. Miguel de Seide e o glorioso pai revcl- 
tara-se. Guindaram-no a visconde c o critico de tantos titulares resignara-se a ouvir-lhe 
chamar como a si próprio, Nuno era também «o senhor visconde». 

O mais velho soturnava-se, vivia recolhido, desconfiado. Tinha muita raiva ao 
contacto da humanidade. Isolava-se; mergulhava eu sonhos e em lúbricas fantasias 
áe solitário vicioso. 

Foi só em Março que se transportaram para o Porto os nubentes. 

Instalaram-sc na rua de Santa Catarina, 458-2.° c ali aguardaram as testemu- 
nhas de sua tardia união. Camilo ainda assim, escabujava; parecia desvairado por 
quebrar por um acto embora sem pompa, a sua situação de tantos anos. Dizia as 
tais frases «que ele sabia» contundentes, amargas e a pobre companheira pertur- 
bava-se, queria ir-sc embora, dcsistír de ser sua esposa e chegara a ameaça-lo de 
voltar para Seide. O filho instalara-se com a sua companheira na residência e escuta- 



is) António Cabral — Camilo e Efa, paj. 151, 
<**) Nascida em 11 de Janeirt de 1886, 



Foi. 20 



vam, sem surprcza, aquela excitação rápida, só aplacada quando chegaram Joaquim 
Ferreira Moutinho e o cónego fllves Mendes, que tinham andado muito empenhados 
na recompensa a fína Plácido. Os outros padrinhos eram Ricardo Jorge, por expressa 
desejo do romancista e João Freitas Fortuna, que viera da sua propriedade da 
Ramada Alta com Urbino e uma grande alegria na face a felicitar os «seus queridos 
irmãos.» O boémio actor Dias também achara o seu cantinho na casa, a acaudatar 
o Nuno que não o dispensara. Celebrou o acto o abade de Sanlo Ildefonso dr. Do-> 
mingos de Sousa Moreira Freire e quando se dcsparamentou, Camilo, docemente 
agradeccu-lhe. Ternamente, chamou a fína a «sua csposinha.> 

Estavam casados ; ela era viscondessa. (*) O escritor pagava a grande divida, 
naquele dia nove de Março, a uma semana de distancia dos seus 63 anos. Convi- 
dara para um jantar nesta data de 16, as pessoas presentes ao seu consorcio; fize- 
ram-se preparos largos e quando se esperavam comensais, chegara um novo 
neto ao romancista, nascido de D. /\na Correia, no dia dos anos do qvô. Mandou 
logo que lhe pusessem o nome de Camilo e desavisou os amigos. Não se podia 
íâzer barulho ; não se realisaria o banquete porque viera ao mundo um pequenito que 
não devia ser perturbado com. a mãe, embora pelo ruido alegre de festejos de noi- 
vado dos avós. 

Deliberou em definitivo a tratar- se, fugir da trtva que avançava c recomeçou 
a sua peregrinação pelos consultórios médicos tendo soltado primeiro a sua grande 
suplica a Deus ao pedir ao padre Sebastião de Vasconcelos (**) — que fizera florescer 
a sua caridade para com as crianças — as suas orações que no ceu se deviam ouvir. 
Redobrava em cóleras contra os clinicos, metido na casa de Seide ao findar do ve- 
rão (***), Pensava em escrever um grande livro sobre Inês de Castro e blasfemava 
por não vêr o papel; desesperava-se. Depois não era um scmiceguinho vulgar capaz 
de se mover pelo tacto; desiquilibrava-se, carecia dum braço para se amparar. Re- 
mexia o revolver na algibeira, puia-lhe mais a coronha no seu constante contacto. 

— Se fico cego, mato-me . . . mato-me . . . ! No entanto coava-se-lhe ainda para a 
alma uma esperança. Mudava logo, alanceado: «Hoje, que apenas tenho olhos para 
vêr a condensação das trevas, não tenho a fácil coragem de me matar. Rs lagrimas 
dama mulher trinta anos adorada c as mãos validosas de dois amigos têm sido para 
mim a ancora lançada ao pego desta incomportável tormenta. Quando essas mãos 
bemfazejas esmorecerem e essas lagrimas se gelarem na face morta de Rna Plácido, 
então terei a coragem do suicídio — esse heroísmo banal que tem levantado muitos 
miseráveis à estatura de Catão.> (****) 

Freitas Fortuna trazia-lhs o irmão Urbino, roais para o consolar de que para o 



(*) Boc. J. 

{**) Foi bispo de Beji. Exileu-se apói a proclamação da republica e morreu em Koma este caridos» 
fundador das oficinas da S, José, do Porto, 

(***) A maior troça aos médicos escreveu-a cm 1885 nos Vulcões de Lama. 
(****) Ricardo Jorg? — Artigo do Primeiro de Janeiro cm 2 de Janho de 1891, 



306 — 



medicar, c Camilo mostrava-se-lhe agradecido; a esposa dizia sentir pelo professor a 
ternura duma mãe. Foram eles que combinaram, comovidamente, substituir as cargas 
do revolver por outras que não explodissem. Ele tacteá-las-ia, como de costume, so- 
pezá-las-ia, mas tocado o fulminante na percussão não passariam de balas de arre- 
medo como nas armas das crianças. 

Encarregaram o Nuno dessa tarefa tratada num armeiro do Porto. Nem a mais 
leve desconfiança acerca da falsificação roçara o espirito do escritor cujo desejo de 
morrer era imenso. Só o desamparo da farailia o detinha, pois até já dispuzera do 
seu cadáver. Solicitara de Freitas Fortuna albergue para ele no jazigo de sua faniilia 
no cemitério da Lapa c em termos iniludíveis: «Desejo ser ali sepultado e que ne- 
nhuma força ou consideração o demova de rac considerar as cinzas perpetuamente 
na sua capela.> (*) 

Receoso, ainda, repetia: <É natural que ninguém lhe dispute a posse dessas cin- 
zas; receio, porém, que seja ainda uma fatalidade póstuma que se compraza em impor 
a violência aos meus restos.> 

R prenda d2 casamento que pedia ao seu padrinho era aquele asilo para os 
seus ossos. Escreveu e aguardou com mais esperançosa serenidade a visita duma 
sumidade da ophtalmologia ; a de Gama Pinto. 

Era um indio arguto, talentoso, que contando ao tempo trinta e cinco anos, 
ganhara renome, sendo prem.iado em todas as cadeiras da Escola Medica, discípulo 
de Wecker em Paris, de RiW. e Jalgcr em Viena c tendo frequentado Kuchnc e 
ílrnold cm Heidelberg, chegara a ser nomeado assistente nasta Universidade alemã 
onde dirigiu clinica, fez cursos públicos e consolidara a maior reputação na especia- 
lidade até então obtida por um medico portuguez. 

Foi esse indio sábio a Seide a pedido de Thomaz Ribeiro e do rei D. Luiz. Durante 
quatro horas observou e conversou cora o mestre, tratando-o sempre por visconde. 
Ele notara-lhe «uma cara inteligentíssima, revelando um excelente coração». Da sua 
meia treva assim o descortinava, remoendo a idéa de que o Plácido Costa, tão cruel 
para com ele, o cegara pela aplicação da electricidade. Ouviu Gama Pinto como um 
reu diante do seu juiz a lembrar-se talvez do que escrevera, havia pouco, a Ouguela. 
«Se isto progredir resolverei depressa a críse>. (**) 

Compreendeu que ele lhe quizera «dar a paciência e a resignação para a ceguei- 
ra.» (•**) Espertamente o adivinhara : «Condoído da perturbação cm que me viu, por- 
que a sua sentença para mim não Unha apelação nem agravo, não me propoz, mas 
aceitou o alvitre de eu ir para Lisboa fazer um tratamento.» 

Quando o viu partir exclamou: «estão pois perdidas as esperanças que eu tínha 
no grande medico cuja sciencia não pode vencer impossíveis. Considcro-me perdido 
e ele também, no fundo da sua consciência e experiência, me deve ass/m consi- 
derar.» (****) 



(♦) Carta a Freitai FoUana em Abril de 1888, 
(•*) (•**) (****) Cartas de CaviUo a Tommz Ribeiro, paj. 92 e 93. 



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Ia para a Povoa preparar-se para poder viajar até Lisboa, com certa pena de 
Seide, do âmbito dos seus duendes. Hgradecia a Tiiomaz Ribeiro, pela mão de Ana 
Plácido, e confíava-ilie o seu sentidíssimo desalento: 

<Fez-se na minha alma uma noite escura que nunca mais terá aurora. E é neste 
estado singularmente infeliz que dito esta carta, pedindo-te que faças saber a S. M. a 
minha gratidão para a qual não tenho expressões senão as que eu poderia manifestar 
dobrando os joelhos diante de £1-Rei. (*) 

Não havia ainda muitos anos que um homem ccmeçara por chorar no pateo 
de Seide junto ao monumentosinho e acabara a rir na sala da casa de Nuno a que 
Silva Pinto não pudera pagar ao mergulhar na ruina. Uma tarde um garotctc pene- 
trara pelo portão, atravessara a ruasita de buxos, fora bater à vidraça do salão e 
dissera a Hna Plácido ter entrado no seu pateo um senhor que ficara a soluçar ao pé 
da <mimória.> Camilo de mãos apoiadas na bengala, erguera o rosto pálido e ela 
partira a ver quem seria o lacrimoso visitante de sua moradia. Voltava e exclamava : 
< Cá está o homem !> e lançava Tomaz Ribeiro nos braços do romancista. 

Estreitaram- se; derramaram mais lagrimas sobre as recordações da mocidade, o 
tempo em que ali tinham estado tão felizes, com Castilho e foram sentar-sc, enterne- 
cidamente, no banco de ferro, nas trazeiras da residência. 

Daí a pouco algazarreava-se ; um porco montez, que Nuno comprara fugira por 
entre o milharal da propriedade c como todos corressem para o apanhar o conse- 
lheiro da coroa fora o mais ardido na perseguição ao som das gargalhadas do amigo 
que ainda os via como sombras galopando. Almas de poetas que ora coam prantos 
ora florescem risos I (**) 

Depois nunca mais lha falara ; recebera dele grandes obséquios e o maior fora o 
da visita desse me<iico celebre que devia trazer-lhe uma esperança. O doente apreen- 
dera antes um vasto desengano. 

Resignara-se a partir pêra Lisboa incitado pela esposa, pela senhora viscondessa, 
como lhe chamavam sentindo que gostava do titulo talvez mais por vir do amado 
que a honrara casando com ela do que pela resonancia nobiliárquica. 

O enfermo atormentado não largava a sua idéa pertinaz : <As minhas contas estão 
iançadas. Assevero-lhe que não cegarei completamente; e o mais é que o próprio 
medico aprovou a minha resolução do suicídio dada a catástrofe.» (***) 

Imaginara ter ouvido aquela decisão a Gama Pinto; enchia-se de razões cm seu 
imaginar porque o clinico não podia ter aconselhado a morte violenta, o aniquilamento. 

Antes de largar para a capital, dizia ao dilecto Freitas Fortuna: <A perda da 
vista é aterradora. Afinal o Plácido principiou e acabou a obra de destruição. Apelo 
para uma conferencia cm Lisboa e para lá parto com minha mulher no rápido de 
terça feira > 



(*) Cartai de Camilo a Tomaz Ribeiro, pag. 93. 

(**) A sceaa loi narrada ao auctor pela senhora D. Ana Correia, de Seide. 

(***) Haximiliano de Lemos, — CamUo e os médicos. 



— 308 



Dizia e desdizia ; ia e não ia ; ora anunciava a Tomaz Ribeiro : <não me esperes 
nem queiras tornar a ver-me>, ora declarava: <eu e minha mulher chegamos a 
Lisboa quinta feira pela meia noite. > 

Instalou-se no Francfort; apareciam amigos e admiradores cuns sugeitos que o 
porteiro da estalagem me metia no quarto» negando-o ao poeta celebre, como por 
um capricho inexplicável. Trcs vezes o procurara e o romancista, para o consolar c 
lhe mostrar a sua gratidão, oferecera-lhe a cruzinha que trouxera suspensa do pes- 
coço desde seu tempo do seminário como se entregasse o dom precioso da fé a quem 
era um crente e com ela a sua desilusão do ceu. <0 que eu pediria a Deus, se ele 
existisse, — traçara estas [linhas ha pouco — era que me deixasse acabar sem a 
antecipação das trevas eternas desta vida.^ Chorava pelo sol aquele pagão saudoso 
da luz que lhe dava animo e cuja falta se tornara como o ádito do seu sepulcro. 
Mandara a sua velha cruz ao único grande amigo que lhe restava do tempo dos 
alegres combates. Em letras não amava assim mais ninguém. Dava-lhc por isso o 
bocadinho de ferro que sentira o constante palpitar de seu volúvel coração. O poeta 
compreendia-o ; sabia chorar com ele mais suaves lagrimas que as do comerciante 
Freitas Fortuna acerca do qual dizia sempre á familia: 

— «Olhem que se eu tiver alguma cousa de repente, chamem o Freitas . . . Ele 
tratará de vocês . . . e ficava socegado como se tomasse um calmante. 

Deixara um hotel por outro. Procurara aposentos no Universal onde Pinheiro 
Alves se hospedara, havia quasi trinta anos, quando querelara da mulher. Hcorreram 
grandes médicos a trata-lo. Lourenço da Fonseca, Sousa Martins — o mestre — tudo 
sem resultado. Queimavam-lhe o dorso com pontas de fogo e ele desesperava-«e 
revoltava-se, tornava muito agra a vida de Hna Plácido. 

Um outro amigo, o conselheiro Joaquim Peito de Carvalho, director das alfan- 
ilegas, levara- o para sua casa na rua de Saato António, à Praça das Flores, onde a 
e:;posa, a formosíssima senhora cheia de distinção que ele arrancara das baixas cama- 
das e educara, se tornara a gentilissima hospedeira. 

Chamava- se também D, Ana. A viscondessa d« Correia Botelho irrita va-se 
com as visitas numerosas que acorriam a vêr Camilo e sofria muito com a mudança 
dos seus hábitos de vida. 

Não se prolongou ali a residência do romancista; passou para o Hotel Darand 
MO largo do Quintela, porem carecia de socego e o quarto enchia-sc de gente. Ele, 
com um casquete de pala enorme para lhe resguardar os olhos da luz, falava, con- 
tava anedotas, chegava a rir de si próprio. A fatalidade atirara-o para a mesma rua 
•nde morara Vieira de Castro. O seu palacete ainda lá estava com umas portas mais 
ou menos próximas daquelas por onde saía sempre a relembra-lo. Gritava a meude ; 
Ana Plácido envergonhava-se dos hospedes. Emquanto estava entre os literatos era 
encantador. Tomaz Ribeiro ia vê-lo todos os dias e muitas vezes levava comsigo a 
esposa e os filhos ; Sousa Martins, aparecia mesmo depois de deixar de o tratar c 
António Cândido, o grande orador, emudecia para o ouvir discretear; Júlio César 
Machado, transtornado numa melancolia enorme, parecia abstrato. Quando • encara- 



— 30» — 



vara, julgavam-o tão velho como eles. Hndava já a curtir os desgostos que o filho 
lhe dava num estroinar a que se juntariam perversões. Por vezes, mesmo diante das 
visitas, o romancista excitava-sc; não havia maneira de o conter, de lhe calar a 
loquela desesperada. Numa das vezes chegara a apontar o revolver ao ouvido (*) 
queixando-se das suas amarguras. Hgarraram-no ; acdlmaram-no e ainda ficou sem 
saber da troca das balas da arma de sua confiança e lúgubres propósitos. 

Nâo con tainha um hotel ao desesperado. Hlugera uma casa ra rua Ca- 
pelo, 26-3.0, quasi defronte do Governo Civil. Meteu-se num quarto aconchegado. 
Sentia muito frio ; embrulhava- se no capote, punha mantas nos joelhos, enterrava o 
casquete e lembrava um mendigo pedindo á luz um pouco do seu calor e da sua 
alegria como a única esmola apetecida. Passou ali o dia dos seus 64 anos. João de 
Deus decidira festeja-lo, iniciara uma mensagem assinada pelos jornalistas c homens 
d« letras, artistas, admiradores do génio infeliz. Desde o lírico ilustre ao musico 
Alfredo Keil, do critico Gualdino Gomes ao dramaturgo Marcelino Mesquita, desde 
Columbano, mestre da pintura, a Emidio Navarro, mestre do jornalismo, todos acorre- 
ram a honra-lo. R mocidade da Academia de Belas Artes ofercccu-lhe uma coroa 
de louros com fitas côr de roja pelida e quando os estudantes o aclamaram da rua, 
ele apareceu à janela, de cabelos crriçados, li vido, estendendo, num agradecimento, 
as suas lindas e diáfanas mãos. 

Depois, mal os ruidos cessaram, cimantou-sc nos seus casacos, recostou-se na 
poltrona, encasquetou-se e para ali ficou entre os Íntimos (**), os seus mais achega- 
dos, falando, encantando-os. De repente voltara- se para os festões da homenagem c 
dissera a Ana Plácido : «Mande levar isso lá para a dispensa . . . Credo . . . Isto é o 
que se chama dar a um sujeito tempero por atacado !> 

Uma gargalhada soou ; ficou muito serio a olhar os louros que ela conduzia, obe- 
diente e grave, como se repelisse a gloria e antes amasse o tranquilo anonimato dum 
burguez. 

Um dia aborreceu aquele andar tão pertinho do Chiado. As baforadas do verão 
fizeram-lhe apetecer o campo, tanto mais que Sousa Martins parecia desiludido, visi- 
tava-o menos, como a confessar a sua impotência para o salvar. 

A viscondessa de Correia Botelho confidenciava o golpe a Freitas Fortuna com- 
preendendo que ia chegando ao fira de tormentoso drama da vida de ambos. 

Recomeçara a fé em outros médicos e em ouh-os processos de cura. 

O oftalmologista Lourenço da Fonseca, tão afamado, fora substituído pelo ho- 
meopata ilustre Rebelo da Silva, que lhe aconselhara a saída da cidade. Lembrara-se 
da oferta de Barjona e instalara-se logo na Alfarrobeira, estrada de Bemíica, no pre- 
db 53. Enchera-se de alentos na aparência, porém as grandes crises vinham a raeudc 
e insistia com os seus: 



(*) A ilustie poetisa Branca de Gonta Colaço, no Prsfaci» das Cartas de Camilo a Tomaz Ribeiro 
■arra estes incidentes e outros semelhantes, 

(**) D. Branca de Gonta Colaço — Prefacio das Cartas de Camilo a Tomaz Ribeiro. 



— 310 - 



— «Olhem que se me suceder alguma cousa telegraíem logo ao Freitas. . . Ele é 
que ha-de tratar de vocês . . . > 

Muito às escondidas, escrevera-lhe. R idéa do suicidio dominava-o tanto que 
rcpizava a sua oferta macabra ao grande amigo. 

Entregava-se completamente como devia «ao querido irmão: «Começo a cxpe- 
Timcntar uma espécie de afecto póstumo ao meu cadáver». Reevocava os males de 
seu viver e reemanif estava o sentido desejo, a sua vontade comunicada anterior- 
mente : «aspirava fervorosamente a ser sepultado no seu jazigo da Lapa, É bem certo 
que, para alem da campa, ha o quer que seja que ainda nos prende às coisas raor- 
tais>. Falava-lhe dos seus progenitores que ali repousavam, da sua existência de 
honra e labuta c acentuava: «volvido um longo praso as cinzas do meu querido Frei- 
tas irão aos braços, já cinzas também, de seus pais estremecidos» (*). 

Reccrdava-lhe as conversas antigas e tornava: «Não sei se esta quimera que 
vagueia na região tenebrosa e na cripta dos mortos amados e chorados foi a desper- 
ladora vontade que me domina ha ano e meio de ser enterrado no seu jazigo. 

«O meu querido Freitas aceitou com ternura a oferta do meu cadáver e dessa 
arte, permitindo que cu fizesse parte da sua família extinta, quiz continuar, além da 
vida, a tarefa sacratíssima da sua dedicação incomparável. Bem haja e adeus. > 

Depois disto entregou-se nas mãos do famoso clinico e ao saber que os amigos 
do Porto lhe desdenhavam a sciencia quasi se zangava com cies: «Sei que o mtu 
amigo — ditava à esposa — que seu irmão e que o seu medico zombam dos vaticínios 
de Rebelo da Silva; mas acredite o Freitas que este homem pode ser um fanático 
relativamente à minha doença mas tem feito curas prodigiosas c nenhum interesse 
tem em andar quatro léguas por dia para me v£r, sacrificando os seus interesses e 
o seu repouso.» (•*) 

Actuaram-lhe no animo aquelas desconfianças e começara a descrer também, pelos 
calores de Hgosío, que o nevrosavam intensamente. Queria fugir de Lisboa, mas o 
medico detinha-o: «ha-de dar-lhe vista e, neste caso, não o deixa partir sem me- 
lhoras» (***). 

Hccdera a ficar e o sobrinho dr. António de Azevedo arranjara-lhe uma espé- 
cie de palacete na quinta do Retrozeiro que a Camará Municipal adquirira para con- 
tinuação da Avenida da Liberdade. 

Os machados iam derrubando os arvoredos da tapada do Vahia no alto de 
S. Sebastião e para as bandas do antigo Passeio Publico cavavam-se lamaçais das 
obras. Ao fundo o Tejo emcldurava-se no Y formado pelo promontório do Castelo e 
pelo morro de S. Pedro de Alcântara. Rumorejava ao longe a Baixa ; por toda aquela 
extensão amontoavam-se casebres e hortejos com seus alarmes de galos e ladridos de 
cães nas noites. A esquerda um pequeno pombal dava uma neta garrida à propriedade 



(*) Carta a Freitas Fcrtana, 15 de Juako de 1889. 
(•*) Maximiliano de Lemos — Camilo » o» Mtdlcoi. 
(***) Idem, idem. 



- 311 — 



cujas trazeiras se voltavam para os cômoros de Campolide onde se instalara a Peni- 
tenciaria de que o sobrinho do romancista era sub- director. 

Os comboios galgavam o túnel recentemente inaugurado e os seus silvos trazi' 
dos com ventos favoráveis, cortavam o silencio das longas tardes como gemidos de- 
morados. Para o lado oposto, ladeiravam-se ruelas povoadas de casaria, ensocalca- 
vam-se até ao Castelo dominante com a egreja da Graça, cuja penha se via do topa 
da quinta num borrão pesado. De quando em quando as cornetas clangoravam no& 
quartéis visiohos ; depois uma grande paz emantava o sitio. 

Camilo vivia nos aposentos superiores ; aninhava-se num canto preferida e nesse 
desolado outono, sentado na sua cadeira, segurava horas a fio, a mão da esposa que 
se cançava a lêr-lhe velhas crónicas. Só se alegrava quando alguma réstia de sol 
alumiava a sala. Mal deixava ausentar-se a Hninhas agora querida com uma > ado- 
ração de enfermo cujas cóleras terríveis só ela sabia aplacar. Sofria muito: «cada 
vez mais desesperado — participava ela ao querido irmão ; «vai perdendo a confiança 
no medico, grita todo o dia e quando Deus quer ninguém descança de noite. > (*) 

Naquele fim da estação estavam os seus amigos longe da cidade; raramente 
apareciam visitas a não ser o dr. Hntonio de Hzcvedo. Toraaz Ribeiro instalara-sc 
na sua propriedade da Feitoria para mais a meude poder ir a Cascais saber noticias 
do rei D. Luiz cuji doença terrível avançava. O grande escritor criticara as suas 
traduções de Shakespeare com esmeio e ao sentir apagar-se-lhe a luz dos olho» 
solicitara, por intermédio do poeta, um amparo que da realeza lhe poderia vir. Dese- 
java um subsidio ao scntir-se inutilisado : <se a pensão é vergonhosa não a peças 
nem a lembres msu amigo. Logo que de todo cegue, suicido-rae. Lembrava-me de 
que por minha morte a pensão seria continuada à minha familia.» 

<Kna Pkcido viverá pouco; mas ficaria o meu infeliz Jorge. Quanto ao Nuno, 
esse é relativamente abastado. Com algum juizo tem de sobra cora que viva honesta 
e decentemente. Imaginava que não seria aviltante o amparo que me desse o meu 
país. R desgraça dá uns prismas que os felizes repulsam. Também eu, se ha dez 
anos me vaticinassem este conflito da doença incurável com a pobreza, cu atiraria 
comigo a ura abismo para me salvar do opróbrio. K doença quebrou-mc os brios; 
aniquiiou-me. Não me reconheço.> 

Na realidade não parecia o mesmo ; o génio decrépito esmolava, finava se c coma 
se tivesse dado todo o seu sangue à literatura e aos editores, era ura pobresito súplice 
e fraco: «no entanto psde a El-Rei que me proteja. Se S. M. manifestar um afecto 
compadecido por ura homem que se gastou nas lides que El-Rei conhece sem lhes 
conhecer o travo infernal, eu creio que haverá para mim umas migclhas que sobejam 
na mesa dos que souberam orientar-se.» 

Já o Primeiro de Janeiro o mostrava como «atleta caído, fulminado pela doença, 
mais prostrado pela fadiga do que pelos anos>. Solicitara-se a seu fâvor «uma comis- 



(*) A Maximiliano de Lemos — Camilo e os medias. 
(**) Cartas de Camio a Tomaz Ribeiro. 



— 31Í 



são litcraria>; a imprensa acaudilhara, como num regougo vago. /Icabara-se por lhe 
conceder a pensão pedida ao soberano. 

José Luciano de Castro estava no poder e tinha como ministro da fazenda Ma- 
riano de Carvalho c das obras publicas Emidio Navarro, dois jornalistas de pulso que 
admiravam o Mestre. Na Camará dos Deputados votara-se-lhc o apanágio, isento de 
quaisquer encargos. Receberia um conto de reis por ano «cmquanto vivo íôr>, dizia 
o decreto. Implorara de novo e estendera- se a seu filho a mercê também isenta de 
impostos. Homens ilustres de todos os partidos, João Arroio, Lobo de i\vila, Pinheiro 
Chagas, Hntonio de Serpa, Tomaz Ribeiro, Hintze, acolheram com jubilo a proposta 
nas duas camarás e, então, sentiu-se ao abrigo da mcndiguez. Não iria, ceguinho, 
como Milton, solicitar envergonhado as oblatas do vulgacho. h nação amparava-o 
c ele sentia em tudo aquilo a mão real, que no meado desse Outubro esfriava. Dis- 
seram-lho as salvas retumbantes no silencio da noite frigida. 

Não passara melhor no mez seguinte. Inflamara-sc-lhe a boca; só falava en» 
ir para o Porto. Caíram-lhe os dentes pela ação das drogas ingeridas e enfrenesia- 
va-se, soltava, constantemente, «aqueles gritos que todos nós lhe conheceraos>, con- 
fessava a viscondessa desanimada. (*) «Grita noite e dia e eu trago a cabeça ator- 
doada de o ouvir e por falta de dcscanço.> O frio torturava-o pelo dezembro in- 
clemente e tais eram seus sofrimentos, suas dores, suas amarguras e tanto fazia pa- 
decer e esposa que ela desabafava assim : «não ha prisão nem gargalheira de ferro 
egual á minha.> Nos seus berros formidáveis pedia que o levassem a Scide. Faziam- 
Ihe faltam os seus fantasmas. 

Numa tarde em que o sei loirinho lambia as paredes da sala, quasi em vésperas 
do Natal, (**) o romancista crgueu-se num grande sobresalto. ftnunciavam-lhe o im- 
perador do Brazil, o monarca decaído pela proclamação da republica. 

O velhinho viera com os netos e com o visconde de Aljezur. Rs creanças impe- 
riais procuravam a mancha de luz para se aquecerem admiradas ante aquele velho 
de cabeleira hirsuta, cujos olhos brilhavam c que dizia não ver, cego como nunca 
tinham encontrado de pupilas tão luminosas. O avô, com suas alvas barbas, 
abraçava-o e queixava-sc; confidenciavam suas dores emquanlo eles buscavam 
a caricia quente c loira do sol porluguez que não os animava como o da sua 
pátria. 

Aquele ancião, de bigode pendente e de mãos formosas, devia ser também 
algum monarca caído na desgraça para tão intimamente o soberano o tratar. E os 
pequenos olhavam a pobreza da casa c duas senhoras que estavam de pé chorando 
também : a viscondessa Correia de Botelho e D. Ana Correia. Os príncipes brincavam 
com as scintilaçõcs das vidraças; eles, os dois velhos, conversavam na sua toada 
dolorida : 



(•) Dr. Maxinailiano íc Lemos — Camilo t os mtdlcts. 
(*•) Foi em 21 de dfzembro de 1889. 



- 313 



— Meu Camilo . . . console-se . . . Ha-de voltar a vêr . . . 

— Senhor, meu senhor . . . 

— Ha-dc voltar a ter vista . . . Eu, meu Camilo, é que para sempre perdi o 
trono ... (*) 

<E cu os meus olhos . . .> 

cEspere em Deus ; eu é que não posso esperar . . .» 

<Meu senhor ... a cegueira é a ante-camara da sepultura . . .> 

«E não voltar à pátria é viver penando . . .> 

<Resignc-sc Vossa Magestade . . . Tem a luz de seus olhos . . . 

<Sim . . . Sim . . . Meu pobre Camilo . . . Mas íalta-me o sol de lá ... e erguia 
as mãos num vago gesto acompanhando os seus lentos e maguados dizeres. 

«Meu senhor . . . meu senhor 1 . . . 

Despediram-se chorando aqueles dois velhinhos cujas coroas tinham sido de amar- 
guras. Um outro rei morrera havia mais de um mês ; ao som das salvas a cidade 
o soubera e vestira luto. RH, na casa humilde, dois soberanos choravam e scíriam, 
sem que o mundo escutasse suas penosas confidencias de homem para homem. 

Do Hotel Braganza onde o imperador se instalara, não querendo a hospitali- 
dade dum paço real, escrevia ainda ao seu amigo com doçura : <lembre-se que o 
amanhã é de Deus !> Na sua emaranhada letra de velho, com a assinatura smgela 
de D. Pedro de Alcântara, o destronado enviou-lhe ura soneto tão pobre nas rimas 
como rico pelo sentimento que o dictava. 

Já falei de Camilo com o talento 
E nas suas dores mais brilha a doutrina 
Que a alma é tudo, e em nós domina 
S2ndo o corpo infeliz revestimento. 

Quanto mais abatido num momento 
O seu tão cego olhar se lhe ilumina 
E pronta animação logo destina 
 quem de assim o vêr tem desalento. 

Não receia portanto do amanhã 

Quem do que vale deve ter consciência 

Do Éden não tragar a cruel maçã. 

Antes a saborei com impaciência 
Pois a mente possuindo zempre sã 
Só lhe é transitória esta existência. 



(*) Narratira de D. Ana Correia ao anctor. 



— 3t4- 



que Srr?drsur3Lrauaf ■" '"Z'"' "^ "" "' Camiio, naquela luz 
veria jamais nem paM TeffetT se^arf," "?'°l" ''°"^^- ° '"■"^""^'^ »«» 
monarca, bom sobe-ano e mTn„V. . '"' ' '""'"''° P^'° inlortunio. dum 

.sa ,ue se .ornavfvasLa do se^rÍJo" "" " ""^ ™'^ ^ "^""'^ "^^-'^ «- 




-315- 




Tréã amlgis: Frantiseo 
Correia d« CaroaW') lo 
Fistula), o ac'or DL; «t 
o pisccnde d* S Miguet 
ét Saide (Nunu) 



XVll 

os ÚLTIMOS DIAS DE CAMILO 



RO AVANÇAR DAS TREVAS — TRAIÇÃO DAS BALAS — O QUE SERIA O UL- 
TIMO LIVRO DO ROMANCISTA — O DRAMA DE URBINO DE FREITAS 
— O LEITOR DO CELEBRADO CEGO— AURORAS E TREVAS 
— DERRADEIRA POESIA — OS TRÁGICOS AMIGOS 
DO. MESTRE — VOLÚVEL ATÉ Á MORTE 
- GLORIA DA PEOUENINA SEIDE 



NA véspera da aclamação do rei D. Carlos, quasi ao lusco fusco (*), Ana Plá- 
cido descera da sala onde Camilo, recostado na sua poltrona, estivera a 
escutar, aborrecidamente, uma crónica de Azurara. Acabara por dormitar, 
ela apagara a voz na leitura, erguera-se e íôra dlstrair-se um pouco para o jardinzito 
gradeado. Combinava com a sua confidente D. Ana Correia (**) assistirem às festas 
regias, deslumbrando-se, na parda tarde de Dezembro, cora a idéa das scintilações 
de fardas, de coches, de grandiosidades cortezãs. 

O romancista despertara, tacteara na cadeira (***) onde a julgava ainda, balbuciara- 
Ihe o nome, como num suspiro: <Amnhas!>. Continuava a palpar o raovel, no assento, 
nas costas: «Aninhas !>. Uma serva de fala represa tremia no limiar regelada de medo 
ante o amo sujeito a desesperadas crises. «Aninhas !>, tornava ele e, ao dar por sua 
falta, num Ímpeto, soltara um grande berro, derrubara a mesinha, puxara do revolver 
e disparara-o no clamor desesperado. Pegara na bengala e, cegamente, espancava os 
moveis, furioso ao compreender a falha dos projecteis que nem arrancavam o estuque 
do tecto. «Infames! lolamesl — exclamava espavorido na cólera inclemente — Engana- 
ram-me ... I As balas estão vazias . . . !> 



(♦) Em 27. o rei íoi aclamado a 28 de Dczrmbro de 1889. 

(•♦) Narrativa de D. Ana Correia ao autor. 

(***) Esti no Maseu de Seide etla cadeira estofada de noro. 



— 31* — 



Uns braços amigos — os da viscondessa — procuravam delê-Io, acarinhá-lo, 
porém soltava-se, ralhava, ameaçava queixando-se iradamente, furibundamente, es- 
tranho, a sacudir a raiva, tragicomico em seu casquete negro de enorme pala, 
lívido, ameaçando a agitar o bastão: «Foi o Nuno! Eu já calculava, já suspei- 
tava . . . Mariola ... Se aqui estivesse rachava-o, quebrava a bengala nas costas 
do patife!. . .> E gritando pela luz, que não podia vêr, deixara-sc cair cançadamente 
no estofo. A creada fugira, a outra gente da casa espreitava-o, de longe, como a um 
louco. 

Calara-se, ficara arquejante pelo esforço e a íazer-se calmo, pedira, daí a pouco, 
para chamarem o sobrinho, o dr. António de fízevedo Castelo Branco, que era o 
sub-director da Penitenciaria. 

Jamais soara tão caridosamente a voz de Camilo como ao lamentar-se ao filho 
^e sua irmã. Arranjava entonos capciosos, humildes, de invalido: 

— «Hntoninho . . . Antoninho. . . Sabes lá como me tratara! Desobedccem-mc. . . 
Não fazem o que devem. . .> — Depois, mais baixinho, perguntava: «Está aí alguém? 
Está?!. . .> A esposa sumira*se desolada ante aquela suplica adivinhada na pergunta 
^0 parente: 

«Ó Antoninho . . . Sabes que tenho muitos inimigos ? Não me perdoam . . . Sa- 
bes?!» Acabara a pedir-lhe uma caixa de balas. 

Zombeteiramente lhe retorqdra, num ar afectuoso e alegre: 

— «Nada, nada . . . Não quero passar de sub-director da cadeia a preso ... O tio 
matava alguém e lá ia eu para a cela como cúmplice . . . > 

Debalde insistia; as respostas pouco variavam c, então, o escritor, nesse final 
<le ano, entrou a detestar a casa de Vale do Pereiro e a apetecer o que intitulava: 
os regalos de Seide. Relembrava o gabinete rodeado de estantes, as janelas voltadas 
para os longes de Vermuim, Ruivães, Santa Luzia, a quadra, sua oficina inútil agora 
que não via, lugar de desespero ao tactear suas penas e seus papeis, porém de de- 
sejo como se quizesse torturar-se. Atraía-o a solidão e, passando, num habito, o pen- 
tesinho pelo bigode branco ou volteando maquinalmente um limpa unhas, já não vivia 
senão para a idéa fixa do regresso. Debalde lhe mostravam o bravio inverno aldeão, 
evocavam os arripiantes gemidos dos pinhais, o frio entanguidor, os regougos do Pele, 
o pranto da humidade pelas paredes duma casa fechada, havia tanto tempo. Não argu- 
mentava: «:queria ir para Seide>. 

E foi. Já lá estava em Janeiro morando com o filho emquanto se tratava da sua 
habitação. Os netos —Flora de quatro anos, Camilo, de dois — brincavam pertinho 
dele que sorvia a sua pitada ou fumava o seu charuto. Ana Plácido pedia-lhe fogo para 
o seu la Reyna e havia ocasiões em que conversavam do passado, como camara- 
das. No vasto salão abria-se um piano e ela andava tocando as modinhas tristes 
queridas do seu Jorge, sempre arredado deles, enclausurado na hospedaria de Vila 
Nova. O marido não esperava mais nada ; trouxera para ali o desengano e revcr- 
tia-se ao passado, gostava de rememorar, acabava a compor versos que lhe recitava 
dedicando- lhos, a eia, à sua Ana Augusta: 



— 320 — 



Aos vinte anos vi um anjo refulgente 

Diziam ser a esperança. Tanto andei 

a segui-lo, a fitar-lke a face ardente 

a deslumbrante luz que rutilava 

Que, emfim, sendo velho, ainda a fitava 

Com olhos juvenis, louco tomei 

Uma vez de frente a luz que me ofuscava 

até deixar de a ver porque ceguei' 

No intervalo das suas grandes explosões cia levava a perdoar-lhe os arremessos. 
S, muito resignada, gastava os dias a lêr-lhe a volumosa correspondência, os jornais, 
os livros que chegavam aos sacos à estação distante. O escritor ainda se sobressaltava, 
agitava-sc, barafustava ao menor artigo, à mais leve local, diferençada de seu pen- 
samento. 

flnte o uliimatum inglez galvanisara-se, cnchera-sc dum abalo terrível. Queria 
saber tudo, condenava os britânicos, excomungava a sua nação e pedia a Deus a 
vista para escrever a demoli-la. Descobrira no seu devoto Correia de Carvalho — o 
Fistula — qualidades admiráveis de leitor — vezo que lhe ficara dõ seminário, — muito 
senhor de intonações certas, para a dicção das frases violentas, dos reptos, das 
audácias que lhe saíam bem. Ura actor! Camilo regalava-se. Improvisara-o seu se- 
cretario, ditave-lhc cartas, afeiçoava-se-lhe mais. 

Lembrava- se de trabalhar um livro virulento, chasqueante, fero contra fllbion e 
que se denominaria — dizia- o a Tomaz Ribeiro : — ^Extermínio da Inglaterra. Trovas 
alegres por C. C. B.> Pormenorisava-o : 

«650 versos repartidos em quadras. Ha-dc ter um prefacio e notas. Deve dar 
um volume de 80 paginas em oitavo pequeno com 3 quadras por pagina. Se acha- 
res um editor que me dê duzentos mil reis peia propriedade h^ato de organisar os 
cantos que por agora se acham dispersos. > 

Correra logo a noticia ; um jornal de Famalicão espalhara-a e assim chegara ao 
Porto. Então negou, arrojou suas zargunchadas, declarou felsa a informação. 

«Em cousas de literatura — afirmava ao seu amigo Oliveira Ramos, do Primeiro 
de Janeiro — deve falar-se de mim como dum escritor morto. Logo que eu aceitei do 
estado uma pensão é que eu não podia trabalhar e manter a minha laboriosa inde- 
pendência de 40 anos. Ceguei na luta c fiquei vencido. Sirva isto de exemplo a fuhi- 
ros escritores. > Era o tzmpcramento de seu génio. Viveria a contradizer-se até à 
hora final, por palavras escritas c actos. 

Entrara, depois, numa teima de se matar por inaniçào. Sofria da boca e repelia 
os alimentos. Descompunha os médicos de Santo Tirso que o trafavam e galeava o 
estoicismo dum homem capaz de morrer de fome à beira de boa comida, sanliíi- 
cando-se e heroicisando-se. 



(*) Carias dt Camilo a Tomáz RU/*lro, pa^. 103. 



Pol. 21 - 321 - 



E a casa do lavrador minhoto, com seus vapores dos molhos apetitosos, era 
mais de suplicio que os desertos desprovidos de frutos e raizes onde se preparavam 
para o ceu os anacoretas. 

Mudara pouco depois. Confidenciava com o Fistula, apoiava-se-lhe no braço por- 
que era um ceguinho desatinado, incapaz de se guiar e chorava, de mão nos joelhos,, 
olhando sem vêr, sob a pala imensa do casquete negro. 

Sentado e meditabundo, triste, tinha o ar desolado duma estatua tombada nalgum 
parque de legendas. Sob o bigode anediado chancelava-se um sorriso^ como se a 
boca da própria infelicidade o sinetasse num desmaiado lacre da descrença. 

Apalpava a meude o revolver c já conseguira, numa secreta peita, as apeteci- 
das balas. Treuxera-lhas, por uma gorgeta pingue, um creado, o Raimundo. Pos- 
suía a certeza do cabo de suas torturas. 

Hntigaraente, quando a arma estava mal provida, a sua gente, ao vê-la empu- 
nhada, fingia terror, pedia para a desviar a ludibria-lo; agora, era cie, que a 
enganava tendo, no cano estreito do revolver, ao seu alcance a morte como numa 
boceta de magicas venturas. 

Treguava-se-lhe a dôr na hora em que se ia batisar uma netinha de dias, nas- 
cida em fevereiro, a 21. Discutira-se muito, na sala do visconde de S. Miguel, o 
nome a dar-se-lhe, e o pai — em gentilezas — propunha que se chamasse i\na como 
a mãe, como a avó, a bisavó . . . Ana Correia, Hna Plácido, Ana Vieira I . . . 

A viscondessa acudiu logo a recusar-se, a proibir, como se visse um mau des- 
tino entenebrecendo as alvas roupas da creancinha : 

<Não . . . não . . . não . . . 

«Porquê? perguntou o avô procurando-a com os seus olhos cegos. 

«As Anãs são muito infelizes ! . . . — volvera num desabafo sincero, sentido. 

Então, logo, numa galanteria, recordando de como outrora designava a amada, 
exclamou : 

— Pois chamar-sc-ha Rach2l . . . 

Ninguém o contrariou ; a mulher do seu afecto sorriu c Rachel foi, a pequenina 
beijada carinhosamente como se na sua carne tenrinha êle procurasse a antiga puresa 
do seu amor. 

Em breve, cheio da velha recordação, era ainda à antiga Rachel que se dirigia 
a reunir num Í2ixe de versos a existência de ambos. Nem esquecia a irmã dela, a 
pálida e triste Maria José «o anjo inocente> ao qual ambos tanto tinham querido.. 

Libavas, borboleta, a flor da vida 
No parque ameno de ideais, chimeras, 
Que seja amor não sabes; mas esperas 
Vencer cativa e cativar vencida (*) 



(*) Camilo — Nas Trevas. 



— 322 - 



Chega a paixão. . . Retraes-te espavorida l 
Saudades tens das quinze primaveras 
Em que, menina e moça, amada eras 
Sempre isenta, risonha, distraída. 

Vence a paixão e o teu anjo inocente 

Desligado de ti, mesto e dolente, 

Regressa para o ceu; mas vai chamando-te. 

Não foste l És presa à minha desventura 
Em grande amor te dei grande amargura 
Fui teu verdugo mas verdugo amando-te. 

O pagão confessava-se de rastos ao amor da sua vida, à paixão da sua alma, 
ao encanto que enchera o seu espirito e volvia-se para ele como se na hora trágica, 
provocada era sua dôr, tivesse a sinceridade dum crente de rojo a sentir-se na 
agonia: 

Fui teu verdugo mas verdugo amando-te. 

E era todo; cm morrer pensava e em transes não mentia. Cousa alguma lhe 
agradava; a gloria era uma requentada iguaria de que lhe viera o pão quando par« 
o ganhar perdera a luz; a familia ficaria amparada pela pensão ganha em seu labu- 
tar, crenças não as albergava, o amor representava em seu sentir, um amparo vago 
duma imagem distante ; lembrava-se dele como um poeta sonha com estrelas. Tudo o 
atormentava; se não sentia ura mal próprio, vinba-lhe de fora uma cruciante amargura. 
E naquele abril — que chegara molhado e desluzido — um alarme novo o alcançara e 
o perturbara. 

O irmão do amigo a quem legara a obrigação de velar por seu cadáver — no 
jazigo da Lapa, escolhido e já ambicionado — estava preso na Relação, no mesmo 
quarto que, havia quasi trinta anos, ele habitara porque muito cimara. Vicente Urbino 
de Freitas estava em processo de envenenador. Umas creanças, suas sobrinhas, 
adoeceram depois de comerem amêndoas, enviadas de Lisboa por mão desconhecida, 
em caixas vistosas. Chamara>se o medico ilustre a tratá-las e a cada remédio de sua 
sciencia os pequenitos peoravara tanto que repeliam o tio num enorme terror. Ade- 
jaram as suspeições sobre ele. Não soubera explicar onde se enconb'ava quando da 
capital fora remetido o presente. Asseverara ter passado a noite em casa do profes- 
sor Adolfo Coelho e desccbrira-se-lhe a fcilsidade porque este apresentara à justiça a 
carta «m que lhe pedia para mentir. Os inocentes finaram-se; ergueram- se vozeios 
maiores relembradores das circunstancias em que acabara um cunhado do clinico e 
do qual fora assistente. Gritava-se que o assassinara para ficarem a seus filhos as opu- 
lências celebradas dos avós, os Sampaios, da rua das Flores, e uma onda de nojo, 
de repulsa, marulhava pedindo castigos exemplares. Também, outrora, numa rua das 



-3U- 



Flores, Vieira de Castro assassinara. E Camilo recordava-o, cora o criminoso de hoje, 
procurando dcíendê-Io das imputações más. Mais se alteavam, mais fortemente rugiam 
as indignações dos portuenses. O Novais dos Óculos surgira, dura canto da provin- 
da, ameaçador. Buscava desferrar-se de Freitas Fortuna — o irmão do preso — porque 
outrora mostrava, antes de publicadas, ao seu inimigo — ao escritor tronitroante — as 
prosas vis que enviava à sua tipografia. Do fundo da sua anciã de esmagar, proter- 
viava. Insinuava que o envenenador dos sobrinhos e do cunliado podia muito bera 
ler ajudado à morte de Pinheiro Alves para servir o amante da mulher. Na anciã de 
esmagar nem via que Uibino, naquela época, não passava dum garoto do liceu. 

O romancista gritou furiosamente na casa de Seide, onde habitava desde que 
tudo se puzera em ordem; clamara na morada de Nuno, onde ia pelas tardes, agi- 
tara-se, excitara-se e peorara. 

ilna Plácido, como a querer lenitivar a dôr do desditoso tratado por cquerido 
irmão, do comerciante que educara o criminoso e o amava doidamente, confiava-lhe 
os seus desgostos, as suas torturas, sem cortinas, francamente. Mostrava-Ihe os sofri- 
mentos incomparáveis do seu enfermo: 

<Muitas vezes fujo do lado dele por não poder ouvi-lo. Se chora, se se lamenta, 
se olho para a cadeira solitária do seu escritório e penso nas horas socegadas c ale- 
gres de outrora, despedaça-se-me a slma; se grita, se se queixa de mim, se me tor- 
tiira com aquelas palavrinhas cortantes que ele sabe, estorço-me debaixo da tenaz do 
meu infernal destino. Que vida! Que vida a nossa, meu querido irmão !> (*). Depois, 
num tacto superior de mulher inteligente, tratava das suas desditas como a ungi-las, 
a balsamizá-las com o seu infortimio e o do marido. Aventara passos incríveis, ton- 
tices de carinhosa amiga : a fuga de Urbino para Espanha, após uns tempos de reco- 
lhimento cm Seide, a pagina aventurosa e trágica dura novo romance de desgraças 
a juntar aos deletreados na sua vida. O escritor, farto de criações, desprovido de 
fantasias, à beira do grande repouso, avisara-a da sua inconsciência: «fugir seria 
julgá-lo criminoso !> 

Era uma defensora acirrada do acusado, recordava-se dos meses longos passados na 
Relação e, despojando-se da sensibilidade, do horror ao assassino de creanças, declarava : 

«Inocente ou culpado, eu nunca sentiria por seu irmão senão uma simpatia c 
uma grande dedicação, lembrando-me das muitas finezas que lhe devo na doença de 
Camilo e de que ele chegou a levantar-se muitas vezes da sua cama, alta noite, para 
vir animá-lo cora a sua presença. Infelizmente nada posso.> 

Entrara o abril mas não engarridara o Minho de suas galas ; aparecera triste como 
se não quizessc ser belo, visto Camilo, o seu adorador, já não o poder contemplar : 

Tu bem sabes, filha, quanto eu era 
Amante dos festins da primavera 
Das rosas e lilás. 



(*) Dr. Maximiliano de Lemos — Camilo e os Médicos. 



— 324 — 



Dissera aquilo c para ali estava, num canto, friorente, em birras de crcança, ou- 
vindo o Fistula — a sua criação — a lêr os jornais, as cartas, os livros, sem cançasso,. 
a entretê-lo. 

Escutava-o, com o seu sorriso de disfarce, sob o penteado bigode, fixando-o como 
se fossem de pedra das estatuas os seus olhos sem luz, acariciando na algibeira a 
poida coronha, esperando sempre alguma noticia má. E fora durante uma dessas 
leituras que tremelusira na sua alma a vaga scintila duma esperança. Era um ima-^ 
ginativo ; ora se enublava, ora se esgarçava cm agruras ou alegrias ambas sem mo- 
tivos sólidos. Agora apegara-se a uma nuvem linda no ceu da sua tão turbada fan- 
tasia e gerara à volta dela planos sem fim. 

O Comercio do Porto (*) reíerira-se a certo medico cspecialisado na cura das 
lesões da vista. Chamava-se Edmundo Magalhães Machado, fora associado do Plá- 
cido Costa no Porto, clinicara no hospital de Santo António, estagiara em França 
nos consultórios das grandes autoridades da oftalmologia : — Terrier, Tilleaux, Gale« 
zowski, {**J voltara e como ia instalar-se na sua terra natal dirigira-se aos amigos 
no periódico: 

«Edmundo de Magalhães Machado, tendo de retirar-sc para Aveiro c não po- 
dendo, por estreitesa de tempo, despedir-se pessoalmente de todas as pessoas das 
suas relações de amisade, toma a liberdade de faze-lo per este meio oferecendo- 
Ihes naquela cidade a sua casa e os seus serviços. > 

Quem sabe se ele o curaria ? Essas linhas soaram aos seus ouvidos como repi- 
ques alegres ; punha-se, alvoroçadamente, a querer consulta-lo, sentia-o como um 
mago do qual, dependesse a morte da sua treva, o cntulhar-se essa ante-camara do 
sepulcro, a santa radiosidade, o renascimento da luz. 

Ana Plácido, na sua letra rígida, aberta, escreveu o que lhe ditou: a homena- 
gem e a suplica, a prece e o louvor, numa prosa de oiro : 

«Sou o cadáver representante dum nome que teve alguma reputaçã* gloríosa 
neste país durante 40 anos de trabalho. Chamo-me Camilo Castelo Branco e es- 
tou cego. 

«Ainda ha quinze dias podia vêr cingir a um dedo das minhas mãos uma fia*- 
mula escarlate. Depois sobreveio uma forte oftalmia que me alastrou as córneas de 
tarjas sanguineas. 

«Ha poucas horas ouvi ler no Comercio do Porto, o nome de V. Ex." Senti 
na alma uma extraordinária vibração de esperança. Poderá V. Ex." salvar-me? Sc 
eu pudesse, se uma quasi paralisia me não tivesse acorrentado a uma cadeira iria 
procura-lo. Não posso. Mas poderá V. Ex." dizer-me o que devo esperar desta 
irrupção sanguínea nos olhos em que não havia, até ha pouco, uma gota de sangue ? 

<Digne-se V. Ex.» perdoar à infelicidade estas perguntas, feitas tão sem cerimo- 
nia por um homem que não conhcce.> ' 



(*) 21 d« Maio de 1890. 

(**) Dr. Maxímilians de Ltmos — Camilo e oí médicos. 



325- 



Datava-se estes dizeres de 26 de Maio. RIegrara-sc o tempo ; cresciam as rosas 
no jardim de Nuno, do campo baforavam aromas, seivas das feridas dos pinheiros, 
hálitos dos fenos ; reverdecia a terra e os pássaros em cata dos cibos e dos amo- 
res, das conchas dos ninhos vibravam em felicidades, os seus trilos. Com tanta ale- 
gria em torno devia ser bem mais dolorosa a escuridade. 

Só falava na assistência do medico, confiava os seus projetos, embriagava-se 
em fantasias : a vista, de novo a produção, um livro lindo sobre Ignez de Castro, a 
historia duma famiJia, da sua : os Brocas. Olhavam-no descrentes, apiedados como 
se ele dissesse que conquistaria e mundo. 

Outras vezes mergulhava na impaciência, tardava-lhc a resposta de Aveiro, 
descobria um conterrâneo do doutor, Joaquim de Melo Freitas c metia-o de empenho. 

Muito s£u admirador — um dos que dissera ter o tihilo de visconde — «as- 
cendido em valia por lho coDferirem> servira-o logo e como lhe perguntara qual «o 
estipendio com que cumpre rumunerar tão trabalhosa jornada» volvcra-lhe que o 
facultativo considerava «uma gloria conversar alguns instantes com Camilo Castelo 
Branco.» (*) 

Não se envaidecia, deixava correr as lagrimas num lenitivo da sua amargura. 

— «Bem haja pelas suas cartas» — telegrafava. Nessa tarde conversara muito, 
mostrara-se animado no salão de Nuno, ficara até ao lusco-fusco a relembrar trechos 
jocosos da vida do Porto e quizera ir para o jardim aspirar o perfume das rosas. 

Ha no quinteiro do visconde de S. Miguel de Stide uma suave ruela de buxo, 
«te folhinha miúda, que conduz ao portelo verde da estrada. Defronta-a o presbitério 
e por ali, nessa tarde, a ultima de maio, o romancista passou arrimado ao Fistula. 
Os ralos retiniam na terra seca, aromática, uma campânula de paz cobrira a aldeia 
Ba hora do adeus do sol a laivar ainda em manchas sangrentas as carumas para 
•s lados de Anta c a sumir-se sem Camilo o ter visto nem no esplendor, nem na 
agonia. Sentira-lhe a falta, puxara a capa para os hombros, fremitara: 

«Está a arrefecer. . . Vamos depressa que não quero apanhar alguma pneumo- 
«ia.> (**) 

Lá fora, encostado ao amigo, muito apressado, subira as escadas, ficara na sala 
de fogão aceso, a rir. De quando em quando embrenhava-se na sombra o seu rosto; 
itepois alumiava-se nos clarões do lume; ele estendia para a chama as mãos diáfanas 
como se quizesse egarrar-Ihe a luz, enchcr-se dela, levá-la a iluminar-lhe os olhos, 
fesistira na vinda do facultativo, quizera saber se o Nuno estaria a horas com o carro 
<lo José Barracão, não deixava um pormenor, c, ao deitar-se^na cama de madeira 
de i\frica, que lhe mandara o morgado de Pereira, escondera — como sempre — o re- 
volver sob o travesseiro como um objecto aroado. 

Acordara e, vestindo-se, ajudado pela esposa, ia-lhe recitando versos; depois 



(*) Cartas íxislentes oo Maseu de Seíds confirme se aponta ho livro O Escritor da Graça e dm 
BtUzm «atalogado peb erudito escritor José de AzeTedo^Meneze». 
(*•) Da coaversa da seoliora D, Aaa Correia com • autor. 



— 326 



queria que escrevesse os da sua produção dessa manhã. Sentara-se a seu lado 
na cadeira de balanço, na sala; ela tomara a coberta de azul e ia escrevendo, sobre 
uma jardineira, sempre obediente, costumada aos seus caprichos, às suas idéas negras. 
Dedicava a poesia aos filhos, através da mãe deles, dirigia-se-lhes na sua derradeira 
inspiração. R morte roçara-o na véspera menos no arrepio da aragem que num gélido 
€ cruel pressentimento. 

Chega a morte l vejo-a, sinto-a 
fl luz dos olhos se apaga 
Vem, meu filho, abraça e beija 
De teu pai a face fria 
Limpa-lhe o rosto orvalhado 
Não de pranto que eu não choro 
Mas do suor da agonia. 
Não me fujas, filho, imprime 
Na tua alma esta imagem, 
Daqui ã pouco à voragem 
Resvalou teu pobre pai. 
Vem, também, santa das dores 
Receber o extremo ai, 
Não me vás levar flores 
A sepultura, não vás, 
Leva- me os filhos felizes, 
Leva- os contigo e verás 
Que me aquece a luz da vida 
Na sepultura esquecida 
Onde, enfim, hei-de ter paz. 

Acabava de dizer as suas maguas na casa aquecida pela luz loira, na serenidade 
desse dia inicial de junho. Seide silenciava-se. Finara-se no ar o ultimo toque da 
missa havia instantes. Ele falava em morrer e a esposa andava afastada de tal ideia 
pois sentia bem a impossibilidade de se ferir sequer, com as balas da sua acariciada 
arma que julgava falsas. /\centuava-se, sob o bigode do cego o sorriso de enganoso. 

Guardava-se, debaixo dos tectos em tampa de urna, a serenidade dum lar burguez. 
Pendia sobre a mesa larga, sempre cheia de jornais, o candieiro de vasto abatjour 
de lata. Marido e mulher, sentados lado a lado, conversavam de mansinho, ele recos- 
tado na cadeira de balanço, ela na estofada de là azul. Distanciada, uma outra mais 
pequena de espaldar esgarçado — a que servira para o tratamento dos herpes — quasi 
SC roçava com o canapé prcfundo c comprido cm cuja palhinha tomara outrora 
assento o imperador do Brasil. Nessa manhã quente o íogào estava apagado e o 
Mestre, com o casquete de pala enor.Tie, vibrava na impaciência de ouvir a sentença 
do medico cujo nome aprendera no acaso duma pagina banal de periódico. Rnichara- 



— 327 — 



se-lhe no animo a esperança e a duvida como dum rochedo mana a agua para se 
estancar em breve. Eraquanto jorra é fresca, clara, dessedentadora c assim surgia a 
nascente da íé no espirito do criador de espíritos. 

Acabara de ouvir da boca da esposa a copia dos versos aos íilhos dcstinados.. 
Um, o seu Jorge, continuava cego de entendimento, no quarto da hospedaria, cm 
Vila Nova, sem fúrias, ensimesmado nos seus avejões. Em volta, nas paredes da 
casa paterna, mostravara-se os seus desenhos de manicomio : o que dissera ser frei 
Bartolomeu dos Mártires, descomposto de feições, cstrabico, as singulares paisagcns- 
c os disformes seres, mendigos contorcidos, epilcpsias dum lápis movido por um 
doido, faces de demónios, arvores destroçadas, corpos faunicos, angulosos, besun- 
tados de cores extravagantes. 

Camilo irapacientava-se ; afixara-se mais à sua idea e sorrira ao ouvir ao longe,, 
na ladeira de Seide, o rodar do carro a quebrar a modorra aldeã. Era uma hora da 
tarde; reboliçava-se no pateo, alguém subia o escadorio, e a dona da casa ia rece- 
ber o medico tão angustiadamente esperado. Loiro, de olhos claros, contando apenas 
trinta e quatro anos, aparecia como um antigo mago à íé do romancista que queria 
levantar-se. E ele — o da maior esperança — saudava-o c obrigava a sentar-se, íalava- 
Ihe da honra de o conhecer. Hdmirava-o, felicitava-se. Devia ser muito simples^, 
quasi romântico também apesar de sua sciencia feita para desnoitar os desditosos. 
Angustiadamente o espreitava a torturada ilna Plácido que quasi se debruçava sobre 
o seu hombro ao vê-lo começar a observação, a analise daqueles olhos semi-mortos. 

Foi longo, foi demorado o exame. Tudo se calara na moradia c lá fora à soa- 
lheira, nem bulia uma folha. Junho ardente chupava as ultimas poças das chuvas, 
espargia claridades fulvas. Parecia que a aldeia dormia nesse domingo de ardências, 
uma regalada sesta na sombra extensa das bouças. 

Ro cabo dalgum tempo erguiu-se a voz do visitante na sala dos tetos em 
tumba. Imputava à anemia profunda a falta de vista do Mestre. Não o desenganava. 
Apenas melhorasse da fraquesa geral, desapareceria a cegueira. E aconsclhava-lhe 
o Gerez para a acalmia, para o repouso, falava-lhe em boa alimentação . . . 

Os olhos do cego pareciam verrumar na alma do seu juiz. 

O que eles não penetravam contavam-lhe as sondas do espirito sempre agudo, 
profundanle. Respondia-lhe preferir Aveiro. 

«Sempre estaria ao pé do medico . . . Esperava dele a cura . . . 

Tinha tanta fé, tanta, no seu saber . . . Era melhor . . . Estaria mais perto dele . . .> 

A voz do doutor resubiu já ervada da fatalidade: 

«Aveiro não serve . . . É muita sujeita a ventos agrestes . . . 

De resto ele apenas se especialisara em doenças da vista e não podia trata-lo 
da sua enfermidade, da anemia, da fraquesa ... «O Gerez . . . Sim ... o Gerez . . . 
Para demais estava lá a ares o dr. Ricardo Jorge que sabia muito seu amigo e o 
aconselharia . . .> 

Compreendera. Estava condenado. Aquele homem de voz suave, ao qual entre- 
gara o seu destino, despedia-se, repisava na honra recebida em ter vindo ali. En- 



— 328 — 



viava-0, sem querer, para o tumulo cuja chave era a arma apertada^^nervosamente 
na algibeira. Cousa alguma, porem, indicava o propósito de quem tanto se dispuzcra 
a partir para sempre, como um bom romântico, deixando o seu adeus em versos 
desolados. Solicitava-lhe o favor de tomar uma pequena refeição, agora de pé, muito 
gentil, íidalgamente, e, ao sumirem-se os passos sentou-se com vagares na sua ca- 
deira. Quedara-se a meditar: quando não poude mais com seus pensamentos, sentiu 
voltar a esposa chamada por um ai mal sufocado era sua boca sofredora. 

Procurou-a de braços estendidos, afagoua, quiz saber se ele — o clinico — lhe 
falara em mais alguma cousa ... O que te disse, Aninhas, o que te disse, minha 
filha ? 

— O querido, que fosses para o Gerez. . . E cu escrevo ao Ricardo a avisa-lo... 

— E tu queres ir, filha ? Queres ? . . . 

— Da melhor vontade . . . Estou contente c tenho a certeza de que te fará 
bem . . . 

Volveu-lhe num tom macio a que limara o resaibo dolorido e no qual mal se 
embuçava todo o seu desengano: 

<Tens tantas esperanças como eu nas minhas melhoras, minha pobre mártir... > 

Ela eslendeu-lhe a mão a socega-lo e Camilo, numa galanteria, beijou-a. (*) 

Ficaram assim uns instantes até que se anunciou de novo o medico já refeito 
pelo almoço. Rendia-lhe graças, dispunha-sc a partir ; o Nuno dera a volta, no pateo, 
ao carro do Barracão de cavallos inquietos a sacudirem os moscardos num tilintar 
de arreios. O doutor insistia no seu conselho: qucria-o na calma da serra, mostra- 
va-lhe as vantagens desse repouso em ar puro. O romancista não poude mais conter-se» 
explodiu num arranco: 

«Que vou là fazer se estou perdido? . . . 

<0h I não ... V. ex.a ainda ha-dc escrever muitos livros . . . 

Buscava salva-lo da má impressão, deixa-lo satisfeito e, só o largava ao ouvi-lo 
aceder na partida. Abria, sob o bigoae branco, o seu sorriso pincelado de decisões 
misteriosas. 

i\pertava-lhe a mão, dava-lhe os agradecimentos, pedia desculpa e para a esposa 
indicava : 

— Ó Hnica, acompanha o senhor doutor . . . 

Transpuzeram a porta aberta para a escada do pateo; ele tornou a sentar-se na 
cadeira de balanço. Devia crescer muito a sua desesperança; egual á escuridade da 
sua alma ela seria. 

Do grande e ousado homem, restava aquele serai-cadavcr coberto de gloria e do 
males. Ficavam do idealista os tristes despojos como dos outros, que o eram mais 
do que ele, pois nem de romântico gostava ser tratado. Dos seus amigos antigos 
não palpitavam mais do que sombras saídas dos túmulos para onde tinham sido ar- 
remessados após tragedias, infortúnios, violências. 



(*) NarratÍTa da seahora D. Ana Correia, ao aator. 



Eram Jorge flrtur lançendosc às aguas do Douro numa noite de paixão, de dc- 
lirio, de desesperança; Ferreira Sarmento, corroído pela miséria, vendo dctinhar-se sem 
socorros, numa mansarda, a mulher do seu amor; Pinto de Magalhães, o ciumento 
ultra-romanesco, fechado num quarto de hospedaria a emborcar copos de álcool sem 
querer alimentar-se, levado a este íim porque ao descobrir que a noiva escrevera 
cm menina uma carta a outro homem, a deixara virgem, a vira íinar-sc pelo despreso e 
pela tisica, pobre Fany Owen de olhos espertos, caracoes em sacarolhas, de modo 
gracioso e a tez láctea das camelíõs! O alucinado Vieira de Castro, empurrara para 
a sepultura a mulher, a vingar-se e acabara no degredo. Oliveira Pinto recebera uma 
bala, no peito, no acaso estúpido dum duelo, numa tarde de beleza, num canto arra- 
baldino, ensombrado, aviventado de trilos; Santos Silva, fulminado pela doença, le- 
gara a seis filhos o desamparo; Marcelino de Matos sucumbira paupérrimo e aian- 
ceado ; Custodio José Vieira, após uma excitação, acabara à beira do triunfo. E Gui- 
lherme Braga, turberculoso, gemendo seus versos, e Gonçalves Basto, arruinado, sem 
arrimo, legando a desdita à viuva, à Formosa das violetas, Elisa de Lcwe Weimar, a 
suicida — pobresinha doida ! — que sentira cavado o lindo rosto nas dedadas da fome!? 

Ha poucos meses Freitas Fortuna, mais retalhado ainda pela desgraça do irmão 
do que se o esfarrapassem numa mesa de anatomia, marcara outro aspecto desventu- 
rado no cortejo fúnebre dos românticos despedaçados pelas rodas do infortúnio. Nem 
Júlio César Machado, tão bom, escapara aos maleficíos e liquidara sua honrada vida 
cortando 'as veias, esparrinhando sangue, num lago vermelho, volvendo os olhos 
agonicos para a companheira semi-morta na salinha do seu lar onde caíra seu filho, 
o querido, suicida também I Sangue ! Sempre Sangue I . . . 

Um tiro estalou secamente. Camilo tombara para o lado na cadeira e deixara 
cair o revolver que lhe quebrara a vida c o silencio de Seide, na casa dos duendes. 
Arquejava, de olhos cerrados, a cabeça descoberta, os cabelos longos c brancos des- 
grenhados e assim prostrado, com a arma aos pés, parecia guardar na boca desden- 
tada c contorcida o sorriso ardiloso de quem vencera. Ajoelhada a seus pés D. flna 
Correia, espavorida, buscava ergue-lo; o doutor Edmundo Machado, a segura-lo, ape- 
nas sabia exclamar: Isto só a mim acontece; só a mim acontece! 

Levaram-no para o canapé e só então viram escorrer do alto feito pela bala na 
fonte direita, um fino veio vermelho passando num laivo pobre pela face rigida. Des- 
cia lento e fraco na cara amarelecida, crivada de bexigas, perdia-se no bigode como 
a querer dar aos lábios do romancista o sabor da sua grande tragedia. 

Rna Plácido correra num turbilhão, chorando, alarmando a aldeia. Nuno, sal- 
tara para a boléa do carro e largara em busca do medico Ferreira a Santo Tirso, 
outros procuravam o de Vila Nova, numa azáfama, num clamor, que a esposa de 
Camilo sobrepujava nos seus grandes e desesperados gritos. 

O clinico tomava o pulso do desvairado; D, Ana Correia ia lavando mansa- 
mente a ferida e ele arfava, só arfava, de clhos cerrados numa chama de sol que 
entrava pelas janelas e ia encher o canapé, onde o tinham deitado, c do qual um 
imperador lhe falara com admiração. 



— 3» — 



— Isto só a mim . . . Isto só a mim I . . . balbuciava o oftalmologista, ao sentir 
esvair-se, íinar-se a palpitação das veias no escoar da vida. 

Um relógio tilintara três paocadas alegres e, de aí a um quarto de hora, o corpo 
deixava de arquejar, o suicida, fechara rudemente os olhos, acabara naquele movei 
como num leito duro, sagrado, porque dali partira para ir ter com Deus. Morrera ; e 
abraçada ao seu corpo chamando-lhe ternos nomes, a companheira de tantos anos, mo- 
Ihava-lhe de lagrimas a boca arrepanhada que outrora mordera em amorosos beijos. 
Eíosculava-o ainda num frémito de paixão, a querer ergue-lo e a^vc-lo caido, com o 
seu alto na fonte e a linha sanguínea deslisando, perdendo-se, sumindo*se no pes- 
ccço e gotejando até se anegrar. 

Acabara assim o habitante da casa do morto amaldiçoador e na qual esperara 
encontrar os requintes de duradouros amores. 

Hrdia o forte sol de Junho, cantavam os pássaros, despertara a aldeia, batuca- 
vam socos no pateo, misturavam-se ruidos de íalatorivis, o gentio acorrera c comen- 
tava, sob a acácia que desabrochava suas ilorinhas vermelhas, risos loucos no meio 
dum grande luto. 

Como sempre dissera que se a motte o surpreendesse ou lhe acontecesse des- 
graça chamassem a Freitas Fortuna este viera logo c ficara [a contemplar o ca- 
dáver coberto com a manta de viagem, a cabeça ferida descançando sobre uma al- 
mofada. 

Ajoelhou e chorou eo lado de Ana Plácido. 

Sumira-se a luz desse dia na aldeia minhota, celebrisada porque nela vivera, 
amara e sofrera, resplandecente relicário da glcria, aquele lisboeta de sangue trans- 
montano mestre duma grande erte metido em cantinho tão humilde que mal se vê 
no mapa de Portugal. 

Ali estava vencido. Sobre a jardineira um crucifixo, entre duas velas, resaía 
no claro das luzes oscilantes ; os hórridos mendigos pintados pelo Jorge, pareciam 
saltitar macabramente, epiíeticos lobishomens esfaimados creados por um doido. Um 
corpo vestido de negro, enrodilhava-se à cabeceira do morto, no chão sacudido em 
soluços ; era o da esposa infortunada do grande desventurado. O Fistula chorava 
dei compassadamente c o escrivão da Povoa de Varzim — Ascençào Espinho — que 
o escritor sempre protegera — não encontrava resignação. Diante do amo livido, o 
servo, o Caniço, soluçava baixinho. 

Vinham uivos de longe, o Pele murmurava na paz da noite entre es salgueiros 
da margem enredados de silves e vides. Quando o amortalharam puzeram-lhe ao 
peito os retratos de Ana Plácido, dos dois filhos e da neta Flora. E a que tanto sofrera 
— a mártir — aquela de quem ele fora o verdugo e o amoroso, o elgcz cruel e des- 
greçado, desejaria o seu regresso para sempre, embora voltasse mais cruel e mais 
desventurado, a fazé-la chorar, exgotar-se em legrimas. Ele dissera: 

Quanâo a acácia do Jorge inda oulra vez injlore 
Chamai-me que eu d'abril nas auras voltarei! 



— 331 — 



Mas não voltaria. Para que o dissera, então ? Não se ergueria mais e a saudosa 
gritava entre soluços : 

— Adeus, filho. . . Nunca mais te verei!. . . 

— Terminemos, senhora viscondessa!. . . (*) Vamos para casa de Nuno. 

Freitas Fortuna tomava-lhe o braço, buscava poupá-la à grande despedida. 

Entrajada no luto, que jamais largara desde a morte do filho turbulento, deixou-se 
arrastar por entre as alas dos aldeões e dos repórteres dos jornais portuenses acor- 
ridos a Seide no alarme do suicídio do grande homem que o Porto não amava. 

Só então Hna Plácido soube que o marido decidira repousar no cemitério da 
Lapa e não no de Vila Nova onde ela esperava ficar eternamente ao lado de quem 
tanto amara e por quem tantos sacrifícios praticara. Dois grandes desgraçados na 
vida não se desligariam, não se separariam. Porém, era ele, o falso, que lhe fugia 
para sempre e a abandonava depois de morto. 

Para onde o levavam, nesse [funeral minguado, através das campinas, que 
imortalizara? Para o cemitério da Lapa, para muito perto do outro, do rival falecido 
num desespero, como para se avisinhar do seu fantasma (**) jamais esquecido. 

Ela bem sabia ! . . . Não descançaria nunca junto do amado, do seu estranho 
amante. Sentira-o, ao escutar, como em palavras do além, as suas ordens derradeiras. 
Fugia-lhe 1 E quizera-lhe tanto ! . . . Inconstante até à morte, deixara-a para se sumir 
sósinho — o grande volúvel! — na profundíssima noite da jazida. 



F 




(*) Comertío do Porto, 4 de Jaaho de 1890. 

(**) Jaz na catacnmba n.*» 55 c cadarer de Pinheiro Aires. 



— 332 — 



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D. Ana Plácido (retraio 

p«rl*nc«nl0 é famtlla d» 

Camilo) 



EPILOGO 



ÀN/l Piacido, na viuvez, vivia como uma morgada minhota entre o seu casal 
de Saidc e a morada do filho. Ficara a sôra i\na para os indigenas, a sdra 
biscondessa na bô::a dos mais atreitos a cortezias paçãs aprendidas nas 
nsanhas dos titulares <brasilciros> ; chamavam-lhe, as velhas, Dona Rninhas e de 
senhora do senhor Camilo a tratavam os mais afeitos ao Mestre. 

Ia fazer cincoenta e eitos anos e sofria desde os dezoito. 

Das alucinações do amor passara ao sacrifício do desengano; da tortura do lar 
ao fel da saudade. Não largara o luto do trajo e menos o da alma. Guardava ainda 
mostras de '^beleza, erapastara-se um pouco a escultura do seu corpo, encaneceram- 
se-lhe os cabelos, mas com a sua pele branca, os olíios vivos, o aspecto nobre, re- 
cordava aquela matrona descrita por Camilo — havia quarenta e um anos — c à quel 
emprestara a magestade da filha do imperador Vitelio. Pintara a mãe da amada, 
agora a ressuscitar na infglecitada viuva. 

Desprendcra-S2 de mundanidades ; encay^alava a luneta no nariz para lêr, des- 
prezando e pcralvilhismo do lorgnon, trazia sempre ao peito a medalha com os re- 
tratos do seu morto amado, de Castilho, e a face glabra de Vieira de Castro, o 
grande doido, ao qual chamara irmão. Orgulhava- se de ser a herdeira do renome do 
marido e de ter gerado a sua grandeza. Sem a paixão por sua formosura ele não 
íaria da dôr o drama aconselhado por Goethe, o ultra-sentimental ao queixar-se, e o 
calmo burguez no goso do seu cachimbo e nos acepipes da sua cosinheira. 

Do 'Amor de Perdição, traçado no cárcere, brotara a arvore esplendida da sua 
gloria. E ela inspirara essa tragedia chorando e quebrando, para se lhe dar, todos os 
preconceitos c todos os interesses. Depois sofrera muito, soterrada no mais formidável 
inferno, 'penara atenazada por milhares de desditas e, todavia, ainda se ensaudava. 
Desejaria que ele voltasse como prometera: 

quando a acácia de Jorge ainda outra vez inflore 

Teria morrido sem o compromisso de velar pelos filhos tão carecidos de seus 
•uxilios. De resto, tardiamente, morriam as grandes amorosas porluguczas ; as so- 



berbas mulherea de sentimento. Ela devia sabe-lo por suas eruditas leituras. Desde 
a Ribeirinha calva, nonagenaria não se lembrando terem sido ruivos raios dura ma- 
ligno sol os seus cabelos até à Soror Mariana, septuagenária, atochando-se de doçarias, 
no seu convento de Beja, todas pareciam conservar a vida animal como um des- 
mentido aos assassinos delírios de amor. Tinham vivido, larga e provetamente, a 
Madre Paula, grande e opulenta dona, a Flor da Murta escondendo as madeixas 
grisalhas sob a cabeleira empoada de sécia; a Távora regalona era seu mosteiro, 
D. Emilia Azenha — a da carne alvíssima — a que D. Miguel I violetara de beijos doi- 
dos, da mocidade, íinava-se relha e casada num cantinho minhoto. 

Talvez nenhuma destas damas dos reacs leitos tivesse sofrido como fína, amante 
estremecida da maior das realesas que não provêm de tronos nem lega aos seus os 
sceptros. Vivia porque prometera ao seu amado velar pelos desditosos frutos dos 
seus desgraçados amores. Ele, até à hora da partida, repetira era tristes versos, a sua 
recomendação e porque jamais os olvidaria e ante seus olhos se desvendavam as 
necessidades do amparo dos rapazes, ficara, cheia de cuidados, à beira do seu rai- 
rantesinho, muito afastada da resignação. 

O Jorge, ao saber da morte do pai, enrodilhara um lenço negro ao pescoço e 
melera-se no quarto do Yilanovense, visinho daquele onde Pinheiro Rlves, soltando 
as suas maldições ao acabar, parecia ter atingido a geração da adultera tão estre- 
mecida. 

Certa manhã, estando Hna Plácido na casa de Nuno, ouvira parar um trem ao 
portão de ferro, ao cabo da rua larga das latadas. Imaginara a chegada de gente de 
cerimonia, mas uma cr cada viera muito açodada a anunciar: 

— É o senhor Jorge \ É o senhor Jorge ! . . . 
Foi para ele de braços abertos : 

— Filho! Filho! .. , 

Os grandes olhos do louco dcsviavam-se da mãe; fugia-lhe dos braços apressa- 
.damente, deixava-a para tomar uma cadeira no salão onde aparecia a dona da casa 
com os pequenitos : o Camilo, Flora e Rachel. Baixava a vista, ficava nas suas con- 
geminações de raasturbador a repelir as mulheres, a detesta-las. Devia imagina-las 
perversas, culpa-las dos seus males, como se uma grande suspeita o desvairasse de 
ter sido a ardência do amor de sua mãe que lhe consumira o cérebro ao gera-lo. 

— Porque não vieste mais cedo, meu filho? 

Volvia muito sereno como se se tratasse de personagens doutros séculos : 

— Tinham-mc dito que não havia cá ninguém . . . Que tinha morrido a mamã 
€ o papá ... E cu não vim ... Se não tinha que fazer aqui . . . 

— Não meu filho, só morreu o papá . . . Tens ainda a tua mãe. 

Ia para ele que lhe fugia na sua instintiva cólera contra as íeminilidadcs. 

Quedara-se, corao num largo repouso, no canto obscurecido da quadra vasta de 
janelas semi-cerradas ao calor do dia. ilmodorrara; trocavam-sc em volta olhares 
de piedade. Quiz um copo de agua, pedira-o calmamente c quando a creada lho 
trouxe, rcpeliu-o, entornou-o: 



— 336 — 



— Não . . . não . . . querem Íaz2r-mc mal . . . i\ lémea assoprou a agua ! . . . 
Vinha a assopra-la I . . . 

Caiam lentas e amargas as lagrimas pelas faces da mãe como se visse nesse 
ódio ao feminiao a condenação do seu amor de culpas do qual viera ao mundo o 
doido estranho, condenador. 

Jamais foi possível modificar-lhe aquela repulsa. Nam aceitava a agua vinda da 
fonte, por mãos do gracil sexo. Chegara a recusar um casaco o qual tinha — afir- 
inera ele — os botões pregados por costureira. Dissera isto, teimara, enfureccra-se. 
Trabalho de mulher ! . . . Trabalho de mulher ! 

Quando prcguntaram ao alfaiate qusm arranjara a andaina, o mestre do corte 
para as elegâncias de Requião a Landim, abespinhara-se : «Ora essa, fui eu!...> 

— E quem pregou os botões? — interrogaram-no para uma prova decisiva. 

E ele, desdenhoso, da banalidade da tarefa, volvera: «flhl isso foi a aprendiza.> 
O doido adivinhara; os seus olhos grandes e negros, infixáveis, chispavam ao 

sentir saias à sua beira. Desvairava, cníurecia-se ao vêr a agua que as raparigas 

conduziam. 

— Rssopraram-na ! assopraram- na 1 . . . 

Convulsionava-se lhe o corpo irritado pelos excessos secretos, solitaiios. Mal con- 
versava; isolava-se; espalhava um certo terror na aldeia com o brazido de suas pu- 
pilas; julgavara-no um lobishomem a largar fogo às medas só pelo fulgor do olhar. 
Amedrontava como outrora o pai — o senhor Camilo — ao fazer fugir as pequenitas 
vindas da mestra e recejsas de seu rosto bexigoso, de seu cabelo enorme, de sua 
cxpresíão observadora. Mais tarde todas se enchiam de pena ao vercm-no cèguinho 
arrimado aos braços alheios, ho filho obscurcccra-sc o entendimento e ainda assim, 
^ie quando em quando, lucidava-se. Era uma luz vasquejando na treva dum cérebro. 
Durava instantes o seu raciocínio. R mãe desesperava-se como uma rainha viuva ao 
ver o herdeiro da gloria e do sólio doido de enclausurar, terrível em seus gestos, 
rápido fim do triunfo do génio. Punha-se a velar por ele e a tratar do oulro, do pró- 
digo, rodeado de crianças e ao qual desejava valer ao senti-lo semi-arruinado. Reco- 
Ihera-se; chegava a definir-se assim a Tomaz Ribeiro: <Sinto a minha pobre alma 
afogada no imenso oceano da dôr.> 

Acrescentara na sinceridade de sua amargura: 

«Vivo tão concentrada nas minhas agonias que me parece que tudo o que se pode 
dizer respeito ao meu Camilo não é a milessima parte do que me diz dele a saudade 
do meu coração despedaçado.» 

Confessava ainda: <a dôr embruteceu-me.> 

Enviava-lhe agradecimentos, sentia dcvcr-lhe grandes obséquios, dizia dedícar-Ihe 
<a mais alta e respeitosa estima>. Começara a traçar a inicial do seu titulo na assi- 
natura mas preferira- lhe o seu nome a chancelar a pagina onde havia a marca herál- 
dica da coroa de viscondessa. 

Depois puzera-sc a pensar num emprego para Nuno; nalgum desses lugares de 
bom rendimento ao qual ele se amparasse e como Tcmaz Ribeiro era o grande 



FoL 22 — JS7 — 



amigo, o que tanto se dedicara ao romancista e aos seus, entrara a solicitãr-lhe um 
milagre: o de fazer do visconde de S. Miguel, pouco letrado, um funcionário de cate 
goria. E, francamente, pedira, requerera do poeta — que ocupava a pasta das Obras- 
Publicas no gabinete João Crisóstomo — o deferimento de suas aspirações. 

Enchera-se dumi grande ccicra contra D. Bernardina /\melia — a filha de Camilo 
e de Patrícia Emilia — senhora de lar feliz à qual nunca pudera querer bem. Ela re- 
presentava o amor do seu querido por uma outra — a fantoche da sua comedia — 
considerando sempre grande rival, a pobre abandonada com sua vergonha e remorso. 
Depois aquele casamento feliz da filha dela, a existência burgueza igual entre os pe- 
quenitos, Camila c Camilo, numa paz enorme, formava o contraste raais acirrsnte 
com o seu ninho trágico. Desesperâva-sc; condenava* a mais do que o destino. Min- 
guem daquela familia acorrera a Seide a beijar o suicida; tampouco aparecera no ce- 
mitério c o genro — o rico Carvalho da Restauração — tendo enviado uma pequena: 
coroa de daliss e lilazes, mandara um estranho representá-lo no funeral. Subira mais 
a sua raiva, desenvolvera-se intensamente o seu desejo de molestar quem afrontav» 
a sua infelicidade, o seu ciúme e o seu orgulho. Parecia não valer nada para o ven- 
turoso par desde que o marido fechara os olhos. Chegaram-lhe, ainda, rumores de 
acusações; culpavam-na, vinham enredá-la numa intriga. Não lhe perdoavam o ter 
deixado o revolver ao alcance da nervosa mão do desditoso. Insinuava-se que a 
quizera vêr morto para socegar em seus tormentos. Ignoravam a substituição dos 
projecteis e não ocultavam suas arguições. Talvez que D. Bernardina Amélia jamais 
tivesse proferido semelhantes palavras, todavia, atribuiara-lhas c Hna Plácido — no 
seu calor de vingança — escrevera c mandara Nuno assinar um folheto, no qual tra- 
tava a nascida de Patrícia Emilia de suposta filha do glorioso romancista. Explodira, 
enfim, o seu gravame de tantos anos, a sua acumulada ira. Diluviara sobre a enteada 
uma cachoeira barrenta. Proclamava descendentes do génio só os seus filhos c, en- 
vergando o grande luto, partira para Lisboa, no começo do outono, a requerer a 
emprego de Nuno. 

R capital, sob o sclsito loiro, via redemoinhar as folhas arrancadas aos arvore- 
dos. Como no tempo em que vivera ali com o amante, i\na Plácido, enchia-se d» 
sublimidade da sua gloria e passeava a vista sobre os logares onde ele, a seu lado 
se orgulhara também por outonais dias doirados de luz e sobre o atapetado dos, 
folhedos caducos, decrépitos. 

<Tinhas razão Ana Augusta — escrevera no seu Diário — eras grande aos teur 
próprios olhos porque te enobrecia e se refletia em ti um pouco da grandesa da 
homem que te levava a seu lado l> 

Ele, porem, não passava duma vaga sombra e não se assinalava uma forte razão 
para acorrerem a saudar a herdeira de seu nome. Tudo mudara. 

Faltava-lhe uma fortuna solida, a que os editores tinham amontoado suganda 
o talento, vampirisando o cérebro do lutador e, sobretudo, falhara a presença dele 
que outrora gerara idolatria c maiores invejas com sua capa romântica e levando ao 
lado mulher tão linda. 



— »3B^ 




Fac-slmll» dums cêrla d» 

flna Plácido dirígida » 

Thomez Ribtir» 



i^. 



Não pensava nas desilusões; imaginava voltar triunfante como se conduzisse 
pela mão o cego genial coroado de louros. 

O dr. /Intonio de Azevedo Castelo Branco, na sua secretaria da Penitenciaria, 
reprovara, cora o irmão José, aquela campanha contra a íilha de seu tio; não gos- 
tara da vinda da viuva a Lisboa a procurar um impossível, a cheíia duma reparti- 
ção de Caminho de Ferro de Minho e Douro, para seu primo ignorante ; aconselhara-lhe 
a saída para o norte antas de chegar a decepção, c, ela decidira-se, teimosa- 
mente, a ficar, a levar a certeza do emprego para o Nuno, arrimo de três pequeni- 
tos c duma mulher. Def^ndia-o. O pai assim o quizera, recomendara a sua assistên- 
cia até à hora da morte. 

Via Lisboa como a do tempo do seu amor a abrir- se-lhe em venturas com as 
vénias, os elogios, as admirações dos luminares, dos políticos, das celebridades. 

Da rampa de Campolide para S. Sebastião ala^travam-se os antigos campos, 
hortejos e quintas vastas ao som remoido das noras, terras negras revolvidas aguar- 
davam as chuvas para a germinação e na orla da campina extensa até ao Arco 
do Cego, mal semeada de banaces, branquejavam es muros da barreira até às azinha- 
gas de Arroics que seus olhos nem adivinhavam na lonjura. Que tempo de enga- 
nosa felicidade aquele que por ali passeara com seu amor I Falavam da sonhada gloria 
dele, levavsm, como um guarda o lerra Nova, de olhos inteligentes e que ante os 
amos sentados no cruzeiro, se estendia, com a cabeça entre as patas, piscando os 
olhos à luz, amodorrado, feliz. 

Era na sua lua de mel proibida, pecaminosa. 

Ele tinha clunoes. De quê ? Grande Deus, de que ? 

Daqueles a quem chamava irmãos : de julio César Machado, de Vieira de Cas- 
tro ; dos outros que o admiravam, das visitas das casinhas do i\rco do Cego e do 
Salitre. Sentira zelos. De quem? Ds quê? 

De sombras que o eram para ela já então; de homens que a fatalidade esprei- 
tava. Pobre suicida ! Pobre degredado I 

Como tudo ia longe e se amarfinava do tom das velhas coisas 1 

Só a cidade vivia intensamente, se alindava como a querer matar-lhe nos olhos 
a beleza das suas velhas recordações. Transformava- se; alargava-se; uma enorme 
avenida se abria até à quinta do Retrozeiro na qual habitara, onde o romancista já 
cego disparara o tiro experimental quando sua desesperança se acentuara. Esvasiara-se 
o quartel dos caçadoreS; pelo vale imenso equilibravam- se esqueletos de prédios, 
entre os morros do Castelo e de S. Pedro de Alcântara. Trechos da cidade antiga 
surgiam na vertente, telhados rebrilhavam, e o Tejo, sereno e doirado, parecia não 
ter mudado naquele seu angulo sedoso, ca'mo, azul. 

Passara a excitação patriótica do uUimatum ; os lisl>oetas mostravam-se acalmados 
na volubilidade de sempre ; a Arcada enchia-se de pretendentes e pelos seus lagedos 
frios a viuva de Camilo arrastou também a cauda do seu vestido de luto. 

Recebida nos primeiros dias com promessas, principiara a sentir as demasias da 
sua insistência. O ministro acabara por não estar na secretaria porque lhe parecia 



-34t - 



um exagerado compromisso entregar cargo de responsabilidade á incompetência do 
pretendente. Ele não podia fazer o milagre apetecido e, a mãe de Nuno, no ardor da 
derrota e da chaga do seu orgulho, capitulava o poeta de falso e de se ter fingido 
amigo de Can^ilo só durante a sua vida. Ohl o ingrato! o grande ingrato! 

E nada via alem da semi-recusa marcada nessa ausência propositada ou fingida ; 
julgava todo poderoso, o pobre ministro constitucional i\balou da cidade sem lhe, 
acenar com o seu lenço, como outrora, sem lhe enviar o seu penoso adeus: 

«Como és formoso meu saudoso paraíso!» 

Mergulhada no desespero e na cólera, env^olta nos seus crepes, tomou o comboio 
vendo tudo tão negro como os trajos da sua viuvez, 

Ohl esses amigos do marido! que diferentes lhe pareciam! 

De Tomôz Ribeiro, que imaginara não a querer servir apesar do que julgava 
ser a sua omnipotência, descrera; levava- lhe mais a mal o gesto que o de Freitas 
Forhma, ao intercalar na conta dos funeraes do grande homem o próprio trem de 
que se servira. 

Chegara ao Porto c lodo o fel da sua dôr lhe acudira à boca era amargos tra- 
vores. Por aquelas ruas declivosas passara cm creança, ouvira os seus pregões; o 
chiar dos carros, o batucar dos socos c os pianos, à tardinha tocando a Casta Divã' 
No Jardim de S. Lazaro sonhara como as outras, num ingénuo passeio, a mos- 
trarse aos gelans nunra feira cm que es preços se ajustavam nos lares; rira c 
f clgêra ra Ccrdcarie, e, buiguc2rc€cte, correra nos arrabaldes, no Candal, cm Miragaia 
cm Valbom, nos domingos das franciscanadas das famílias de comerciantes. O burgo 
não se transfermara como Lisboa; o teatro de S. João, onde recebera tanto incenso 
dos olhares, era ainda o mesmo cdificio incaracteristico ; jà não passavam carroções 
pelas ruas ; trens airosos, puxados por orças, rodavam nos pavimentos novos e as 
egrejas — Santo Ildefonso, Congregados c Tnndadc — continuavam a ser os logares 
de doces devaneios das filhas das suas contemporâneas que nas naves tmham seguido 
voos de fantasias. Também não mudara a cadeia; a imensa caixa de pedra era um 
jazigo baforando pestilcncias pelas suas janelas. E aU estivera; lá passara trezes in- 
findáveis como o amante em cujo quarto habitava agora Urbino de Freitas no meio 
do ulular da turba. 

Como sofrera nessa terra! Desde a rue do Rimada, onde amara, até á Praça 
Nova onde quasi escutara enxovalhos, do cais da Ribeira, do qual partira cm higa, 
até ao Palácio de Cristal em cuja visinhança trabalhara, descobrindo aterrada a 
loucura do seu Jorge, o seu caminho na cidade da Virgem íôra uma trilha de la- 
grimas. 

Todavia, desta vez, ftna Plácido, a viuva do génio, viscondessa c celebrisada» 
teve um melhor sorriso para o Porto, talvez porque chorara muito ao sair de Lisboa. 

Enfarou cm Seide no inverno; scntou-se á banca do suicida, tornou uma dás 
suas penas c escreveu a Torcaz Ribeiro, de arrcmeUda, a desafcgar-sc, cheia de al- 
tivez e cmprestando-se um estilo camiliano. Lembrava uma viuva medieval empu- 
nhando o mcntanlc caído da mão morta do guerreiro seu esposo. 



342 — 



Tornava- se implacável nessas formidáveis letras scusadoras. {*) 

Mostrava o estadista desacordado de suas velhas promessas, olvidado do amigo 
porque o atleta já não podia defende-lo nem enaltece- lo. Lançava- lhe cm rosto tudo 
quanto a seu favor se fizera desde as criticas benévolas da Gazeta Literária até à 
confiança depositada em suas palavras, e, exaltadamente, ante o fracasso da pretensão 
do filho, evocava o gigante morto e declarava escrever em presença de sua sombra 
e diante do revolver do seu fim trágico. (•*) 

Gargalhava sarcasmos dum sabor acre, rijo. Imaginar-se-ía que o romancista lhe 
enviara da campa partidas lousas, pedras para a funda certeira. Vergastava; feria, 
lagratamente olvidava que devia ao politico a pensão do marido, a do filho e o titulo 
usado cem desvanecimento. Sem aquele auxilio tão solicitado teria sido mais longa 
« estrada do subsidio c da honraria. Não refletia. Que lhe importava? Era mãe; 
fora amante e na hora da morte o seu querido, o seu amado, ordenara-lhe que lhe 
4evasse à beira da sepultura, <os filhos felizes. > Queria cumprir o encargo e a 
promessa. R carta maguante partiu e o ministro acudiu a explicar-lhe parte da ver- 
dade, sem ressentimento, perdoador, compreendendo-lhe as excitações e os melin- 
dres. Ro visconde de S. Miguel de Seide faltavam diplomas para o cargo solicitado 
mas conceder- se- lhe-ia o imediato. Que dissessem se o aceitavam. Hpesar de Nuno 
não ter aptidões, nem mesmo para esse, nomea-lo-ía. Ro primeiro alarme da imprensa 
atirar-lhe-ia com o nome de Camilo. 

Pensaria assim o atormentado c bom poeta ante a objurgatoria. Que rcspon- 
•desscm. Servia ao filho de i\na Plácido a situação de sub-chefe de repartição, no 
caminho de ferro do Minho e Douro? 

Perdeu-se o orgulho ante a humildade do acusado. 

Aceilou-se por comprazer . . . Ela continuava irritada e balanceando os meios 
materiaes do filho, vendo-o ainda com bens embora parcos foi talvez, a primeira 
a aconselhar-lhe que não se remetesse à insignificante categoria que no seu amor de 
mãe, c na sua altivez de viuva dum grande homem, imaginava sempre inferior, 
ante o nome herdado pelo pretendente. (***) 

Tinham-se invertido as situações dos seus filhos. Agora era o primogénito o 
protegido, aquele a quem não faltaria cousa alguma pois da pensão se sustentaria ; 
o outro — o antigo rico — tornarase mais necessitado. Labutava por sua causa, 



(•) No lÍTfo Trinta anos em Selde, de D. Rachel Castelo Branco Inseie-se a carta na integra. 

(•*) Noticiaram os jornais, quando d» morte de Cam'lo, fer sido leTado, per Freitas Fontana, o re- 
volver com que se saicldara o insii{ne romancista. Da carta de Ana Plácido depreende-ie o contrario. É 
certo que a arma se encontra em poder da riura do amii^o do mestre. Devia ser uma expressão apenai a 
afinnitiva feita a Tomaz Ribdro de na presença do rerolv:r trágico lhe escrever a soa catilioaria. 

(***) Nuno foi nomeado em 13 de dezembro de 1890 snb-cbele de repartiçio do Caminho de Ferro 
d) Hiaho e Douro, 

Não tomou passe e por isso o demitiram em 3 de Janeiro de 1S91. 



343 — 



scnlia-o a não poder dssppgar-se totalmente, de seus velhos habites c os filhes 
a crescerem à sua volta. 

Nascera um outro, (*) que se batisara de Simão, como o grande e audacroso 
parente o qual fora transformado por Camilo no roais ardente amante de Portugal, 
pátria da apaixonados. 

Nuno via aumentar a descendência, amparava-se na mãe, acariciava-a ; ao cabo 
das suas loucuras, conversava com ela, cnternecia-se a seu lado. 

O desejo maior de JFlna Plácido consistia em ter ambos os seus rapazes ache- 
gados aos seus afagos. Tentou domar os hábitos estranhos de Jorge c sentira-o des- 
viar-se, desconfiado, sempre de cabeça baixa como se não quizcssc fixar alguém. 
Perdera as fúrias e as anciãs de matar, as raivas assassinas contra a fdmilia, que o 
tinham feito desaparecer de casa «fugido ao parricidio» num momento de enorme 
lucidez. 

Não amava o irmão que mostrava largas piedades por cie ; concentrava-se e 
afaslava-sc muito da mãe como se no fundo do seu torvo desiquilibrio aumentasse 
o ódio ao amor tão funesto dessa mulher ao gera-lo. 

Um dia foi beija-lo ; recuou, olhou-a bem no fulgor vivo das suas pupilas des- 
vairadas c, de chofre, repuxou o cuspo e expeliu-lho para a face. 

O louco escarrara na fronte materna tomado pelo furibundo pensamento de pro- 
vir da sua beleza o seu mal de estar no mundo. 

Ela encarou- o numa tristeza imensa como se lhe chegasse, a súbitas, o rcmorsa 
de ter trazido no ventre o produto de seu amor de sobresaUos, de desgraças, de 
desditas. Enevoaram-?e-lhe os olhos, e, lentamente, limpara a cara empalidecida. 

Daí, por diante, o doido cuspia-lhe a mcudc e fugia a rir, cascalhando, vingador, 
instrumento tremendo dum mau fado, no qual, a insultada via o castigador da sua 
infernal paixão. 

Dedicou-se, então, aos neles. Volveu para eles os seus afagos essa amorosa 
sedenta de se dedicar a alguém, c ora na sua casa, ora na de Nuno a ninhada a 
cercava, gulosa e meiga, cheia de graça, papagueando na roda do seu vestido preto. 

Quando chçgou o primeiro aniversario da morte de Camilo ela escreveu a 
sua derradeira prosa assinada na qual contava como o mestre traçara e lhe lera a. 
ultima produção de sua pena, a poesia aos filhos dedicada. 

R morgada minhota consagrara a gloria enorme de sua herança. 

Por vezes íechava-se no seu quarto c punha-se a recordar o passado lendo car- 
tas antigas, remexendo velhos originais do marido. Brincava com as crcancitas. 
i\li ficara na terra, para onde a tinham levado, quando noiva, como uma princczinha 
conduzida à caverna dum ogrc. R sua única distração era o charuto perfumado de 
que não se desabituara. 

Dobaram-sc mais umas lindas primaveras retintantes de gorgeios e enseivadas, 
verde a terra, anilado o ceu; vieram verões era bafos ardentes, alegres de €anti- 



(*) Nasceu cm 6 de junho de 1891. 



gas nas desfolhadas e suores de trabalhadores regando as leivas ; outonos momos, 
soltando dos troncos as velhas folhas e avivando os brazciros ; invernos furiosos 
deferindo gemidos dos pinhais, despejando neve a vidrar os caminhos e fervendo 
os vinhos nas adegas. 

Ana Plácido ia passando no alinho, a vida simples entre a familia e as saudades. 

Hs homenagens ao génio do seu querido suicida íaziam-na vibrar embora fossem 
longiquos ecos da grande retumbancia que seu nome alcançara. Pouco mudou sua 
existência no decorrer de quatro anos csimos na aparência, maguados em seu intimo 
meditar. 

Quando chegou agosto, em 1895, Nuno teve a veleidade de possuir um sema- 
nário e ela, como se o filha fosse ainda creança, fizera-lhe a vontade ; tirara das 
gavetas autógrafos de Camilo e seus, um romance antigo que assinara e o Leme 
— assim se chamava o jornalsito — apareceu como um brinquedo doado pela mãa 
cslremosa. Jorge atulhava-sc de rapé e enclausurava-se. Dormia às vezes na casa 
do irmão. R viuva não abandonava a moradia celebre ; deitava-se na cama do esposo 
sem almofadas, de cabeça baixa, fazendo ainda uma covinha no travesseiro para 
poder dormir, segundo o seu habito, cora es pés mais altos do que a cabeça. Fumava 
cada vez mais c uma grande tosse a sacudia por vezes. Enlretinha-se a lêr mas 
preferia conversar, muito interessada nas intrigas da aldeia, como se tivesse ainda 
que fornecer entrcchos para as novelas camilianas. 

Naquele começo de setembro — o mês de seus anos — andava em arranjos a 
casa de Nuno e a sua gente residia na da viscondessa que gostava muito desse 
contacto com os pequenos, com a Rachel, sobretudo, que era a sua querida, a com- 
panheira de seu leito. Confidenciava largamente, com D. Rna Correia ; enchia os 
pequenitos de gulodices que a Felicidade, a sua serva, ia buscar a Vila Nova muito 
a meude c entre os respeitos da aldeia, as suas lembranças c os seus desgostos 
ia velando pelos filhos que apesar de homens, bera careciam de seu braço : ao faia 
como o pai chamava a Nuno, emprestava-lho para o deter; ao mistico, como 
designava Jorge, estendia- o para lhe dar arrimo mesmo sob os seus escarres des- 
presadores. 

/\o roscar da manhã, em vinte desse setembro ameno, uma semana antes de 
/Ina Plácido completar os seus sessenta c quatro anos, a Felicidade avisara D. i\na 
Correia da chegada dos pedreiros à sua residência para continuarem os trabalhos. 
Entregara as crianças á creada e partira pelo largo do Cruzeiro. 

A viscondessa dormia no seu leito com a cabeça baixa. Camilo, o pequenito 
neto, aproximara-se era busca das gulodices mas voltara correndo aflitivamente, a gritar : 

— A avó ... a avó ... a avó . . . Está aflita ... a avó . . . 

A vigilante acorrera rapidamente, alarmara tudo, atrairá gente. A viscondessa 
quizera ainda socrguer-se mas deixara cair desamparadamente a cabeça, com um 
suspiro, coando pelos lábios longos fios vermelhos. Yencia-a a <angina pcctoris>. A 
grande amorosa morria pelo ccraçàn na cama onde dormira o amado, o bem que- 
rido, que se confessara seu verdugo, ao qual dissera, havia quasi quarenta anos: 



- M5- 



cCamilo Castelo Branco, a posteridade irá olhar com respeito a campa da mulher 
jque tu choraste!» 

E a campa ia abrir-se. 

Levantara-se um grande rumor; os pequanitos, a Rachel, tão querida da avó, 
Flora, Nuno, Simão e Manuel, foram metidos num qusrto e distribuiram-lhes muitos 
doces para que não chorassem. 

Abrira-se lindo o dia e adiantara-se ainda mais belo. Nos campos, entre os mi- 
Jíharais altos, dobravam-se vultos na labuta, a linha verdejante dos pinhais perfilava-se, 
Ea serenidade da luz, queda, hirta, guarda de honra dalguma raesnada douU-as idades 
vegetalizada nos baixos das velhas pedras de Yermuira. illâstravam-se as culturas 
sob as uvciras de bagos maduros; o Pele desiisava manso na moldura florida das 
suas margens. R aldeia guardava a meiga paz dum pobre cantinho tío mundo habi- 
tado por gente simples, c lá, em cin:a, naquela casa de lavrador minhoto, igual a 
tantas da provincia, a infortunada que ajudara a celebrizá-la estava como a dormir 
no seu catre a cuja cabeceira chorava uma serva chamada Felicidade. 

Os grumos de sangue que lhe brotavam dos lábios eram a única tinta capaz 
para se escrever a sua tragedia, finda na calma de Seide, pertinho de criancinhas 
em brinquedos, no declinar do setembro de suas grandes desditas e que lhe dava 
agora a primeira ventura. 

Do pateo, a acácia de Jorge estendia os ramos para as janelas como anciosos 
de apertarem, na contorcida convulsão duns braços loucos, maguantes, o corpo de 
Jlna Plácido no seu leito de morte. 

E3T0EIL 
SsUabro a Dezembro de 1924. 




— 34fc — 



DOCUMENTOS 



i 



DOCUMENTO A 



Certifico que do litro competeate de rrglstos da Repartição a meu carte a foli. 9S, coasta «m do 
teor segninte : 

Manoel filho legitimo de António Pinheiro AWes e Ana Maria Nachado do lugar do Sonto desta 
fregnesia de S. Migncl de S?ide neto paterao de José Pinheiro Alves e sna mnlher Castódia Francisca 
esta natural do Sairador de Roivies e aquele desta freguesia de S^n Miguel de Seide e materno André 
Machado e de sua mulher Josefa Aires esta natural de Santa Maria Guadizela e aquele de San Tiago da 
Carreira nasceu acs TÍnte e ti3s dias do mSs de Abril do ano de mil oito centos e sete e foi batisad* 
solenemente com imposição dcs Santos Óleos por mim José Pinheiro Viana Vicário desta fregnesia aos 
rinte e seis do dito ano Fõiam padrinhos Manoel filho de João de Arauji» do lugar de Oriz da fregnesia 
de Salradcr de Ruirães e Joana filha de António Sampaio do lugar do Ruirães da metma freguesia, os 
quais todos reconheci :erem os próprios. £ para constar faço este assento que depois de ler lido e 
confeiido perante os pa liinhos termo que assino no mesmo dia deste bstismo» O Vigário José Pi- 
nheiro Vieira. 

DOCUMENTO B 

REVISTA DO PORTO 

Compor de elementos iadigenas ama rerista do Poito — cousa que mereça o riio «bsequioso dama 
senhora — não é tarefa para génios vulgares. 

O Porto e o mesmo em todas as semanas : tristemente severo no seu aspecto, protesta contra a lite- 
ratura dos folhetins ; nega-se a toda a definição scíentifica, e consente apenas qne o simbolisem coa 
uma saca de arroz e um costal de bacalhau. 

Com o furor da poesia velo o furor dos casamentos. O coração da mnlher actual está emancipado 
lago que se habilita para o comercia dos amores. As leis favorecem o casamento judicial, independea- 
temeste da vontade de pai ou mãe. Direitos d. familia — piescreveram. Hoje é mais facil casar, que 
fazer a passagem decente dam escritinho à futura esposa. 

Preço dom casamento : 

Uma sege 1.920 

Meia folha de papel para requerimento , . 40 

Uaa dita para duas certidões de idade 80 

Meia dita para procuração bastante da menina 40 

Licença para casar sem banhos 6.000 

Citação às partes renitentes, pouco mais ou menos 480 

Soma 8.S60 

Esta quadra, tão abundante em casamentos, aos olhos do filosofe, levela nm segredo de fisicle|ia 
social. Já não se disfrutam esses namoros tfpicos, friamente lógicos, e prolongados. 

O espirita concebe, e execUa; afeiçoa-se, e atinge logo o alvo a que aspira, casa-se. Cem o casa- 
mento do espirito vem ceitas contingências orgânicas, que decidem da existência inteira de dois indiví- 
duos. Na eternidade deste cativeiro, não ha rompimento possível sem vexames, e denuncias de mistérios 
de familia: e então — é menos vergonhoso e mais doloroso a mulher escravisada, ca ao homem aire- 
pendido, deixar-se estar para aí, simbolisando aquele martírio que um tirano da antiguidade dará aos 
seus esciavos, amarrando-os a um cadáver 

Estas linhas, pretencíosas de seriedade, suscitou-nos a lembrança de uma mulher que, na semana 
passada, se enforcou pelo mau tratamento que o marida lhe dava. Era malhar da baixa sociedade; — não 
tinha a civilisação necessária para uma gloriosa desforra. 

Camilo Costeio Branco. 

(Do Nacional de 7 de Janeiro de 1850) 



-34»- 



DOCUMENTO C 

REVISTA DO PORTO 

Que é o Porto? 

Não deparei ainda com esta pergunta filosófica e de rigorosa necessidade no formigneiro das croai* 
cas e reristas, qne ressaltam, «luxuriosas de vida e esperança>, dot tipos para os boteqnins, 

Que é um caixeira sem oma Inra amarela? O que é uma rerista do Porto sen uma definição do 

Porto ? 

Nada Um trabalho sem lucro; uma cbra caduca — efémera e morredoura — uma incoerência lite- 
rária e artística — uma pobresa de génio — usua desarmonia 

Então — que é o Porto? 

O Porto é a tabna da lei das quatro operações aritméticas, É uma grande tabuada, levada ao infinito 
áa multiplicação das casas. É o deus e doos são quatro, ccnTeitido no balcão do <probo> e «ho^radis* 
simo> bacalhoeiro em dous e dous são cinco. É o harmónico burguezismc de miriades de casas todas tipi- 
cas, idênticas e como o total de cevados aferidos e carimbados no Município da cidade da Virgem, É o 
carroção de I^Ianuel José de Oliveira. É a companhia do Alba — cosido com o sr. Galliani, e a sr.^ Gam- 
fcardella, e os despeitados da sr.^ Gambardella, É o teatro de Camões com o sen Zacarias — o avarento. 
É uma senhora de distinção vinculando a ária do Attila à sua laringe, aliás preciosíssima. É o adminis- 
trador do concelho prendendo, e enviando para o Carmo, dous ,.. o qnS ? . . . dous senhores que pateavam 
«m cantor, É o Braz Tizana do <Pobres>. É a <Maria não me mates, que sou tua mãe». É a Cantiga do 
Passarinho e o Testamento do Galo a gemer pela vigésima ves nos prelos incansáveis. É a cosisha dos 
kerdeiros do chapelinho a crepitar de sardinhas fritas, toda ela ama alface, e tudo isso para honestissi- 
aas famílias do gordo e serio mercador de figos do Algarve, baçouras e abanos, que leva ao domingo de 
tarde a muito copiosa e entesada prole a espairecer fora da cida'\e. É a matrona, casada de fresco, qne 
Tai ao teatro de mantilha, que a depõe ao baixar do pan», para, em completa harmonia conjugal, devorar 
« nédio coixão de carneiro, fumegando odorífero açafrão dentre o corpulento bojo de uma caçarola de arrôs 
«ie forno. É o riso escancarado de uma plateia inocente qce palmeia alegre um equivoco imundo das Lu- 
vas Amarelas. O Porto é tudo isto e ainda mais. 

Dito isto, e para qne ninguém possa alegar ignorância, cumpre sat>er que aqui — tudo o que são ffir 
isto, é alvo de sátira traiçoeira, suja e mal-amanhada; e, se tem a franqueza de prestar consideração a 
esta estupidez orgulhosa, é posto à irrisão dos Unheiros, e dos pregneiros, e dos outros todos que passa- 
ram do soco de Guimarães, e da jaqueta de ganga para o casaco de vclndilho e chisela de onrelcs. 

São como os corcundas da íahula indiana, 

Ha uma região no mnndo onde todos os homens são corcundas, pecos e desastrados. Naufragara, não 
sei em que marts, uma jangada de homens eoropeos, um dos quais, agarrado a orna tabna, foi cuspido 
pelas ondas na praia dos corcundas. Sobi<amente ccrcaram-no es indígenas, miraram-no desde as unhas 
até aos cabelos, e desandam numa risada estrepitosa de mofa e despreso. O peregrino enfisra cem a ma- 
■eira desairosa por que o recebiam, quando um dentre os indígenas assim fala a seus irmãos: 

— Ora sus, gente folgazã! Não zombeis do aleijão desta criatnral Já que a providencia nos fez tão 
gentis, sãos e escorreitos, em vez de caçoarmos este pobre aleijado, vames ao templo erguer fervorosas 
graças. 

E foram, porque emfim seria uma desgraça de Deus que eles nascessem aleijados como o europeu 
belo e elegante de qne resa a fabula. 

Ora vós, gente rude e incapaz do verniz da civilização, sois como os corcnndas da fabula indiana. 
Entre nds quem quizer o fSro de cidadão ha-de apresentar documentos autênticos pelos quais se prove 
qne sen visav8 veio para esta cidade com uma broa e meio presunto no saco, escarranchado sobre dous 
cottais de castanholas, mimoso cadean para o patrão da loja. 

Item — qnt sen av8 teve uma loja de fazendas brancas, foi irmão da irmandade do Carmo, irmão bene- 
mérito da misericórdia, e vestiu vinte anos balandran para pegar às varas do andor de Nossa Senhora. 

/ite/n — que sen pai exercera, honrosamente e sem vergonha domando, o seu honestíssimo mister de 
negociante de quatro portas abertas, afora alguns posti&os, por onde entravam os contrabandos. Oue sua 
mãe fdra uma gorda e boa mulher que escoara uma existência de oitenta anos dando passagens nas meias 
4o marido, sergindo fundilhos nas calças do caixeiro e sorvendo a sua pitada de simonte no fim de cada 
estação do seu rosário de contas de azeviche. 

Provado isto, na piaça do comercio, outro sim, qne o apresentado em tribunal de grossas materiali- 
dadet, nnnca teve pacta com Hvros ou romances, nem sal» francês, nem mesmo sabe escrever o sen ncme 



— 35« — 



cem ortoirafia — o jenio da estupidez, presidente da assembUa, decide, Tota e abraça o saplicante coib« 
um pedaço sea. 

O bnr^aes assim constltaide jo^a o Voltarete e o Boston e o Wiste. Tem am caTalo, qae moota, 
c*ntra todos os costaaes. O cayalo sofr«-o; reconhece a saa snperioridade — mas vail, . , É Eneas e sea 
pai Anchises (?). São sentimentos homanitario!. Notem, porem, qae o pai dessa criatara (não individoa- 
lizo) também jogara e cavalgara. JogaTa a bisca de tiSs, o truco, o trinta e am e o borro. Montara o ma* 
cho do almocreve qaando, pela feita, ia risitar a iamilia, armado de ama pescada, am bacalhau de eito 
arráteis e oma ceira de figos de comadre. 

Todo iste é rerdade. 

E é por isto mfsmo qoe o Porto, espremido desde o rasto esttbelecinento de Simio Duarte de 011- 
reira até ao tabdeiro de Inmes prontos e reportorios do garoto da Pcrta de Carros, não transpira uma 
lerista Nos bailes está a filha do bnrgnez, tipo degenerado de espadaúda minhota a fingirse de complei- 
ção nerrosa « estremecida. No teatro é a mesma mnlher, sempre deslocada, artificial e sonolenta. Na missa 
dos Congtegados é a beata qae pretende alinhar-se com om relicário Angélico, neditado, decorado e repe- 
tido em casa pela mie com rarias explicações ricas de eradição das Horas Marianas. 

CamUo Castelo Branco 
{Nadonal de 25 de Ferereiro de ISSO) 

DOCUMENTO D 

A BARCA LINDA 



\A» sr. António José Plácido Braga) 



Linda ! surge . . . surge oríulliosa 
Como a donzela formosa 
No centro do sea roíal; 
Como a estrela que soslnlta 
Lá no ceu — como rainha — 
Alumia Portugal 



As aguas do pátrio Doar» 
Gosarn já o teu tesoaro 
EsoeUiam, o teu fulgor ; 
Mostram com gosto Infinito 
O seu bojo tão bonito 
Sem rival em resplendor 



f s tão linda, como ê linda 
Essa luz do céo infinda 
Qae no céo vejo luzir: 
E'a mais linda, mais luzente 
Qae a rosa resplandecente 
Qae vejo brilhar — sorrir. 



Ta vais como o peregrino 
Seguir o novo dosttno 
Que a sorte já decretou : 
Afirmo que o teu futuro 
Ha-de ser — por Deus o juro 
Qaai a mente mo pintou. 



Surgirás formosa e btla 
Nessas noites de procela. 
Vencerás negro tufão; 
E sobre as ondas rolando 
Nas aguas virás voando 
Em man/iã de viração. 

Os brindes, foram muitos os que se fizeram ao $r, António José Plácido Braga, ao constmctor, e Ur 
seu filho o joren e talentoio Varetinha, etc. Ainda se tez outro qae mereceu especial atenção. O sr. 
Bernardino Joaquim de Azeredo propoz ama saudação ao capitão da «TenUdora», como dono da «F!ora>, 
que naquela mesma ocasião deria ter caído do estaleiro do Ouro, nas agoas do nosso rio — destjara — 
dizia o sr. Azeredo, que o sr. Emidio J. de Oiireira fosse tão feliz com a sua <Flora> como ele o f«ra 
com a sua <Linda>. Deste nobre sentimento todcs partilharam, e a saúde foi t>em acolhida. 

{Nadonal, 22 de outubro da 1850) 



— Ml - 



DOCUMENTO E 

CAMILO E O SEMINÁRIO 

É o ilustre Vice-Reitor do Seminário Episcopal da cidade da Virifem, Sr, Dr. Antoaio Ferreira 
Pinto, bacharel formado em Teologia, orador de raros ineritss. bom e £eaeroso, quem me recebe contente 
e elucida quanJo mostro o desejo de consnltai o arquivo do Seminário, para aTeriguac alguns instantes 
da vida de Camilo. 

— Não ha — diz — arqniros desses tempos. Como sabe Camilo estere de facto no Telho Seminário 
que ficara além, na margem do Douro, snde, de ha muito, está o Cole<<io dcs Orfãcs ■ . . Não ha arquivo, 
pois, como sabe, Camila estere no Seminário nos anos de L8S1 a 1832, M^s, dS-me licença; ron mos- 
trar-lhe, alguma cousa iateressact . telattramente ao romancista, e que nssta casa existe.. 

Ao voltar, passados instantes, estends-me um livro, em oitavo, pau>ado. Â letrinha meada que o 
enche até meio, em metódicas colunas, tomou se daquela côr terrosa que vem do tempo, Folh3Ía-o, sor- 
lindo sempie : 

— Aqui tem. 

Em cada uma das suas ctlunas o livro relembra ; 

«22, S. Camilo Castelo Branco. Filho de Manuel Francisco Botelho, Santa Juita, Li:koa > 

Na pagina fronteira : 

<25 anos'> 

Na casa relativa a faltas ; 

€48 > 

Mo final da pagina : 

<Não teve nota final de aparo.» 

Por ba'xo : 

«Não pagou ao professor. > 

Sorti o sacerdote ilustre e mostra, á margem, a toda a ai tora di pagina, estas linhas. 

<Por portaria do presidente do Conselho de Ministros (é ao Du;;ue de Saldanha que st rtfere), de 
23 de Maio de 1852, foram dispensados os sctos aos estudantes por motiro de rir a Rainha ao Norte.» 

E 80 fundo : 

<C3miIo Castelo Branco pediu ao seu professor que, por faror, lhe desse ama certidão oculta com 
a nota M, B. (maito bom,)> 

é tndo. 

Foi piofessor do Mestre o Rer.° António Roberto Jorge, egresso benediJico e Conrgo Capitniar 
qae faleceo a 2 de fevereiro de 18S3, legando donativos às Ordens do Porto para sermões quaresmais e 
patrimónios aos ordinandos. 

Era sen o lirrinbo precioso qa: vire em minhas mãos. A primeira pagina tem esta dedicatória : 

<Ko sen muito respeitarei e venerando amigo, Rív.™" Manuel Ferreira Coutinho de Azevedo, 
Abade do Bsmfím 

oferece esta preciosa jóia, herdada entre os livros do Rcv.™" Padre 
José Ribeiro, com testemunho de muito afecto :» 

Era o livrinho do Cónego Roberto Jorge, professor de dogmática do velho Seminário. As suas notas 
vão de 1840 a 1876 

É jóia preciosa, em verdade, o livrinho que o ilustre sacerdote. Si, Dr. Ferreira Pinto honra da 
Egreja, se dignon mostrar-me. Ao agradecer, recordo o seu noixe, a tcdos os titules querido e ilustre 

(Marto Carregal — (Entrevista especial para este livro.) 

DOCUMENTO F 

(COMUNICADO) 

Sic tninsit gloria mandi ! 

Longe de nós entreter a consternação em que o sinistro do vapor <Porto> qae teve lugar no aziago 
dia 29 de março v:iu abismar toda a cidade! desgraçadamente despertada pelo doloroso e compassado apa- 
recimento das vitimas da procela, do desgoverno, da ambição e da imperícia ! , . . 



-352- 



Impressionados por cansa de recordações tio fúnebres, usaremos de maior lenidade, deizaado aot 
tribunais a punição, e à opinião publica reproração dos qne por omissão teem parte no trágico incessOi 
que !eyon a tantas familias o Into, a Tinrez, a orfandade e a miséria . . . 

Mas quem diria que a par de tantas lagrimas, e de tanta desolação se destacaria uma seahora de 
qn>m se deverin esperar riitnde e religião, indiferente e desapercebida dos mais sacrosantos deTeres, 
contente e risonha, fazendo £emer as tuas com os seus trens de luxo e gala nos momentos de angustia, 
em que seu filho chora amargamente a morte do desgraçado pai de sua mulher, o honrado e bemquisto 
sr. António J«sé Plácido Braga . . a lembrança deste excelent-- homem nos faz cair a pena . . ■ e nos 
submerge no mais profundo sentimento, tão iminentes eram as suas qualidades como pai de familia ! 

Duvidamos sempre que a xua sórdida, e usurária pertinácia fosse alem da campa, e d<: uma campa 
aberta por um sucesso que pungiria na alma o mais carniceiro scelerado ! , 1, 

Mas quand* contáramos qne ela roaria a enxugar as acerbas lagrimas da desventurada riuTa, e das 
tristes órfãs, arrependida e chorosa por ter parte aa desgraça desta inconsolável familia, pois como i 
sabido, o sr. Plácido só o levava a LisbOa defender-se do recurso qne a sr.* O. Antónia interpoz, e cujos 
fins rafeiros ou gafeiros nos são conhecidos . . . 

Bem longe desta expectação vemos que ela ficou dura e queda como um penedo. 

Deferências intimas nos impõem indulgência, aliás retractariimos em sudário sangrento as impres* 
soes qne tem (jeralmente causado proceder tão insólito e ferrenho ! 

Quem acreditaria, que uma senhora t?o depressa esquecera a dòr que sente quem perde o esposo . ■ , 
e que uma viuva e mãe seria capaz de manifcstar-se assim . . quem não esperaria qne ela abrisse o se« 
coração ao carinho maternal afagando seu filho, qne jovem ainda, sem as lições e os desenganos do mundo 
te acha hoje sem o seu digno sogro ; de quem tudo para seu bem podia esperar ! É assim que uma mie 
cumpre o seu ministério cá na terra, o mais semilhante ao da 'divindade no ceu ? 

(1^ p>ginado A/a£to/ia/de 7 de abril de 1852) 

DOCUMENTO G 

Certifico qne do livro respectivo, e relativo aos Bsptisados n'esta freguesia da Victoria, coacelho 
e diocese do Porto, a folhas oitenta e sete, verso, se encontrou um assento, cujo theor i o seguinte t 
<Nanoel, filho legitimo de Manoel Pinheiro Alves, e de dana Anna Augusta Plácido Pinheiro Aires, 
moradores na rua do Almada, desta freguesia da Victoria, neto paterno de António Pinheiro Alves e de 
dona Anna Maria Machado, naturais da freguesia de S. Miguel de Seide, arcebispado de Braga, e ma- 
terno de Aatonio José Plácido Braga, natural de Braga e de dona Ana Augusta Vieira Plácido, natural 
desta cidade do Porto nasceu no dia onze de Agosto de mil oi'ocentos e cinquenta e oito e foi solene 
mente baptisado n'esta Egreja da Victoria por nm abaixo assignado no dia 6 de Outubro do mesmo 
anno. Foram padiinhos Plácido José Vieira, e representou por seu bastante procurador n'este acto • 
Ex'""*^ Snr. António Bernardo Ferreira, e madrinha a de na Maria Jcsé Plácido, tios maternos do bapti- 
sado, residentes n'esta cidade do Porto. E para constar mandei fazer este assento que com as testemu- 
nhas sssignei. Era ut supra. 

O Coadjutor António Manuel de Andrade. O Padre Joio Diniz, João Autooio Fernandes » Copia fiel 

DOCUMENTO H 

Avelino Ferreira de Sousa, amannense-paleógrafo do Arquivo Naciona da Torre do Tombo, em conitsio 
de serviço no arquivo dos Registos Paroquiais, Registo Civil, e no impedimento do respectivo Director: 

Certifico qnr examinando os livros dos Registos da freguesia de Nossa Senhora da Ajuda, da ci- 
dade, concelho e distrito de Lisboa, exii tentes ntste Arquivo, a lOlhas número cento e cinquenta e nove, 
rerso, do livro número catorze do registe de nascimentos, respeitantes aos anos de mil setecentos e 
oitenta e seis, encontrei um assento do teor seguinte. . . 

Aos dons dias do mez de Ma^o de mil e sete centos ontrnta e quatro, poz os Santos Óleos o Rere- 
renJo Padre Cura Joãn Domingues Chaves a Simão, o qual foi baptisado em casa unperlgo de vida (afe) 
pelo Reverendo Frey António de Sam Plagio Sacristão Mór do Convento dos Religiosos da Boa-hora, 
filho Doutor Domingos José Correia Boteih», e de sua mulher Dona Rita Thereza Margarida Castelo 
Branco, recebidos e maradores nesta íiegnezia ; foiâo padrinhos o Sargento Mór Simão Martius e Dona 
Rita Joaquina Rosa ; por seu procurador sen filho José António Martins todos moradores nesta Fregaeaia 
no Paço Velho. 

O Prior Herculano Henrique Garcia Camilo Galhardo. 



Kol. 23 - 3M 



Na4i bmís SC ceatea no referido asteate qac pan aqvi traslsdeí e i cópia fiel de «rifiBal a mm 
reporto. 
Litboa, e Arqairo dos Refistcs Paroqaiais, Refi;to Ciril, em 6 de Afosto de 1924. 



PELO DIRECTOR 

O asuBoense paleógrafo 

ãpelino Ferreira de Soasã 



DOCUMENTO 



Não » chamara Gastão Vidal de Negreiros o meo amigo qne, ha quinze on mais anos, tt. ex,** qae 
}á hoje são avós, tanbem conheceram com nm nome bom para romance de amores e nns apelidos hrr aldl» 
cos qne não eram aqaeles. 

Foi um dos vi..te gentis cavaleiros que passeavam as mas e festejaTam as janelas do Porto, qne sem 
hipetbcle chamariam poetas, naqnele tempo, a cidade dos anjos. 

Doaosissiuia geração de mnlheres alnnion o sol de ha vinte anos! Qnem diria qne o adelgaçamento 
da raça, no lapso de nm qnarto de secalo, operaria a trantformação da beleza, tirando à flor da riega o 
Tiçor areladado em troca do pálido esmaecido da flor de sala!. . . 

Não me tom-m isto à conta dí desdém da formosura que hoje faz e desfaz coraçSes; antes mo relê» 
Tem como achaque dos anos, manha antiga de se estar a gente a rever nos olhos de onde lhe vinha o calor 
da alma, quando ela tirita de frio sentada às portas algidas da eternidade. E, às vezes, -em qne estado a 
gente vê os tais olhos onde os jardins do paraizo se lhe espelhavam! Aquelas lagrimas a tremei uzir como 
pérolas ao qne se converteram!. . . Excreções nocivas qne a mão tremula e averdogada — mão que beijamos 
com respeitosa teroura — está agora combatendo com a pomada anti-oftalmica da viuva Farnier. 

Zamllo Castelo Branco 
(Gazeta Literária de Porto - 6 c^e Janeiro de 1868). 



DOCUMENTO J 



Terceira Conservatória do Regitto Civil da cidade de Porto. — • Certifico qne no livro de registos de 
casamento do ano de mil oitocentos oitenta e oito, do arquivo paroquial t^e Saoto Ildefcnsc, desta cidade, 
em poder desta Conservatória, a folhas vinte seis, se encontra o registo do teor seguinte : <Numero vinte 
e cinco. Aos nove dias do mez de Março do ano de mil oitocentos oitenta e oito, nesta de Santo Ildefonso, 
da cidade e diocese do Porto, na minha presença compareceram os nubentes Camilo Castelo Branco, vis- 
conde de Corria Botelho e D. Ana Augusta Plácido, os quais sei serem os próprios com licença para re> 
cebimento e com os mais papeis do estilo con entes, e sem impedimento algum canónico cu civil 
para o casamento; êle de idade de sessenta e nm anos, viuvo de Dona Joaquina Pereira França, 
natural da íregnezia dos Mártires, da cidade e diocese de Lisboa na qual foi batisado e morador nesta 
freguezia de Santo Ildefonso, filho de Mannel Correia Botelho Castelo Branco, natural de Vila Real 
de Trás-os-Montes c de mãe incógnita e ela de idade de . . . znos, viuva de Manuel Pinheiro Alves, na» 
tural, batisada, moradora na rua de Santa Catarina, desta freguezia, filha de António José Plácido 
Braga, natural de Braga, e de Dona Ana Augusta Vieira, natural áo Porto, os quais nubentes se re- 
ceberam por marido e mulher, e os uni em matrimonio, procend«ndo em todo este acto conforme o 
rito da Santa Madre Egreja Católica Apostólica Romana. Foram testemunhas presentes, Doutor An- 
tónio Alves Mendes da iilva Ribeiro, cónego da Sé do Parto, Doutor Ricardo de Almeida Jorge lente 
da Escola Medico-cirurgica do Porto e Joaquim Ferreira Moutinho, casado, capitalista, moradores e 
primeiro e o ultimo nesta freguezia, e o segundo também casado, morador na rua do Almada, fre- 
guezia de Cedofeita, desta cidade, e João António de Freitss Fortuna, casado, negociante, morador na 
Ramada Alta, da mesma freguezia de Cedofeita. E para constar, lavrei em duplicado este assento, 
que depois de ser lido e conferido perante os cônjuges e testemunhas, assino com todos. Era ut- 
retrc. Visconde de Corrêa Botelho, Ana Augusta Plácido, António Alves Mendes da Silva Ribeiro, 
Ricardo de Almeida Jorge, Joaquim Ferreira Moutinho, J. A. de Freitas Fr.rtuna, O abade Domingos 
de Sousa Moreira Freire. 

O referido é a copia fjel do original a qce me reporto. Porto z Terceira conservatória do Re- 
gisto Civil aos vint? e quatro de maio de mil novecentos e vinte e quatro. 

O ajudante da Conservatória, 
Alberto Cardoso Guimarães 



índice dos capítulos 



I - AURAS ROMÂNTICAS — O Porto de ha 75 anos — Positivos • Qaimari- 
cos — O <Palheiro> — Conflitos de duas sociedades — As torturas dos bai- 
les — Os intelectuais e seus <anjos> — Uma visão de Camilo Castelo 
Branco — A familia Plácido — Quem era Manuel Pinheiro Alves — <Bra- 

sileiros> e poetas 5 

n — PROSA DAS RIMAiS — Ao despertar do romance — Os Brownc — Corres- 
pondência em versos tétricos — Camilo e o suicídio — A critica ao Porto--- 
Desafios e vergastadas — O noivado de Ana Plácido — O dote da mais 
bela Portuense — Um Outeiro em S. B«nto da Ave Maria — O destino da 
Barca <Linda> 23 

m — RELIGIÃO DOS CORAÇÕES — A casa de Seide — A paisagem e o sonho— 
Brados sem socorro — Boémia Portuense — Duas <sórores> — Amores sacri- 
legos — Camilo e o insultador — O cão <Martirio> — O poeta e o seminá- 
rio — Preces e visões ^ 

IV — DESTINOS DE TORMENTAS —Naufrágio do vapor <Porto> — Morte do 
pai de Ana Plácido — Ferreirinha da Régua e a catástrofe — Ardimcntos 
de Ricardo Browne — Duelo de Camilo — Defeza do conde de Bulhão — 
Como os versos vencera — Uma personagem traçada cm vanos livros — 

<Poesia ou dinheiro> — <Mcntidas como a onda» 61 

Y — MAL DE MUITO AMAR — Ardis amorosos — O mais feio dos namorados — 
Um irrequieto na paz dos montes — O novo amigo de Camilo — Trágicos 
confidentes — sombras do Bom Jesus — O filho de Ana Plácido — No 
começo do escândalo burguez — Um grito de amorosa — Beijos ardentes em 
noites gélidas ^^ 

VI — DICTADURA DA MORAL — O que a ordem inventa — Ura grande palco e 

uma forte tragedia — As ameaças e os ameaçadores — A mulher da azi- 
nhaga — Camilo e o <mundo clegante> — Ana Plácido e o seu diário — 
Saudades de Lisboa — Castigos dos amantes — ambições do cônjuge — O 
convento da Conceição de Braga ^^^ 

VII - <VIA DOLOROSA.> — Um pseudónimo de Camilo — A correspondência com 

a reclusa — Verso» de amor. prosas de ódio — O processo de adultério — Os 
réus e o juiz dr. Teixeira de Queiroz — Pinheiro Alves c o seu procurador 
— A justiça e os amigos do romancista — Como se fez a pronuncia de Ca- 
mii':i — Entre a paz e a lucta — A mãe dos infelizes numa agua-furtada. . 117 
VIII — DOIS AMORES DE PERDIÇÃO — Os passos da <via dolorosa» — Das tor- 
rentes do ermo ás padras da citania — A tempestade no Marão — O lar de 
Vila Real e os muros da Relação — Acordos muteis — O piano de Ana Plá- 
cido — Florescencias de Cárcere— O José do Telhado — Bastidores do pro- 
cesso de adultério — Sempre os românticos e os positivos 137 

IX — MEMORIAS DOS CÁRCERES — Os antros da relação — Uma visita de 
D. Pedro V — Camilo e o rei — O baile real na assemblea portuense — Pa- 
lavras certas sobre uma esmola falsa — Poesia entre grades — No julga- 
mento de dois amantes — Uma crónica de ha doze anos — O juiz e os jura- 
des — A sentença ante a opinião. . . . , ^59 



M5- 



X — o ORBE E NOVELO — Ro dealbar da reflexão — Como pensavam dois ro- 
mânticos — í\o que o romancista chamava <anos de prosa> — Brados duma 
sobresaltada — O marido e o amante — Mortt de Manuel Pinheiro Alves 

— R sua cólera na agonia — Caroilo ante o sobrenatural — Palidez duma 
paisagem outrora deslumbrante — Primeiros versos de Seide ' . . . . 181 

XI — NOVELA DH RUR, TRRGKulR DE CHS A — Seide evocadora— Os filhos 
do amor contrariado — O fructo dume paixão niorta — Casamento deD. Ber- 
nardina Amélia — O noivo — Castilho em casa de Ana Plácido — Amor 
bucólico por uma perdida -7- Cantadeiras minhotas— A Amélia de Landim 

— Esboço duma novela — A beira dum drama 199 

XII — FRAGILIDADES DE APÓSTOLOS — Singular colaboração jornalistica — O 

bastidor da <Gazeta Literária do Porto — Como termina uma novela — O 
inicio duma tragedia — Vieira de Castro amoroso — A esposa e a amante — 
Do apostolado ao crime — O drama da rua das Flores — A dôr de Camilo 

— Recordações e fantasmas 221 

XIII — CAMILO, AS ADULTERAS E OS BASTARDOS— O julgamento d* 

Vieira d« Castro — Como o romancista encarava as pecadoras — O conde- 
nado> — O <castigr> de Ana Placido> — Puniçõas do <outro mundo> — Ma- 
nuel Plácido e o escritor — A morte da <voz de sangue> — D. L>iiz I e a 
mancebia de Camilo — O imperador do Brasil em casa do autor da <Infanta 
Capelista» — Mulheres de paixão e mulheres de lar 239 

XIV — A DESVENTURA DOS FILHOS - O labutador desesperado — acréscimo da 

loucura de Jorge — Morte de Manuel Plácido -- Cegatira e revolta — A 
«Angina pectoris> de Ana Plácido — O filho «mistico — O filho <Faia> — 
Quem era o <Fistula> — O vencido Silva Pinto — O feliz lar da Primogé- 
nita . . . . , 259 

XV — O «BRILHANTE NEGRO> — Os pretendentes duma rica herdeira — Uma 

comedia camihana — As autoridades e o coração — Certas dum singular 
<Amor de Perdição> — Um rapto romântico — A fortuna dum filho e a des- 
dita do outro — Reflexos duma paixão antiga — Como desapareceu o «Bri- 
lhante Nigro> — Versos a uma pequenita niorta — Resultados das missivas 
fatais 275 

XVI — DESDITAS DAS REALEZAS — O senhor visconde Camilo — Retrato do es 

critor por um alienista — A medalha de Ana Plácido — Jorge incendiário e 
espancador — Residência de Camilo em Carnaxide — O seu casamento — O 
Dr. Gama PintJ em Seide — Doação oum cadáver — D. Luiz I e o Roman- 
cista — Lamentos de duas rbslezas 297 

XVII — OS ÚLTIMOS DIAS DE CAMILO — Ao avançar das trevas — Traição das 
balas — O que seria o ultimo livro do romancista — O drama de Urbino 
de Freitas — O leitor do celebrado cego — Auroras c trevas — Derradeira 
poesia — Os trágicos amigos do mestre — Volúvel até à morte — Gloria da 

pequenina Seide 319 

Epilogo , 335 

Documentos 349 



— 356 — 



índice das gdavuràs 



Fac-simile cstraldo do Diário Intimo de Hna Plácido 1 

Camilo aos 25 amos 21 

Manuel Pinheir-> fllves (Retrato pertencente à família do romancista) 41 

Casa de Ana Plácido na Rua do Almada, 385, Porto , • • 59 

R casa onde foi o <Café do Gato> em Vila Nova de Famalicão 79 

O Hotel Yilanovcnse em Vila Nova de Famalicão . . , 9í 

O convento de S. Bento de Avé Maria, no Porto, onde era mTija D. Isabel Vaz 

Mourão , 115 

<0 Nacional> onde foi publicado o primeiro escrito de Ana Plácido (Do exemplar da 

Biblioteca Nacional) 5 de outubro de 1860 135 

Retrato de Camilo com dedicatória a Ana Plácido (Reprodução do exemplar existente 

em poder da familia do romancista) • • • • 157 

Retrato de Camilo com uma terna dedicatória a Ana Plácido (pertencente à familia 

do romancista) 179 

O mirante de Ana Plácido cm Seide ... 197 

Vieira de Castro (retrato oferecido a Camilo e pertencente a sua familia) .... 219 

Manuel Plácido (retrato pertencente á familia) 237 

Jorge Camilo Castelo Branco (retrato pertencente à familia) 257 

D. Maria Isabel da Costa Macedo (retrato pertencente à familia de Camilo) . . . 273 

Fac-simile da carta de Ana Plácido a seu filho 289 

D. Ana Plácido (retrato pertencente à familia de Camilo) 295 

Três amigos: Francisco Correia de Carvalho (o <Fistula>), o actor Dias e o visconde 

de S. Miguel de Seide (Nuno) . ' 317 

D. Ana Plácido (retrato pertencente à famiha de Camilo) 333 



3B7- 



kte^t*iariMM*«M*^i^M*ka**M*^^k*i^l*M*áteiriMkiiAAirilHkrfM 



i^4k^Hlhrfk*>A 



Este livro deve grande parte dã soa documentação 
e da sua factura a um minhoto ilustre, o dr. Alberto 
Veloso de Araújo, de Vila Nova de Famalicãa, que re- 
cebeu o autor em sua casa, o elucidou e o pôz em con- 
tacto com a família de Camilo, á qual deveu as maiores 
gentilezas. 

A's Senhoras D. Ana Correia e D. Rachel Castelo 
Branco, aqui fica consignado o agradecimento de quem 
muitas provas de estima recolheu bem como de dis- 
tintos camilianistas regionais, e entre eles os srs. José 
de Azevedo e Menezes e Sousa Fernandes, além do 
notável escritor Júlio Brandão, que o acompanhou 
em varias excursões. 

É pois uma obra dedicada ao Minho e a alguns dos 
seus mais ilustres filhos, esta em que perpassa a maior 
tragedia dum génio que a encantadora região abrigou. 



A capa deste livro é do ilustre artista Stuari Carvalhaes. 
Desta obra tiraram-se 200 exemplares em papel especial, numerados c rubri- 
cados pelo auctor. 



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